21/04/2008

Ah, eu gosto...

Ah, eu gosto...

O desafio me foi passado pelo Luwig: escolher filmes que eu gosto, mas que foram malhados pela crítica ou ignorados pelo público em geral. Admito que quis me livrar do abacaxi o mais cedo possível e não usei uma seqüência de pérolas de maravilhosa ruindade, incompreendidas pela maioria, optando por filmes menores de gente conhecida e que hoje mofa nas prateleiras. Passo a bola pro Bobby, Rodrigo, Virág, Gustavo e Kicha.


O Peso de Um Passado (Running On Empty, 1988)

Este drama, dirigido por Sidney Lumet, rendeu ao então promissor River Phoenix uma indicação ao Oscar. Com seu gosto por produções menores, Phoenix teve seu "estouro" retardado e, infelizmente, morreu de overdose em 1993. No filme, ele é um adolescente filho de um casal de subversivos da década de 70 (os ótimos Judd Hirsch e Christine Lahti) com grande talento para a música. O receio de serem descobertos pelo FBI leva o casal a mudar de endereço constantemente, o que acaba por prejudicar os planos do rapaz, ainda mais quando ele se apaixona. Retrato realista da barra enfrentada por filhos de pais "problemáticos", ainda mais quando estes esperam que seus filhos assumam seu legado de luta ou que paguem com eles o preço da sua rebeldia. No Brasil, nem saiu no cinema.


O Pentelho (Cable Guy, 1995)

Peça para alguém fazer um Top 5 dos filmes de Jim Carrey. Dificilmente este filme constará entre eles. Já eu me diverti muitíssimo com os apuros do personagem de Matthew Broderick com a "amizade" desesperada e psicótica do esquisitíssimo instalador de TV a cabo vivido por Carrey. O humor não é aquele leve e óbvio de acertos maiores do astro, como Ace Ventura ou Debi & Lóide: é bem mais esperto e cruel, provocando mais risos pelo que sugere do que pelo que mostra. Destaque para a quase sexualmente explícita cena em que Carrey alisa a parede à procura de um bom buraco para o fio da antena, o combate na arena medieval e o jogo de senha pornô. A gente não sabe se gargalha ou se esconde a cara de vergonha!


Sempre Amigos (The Mighty, 1998)

Vai saber por quê, Kieran Culkin quase sempre morre em seus filmes. Deve ser influência de Leonardo DiCaprio, outro chegado em bater a caçuleta na tela. Em Sempre Amigos, ele é Kevin Dillon, filho de Gwen (Sharon Stone), portador de uma síndrome que compromete sua mobilidade. Outra "aberração" da sua escola é o grandalhão Maxwell, que tem dificuldades de leitura e é zoado pela sua altura. Os dois fazem um pacto de ajuda mútua: Kevin entra com o cérebro, Maxwell com os músculos e os dois passam a formar uma espécie de entidade única. Claro, o filme é "lindo", tem mensagem e tal... mas recomendo porque é divertido e o final guarda uma comovente decepção para o crédulo Maxwell, que marca sua entrada no assim chamado mundo real.


Tropas Estelares (Starship Troopers, 1997)

Paul Verhoeven é chegado em violência gráfica. Robocop (1987) e O Vingador do Futuro (1990) tinham cenas aflitivas para os mais sensíveis. Em 1997, ele decidiu adaptar o romance interestelar de Robert A. Heinlein, que narrava a guerra da humanidade contra "Os Insetos", alienígenas que lembravam besouros, aranhas e outros bichos escrotos, alguns com poderio nuclear saído do próprio rabo. Como convinha a um filme que não tinha menor pretensão de levar-se a sério, Verhoeven chamou canastrões notórios, como Casper Van Dien e Denise Richards, para "interpretar". O livro é cheio de implicações políticas subentendidas, mas, o que importa? O que a gente gosta mesmo em Tropas Estelares, o filme, é de ver os insetos infestando as bases humanas e rasgando pessoas feito papel! Cool!


Veronica Guerin: O Preço da Coragem (Veronica Guerin, 2003)

Existem dois Joel Schumacher em atividade: o skrull que comete atrocidades rasteiras como Batman & Robin, e o excelente diretor de atores que responde por pequenas preciosidades de curta duração e fortes emoções, como Tigerland, Por Um Fio e este Veronica Guerin. A personagem-título, interpretada com brilho por Cate Blanchett, é uma jornalista que descobre mais do que devia sobre as atividades da máfia e do IRA (o sangrento grupo separatista irlandês) e suas ramificações dentro do poder público da Irlanda. Guerin tornou-se uma heroína nacional ao pagar com a vida pela sua coragem; sua morte provocou protestos populares que levaram a reformas que diminuíram a criminalidade em 50% naquele país.


