27/03/2006

O Plano Perfeito


Não que seja exatamente um consolo para nós, brasileiros, freqüentemente esculachados pela polícia, das mais diversas maneiras, saber que as coisas nos Estados Unidos não andam muito diferentes. A paranóia americana pós-11 de setembro de 2001 levou ao virtual fim das liberdades civis. Os cidadãos estrangeiros, mesmo em situação legal, passaram a ser vistos com desconfiança geral. Na verdade, qualquer minoria étnica está sob constante vigilância do macho adulto branco, como já dizia Caetano.

O diretor Spike Lee (Faça A Coisa Certa, Malcolm X) nunca aliviou a barra das instituições americanas. Não seria neste momento de truculência que ele amaciaria o discurso. Assim, enquanto muita gente entra no cinema esperando um filme de ação, O Plano Perfeito tem sua força nas contundentes imagens de abuso de autoridade, especialmente quando os reféns do personagem de Clive Owen (ator demais para um papelzinho vagabundo desse) são tratados como suspeitos de cumplicidade com o mega-assalto que move a trama.

Mesmo não sendo especialmente dramático, o filme traz um bom elenco que trabalha pouco: Denzel Washington exercita sua habitual competência como o negociador encarregado de encerrar o conflito; Jodie Foster tem uma personagem antipática e de moral duvidosa, uma interventora emergencial, em nome de grandes interesses; e, como já foi dito antes, o ótimo Clive Owen tenta dar ao líder do assalto um pouco mais de dignidade do que o personagem, em si, poderia ter. Nota 8,0.

Inside Man
(EUA, 2006) - Direção: Spike Lee
Com Denzel Washington, Clive Owen, Jodie Foster, Willem Dafoe.

21/03/2006

15 canções para gostar de The Smiths


Os Smiths (na foto, da esquerda: Mike Joyce, bateria; Johnny Marr, guitarras; Morrissey, vocal; Andy Rourke, baixo) tiveram uma carreira meteórica: ascensão, apogeu e fim, tudo em três breves anos (1985, 1986 e 1987). Você leu direito, os Smiths não tiveram um "declínio". O grupo acabou quando seu talento lhes valia um contrato com uma multinacional, depois de anos no selo independente Rough Trade.

Não era preciso ser um gay celibatário feito Morrissey para identificar-se com os lamentos do bardo (considerado, há poucos anos, "o maior inglês vivo"). Afinal, quem nunca levou um fora, chegou e foi embora sozinho de uma festa ou ficou com aquela declaração de amor entalada na garganta?

Como toda a obra do grupo é de alto nível, escolher 15 momentos para representar sua obra é tarefa inglória, que há de provocar aos discordantes. Tudo bem, pessoal, façam suas próprias listas. Afinal, é preciso começar de algum jeito - e mais Smiths nunca é demais.

01 - "Reel Around The Fountain"
Um épico de más recordações escolares ("é hora de contar a história / de como você pegou um garoto / e o transformou num velho") e frustrações amorosas ("'leve-me para o aconchego de sua cama' era algo que você nunca dizia"), com batida marcial e vocal contido, embelezado por discretos piano e órgão. Prefira a versão constante no primeiro disco, que leva o nome do grupo, àquela presente no seguinte, Hatful Of Hollow.

02 - "William, It Was Really Nothing"
A suprema humilhação de ser trocado(a) por "uma garota gorda que fica perguntando, 'quer casar comigo?'" é compensada por uma melodia que é puro pop de verão. Um momento iluminado desse povo cinzento de Manchester.

03 - "How Soon Is Now?"
Um dos riffs mais conhecidos de Johnny Marr, com Morrissey cantando, de coração na mão, "eu sou humano e preciso ser amado, igualzinho a todo mundo". Esta é a tal que fala sobre ir, ficar e voltar sozinho da festa. Arrepiante.

04 - "Heaven Knows I'm Miserable Now"
Deus sabe que estou arrasado agora. Precisa dizer que é um monumento de tristeza, embalado por emocionantes fraseados da guitarra econômica de Johnny? Pobre Morrissey, mero espectador da felicidade alheia e ainda ameaçado de ser expulso de casa pela mãe!

05 - "Still Ill"
A versão de Hatful Of Hollow ganha da original por causa da gaita que Marr adicionou durante as famosas John Peel Sessions. O amor perdeu a graça e mesmo beijando até os lábios doerem, não é mais como antigamente...

06 - "The Headmaster Ritual"
As escolas inglesas sempre foram famosas pelas rigorosas punições físicas e pela humilhação imposta aos alunos pelos professores. Morrissey não perdoa: "carniceiros beligerantes dirigem as escolas de Manchester / porcos invertebrados, mentes cimentadas". E ainda é música de primeira, também!

07 - "I Want The One I Can't Have"
A urgência desesperada por amor está traduzida aqui, numa melodia veloz e na letra que fala da paixão por um delinqüentezinho. Mas, pra seu azar, Morrissey nasceu com o sexo errado...

08 - "I Know It's Over"A mais intensa canção de amor de Morrissey tinha mesmo que ser dedicada à mulher da sua vida: sua mãe. Emoção transbordante, o filho saindo da casa da única mulher que amou e precisando dela mais do que nunca. E o arranjo é um primor de delicadeza.

09 - "Cemetry Gates"
Num delírio envolvendo famosos poetas ingleses durante uma visita ao cemitério, Morrissey divaga sobre a originalidade no pop, com a estocada: "se você vai escrever prosa/poema, as palavras devem ser suas / não plagie, nem tome 'emprestado'".

