29/09/2006

Renato Russo: 10 anos


Prepare seus olhos e ouvidos: dia 11 de Outubro será o aniversário de dez anos da morte de Renato Russo, o vocalista da Legião Urbana. É prudente esperar uma avalanche de homenagens histéricas e pouco criteriosas para o maior fenômeno da história recente de nosso rock. Aqui no Catapop, entretanto, a gente espera oferecer um pouco de lucidez, em meio ao descontrole emocional que Russo costuma causar, contra ou a favor.

Há quem odeie os anos 80 por estes terem sido anos de pouca originalidade em nossa música, quando cantores e bandas emulavam tudo que era lançado lá fora, fosse bom ou ruim. Boa parte desse ódio deve-se à "galera de bermuda" do Rio de Janeiro, bandas que se inspiraram no sucesso da Blitz para fazer música pop simples e inconseqüente, embora poucas tivessem a inspiração e o bom humor da trupe de Evandro Mesquita. Foi um tempo de muito vocal feminino, solos de sax, tecladeira technopop e, claro, muitas one hit wonders, que cravaram um solitário sucesso nas paradas e sumiram sem deixar saudade.

Houve, no entanto, quem perdurasse e construísse carreiras mais ou menos estáveis. Porém, por mais que Titãs, Ira! e Paralamas do Sucesso disputassem a preferência do público, nenhum deles alcançou o nível de adoração popular e sucesso comercial da Legião Urbana. O grupo começou como um cover do U2, passando, depois, a imitar os Smiths, até, finalmente, encontrar uma fórmula de pop messiânico e adocicado que lhe valeu fama e depredação, amor e ódio, na mesma intensidade.

Verdade seja dita, Bonfá era um baterista medíocre e Dado Villa-Lobos não tem nenhum grande solo que justifique um culto à sua figura de guitarrista. A Legião era mesmo Renato Russo e mais dois (ou três, no princípio, quando ainda estava lá o baixista Renato "Negrete" Rocha). Vocalista inspirado e dono de um discurso por vezes pueril, por vezes inspirador, Renato sabia tocar o coração do adolescente e do jovem adulto como poucas vezes se viu no Brasil.


As mudanças no som da Legião Urbana lhes renderam a pecha de oportunistas. Do pós-punk à la o U2 de Boy (no primeiro disco, de 85), placidez smithiana (em Dois, 86), fúria punk temperada com baladas (em Que País É Este, 87), messianismo acústico (As Quatro Estações, 89), até chegar ao neo-progressivo (em Legião Urbana V, 91), o grupo sempre testou a fidelidade dos fãs com discos que custavam a "pegar", mas, depois, transformavam-se em febre.

Em Junho de 1990, em uma polêmica entrevista à revista Bizz, Renato Russo admitiu ser homossexual. Num país reconhecidamente machista, foi um choque que, curiosamente, foi bem absorvido pela opinião pública. Naquele ano, a Legião vendeu como nunca e As Quatro Estações é um disco que conta quase dois milhões de unidades vendidas.


Entretanto, o pulo pra fora do armário deixou Renato insuportavelmente empenhado em não deixar dúvidas de que ele era a maior bichona do pedaço. Depois de um bom disco de canções em inglês (The Stonewall Celebration Concert, 94), em que era forte a militância gay e a troca de gênero nas letras, ele enveredou pelo pop italiano, com resultado lindo para os deslumbrados e torturante para os vacinados. Boas canções, como "Lettera" e "Il Mondo Degli Altri", conviviam em meio a outras constrangedoramente melosas.

Antes disso, em 93, a banda havia lançado um bom disco, O Descobrimento do Brasil, em que a poesia de Renato parecia ter alcançado um espécie de maturidade dentro da sua obra. O instrumental estava mais diversificado e novos rumos pareciam estar se abrindo pra Legião.

Entretanto, numa manhã de outubro de 96, vejo na TV fotos e depoimentos de fãs da Legião e, logo abaixo, a tarja com a chamada: "fãs prestam homenagem a Renato Russo". Passei e me indagar, "homenagem? Por que? O cara nem morreu!". De repente, o estalo: "Ou será que morreu?", temor confirmado pela repórter logo em em seguida. O maior ídolo dos anos 80 e de boa parte dos 90 foi vitimado pela Aids que carregava no sangue havia seis anos, cuidadosamente escondida do público até o último instante.


O último álbum da banda já se encaminhava para as lojas e foi uma grande decepção. As letras já refletiam a espera pela morte e o instrumental era soturno, fúnebre, até. Nos momentos menos lúgubres, Renato já não tinha a mesma eficiência poética dos velhos tempos. Um canto de cisne triste e apagado. Lembro de estar trabalhando, certa vez, ouvindo A Tempestade (96) e um amigo dizer, com veemência: "credo, que disco chato! Tira essa música de bicha morta daí!"

