18/05/2007

Como Morrissey salvou e mudou minha vida

Há momentos em nossas vidas em que tudo muda. De repente, em meio à monotonia que a estabilidade quase sempre traz consigo, um único e inesperado segundo pode fazer abrir-se diante de nós um mundo novo, como se deixássemos para trás uma velha casa e começássemos a viver uma vida completamente diferente daquela de segundos antes. É assim com o primeiro beijo, a primeira transa, a morte de alguém muito próximo ou o nascimento de um filho.

Para mim, um desses momentos aconteceria em 1986, em Ibotirama, pequena cidade do interior da Bahia, às margens do Rio São Francisco, onde vivi praticamente toda a minha adolescência. A Bizz era uma revista com apenas um ano de vida e 95% de suas atrações eram inteiramente desconhecidos para mim. Eis que, um belo dia, perguntando ao dono de uma loja de discos o que ele tinha trazido de novidade, vejo um "T" verde escuro em uma capa branca de LP, parcialmente escondida sob outras. Pergunto ao dono o que é, ele desliza o LP e diz, desdenhoso: "ah, é uns roqueiro doido (sic) aí, dizem que é bom".

Meus olhos custaram a acreditar, mas, era Meat Is Murder, terceiro disco do The Smiths, um nome insistentemente citado e elogiado na Bizz. Meu único contato com a banda, até aquele momento, tinha sido um flexi-disc encartado na edição 8, contendo a música "Still Ill", estranha demais para um pobre garoto acostumado à assepsia das FMs, embora já tivesse fixação por nomes estrangeiros que, volta-e-meia, apareciam em programas como o Clip-Clip (Globo), Super Special (Bandeirantes) e FMTV (da extinta Manchete). Sem muito pensar ou sequer escutá-lo na loja, fui embora com o disco debaixo do braço, feliz da vida, seguro de que havia algo diferente dentro daquela capa com um still quadruplicado de um soldado, com o nome da obra discretamente rabiscado no capacete.

A voz e a poesia de Morrissey e o som de sua banda foram a trilha sonora mais constante dos meus complicados anos entre infância e vida adulta. A adolescência não é fácil para ninguém, mas, sendo bastante tímido e anti-social, com uma permanente sensação de desajuste, identificar-se com suas letras ficava bem mais fácil. Gente um pouco menos equilibrada pode acabar cometendo suicídio ou virando um serial killer, mas, mesmo sendo hoje um homem produtivo, comunicativo e feliz, sei que aquela etapa problemática foi um caminho natural para ser a pessoa que sou hoje. Não tenho a menor dúvida que, na falta de um psicólogo, foi Morrissey quem mais me ajudou. Houve outros, mas, nenhum tão importante quanto ele.

Os Smiths, além de terem sido minha porta de entrada para o mundo do rock, para o aprendizado da língua inglesa e para um gosto musical mais exigente, têm mais um grande valor emocional para mim: sua música era um ponto pacífico na minha relação com meu irmão mais velho, Malcon, falecido há 17 anos. A gente vivia se pegando, como quaisquer irmãos, mas, quando tinha Smiths no toca-discos, a gente podia conversar durante horas sobre o som dos caras e ficar escolhendo nossas favoritas. Quando um de nós viajava para Feira de Santana, invariavelmnte voltávamos com um disco novo. Eu comprei Hatful Of Hollow, Meat Is Murder e The Queen Is Dead; ele comprou The Smiths, Strangeways Here We Come, Rank e The World Won't Listen. O duplo Louder Than Bombs, versão ampliada deste último, ele não chegou a ouvir, pois eu o comprei em Goiânia, onde estava morando em 1990, e Malcon morreu neste mesmo ano.

Então, com a recente aquisição do DVD Who Put The "M" in Manchester? e a proximidade do aniversário de Morrissey, no dia 22, nada mais justo do que homenagear este que posso tranqüilamente chamar de um dos homens da minha vida (ei, quem curte Morrissey não pode ter medo de parecer "sensível"!). Ele está mais velho, mais gordo, mas, ainda irradia o mesmo magnetismo e deboche de 20 anos atrás, tendo encontrado um parceiro (o guitarrista Alain Whyte) inspirado o bastante para fazer as vezes de Johnny Marr com toda a dignidade. Os Smiths foram os meus Beatles, e Morrissey é o meu Elvis, o Rei.

Desfeitas as ilusões da adolescência, talvez o rock não possa, de fato, mudar o mundo. O meu mundo particular, porém, jamais foi o mesmo depois de conhecê-lo.

Parabéns, Moz!