10 - "Bigmouth Strikes Again"
O riff acústico abre passagem para o ataque de Morrissey contra Margaret Thatcher (com uma elegância que ele deixaria de lado no primeiro disco solo, batizando o encerramento de "Margaret On The Guillotin"). Tudo bem que ele diz que gostaria de arrebentar os dentes dela, mas, que é isso, ele tá só brincando...

11 - "The Boy With The Thorn In His Side"
Não dá pra deixar essa de fora, já que a música mais Smiths dos Smiths, aquela que faz todo mundo lembrar deles instantaneamente. E não é por acaso, já que a melodia é linda e o canto de Morrissey, tocante.

12 - "There Is A Light That Never Goes Out"
Na minha opinião, a melhor canção da banda. Uma balada adornada por um lindo arranjo de sintetizadores simulando cordas e flautas, enquanto Morrissey se engasga na hora de se declarar, preferindo morrer numa batida ao lado de quem gosta a deixar aquele momento se perder.

13 - "Panic"
"Enforquem o DJ!". Quem nunca berrou algo parecido contra a banalidade das rádios? Pouco mais de dois minutos e um recado que gerou boicote à banda em algumas rádios inglesas (nada, porém, que impedisse o single de fazer bonito nas paradas).

14 - "Ask"
Mais uma vez, o "toque" para um imbecil que passa os dias em casa, "escrevendo versos horríveis para uma garota dentuça de Luxemburgo", ao invés de prestar atenção a quem está por perto: basta pedir (hm). E, mais uma vez, também, o sol entra pela janela, com a melodia alto-astral.

15 - "Paint A Vulgar Picture"
Eu poderia ter recomendado, do último disco da banda (Strangeways Here We Come), a pureza pop de "Gilrfriend In A Coma", mas este cruel retrato das sacanagens do mercado fonográfico tem muito mais força: "o melhor de..., o mais de..., sacie a necessidade! / coloque-os em capas diferentes / compre os dois e sinta-se enganado"). Dá vontade de desfazer aquela sua banda de garagem.

14/03/2006

Crise de Identidade 7

É preciso ser um implicante de primeira pra se dizer o que andou sendo dito por aí: que o final da série era uma grande decepção, que traía todas as expectativas e enlameava o brilho mostrado nos seis números anteriores. Não acredite: o final de Crise de Identidade é um dos grandes momentos dos quadrinhos da atualidade e de todos os tempos.

E daí que a identidade do assassino, embora inesperada, não seja tão impactante quanto esperado? Pode não ser um figurão, mas sua motivação, assumidamente tola, é a mais realista possível. Coisas assim estão nos jornais todos os dias. Não era isso mesmo que se pretendia com a história? Aproximar os heróis da DC, sempre tão altivos e certinhos, das pessoas de verdade?

Dá pra sentir, em cada página, um certo clima de "fim do sonho". Acabou-se a era do preto-no-branco na DC, em que seus ícones heróicos eram absolutamente bons e seus nêmeses, absolutamente maus. A fronteira está muito mais tênue e os erros dos heróis foram escancarados. Problemas extremos levando a soluções extremas.

Elogiar o roteiro de Meltzer, depois de de sete meses de emoções fortíssimas, seria chover no molhado. Arrisco, então, dizer que Rags Morales, mesmo não sendo o melhor de que a editora dispunha, fez um trabalho, ao menos, digno. Não é um mestre em anatomia, mas, sabe desenhar os olhares mais expressivos que se pode ter. Os sentimentos dos personagens (medo, raiva, frustração, pena) transbordam por seus olhos.

É um adeus e um olá, tudo ao mesmo tempo. A coisa deu certo nas bancas e levou a editora a apostar em outra Crise (Infinita), mais ampla ainda, e abriu as portas para mais uma revolução. O alto nível alcançado aqui, porém, dificilmente será igualado. Nota 10.

02/03/2006

Crise De Identidade 6

Neste penúltimo capítulo, vemos os desdobramentos das mortes do Capitão Bumerangue e do pai do Robin. Com a morte de Jack Drake, Tim fica em pé de igualdade com Bruce Wayne e Dick Grayson, como um órfão em circunstâncias violentas. O primeiro terço da revista trata da dor de perder um ente querido, mostrando a reação de diversos personagens à tragédia.

Já o meio dela traz mais uma pá de sujeira perpetrada pela Liga Da Justiça, desta vez contra um dos seus. Este é uma das melhores seqüências de toda a série, com um resignado e envergonhado Arqueiro Verde justificando-se para um perplexo Flash sobre mais um importante acontecimento daquele fatídico dia do estupro de Sue Dibny.
No terço final, a perícia do Sr. Incrível e do Dr. Meia-Noite os leva à mesma conclusão que o Batman sobre a identidade do misterioso assassino. No entanto, do jeito que está, me parece que o Morcego simplesmente "adivinhou" quem seria. A menos que seu processo dedutivo seja bem detalhado na próxima edição, será a maior barra forçada criada por Brad Meltzer até aqui.

No geral, Rags Morales não é mesmo um superdesenhista, quando se trata de anatomia. Mas, preste atenção, não deve ter ninguém por aí que desenhe olhares tão expressivos melhor que ele. Por fim, eu não sei do final da história, mas, sinceramente, duvido que o culpado seja este apresentado ao final desta edição. Há quem diga que o último volume é uma pisada na bola e embaça o brilho mostrado durante toda a série, mas, eu mal posso esperar e estou pagando pra ver! Nota 9,0.

Crise de Identidade 6 (Fevereiro 2006) - Panini Comics - 44 páginas - R$ 5,50.