18/11/2007

Tropa de Elite (Batman)

Tropa de Elite
por The Batman

Brasileiro gosta de bandido. Gosta muito, e não é de hoje. Basta lembrar da glorificação midiática de gente como o carioca Escadinha, que, na década de 80, fugiu de Bangu 1 em um helicóptero. Ou do goiano Leonardo Pareja, que, nos anos 90, deu uma canseira na polícia de vários estados. Gente assim costuma ser vista como "heróis marginais", pelo simples fato de desafiarem o Estado, coisa que nós, brasileiros, por causa dos sucessivos desvios submetidos às instituições, aprendemos a enxergar como virtude. Escadinha e Pareja, porém, não tinham nada de heróis: eram bandidos cruéis.

Traficantes de drogas também são assassinos cruéis, gente da pior espécie. O fato de que eles compram alimentos ou remédios para os moradores da favela pode parecer um ato de assistência social onde o Estado não chega, mas mostra apenas que eles sabem conquistar a conivência e o silêncio da população - mas ai de quem não andar na linha, ai de quem não pagar pela "segurança", ai de quem levantar a voz. É bala na testa, vacilão. Não tem perdão.

Estou falando obviedades? Pode ser, mas existe por aí um monte de intelectuais inventando justificativas sociológicas para a violência. A tal da "consciência social" é uma praga. Na cabeça dessa gente, quem entra para o tráfico o faz por mera falta de oportunidades e são todos uns coitadinhos, vítimas do Estado injusto. Quando traficantes acabam mortos ou presos, logo surge um batalhão de ONGs e artistas "conscientes", falando sobre direitos humanos. Sabendo que vão poder contar com uma luz dramática e um borrão ou tarja sobre os olhos, quando dão entrevista na TV, os bandidos mais safados do planeta capricham na cabeça baixa, na cara de coitado e no discurso para justificar o injustificável.

Existe ainda o mito de que todo pobre é bonzinho. Aqui vai uma novidade: não é. Essa distorção dos fatos gera um fato curioso: bandido pobre é um despossuído em busca da sobrevivência, bandido rico, como os playboys que espancaram uma empregada, pensando ser ela uma prostituta, merecem cadeia ou paredão, sem direito a julgamento. O fato é que bandidos, independentemente da classe social, são todos iguais: só gostam de si mesmos, de dinheiro e do poder de decidir sobre a vida e a morte. Essas coisas viciam seriamente.

Mas chega, que eu já falei demais do pano de fundo de Tropa de Elite e ainda nada do filme. É que ele merece aplausos por colocar bandido no seu devido lugar: o de bandido. Depois de décadas sendo obrigados a ver filmes que tomavam partido de assassinos, como Carandiru (que ainda por cima é um filme ruim), é um alento. Melhor ainda é ver a classe média-alta, metida a muito consciente e entendida das coisas, como patrocinadora e vítima preferencial da galera que toca o terror. No fundo, usuários de drogas ilícitas merecem tudo de ruim que lhes acontece - afinal, o primeiro "tapa" é sempre voluntário.

E não é que o filme pinte a polícia como honrada e boazinha, muito pelo contrário: não há alívio no detalhamento do esquema de corrupção e sacanagem que infesta a corporação. Chega a ser desesperador ver que as pessoas encarregadas de manter a ordem nas ruas não conseguem se entender, pecam pelo despreparo e pela má vontade e são ridiculamente mal aparelhados frente ao inimigo. Claro, usar essas coisas como justificativa para a corrupção policial é igual a acreditar que bandido só rouba e mata para não passar fome.

Tropa de Elite é um filme de ação que não faz feio frente aos melhores policiais norte-americanos dos últimos anos, apesar das óbvias diferenças orçamentárias. É um filme sério, que mete o dedo na ferida e dá aquele giro que faz gritar de dor, muito bem feito e com a sorte de contar com um protagonista superlativo, em atuação memorável. Todo o elenco está muito bem, sem aquele ranço teatral que costuma afetar as produções nacionais, mas é impossível não se impressionar com o trabalho de Wagner Moura, o Capitão Nascimento, preocupado em encontrar um substituto, agora que será pai. Especialmente de arrepiar é a cena em que ele explode com a própria esposa, que acabara de ter seu filho, após a morte de um colega. No fundo, qualquer pessoa com o mínimo de brios teria feito o mesmo.