Menção "Honrorosa":
Tudo Para Ficar Com Ele
(The Sweetest Thing, 2003)

Estava faltando uma escolha ultrajantemente pessoal, que fizesse a platéia do Catapop balançar a cabeça em descrença: "tsc, tsc, tsc... Quem diria... Marlo, um cara até inteligente... gosta disso!" Entretanto, não tem jeito: eu dei muita risada com este filme estúpido, previsível e cheio de piadas de péssimo gosto, com a sutileza de um caminhoneiro bêbado. Fazer o que, gente? Eu gostei de verdade. O trio de "mocinhas" (Cameron Diaz, Christina Applegate e Selma Blair, nada inocentes) tem timing cômico excelente e a cena dos orgasmos fingidos, seguido de uma forçadíssima coreografia coletiva, é digna de entrar (sem vaselina) nos anais da história! (ui!)

20/04/2008

DC Especial 16

DC Especial 16
Gotham City Contra O Crime, Vol. 6

Lembra de quando saiu o último Star Wars? Ou o terceiro filme de O Senhor dos Anéis? Deixando de lado as discussões sobre a qualidade dos filmes, um sentimento era inevitável: aquela pontada de tristeza no coração, por sabermos que não podíamos contar como certa a volta da série, dali a um, dois ou três anos. É um vazio rapidamente "repreenchível", claro, afinal, a indústria do entretenimento não pára e, felizmente, acerta com freqüência aceitável.

O fim de Gotham Central provoca esse tipo de sentimento. Mesmo sabendo que nesse ramo das HQs norte-americanas quase nada é definitivo (e que, a qualquer momento, alguém na redação da DC pode gritar, "hey, aquilo era legal, vamos tentar mais uma vez!"), parece que fechou-se uma porta não só para a série, mas, também, para nós, acostumados que estávamos à certeza de que, entre um Gavião Negro e outra série qualquer, teríamos um novo volume de DC Especial dedicado aos policiais de Gotham... e que isso seria um tremendo afago em nossos neurônios.

Nos universos do Batman, ou do Superman (de onde vieram Crispus Allen e Maggie Sawyer), coadjuvantes como Renée Montoya, Marcus Driver e Michael Akins não passariam dessa condição. Pois Ed Brubaker e Greg Rucka os elevaram a protagonistas dos dramas diários do Departamento de Polícia de Gotham City, a cidade mais perigosa do universo DC. Enfrentando as chamadas "aberrações" que dão trabalho ao Batman ou combatendo a própria corrupção policial, os agentes nos levavam a um mundo cheio de tons de cinza, onde o bem e o mal nem sempre estavam perfeitamente definidos.

Nesta última coletânea, são quatro histórias. "Natureza" mostra dois policiais envolvidos na morte de uma adolescente de rua. "Robin Morto" é justamente o que o título sugere: o menino-prodígio (ou alguém vestido como ele) é encontrado morto. Além dos mistério em si, o DPGC ainda tem que lidar com o vazamento de informações sigilosas para a imprensa. "Domingo Sangrento" e "Corrigan II") são contemporâneas da Crise Infinita e mostram como o quase fim do mundo afetou os agentes. É nesta última que ocorre o assassinato de Crispus Allen, a quem foi confiado o cargo de novo Espectro.

Sendo uma série que lida com um lado mais "realista" do fantasioso universo dos super-heróis, o final não traz a tradicional redenção com lição de moral. Pelo contrário, deixa um gosto amargo de impunidade bastante familiar a nós, brasileiros. Derrotados pela burocracia que os impede de vingar o assassinato de Allen, aos policiais só resta a resignação - exceto, claro, Renée Montoya, que já não tem mais nada a perder e assume de vez sua faceta Harvey Bullock e, como ele, perde a cabeça e entrega o distintivo ("surpresa" que 52, publicada antes aqui, tratou de estragar).

Devemos gratidão, pelos belos serviços prestados, aos escritores Greg Rucka e Ed Brubaker e ao primeiro artista, Michael Lark, que estabeleceu o clima noir da série, felizmente seguido por sucessores como Steve Lieber e até Kano, que deixou de lado o traço puxado para o mangá que caracterizou sua passagem pelo Superman. Ao contrário do Luwig (do blog The Pulse), eu fui incapaz de sorver aos poucos as nove histórias deste volume: para mim, foi impossível largar a revista antes do fim, tamanho o magnetismo exercido por esta série.

Pelas 40 edições impecáveis, pela rara generosidade com que nos foram presenteadas emoções fortes e genuínas e, principalmente, pela saudade que vai deixar, Gotham Central merece nota 10, com louvor e distinção.

06/04/2008

Batman Extra 6 e 7

Batman Extra 6 e 7:
Um filme para o Duas-Caras!

O Duas-Caras é um dos tipos mais temíveis e, provavelmente, o mais psicologicamente perturbado (sim, até mais do que o Coringa) na formidável galeria de antagonistas do Batman. Sua dualidade esquizofrênica já foi explorada à exaustão em histórias que se tornaram clássicas e em tantas outras, menos felizes. Quando já parecia não haver nada de novo que pudesse ser adicionado ao complexo perfil de Harvey Dent, eis que Paul Jenkins surge com uma ótima idéia para o personagem, na história em 6 partes chamada "Jekyll & Hyde", publicada aqui pela Panini nas edições 6 e 7 de Batman Extra.