Mal sabíamos nós que Renato faria muito mais falta do que poderíamos imaginar. Se não pela sua presença em si, pelo talento poéticos e posições inspiradoras. Com o fim da Legião Urbana, por mais que algumas bandas ainda tenham alcançado sucesso com bons trabalhos, a geração 80 do rock encontrou o fim do seu reinado, cuja maior e mais nefasta conseqüência foi a subida ao estrelato de gente equivocada, em som e discurso, como Charlie Brown Jr., Detonautas, O Surto e CPM 22. Gosto é gosto, mas, sinceramente, não dá pra comparar a relevância desse povinho com a da Legião.

Depois de sua morte, Renato não teve descanso. O restolho da obra da Legião foi sugada quase até a última gota, em discos acústicos, coletâneas de raridades e até mesmo duetos do além. "Quase", porque é quase certo que, nessa primeira década que se completa, certamente a indústria sugará um pouco mais do que sobrou, quem sabe com algum novo lançamento, ou, simplesmente, em programas de rádio e TV em que a voz e a figura de Russo se tornarão onipresentes, desafiando a paciência dos menos tolerantes.

26/09/2006

Superman 46


Se você precisava de um motivo para empolgar-se com a proximidade da Crise Infinita que se avizinha do Universo DC, o momento chegou: Superman 46 é a melhor edição da revista em muito, muito tempo mesmo. O mérito é do arco "Sacrifício", ligado à Contagem Regressiva Para Crise Infinita, e é importante ler Projeto OMAC na edição 3 da minissérie, antes de ler esta aqui.

O Superman vem apresentando comportamento descuidado e, por vezes, alucinado, empregando seu poder de forma imprudente. Em meio a um desses delírios, induzidos pela agora poderosíssima telepatia de Maxwell Lord, ele pensa estar enfrentando alguns de seus mais perigosos vilões (Darkseid, Brianiac, Ruína) e acaba machucando seriamente um grande amigo. A Liga da Justiça intervém e descobre as ações de Lord.

Levado ao limite em ilusões que geralmente terminam com o assassinato de Lois Lane e outros amigos, o Superman se vê completamente influenciado por Maxwell Lord e talvez nem seus poderosos amigos possam ajudá-lo. A única esperança reside nos dons divinos da Mulher-Maravilha, que enxerga sempre a verdade, seja ela qual for e pode resistir ao poder do Rei Negro do Xeque-Mate.

Mark Verheiden, Gail Simone e Greg Rucka alinham seus títulos em uma história fabulosa, que coloca o maior dos heróis em uma situação que pode ter seqüelas severas para sua vida e seu relacionamento com outros heróis. Mas, ele não é o único: a Mulher-Maravilha é obrigada a tomar uma decisão importante para salvar o Superman, mas, que pode manchar sua imagem para sempre.

As últimas páginas são de arrepiar, em termos de ação e drama. Os desenhos estão por conta de Karl Kerschl, John Byrne, Ed Benes e outros, mas, novamente, cabe ao criticado Rags Morales desenhar mais um momento inesquecível e, justiça seja feita, a cena em que a necessidade de fazer QUALQUER COISA para salvar o Superman está serenamente estampada no rosto da Mulher-Maravilha (na última página) dificilmente teria encontrado outro desenhista capaz de expressão melhor. Uma história para a eternidade. Nota 10.


Superman 46 (Setembro 2006) - Panini - 100 páginas - R$ 6,90.

12/09/2006

Queen: Realeza do Rock


É hora de prestar homenagem ao Queen e, em particular, ao seu vocalista, Freddie Mercury. Neste mês, ele faria 60 anos de idade. Em novembro, se completarão 15 anos desde sua morte.

Meu conhecimento da obra do Queen vai pouca coisa além dos dois primeiros Greatest Hits da banda, lançados, respectivamente, em 1981 e 1991. Primeiro, porque os dois discos realmente condensam o melhor do quarteto, apesar da grave exceção de "Love Of My Life". Segundo, porque o Volume III é um caça-níqueis descarado, com faixas meia-boca do grupo e apelando para um remix de "Another One Bites The Dust" com Wyclef Jean. Nada contra Wyclef, diga-se, mas o Queen dispensa certos artifícios.

Ouvir o Queen me deixa sorrindo de orelha a orelha, porque me faz lembrar de um tempo em que o rock mandava no showbiz pelas razões certas: talento vocal, intrumental e melódico, além do acento pop que levava milhares de pessoas aos estádios para cantar, a plenos pulmões, os hinos existenciais que fizeram sua fama e fortuna: "Love Of My Life", "Somebody To Love", "Radio Ga Ga", "Bohemian Rhapsody", "We Will Rock You"...