Pixel Magazine 1

Pixel Magazine 1

O Mestre Chang falou do aperitivo, e eu agora falo do prato principal. Resisti o quanto pude, mas, a curiosidade atiçada por reviews sempre favoráveis me fizeram investir salgados R$ 9,90 (que o papel LWC compensa) na primeira edição da Pixel Magazine, nova publicação da Pixel Media que reúne material dos selos alternativos da DC Comics: Vertigo, Wildstorm e ABC. Quer saber? Foi o dinheiro mais bem gasto em bancas dos últimos tempos. Afinal, como falar mal de uma revista que começa com Warren Ellis e termina com Alan Moore?

Ellis escreve quatro das cinco histórias, todas one-shots. Em Hellblazer, John Constantine encara um escritor que parece ter encontrado o berço do Anticristo. A arte é de Tim Bradstreet. Freqüência Global (arte de Lee Bermejo) trata de um escabroso caso de manipulação genética. A história de The Authority, com arte de Cully Hamner, é uma reflexão de Jack Hawksmoor sobre o trabalho do seu grupo, enquanto relaxa saltando pelo mundo. Planetary mostra como Elijah Snow conseguiu seu treinamento investigativo diretamente de Sherlock Holmes. Arte sempre sensacional de John Cassaday.

A história de Alan Moore tem apenas seis páginas de Cobweb, mas, é uma divertida homenagem/sacanagem à piração dos anos 60, com seus gurus de araque e aquela inconseqüência moral que deve dar saudade em muita gente.

Eu pareço estar falando como alguém familiarizado com esses personagens? Que nada, amigos! Sou marinheiro de primeira viagem e, mesmo assim, não tinha como deixar de curtir essas histórias. Afinal, estamos falando dos selos mais respeitados dos quadrinhos nos últimos vinte anos e de um time de feras das palavras e dos desenhos. Se você anda saturado da mesmice e das sagas megalomaníacas do universo dos super-heróis, seja DC ou Marvel, Pixel Magazine é a revista que você estava pedindo aos céus. Nota 10, com louvor e recibo assinado, autenticado em três vias.

Pixel Magazine 1 (Abril 2007) - Pixel Media - 100 páginas - R$ 9,90

Crise Infinita 6

Crise Infinita 6

Penúltima parte da Crise, e os experimentos de Alex Luthor com as terras paralelas ameaçam cada vez mais a realidade. Enquanto um grupo reunido por Batman ataca o Irmão-Olho, Asa Noturna e Superboy esperam ser capazes de deter Luthor, na antiga Fortaleza da Solidão, onde está construída a torre de antimatéria. Todo o poderio reunido talvez não seja suficiente contra Luthor e o Superboy Primordial, e um sacrifício extremo precisa ser feito.

Um herói relativamente querido perde a vida, mas, tratando-se deste universo, sabe-se lá até quando ele ficará morto. Dois vilões também vão para o saco, um pelas mãos do Espectro e outro num lance genial do Adão Negro, que faz a gente amar odiá-lo ainda mais (rs)!

Depois do péssimo capítulo 5, em que praticamente nada aconteceu, Geoff Johns consegue imprimir um bom ritmo à trama. A necessidade e a validade de uma nova crise sempre foi altamente discutível, mas, para quem provavelmente trabalhou sob grande pressão, ele fez um trabalho razoável. Sorte semelhante não teve Phil Jimenez, que começou muito bem e desenhou cenas marcantes, mas, acabou substituído em algumas páginas por artistas mais ligeiros, com resultados felizes (Ivan Reis, George Pérez) e outros lamentáveis (Jerry Ordway).

Um Ano Depois começa nas revistas deste mês, que já começam a chegar às bancas, antes do capítulo final da Crise. Pode parecer bola fora da Panini, mas, foi assim mesmo lá fora. Dizem que o parte final é uma sucessão de acontecimentos resolvidos com pressa e mortes de personagens buchas, mas, embora a série mereça críticas, não é a pior coisa do ano. Nota 7,0.

Crise Infinita 6 (maio 2007) - Panini - 52 páginas - R$ 5,90.

