27/10/2006

DC: A Nova Fronteira 1

Os Estados Unidos do pós-II Guerra Mundial não são o melhor lugar para os super-heróis. A histeria anticomunista leva os americanos a extremos de desconfiança, fazendo com que os heróis sejam coagidos a revelar suas identidades ou abandonar seus mantos. Alguns dobram-se à exigência do governo, enquanto outros preferem correr o risco e agir na ilegitimidade e, apesar da aparente calmaria, uma grande ameaça, muito maior do que o comunismo, paira sobre a humanidade como um todo. Assim tem início a Era de Prata, cujo nascimento é o pano de fundo da linda graphic novel DC: A Nova Fronteira, escrita e ilustrada por Darwyn Cooke.

O primeiro grande mérito da série, já devidamente percebido pelo amigo Luwig, é a grande humanização de Hal Jordan, um personagem extremamente mal-tratado ao longo dos últimos anos e vítima de todos os clichês do "homem sem medo" em seus anos como Lanterna Verde. Aqui, Jordan é uma pessoa de verdade, com um coração em seu peito, que sofre com a culpa de ter matado sem querer (ainda que em legítima defesa), a saudade do pai falecido e a expectativa de poder entrar para a aeronáutica e ganhar o coração de Carol Ferris.

Vemos aqui, também, que dois dos maiores ícones da DC, o Superman e a Mulher-Maravilha, estavam entre os primeiros a capitular ao militarismo norte-americano, servindo como soldados de luxo: Superman, como um escoteiro, um verdadeiro inocente útil nas mãos da generália; a Mulher-Maravilha, bem mais à vontade em sua natureza amazona de levar a paz por meio da guerra.

Momentos memoráveis são protagonizados pelos Perdedores (vide a fantástica primeira parte da série) e por J'Onn J'Onzz, cuja adaptação à Terra rende cenas impagáveis, como suas metamorfoses aprendidas com desenhos animados e seu vocabulário cheio de expressões saídas de séries de televisão.

Apesar da ambientação e do traço nostálgico, Cooke escreveu uma história para o século 21, preservando nos excelentes diálogos a inocência típica dos anos 50, que foi sendo gradualmente perdida e levou os americanos a acordar do sonho que virou pesadelo logo depois no Vietnam e, décadas mais tarde, no Oriente Médio.

A série é, antes de qualquer coisa, uma emocionante e emocionada homenagem ao panteão heróico da DC, feita por um grande fã, e um lembrete difícil de ignorar: não importa por quantas crises, reformulações e maus-tratos eles tenham passado ao longo das décadas, nossos heróis já nasceram perfeitos em sua essência - e, se você prestar bastante atenção, eles pouco mudaram com o tempo, graças a Deus. Mal posso esperar pelo segundo volume. Nota 10.

DC: A Nova Fronteira 1 (de 2) - Panini - 212 páginas em LWC - R$ 25,90

Rapidinha: Com a recusa da Panini e da Pixel em comentar o destino da DC Comics no Brasil, a boataria ganha força. Os últimos caôs virtuais (ou não) falam que é bem possível que a DC, afinal, fique na Panini, e que a revista Superman & Batman será cancelada na edição de outubro. De concreto, mesmo, nada. Um silêncio irritante e desrespeitoso para com os leitores.

20/10/2006

V de Vingança


Eu não li V de Vingança e pouco sei sobre a série. Não a comprei quando foi lançada em capítulos pela Globo, nem como o recente encadernado de 40 mangos lançado pela Panini. Eu devo estar mesmo perdendo grande coisa, porque, se o filme é mesmo culpado de diluir e banalizar a trama anarquista idealizada por Alan Moore, a série deve ser um manjar dos deuses em forma de HQ.

Com o devido desconhecimento da obra original, assisti ao filme com o distanciamento necessário para não ficar implicando com "heresias" cometidas na adaptação e garanto, meus caros: o filme vale a pena. Não é perfeito, mas é envolvente e, sim, leva à reflexão. Quando todo mundo esperava um festival de "knife time" (a adaptação do efeito "bullet time", de Matrix, para as facas do anarquista V), os irmãos Wachowski preferiram deixar a história em primeiro plano e limitar pirotecnias visuais a pouquíssimas cenas.