O Queen deu a sorte de contar com aquele que é provavelmente o maior "animal de palco" da história. Freddie Mercury possuía um carisma singular e conduzia multidões de dezenas de milhares com absoluta segurança. E, Deus, como o cara cantava! Igualar seus recursos vocais não era trabalho pra qualquer mané. Por sua vez, Freddie contava com a melhor banda que se podia ter: John Deacon (baixo), Roger Taylor (bateria) e o espetacular guitarrista Brian May.

Deacon, Taylor e May eram superstars discretos, o que conferia equilíbrio à postura porra-louca de Freddie, que levava o lema "sexo, drogas e rock 'n' roll" às últimas conseqüências. Homossexual assumido desde sempre, ainda assim, Freddie provocava suspiros na mulherada, que não se continham diante daquele bigodão e do peito peludo, quase sempre à mostra. Num gênero (o hard rock) dominado por machões burros, não deixava de ser uma transgressão e tanto. Ele não tinha medo de dar ao hard rock uma cara ridícula e aviadada e, ainda assim, era levado muito a sério!

O Queen também explorou como poucos a então nascente linguagem do videoclip. Quem não se lembra do quarteto vestido de mulher no clip de "I Want To Break Free"? Enquanto Taylor até convencia como loirinha colegial, Deacon e May brincavam de tias velhas e Freddie passava por uma dona-de-casa esquistíssima, sem ao menos ter tirado o bigode!

Com sua morte por AIDS em novembro de 1991, Freddie Mercury deixou este mundo bem menos divertido. O Queen prepara uma volta com Paul Rodgers (quem?) nos vocais. Obviamente, eles tentarão evitar comparações com os tempos de Freddie, mas, isso será impossível e eles deverão tomar muita lapada. Em certos vespeiros, não se mexe, e a devoção de fãs órfãos é um dos piores.

05/09/2006

Contagem Regressiva Para Crise Infinita 2


Projeto OMAC
Roteiro: Greg Rucka - Arte: Jesus Saiz
Cara, que série espetacular! O mistério chega ao fim: o Batman sabe, afinal, que a LJA apagou suas lembranças da lobotomia do Dr. Luz. Ele também assume aos seus colegas da Liga a criação do Irmão-Olho - lembra que a máquina o chamava de Criador, na primeira edição? Estas revelações (e mais a notícia da morte do Besouro Azul) levam a conflitos que se espalham, também, na revista mensal da LJA. Mas, apesar de parecer que está com tudo, Maxwell Lord tem que enfrentar traições no Xeque-Mate. Arte e roteiro impecáveis! Nota 10!

Dia de Vingança
Roteiro: Bill Willingham - Arte: Justiniano
Algumas situações de humor involuntário (como a fúria implacável do Espectro sendo voltada contra pecadinhos de nada, como responder com grosseria ao pai) até que ajudam a salvar esta série fraca do vexame total. Willingham pouco inspirado, o maior número de manés reunidos para "salvar o mundo" e um desenhista que abusa de biquinhos. Uma tolice de menor impacto entre as séries que compõem a série. Nota 6,0.

Vilões Unidos
Roteiro: Gail Simone - Arte: Dale Eaglesham
O pequeno grupo de insurgentes liderado pelo repaginado Homem-Gato embarca numa missão furada, só pra aprender o significado de "vilões unidos". O grupo de Luthor está mesmo assustador em tamanho e em poder. Pior para quem ficou de fora. Eu gosto do estilo de Gail Simone, embora ela dê falas constrangedoras a certos personagens. Eaglesham deixa todo mundo bombadaço e o "confronto" do Homem-Gato com o Pistoleiro acaba ficando meio baitola. Esperava mais dessa série, está tudo andando muito devagar. Nota 7,0.

Guerra Rann-Thanagar
Roteiro: Dave Gibbons - Arte: Ivan Reis
Enquanto a guerra entre rannianos e thanagarianos assola o planeta Rann, no condenado Thanagar uma seita resusscita o perigoso Onimar Synn. A guerra chama a atenção de Kyle Rayner e outros planetas começam a envolver-se, como Tamaran e Khundia. Típica saga espacial com muita ação, esta série é bastante divertida e parece ainda um front muito distante do que acontece na Terra... mas isso pode mudar a qualquer instante. Nota 8,5.

Contagem Regressiva Para Crise Infinita 2 (Agosto 2006) - Panini - 100 páginas em LWC - R$ 8,90

Liga Da Justiça 45


Além de babar por mais uma capa de Alex Ross, ainda temos o deleite das ótimas ligações com a Contagem Regressiva Para Crise Infinita e o prazer de ter uma edição com 100% de Geoff Johns! Uau!