10/05/2007

DC Comics e a Crise Infinita

DC Comics e a Crise Infinita

Verdade seja dita: a Crise Infinita, isolada de seus prelúdios e interligações, não é nenhuma obra-prima. É coisa demais acontecendo em poucas páginas de quadrinhos e não há aprofundamento em nenhum drama. O filé acabou ficando na entrada (Projeto OMAC, a melhor série da Contagem Regressiva, com os melhores tie-ins) e na sobremesa (a maxissérie 52, que deve começar em julho). Há que se elogiar, porém, a maneira como tudo foi planejado. A execução pode não ter sido impecável, mas, imagine o trabalhão que deve ter dado fazer acontecimentos de até dois anos atrás (a deposição de Luthor, a morte de Donna Troy, Crise de Identidade) convergirem em um só Grande Propósito, com total precisão. Neste aspecto, a DC foi soberba.

Com o início da saga, porém, os títulos mensais, com poucas exceções, tiveram uma queda assustadora de qualidade. Pode ter sido culpa da pressa em chegar ao clímax que leva ao Um Ano Depois, mas, quem se interessasse em colecionar a DC Comics nos últimos meses logo se veria desanimado, tamanha a ruindade que invadiu boa parte dos títulos, com negativo destaque para Liga da Justiça, Arqueiro Verde, Flash, Renegados e Supergirl (embora esta já tenha nascido tosca).

Algumas séries oscilaram mês a mês (Novos Titãs, o Batman de Judd Winick, SJA) e umas poucas mantiveram um patamar de qualidade constante (principalmente Mulher-Maravilha, Lanterna Verde, Superman e, pasmem, até Aves de Rapina!)

Agora que Crise Infinita se aproxima do fim (a sexta edição já chegou às bancas mais precoces), as coisas devem melhorar em boa parte dos títulos, com as surpresas do salto de um ano na cronologia. Alguns heróis e vilões estarão mortos, outros desaparecidos. Muitas situações inusitadas estarão em andamento. Este ano "perdido" será o tema da série 52, que a Panini deverá publicar em 13 edições mensais de 100 páginas (se a distribuidora Chinaglia fosse digna de confiança - e ela não é mesmo - quem sabe seria possível publicá-la semanalmente, como nos EUA).

Além da renovação nas revistas conhecidas, teremos a estréia de uma nova revista mensal, mês que vem: Universo DC. Ela trará histórias do Pacto das Sombras (o grupo de místicos que enfrentou o Espectro), Sexteto Secreto (os vilões renegados que desafiaram a Sociedade), Xeque-Mate (derivada diretamente de Projeto OMAC) e a minissérie A Batalha Por Blüdhaven, mostrando o destino da cidade após a explosão nuclear que a devastou.

Que o segundo semestre traga novos e bons ventos para os leitores brasileiros, pois este primeiro tem sido uma verdadeira prova de fogo para o coração dos fãs mais apaixonados. Se antes a queixa era de que a Panini publicava pouco material da DC, quem sabe agora, com cerca de 700 páginas mensais (fora minis, especiais e encadernados) a gente só precise reclamar da qualidade das histórias.

09/05/2007

Homem-Aranha 3 (por The Batman)

Homem-Aranha 3
(por The Batman)

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS!

Prepare-se, marveco roxo, pois eu vou criticar este filme! Não, ele não é ruim, muito longe disso! Poucos filmes atuais fluem tão bem, apesar das mais de duas horas de projeção. Homem-Aranha 3 arrebenta nas bilheterias com justo merecimento, mas, não é um produto acima do bem e do mal, principalmente quando comparado aos dois anteriores.

Tecnicamente, o filme é nota 10, desde os efeitos dos poderes dos vilões (especialmente do Homem-Areia) até a seqüência do guindaste descontrolado, de tirar o fôlego. Praticamente não há momentos em que se possa "isolar" o efeito, tão bem feita que é a integração entre real e virtual.

No quesito humano, dos dramas às interpretações, há um esmero acima da média no gênero. Tobey Maguire encarna muito bem a mudança de personalidade de Peter, causada pelo uso contínuo do uniforme negro. O Homem-Areia (o ótimo Thomas Haden Church) é o vilão mais emocional e identificável com a platéia, até o momento. Gwen Stacy não tem muito a fazer, além de provocar ciúmes em Mary Jane, mas, a presença radiante e o talento de Bryce Dallas Howard fazem a gente esquecer detalhes como este em um instante.

Onde, afinal, estão os defeitos do filme? Pra começar, algo que me incomoda desde o primeiro: Kirsten Dunst é muito desengonçada para ser namorada de super-herói. Mary Jane Watson parece mais a empregada do Aranha, em certos momentos. Se Peter trocá-la por Gwen, não ponha a culpa nele. James Franco (Harry Osborn, o novo Duende Verde) melhorou neste último filme e não é mais um "cigano Igor", apesar de uma ridícula cena no estilo "mamãe, quero ser Jack Nicholson", com sobrancelha arqueada, e da facilidade com que ele é convencido por seu mordomo (!!!) a deixar o Aranha em paz.