Quando V (interpretado por Hugo Weaving, cujo rosto não se vê em momento algum) anuncia um atentado terrorista no Parlamento Inglês para um ano à frente, a Inglaterra encontra-se sob o torpor de uma ditadura que impõe a tranquilidade através da intimidação e delação de comportamentos, digamos, "anormais" (homossexualidade, certos livros e músicas, etc). No entanto, o recado transmitido acende uma fagulha de rebelde expectativa nos cidadãos e arrepia os cabelos das autoridades.

V encontra em Evey Hammond (Natalie Portman, de corpo e alma no papel) uma discípula relutante e um previsível interesse amoroso. Usada pelo anti-herói como bode expiatório de suas ações (o que atribui a V uma agradável dose de filha-da-putice), Evey precisa fugir da polícia e, ironicamente, só encontra refúgio com um amigo que esconde um segredo (que engana todo mundo, diga-se) e com o próprio V. A grande expectativa é: será que V vai mesmo cumprir o prometido um ano antes e lembrar ao povo que ele é o verdadeiro dono do poder?

Quer saber? Ao diabo com os fãs xiitas de Alan Moore! Ao diabo com o próprio Alan Moore, que retirou seu nome dos créditos (o filme limita-se a citar o desenhista David Lloyd)! V de Vingança é um filme digno e que merece ser visto, revisto e avaliado. Quem sabe, se fosse obrigatório assisti-lo nas escolas brasileiras, a gente subisse a rampa do Planalto pra dar uma surra naquela corja que lá habita. Nota 9,0.

16/10/2006

Olha o pacotão!

Tenho muita coisa pra comentar. Por conta disso e da absoluta falta de tempo para escrever reviews decentes de cada item, resolvi juntar tudo num pacotão cultural. Lá vai!

Cinema

Boa Noite, e Boa Sorte: cinema sério como não se vê muito por aí. Em majestoso preto-e-branco, ajudando no clima anos 50, e praticamente sem trilha sonora, os maus pedaços passados e as grandes vitórias obtidas pela CBS sobre o polêmico e safado senador Joseph McCarthy, em plena histeria anticomunista. George Clooney na direção, com claras intenções de alfinetar Mr. Bush. Nota 8,5.

O Homem Que Não Estava Lá: mais uma masterpiece em preto-e-branco, com a típica trama dos Irmãos Coen: um mané (no caso, Ed Crane, barbeiro, corno conformado e figura nada notória) acha que pode se dar bem com um plano aparentemente infalível que, claro, dá horrivelmente errado. Noir moderno e uma interpretação fabulosa de Billy Bob Thornton. Nota 9,0.

ABC do Amor: um futuro clássico da Sessão da Tarde, este lindo filme conta a história da paixão de um garoto de 10 anos por uma colega de escola. Situações românticas e cômicas, para derreter os corações de crianças e adultos. Bonito sem ser meloso. Nota 9,0.

Três Enterros: Tommy Lee Jones estrela e dirige este drama arrastado e de final revoltante, sobre um vaqueiro (o próprio TLJ) que busca vingar a morte de um mexicano amigo seu e dar-lhe um enterro decente. Muita crueldade e aquela mediocridade calorenta e empoeirada do meio-oeste americano. O filme parece bem mais longo do que realmente é. Nota 7,0.

A Fantástica Fábrica de Chocolate: o remake de Tim Burton tem toda a esquisitice típica do diretor e idéias geniais, como os novos Oompa Loompas multimídia e os esquilos que escolhem nozes. Por trás da excentricidade visual, muito sarcasmo, lições para a petizada e um Johnny Depp ótimo, como sempre. Nota 9,0.

O Virgem de 40 Anos: pensei que fosse pior, uma daquelas comédias que servem unicamente para debochar da situação do personagem-título. Fiquei bastante surpreso ao ver que, por baixo do humor colegial e escatológico, existe alguma delicadeza sobre as relações homem-mulher. Ainda dá pra gente renovar todo o nosso estoque de termos de baixo calão em inglês! Yeah! Nota 8,0.


Quadrinhos

Grandes Clássicos DC 7 - Lanterna Verde e Arqueiro Verde Vol. 2: o segundo encadernado da fase O'Neil/Adams com os personagens é tão bom quanto o primeiro, trazendo, inclusive, a polêmica história em que Ricardito aparece viciado em heroína. Temas espinhosos como racismo, poluição ambiental e os males da comida industrializada dão a maior dor-de-cabeça aos dois heróis verdes, muito mais até do que monstrengos alienígenas. Nota 10.