Liga Da Justiça
Roteiro: Geoff Johns - Arte: Chris Batista
Começa Crise de Consciência, em que os antigos membros da LJA são obrigados a enfrentar as conseqüências do que fizeram ao Batman, ao Dr. Luz e a outros vilões. Gente sumida há uma vida dá as caras pra acertar as contas com a Liga, que se esfacela sob o peso da confiança quebrada. Depois de meses agüentando a mediocridade de Chuck Austen e Kurt Busiek, Johns chega como um bem-vindo alívio e joga a qualidade lá pra cima! Batista dá conta do recado em boas cenas de tensão. Nota 9,5.

Sociedade Da Justiça
Roteiro: Geoff Johns - Arte: Leonard Kirk
Esta série é garantia de grandes dramas e muita porradaria. Sem dúvida, é pra ela que Johns guarda muitos de suas melhores sacadas. O Espectro ataca Kahndaq e a SJA intervém, apesar da oposição do Adão Negro. Mas, talvez, nem todo esse poder seja o bastante contra o Espectro e Eclipso juntos. Leonard Kirk não tem a classe de Don Kramer, mas não se sai mal. Nota 9,0.


Lanterna Verde
Roteiro: Geoff Johns - Arte: Carlos Pacheco
Seguindo um artefato alienígena e uma trilha de assassinatos, Hal Jordan vai parar em uma base militar, onde um novo e misterioso desafio o aguarda. Personagens do passado de Jordan e interessantes discussões sobre o futuro de Coast City tornam esta história bem legal de se ler. Pacheco ruleia total, claro. Nota 9,0.

Flash
Roteiro: Geoff Johns - Arte: Howard Porter
A Guerra de Gangues chega a um ponto dramático: o Pião desfaz a antes desconhecida lavagem cerebral que havia regenerado alguns vilões, como o Flautista e o Trapaceiro. Se o Flash já tinha problemas, imagine agora, com ex-amigos tornados inimigos novamente. Alheia a tudo isso, Ashley Zolomon tenta escapar das pessoas que seqüestraram o corpo do Capitão Bumerangue, até a chegada de mais vilões e de seu perigoso marido, Zoom. Adrenalina lá em cima, com Porter fazendo um trabalho abaixo do seu melhor. Nota 8,0.

Liga Da Justiça 45 (Agosto 2006) - Panini - 100 páginas - R$ 6,90

04/09/2006

Superman & Batman 14



Superman & Batman
Roteiro: Jeph Loeb - Arte: Ed McGuinness
Agora tá explicado por que Loeb foi pra Marvel: com essa saga, ele parecia gritar, "DC, me demite, por favor!". Já deu no saco. Começou até bem, mas agora Loeb já caiu - de novo! - na velha lenga-lenga de realidades paralelas e versões diferentes dos personagens. A edição anterior tinha sido toda fraca, mas, esta tem o pior momento do seu carro-chefe. Nota 3,0.

Mulher-Maravilha
Roteiro: Greg Rucka - Arte: Rags Morales, Ron Randall
Isto aqui, sim, faz valer cada centavo gasto na revista! Rucka arrebenta na parte final da expedição de Diana ao Tártaro, com deuses e mortais envolvidos em grandes surpresas e traições. Um bonito final para um conturbado momento pessoal da princesa, com direito a uma grande revelação sobre Cassie Sandsmark - e Diana, finalmente, volta a enxergar. Nota 9,0. A segunda história prepara terreno para interligações mais diretas com a Contagem Regressiva, com Ares seqüestrando a filha de Circe (que estava sob cuidado das amazonas) e um funcionário da embaixada themysciriana mostrando que tem muito a esconder. Antes da próxima edição, leia Superman 46, em que Diana enfrenta o Superman e toma uma chocante atitude! Nota 9,0.


O Retorno de Donna Troy
Roteiro: Phil Jimenez - Arte: José Luis Garcia Lopez
Nesta edição, começa a ficar mais claro o que existe por trás da volta de Donna. Ciente de sua participação fundamental na crise que envolve vários planetas, ela emite um chamado aos Titãs e Renegados, que a encontram no limiar da sanidade. Jimenez, por vezes, ameaça despirocar no melodrama, mas eis que surge uma seqüência de ação pra botar freio em tanto açúcar. Garcia Lopez se esforça para parecer com George Pérez... mas, só consegue parecer mesmo. Nota 7,0.

Superman & Batman 14 (Agosto 2006) - Panini - 100 páginas - R$ 6,90.