Falando em motivações, o Homem-Areia passa boa parte do filme dizendo que não é mau e que respeita o Aranha, mas, mesmo assim, sem mais nem menos, aceita participar de um plano de Venom para matá-lo. O monstro bocudo, então, é um vilãozinho muito do fuleiro, assim como nos quadrinhos. Por que os fãs pediram tanto por esse mané? Aliás, por que esse mané tem tantos fãs?

As lutas do Aranha com seus inimigos também têm problemas. Um é que a tal da "câmera nervosa" de Sam Raimi deixa o primeiro confronto com o Duende Verde praticamente impossível de se acompanhar. O outro é que, de repente, parece que estamos diante de um filme do Superman, pois o Aranha é arrastado no asfalto, esmurrado, pisoteado, jogado contra trens e através de janelas de edifícios e mal despenteia o cabelo! Nem um corte mais sério ou um hematoma! O terno que ele usa ao sair do show de Mary Jane é mais resistente até do que seu uniforme!

Homem-Aranha 3 não chega a ser uma decepção, mas, é perceptível o desleixo em certos aspectos, o que pode ser fruto de uma sensação de lucro certo, por parte da Marvel e/ou da Columbia Pictures, não importa o que eles coloquem na tela. Pode ser, também, que Raimi, que não gosta do Venom e se viu obrigado a trabalhar com o bicho, tenha decidido deixar clara sua má vontade. Seja o que for, mais algumas centenas de milhões de dólares nos cofres dos estúdios e um quarto episódio estão assegurados, porém, é prudente prestar atenção à luz amarela que se acendeu. Nota 7,5.

08/05/2007

Bizz 213

Bizz 213

"Disseram que eu fiquei americanizada!"

Não existe coisa mais inútil na vida do que a obsessão com a juventude. Sim, inútil, porque, um dia, tudo vai acabar desabando das repuxadas e "botocadas" prateleiras. Sexagenárias que fazem plástica não viram gatinhas. Parecem, no máximo, sexagenárias que fazem plástica. Não é menos ridículo quando um jovem descarta tudo que havia antes de sua chegada ao planeta como sendo velharia obsoleta. Achar que o novo é, necessariamente, melhor, denota apenas falta de vivência e de senso crítico.

No Orkut, na tumultuada comunidade oficial da Bizz (de onde me retirei e que visito por puro masoquismo) e também na da Rolling Stone, a Bizz está sendo acusada de estar em processo de "rollingstonização", dando ênfase a outros campos da cultura pop, que não apenas a música. Um dos ignorantes chega a dizer que a Bizz "já não tem relevância alguma".

Bem, se ela não tivesse mesmo qualquer relevância, dificilmente estaria se aproximando dos dois anos de vida desde seu retorno, em setembro de 2005. Mera nostalgia e paixão de fã não sustentariam o trabalho do editor Ricardo Alexandre, num antro de capitalismo selvagem como a Editora Abril. Se a revista não vendesse o mínimo para agradar aos Civita, já teria sido ensacada há alguns meses.

Em contrapartida, não se pode negar, também, que a Rolling Stone seja um incômodo. Talvez não a ponto de comprometer a existência da Bizz, mas, como no futebol, as pessoas se apaixonam, elegem favoritos e escolhem lados em uma "guerra" - e, inevitavelmente, alguns escolherão o lado de lá.

Motivada pela briga com a RS ou não, esta capa com Quentin Tarantino não pode ser rotulada como "traição" ou oportunismo. Primeiro, porque, como bem disse o editor, poucas pessoas no mundo são rock'n'roll como Quentin. Segundo, porque não é a primeira vez que a Bizz dá capa a gente do cinema, ainda que as anteriores estejam lá nos primórdios da revista e não cheguem a uma dezena, em mais de 200 edições.

Picuinhas à parte, a matéria com Tarantino e Robert Rodriguez está bem legal, bem como a generosa cobertura do retorno do The Police. Na coluna Pense Conosco, Ana Maria Bahiana abre nossos olhos (e ouvidos) para a beleza de "Keep The Car Running", do Arcade Fire, enquanto André Forastieri explica e defende o Bono pós-Achtung Baby. Na Discoteca Básica, Jeff Buckley e seu único disco lançado em vida, Grace (por falar nele, fique atento a um mp3 de "Everybody Here Wants You", de seu disco póstumo Sketches For My Sweetheart The Drunk, ainda esta semana, aqui no Catapop).