Grandes Clássicos DC 8 - Superman: As Quatro Estações: o negócio de Jeph Loeb é mesmo vintage. Suas história revirando o passado dos personagens são muito mais interessantes do que os eventos de cronologia (vide o estrume que virou Superman/Batman, por exemplo). Vale, entre outras coisas, pra mostrar que o Lex Luthor idealizado por John Byrne é muito mais interessante do que aquele que passou a ser o "oficial" com a publicação de O Legado das Estrelas. Nota 10.

DC: A Nova Fronteira, Vol. 1: este primeiro volume vai ganhar um review caprichado, já que, desde a primeira história, não restam dúvidas de que sou o feliz possuidor de um clássico instantâneo. Aguardem.

10/10/2006

Quem precisa da MTV?

Quem precisa da MTV?

No filme Escola de Rock (2004), há uma cena crucial em que Dewey Finn, o personagem de Jack Black, discursa a seus alunos sobre como "The Man", ou o sistema, ou seja lá como você o chame, destrói tudo que há de puro e inocente no mundo e nas pessoas, em nome da banalização, padronização e capitalização. Em seguida, ele nos lembra que havia um jeito de enfrentar "The Man". Essa "arma" se chamava rock, mas, vejam só, "The Man" arruinou isso, também, com uma coisinha chamada MTV. No filme, pode parecer engraçado, mas, não é mais do que a triste verdade.

Esqueçam comparações com a MTV americana ou com a latina, vamos cuidar de nosso quintal. Está em todos os sites, blogs, jornais e revistas: é flagrante a decadência da MTV Brasil. A gota d'água foi o pífio VMB 2006, em que se tentou capitalizar em cima de um factóide extra-musical (o pornozinho de Daniella Cicarelli na praia) e, até nisso, deu-se com os burros n'água.

Dizendo assim, parece brincadeira, mas, hoje, o que menos tem na Music Television é música. Sobram vinhetas estúpidas, levadas ao ar como se fossem a coisa mais cool do mundo (e se você não viu graça, a culpa é sua, que não captou o "conceito"), VJs incompetentes e programas imbecis. Para um canal que se pretende formador de opinião, a MTV pode ser facilmente responsabilizada como deformadora de mentes.

Se você pensar bem e considerar que era um tempo sem internet e no qual ainda vivíamos sob aquela coisa nefasta chamada reserva de mercado, até que a MTV não demorou muito pra chegar até nós. Foram nove anos, desde seu surgimento nos EUA. Quando o canal abriu, claro, todo mundo carecia de experiência televisiva, mas o time de VJs era sensacional: Zeca Camargo, Astrid Fontenelle (antes de aderir ao estilo Ana Maria Braga), Maria Paula, Fábio Massari, Gastão Moreira, Cazé Peçanha, Edgard Piccoli... gente simpática e que entendia de música. Os clips passavam o dia inteiro, alternados com programas legais como o Jornal MTV e o Cine MTV.

Hoje, a gente é obrigado a engolir uma programação com o mínimo de clips, enquanto abundam programas inúteis como o Beija Sapo e o Ponto Pê. O primeiro terá, um dia, algum valor histórico, como o primeiro a exibir beijos gays em horário nobre. Exceto por isso, sobram mostras de imbecilidade por parte dos participantes e complacência bovina por conta da VJ. Lembra do "efeito Tostines"? Afinal, o programa é idiota e forma idiotas, ou é mero reflexo da idiotice de quem participa e assiste? O segundo é uma mera desculpa para encher nossos ouvidos com descrições detalhadas de atos sexuais, com um palavreado de fazer corar o Marquês de Sade. E fica lá, a feiosa da Penélope Nova, tirando onda de sábia de alcova. É de se pensar se certas coisas não seriam tão montadas quanto a entrevista do Gugu com "bandidos" do PCC.

Aquele Chapa-Coco do verão passado foi outra tortura, com aquelas gêmeas irritantes (Kenia e Keila) limitando-se a levar papos "cabeça" (como disse meu falecido irmão Malcon, certa vez, "só se for cabeça de rola doida") com outros moleques incapazes de articular uma frase inteira. Assim, tornava-se um desafio ao mais atentos tentar entender aquele festival de "ah, porque, tipo assim...", "sei lá, saca", "porra, aí..."porque, caralho, sei lá..." Diga-se de passagem, falar palavrão na hora certa e no contexto certo é uma arte que pouca gente domina e não há nenhum mestre disso na MTV.