Na trama, pessoas comuns e pacíficas cometem crimes horríveis, inclusive canibalismo, sem qualquer explicação aparente. A investigação do Batman o leva a um médico chamado Pierre Rousse, que comanda uma pesquisa que pretende unir os lados conflitantes da personalidade de cada um: o medroso e o corajoso, o forte e o fraco, o bom e o mau. Rousse, porém, alega não prescrever há anos. Paralelamente, o Duas-Caras exige falar com o Batman e engendra uma fuga espetacular.

Cada vez mais dominado pelo seu lado mau, Dent consegue subjugar o Batman e o faz provar da droga do Dr. Rousse. O resultado sobre a psiquê do Cavaleiro das Trevas é devastador, mas, por alguns momentos livre das amarras morais que regulam seu trabalho de vigilante, o Batman protagoniza uma cena ao mesmo tempo cômica e chocante. Clique na imagem para ampliá-la:

Enquanto muitos escritores preferem explorar o lado bom de Dent, cujo respeito pelo Batman quase sempre resulta em sua ruína, Paul Jenkins optou por fazê-lo mais perigoso do que nunca, a exemplo do que Paul Dini fez com o Coringa este mês, em uma sensacional história publicada em Batman 64. Além disso, traz um novo fato à biografia do vilão que o torna ainda mais interessante e faz do momento em que Sal Maroni deforma seu rosto uma mera gota d'água nos eventos que o levaram à loucura.

Contribuindo para o clima claustrofóbico e macabro da história, Jae Lee capricha nos cenários aterradores e nas cenas de violência. Se a Warner deseja fazer um filme do Batman contra o Duas-Caras (que surgirá durante Batman - O Cavaleiro das Trevas, em que o astro é o Coringa), dificilmente encontrará material melhor para basear-se do que este. Resumindo, "Jekyll & Hyde" é uma das melhores histórias do Morcego nos últimos tempos. Nota 10.

Agradecimentos ao Luwig, do blog The Pulse, pelo empréstimo involuntário do Momento HQ "Atropelamento e Fuga".

04/04/2008

Rapidinhas

Rapidinhas

- No seu pacote de filmes em 2008, a Globo anunciou um sério candidato a pior filme de todos os tempos: Irma Vap - O Retorno. Fuja dele! Este filme é um crime de lesa-pátria e devíamos ser pagos para assisti-lo! Dizem que a peça que o originou é muito engraçada, mas é impossível da UMA risada que seja com o filme. Aliás, boa parte das produções da Globo Filmes padece deste e de um outro mal muito sério: a total falta de domínio da linguagem cinematográfica por parte de seus diretores - são programas de TV mal disfarçados de cinema. Trair e Coçar, É Só Começar, por exemplo, parece um episódio gigante de A Diarista.

- Falando em filmes nacionais, será que algum dia nos veremos livres daquele momento torturante que eu chamo de "A Hora da Esmola"? Explico: é a interminável seqüência de patrocinadores no início dos filmes, que passa pelos praticamente obrigatórios BNDES e Petrobrás, e desemboca na Pensão da Tia Zulmira e no Ferro Velho do Seu Alceu. No DVD original de Tropa de Elite, por exemplo, A Hora da Esmola acaba com a paciência de qualquer cristão: não contei, mas devem ser uns 10 quadros de patrocinadores. Assim não pode, assim não dá.

- Lá se vão 10 meses e 52 continua sendo uma das melhores revistas publicadas pela Panini. Onde seria normal esperar que o encontro dos egos de superstars como Mark Waid, Grant Morrison, Greg Rucka e Geoff Johns desse na maior m**da, temos uma seqüência de eventos memoráveis em praticamente todas as edições, como a chuva de meta-humanos no número 9 - cortesia de um Lex Luthor no auge da maldade. Se você não lê, está perdendo!

- Até dias atrás, eu tentava entrevista com um cantor de axé, de musicalidade mais educada que a média. Mandei 15 perguntas (basicamente sobre música) por e-mail e o cara me respondeu dizendo que, por causa da última, não se sentia "à vontade para responder à entrevista". Ah, você está curioso pra saber que item foi esse, que escancarou as portas do inferno e causou tanto desgosto no cara? O que lhe pedi, no mero intuito de fazer humor, foi: "mate os nerds de inveja e diga bem alto: 'eu pego a fulana!'". A fulana em questão, sua noiva, é também figura do meio e já foram ditas sobre ela coisas bem menos lisonjeiras do que o verbo "pegar". Ele, porém, achou isso um tremendo desrespeito, veja só... Tsc, tsc, tsc.

- Crianças acorrentadas, engravidadas, torturadas, marcadas a ferro, jogadas de prédios... É o Brasil, terra boa e gostosa.