O filme ainda é um fenômeno pop: bordões como "pede pra sair!" ganharam as ruas e as paródias pipocam em TVs, rádios e internet. Não é pouco, já que filmes nacionais costumam ser sistematicamente ignorados pelo grosso da população. Se há algo altamente condenável nele, é ter tornado febre aquele irritante funk de bandido que toca durante todo o filme e ter ressuscitado o Tihuana e aquele detestável hino dos pitboys, mas, mesmo que para certos crimes não exista perdão, tudo isso não passa de detalhe. Nota 10.

15/11/2007

Especial de Especiais

Especial de Especiais

DC Especial 14 - Gotham City Contra O Crime, Vol. 5

Vai ser difícil dar adeus a esta série, quando sair o DC Especial 16, no mês que vem. Não há uma só seqüência de histórias de Gotham Central que não seja, no mínimo, interessante - e as duas que compõem esta coletânea são especialmente formidáveis. Na primeira, de Ed Brubaker e Jason Alexander, um pastor televisivo é encontrado morto e as evidências incriminam a Mulher-Gato - o que não é o bastante para convencer a esperta oficial Josie Mac (que guarda um segredo de seus colegas do DPGC). Ainda que colocar um religioso em situações comprometedoras seja um clichê, o trabalho dos detetives é o grande barato da série. Na segunda, de Greg Rucka e Stefano Gaudiano, mortes ligadas a dejetos químicos levam os policias de Gotham a Keystone City, cidade do Flash, onde está o principal suspeito: o Dr. Alquimia. A caracterização do personagem à la Hannibal Lecter força um pouco a mão, mas, apesar disso, é uma história memorável. Atenção para a curta, porém marcante, cena da surra aplicada por Renée Montoya. Nota 10.


Justiça 2, 3, 4 e 5

Você já deve saber: Alex Ross, Jim Krueger e Doug Braithwaite reciclaram os Superamigos e a Legião do Mal para o século 21. A reformulação não foi meramente cosmética (principalmente no visual de alguns vilões, modificados com grandes sacadas): esqueçam as piadinhas, frases feitas e armas "futuristas" com barulhinhos invocados. O negócio aqui é sério, grandioso e hardcore. Toda a LJA titular cai em ataques simultâneos dos vilões às suas vidas civis. Ao mesmo tempo, a Legião do Mal começa a resolver problemas como a seca e a fome, para mostrar que o mundo não precisa da Liga, mas de gente com vontade de mudar as coisas. Claro que altruísmo não é forte de Luthor e sua gangue, e tem muita coisa errada acontecendo nesse meio-tempo. Destaque para os arrepiantes apuros de Aquaman nas mãos de Brainiac, o horrível corte que a Mulher-Leopardo faz na cara da Mulher-Maravilha e a sensacional intervenção do Capitão Marvel. Se Justiça tem um problema maior do que sua ambição de ser a história definitiva da Liga, é a total ausência de humor. Tudo é muito dramático e carrancudo, Ross podia ter se levado um pouco menos a sério. Nota 9,0.


Grandes Astros Batman & Robin 5

De volta após seis meses de ausência das bancas, esta série retorna e continua me irritando profundamente. Nesta edição, somos apresentados à Liga da Justiça - ainda formada apenas por Superman, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde e Homem-Borracha - e eles querem caçar o Batman. O problema nem é a descaracterização de alguns personagens - como aquela Diana em eterna TPM e aquele Hal Jordan banana, que certamente jamais seria convocado para portar um anel da Tropa. A culpa também não é de Jim Lee, o cara melhorou uma barbaridade em relação a sonolentas coleções de pin-ups como Silêncio e Pelo Amanhã e desenha páginas memoráveis. O problema é que, apesar de uma cena legal de patrulha do Batman, em que ele impede um estupro e tritura os bandidos, a história não avançou quase nada desde o fim da edição 1. Quando vai acontecer alguma coisa, afinal? Já não fazem mais "Frank Millers" como antigamente. Nota 4,0.

09/11/2007

Resumão Panini/DC - Outubro 2007

Resumão Panini/DC - Outubro 2007

As cinco MELHORES histórias do mês:

1 - Liga da Justiça: "O Rastro do Tornado", parte 1 (roteiro de Brad Meltzer, arte de Ed Benes, publicada em Liga da Justiça 59)
Depois da emoção da edição anterior, é hora de ação: a nova LJA começa a tomar forma! Nesta primeira parte, o Tornado Vermelho é o centro das atenções de heróis (Batman, Superman e Mulher-Maravilha discutem e divergem quanto ao seu recrutamento) e de vilões (com novos e misteriosos personagens interessados em seu corpo andróide). Uma lição a ser aprendida pelos Claremonts da vida: há muito texto, mas ele flui que é uma beleza. Meltzer é mestre e Ed Benes está contido e correto. Nada como ver a Liga de volta ao topo.