Mas, vá lá, a programação não é 100% inútil e sem-graça. Há o Cover Nation, um bom momento de humor trash e irreverência. Há, ainda, os poucos programas de clips e eventos como o VMA e o malfadado VMB, do qual geralmente se espera alguma graça e novidade, mas que pode decepcionar até os mais fanáticos, caso deste ano.

Cabe fazer um parêntese aqui, para que se tente entender o fiasco do VMB. A estagnação do mainstream pop rock brasileiro deixou de ser vergonhosa (como já foi antes, no fim dos anos 80 e começo dos 90) e passou a ser perigosa. Afinal, quando vamos ver um sopro de novidade? Será que a MTV não impulsiona o surgimento de clones do CPM22, impondo este como "o som que a galera quer ouvir"? Existe essa coisa de "música de jovem"? Os Beatles acabaram há 36 anos e são imortais justamente pela sua capacidade de conquistar geração após geração com simplicidade e boas idéias. Essas bandas que infestam a programação e os eventos da MTV brasileira, porém, parecem incapazes de agradar a quem tem mais de 16 anos e criou um mínimo de senso crítico. Enquanto essa manada grassa sobre o mercado, gerando filhotes nefastos como o Hateen e o NX Zero, um monte de gente que se esforça para fazer boa música se debate no underground e no labirinto sem fim da internet.

O grupo Abril, detentora dos direitos da MTV no Brasil, pode estar nadando em dinheiro e pouco se lixando pra prestígio de crítica e qualidade de programação, desde que as verbas publicitárias continuem crescendo em progressão geométrica. Se for assim, sugiro que, pelo menos, deixe dessa bobagem de querer conscientizar um público que ela mesma ajuda a alienar e assuma-se como veículo de entretenimento rasteiro e inconsequente.

E ainda há quem chame os anos 80 de "década perdida".

04/10/2006

Superman & Batman 15


Este é, provavelmente, o review mais vagabundo que eu já tive coragem de fazer. A revista não está por perto pra que eu possa checar nomes e fatos, mas, vamos lá.

Primeiro, quero deixar registrada a minha indignação com a opção da Panini por esta capa-clichê vagabundíssima, do mangazeiro xexelento do Ed McGuinness, quando a capa de Wonder Woman 220 é mil vezes mais interessante, embora não reflita exatamente a verdade sobre o que rola na história.

Em Superman/Batman, aquela enrolação com os Máximos atingiu o auge da picaretagem quando descobrimos que tudo não passa de mais uma brincadeira do Coringa com os poderes de Mxyzptlk, como aconteceu há alguns anos, na fase Premium, na Editora Abril. Como naquele época, é tudo muito ruim. Superman liberta Darkseid da Muralha da Fonte e, depois, acaba preso nela. Se era tão fácil assim arrancar de lá os curiosos sobre a origem do universo, por que ainda há tantos presos? Você não tá com nada, Loeb!

A melhor história é mesmo da Maravilhosa, novamente. Depois da polêmica decisão tomada em Superman 46, ela é confrontada com as conseqüências do que fez. Sua amizade com Superman e Batman fica abalada e ela se vê diante da possibilidade de enfrentar a justiça dos homens. Porém, ela mal tem tempo pra pensar nisso, pois algumas emergências globais tiram o sono da Liga, sendo que algumas são alarmes falsos. Rucka põe a princesa num momento "calmaria antes da tempestade".

O Arqueiro Verde teve sua casa destruída pelo Tijolo, que obteve do Exterminador todos os segredos da vida pessoal de Ollie e seus protegidos. Ele põe Zatanna na cola de Mia e convoca o Raio Negro pra procurar o Dr. Luz, provável culpado da quizumba toda. Diverte.

Os Titãs e Renegados enfrentam uma Tróia enlouquecida e descobrem, sob Mynossis, uma arma que os titãs mitológicos e os envolvidos na Guerra Rann-Thanagar estão disputando. Muitos recordatórios, muito "lembre-se de quem você é!" e uma certa poluição visual. Não é ruim, mas, não empolga muito. Não são assim quase todas as histórias de ressurreição? Então...

Superman & Batman 15 (Setembro 2006) - Panini - 100 páginas - R$ 6,90.