2 - Batman: "Batman & Filho", parte 2 (roteiro de Grant Morrison, arte de Andy Kubert, publicada em Batman 59)

3 - Superman: "A Queda de Camelot", parte 1 (roteiro de Kurt Busiek, arte de Carlos Pacheco, publicada em Superman 59)

4 - Xeque-Mate: "Seleção" (roteiro de Greg Rucka, arte de Jesus Saiz, publicada em Universo DC 5)

5 - Mulher-Maravilha: "Quem é a Mulher-Maravilha?", parte 4 (roteiro de Allan Heinberg, arte de Terry Dodson, publicada em Os Melhores do Mundo 4)


As cinco PIORES histórias do mês:

1 - "A Batalha por Blüdhaven", parte 5 (roteiro de Justin Gray e Jimmy Palmiotti, arte de Dan Jurgens, publicada em Universo DC 5)
Esta série é composta por dezenas de zé-manés de marca maior, sem o menor carisma. A história não aponta para lugar algum, não dá pra sacar quem é herói ou vilão e as participações insípidas de figuras como os Titãs e o Lanterna Verde não ajudam a evitar o total fiasco desta coisa sem sentido, que, graças aos céus, já acaba na próxima edição. Xô, Satanás!

2 - Supergirl: "Identidades Secretas" (roteiro de Joe Kelly, arte de Ian Churchill, publicada em Superman 59)

3 - Asa Noturna: "Incêndio no Inferno" (roteiro de Bruce Jones, arte de Robert Teranishi, publicada em Batman 59)

4 - Robin: "Correndo pela Selva" (roteiro de Adam Beechen, arte de Freddie E. Williams III, publicada em Novos Titãs 40)

5 - Flash: "Rápido como um Raio Engarrafado", parte 4 (roteiro de Danny Bilson e Paul Demeo, arte de Ken Lashley e Sal Vellutto, publicada em Os Melhores do Mundo 4)


Mestres do Lápis: Terry Dodson (Mulher-Maravilha) e Ivan Reis (Lanterna Verde)

Mestres da Foice: Dan Jurgens (A Batalha por Blüdhaven) e Ian Churchill (Supergirl)


Capa mais bonita do mês: Os Melhores do Mundo 4


Capa mais feia do mês: Superman & Batman 28

02/11/2007

DVD: O Labirinto do Fauno

DVD: O Labirinto do Fauno

Um filme de época, centrado na figura de uma garota sonhadora que parece ser uma princesa desmemoriada de um reino perdido, com a presença de fadinhas e outras criaturas fantásticas? Tinha tudo para ser um daqueles filminhos ingênuos que passam uma semana sim, e na outra, também, na Sessão da Tarde. Ledo engano: O Labirinto do Fauno pode ser chamado de tudo, menos de ingênuo.

Para começar, logo nos primeiros minutos temos uma das cenas mais brutais dos últimos tempos, envolvendo uma garrafa de vinho e um nariz desprevenido. Durante toda a saga da pequena Ofelia, intimada pelo fauno do título a realizar três perigosas tarefas que restaurarão suas memórias de princesa, não há minimização do perigo ou da violência (implícita e explícita) porque, afinal, trata-se de uma criança no centro dos acontecimentos. Maus tratos, torturas e fuzilamentos acontecem aos montes – afinal, são os últimos suspiros de poder de Francisco Franco, o sanguinário ditador espanhol, que conta com a ajuda do não menos cruel Capitão Vidal, padrasto de Ofelia, um vilão absolutamente detestável.

Enquanto a mãe padece de uma gravidez complicada, a jovem tem que enfrentar desafios que parecem saídos de um conto de fadas pervertido: sapos gigantes, canibais com olhos nas mãos e o próprio Fauno (que pode não ser tão confiável quanto deseja parecer). O clima perturbador é ajudado pela excelente uso de maquiagem (vencedora do Oscar 2007) e efeitos especiais convincentes.

Mais uma tremenda bola dentro de Guillermo Del Toro, diretor de Hellboy – e por que não ganhou o Oscar de Filme Estrangeiro mesmo, hein? Um dos grandes filmes do ano. Nota 10.