31/01/2009

Arqueiro Verde - Ano Um

Arqueiro Verde - Ano Um

Oliver Queen, ricaço egoísta, mulherengo e alienado, é traído e abandonado em uma ilha deserta. Para sobreviver, ele depende de arco e flechas artesanais que usa para caçar e pescar. Com o tempo, torna-se mestre em seu manuseio e, ao retornar à civilização, descobre um propósito para sua vida, antes vazia: lutar em nome dos injustiçados como o Arqueiro Verde.

O esquerdista mais radical da DC Comics tem uma história de origem já bem conhecida. Mesmo assim, Andy Diggle (autor da minissérie do Adam Strange) consegue recontá-la de forma bastante envolvente, acrescentando toques de modernidade que não desrespeitam os elementos clássicos do personagem. Os diálogos acompanham a evolução de Queen, da futilidade inicial à sabedoria adquirida ao custo de muita decepção, fome, dor e sol na moleira.

Contar com o excelente traço de Jock (de Hellblazer e capas do Batman), econômico nos cenários, mas perfeito nas cenas de ação e no uso de páginas duplas, certamente é um atrativo extra desta bela edição, que conta com introdução de Brian K. Vaughn e galeria de capas.

Se a Panini não fosse tão vacilona, poderia ter saído como o DC Especial 18. Mas, quer saber? Melhor assim. Desta forma, até os maníacos por numerações e coleções completas podem relaxar e escolher o que querem ou não comprar. Este vale a pena, com certeza. Nota 9,0.

Arqueiro Verde - Ano Um - Panini - 148 páginas - R$ 15,90

25/01/2009

Cordas, pra que te quero!

Cordas, pra que te quero!
Quando o pop encontra o clássico.


Poucas coisas enriquecem tanto uma canção, especialmente uma balada, quanto um arranjo de cordas, fazendo a cama onde se deita uma interpretação emotiva. Um set de violinos e outros instrumentos incomuns ao rock podem propiciar uma experiência ainda mais envolvente com a canção.

Artifício já bem conhecido, os arranjos de cordas têm sido usados e abusados, para o bem e para o mal, por incontáveis artistas. Separei aqui, então, dez canções que foram luxuosa e criativamente adornadas por arranjos capazes de partir corações insensíveis ou de levantar espíritos desanimados.

Não custa dar aquele velho aviso sobre listas: elas são limitadas, então, muita coisa legal (até melhor) acaba ficando de fora. Se você sentiu a falta de alguma, faça suas adições nos comentários. Não, não tá valendo prêmio. =)

PS: Bem que eu gostaria de colocar links pra download das canções, mas o Google anda implacável com essas coisas. Melhor não correr o risco de mandarem o blog pro saco preto.


01 - "Catch", The Cure

Vamos começar no auge da simplicidade. Uma das canções mais singelas do Cure tem a emotividade de sua letra, falando de paternidade negada (pela morte da criança, talvez?), amplificada por um único e sinuoso violino.

02 - "Why Do Lovers?", Richard Ashcroft

A frivolidade das relações é desculpa para o vocalista do Verve se acabar: "como se fôssemos apenas pele / você consegue ver? / conheça a beleza dentro do seu corpo / você não ama ninguém". As cordas dão aquele nó na garganta, especialmente no segundo refrão.

03 - "Can't Take My Eyes Off You", Boys Town Gang

Não dá pra falar em cordas e ignorar a disco music. Aqui elas fazem um loop viajandão que se repete e explodem no refrão, com a ajuda de metais e sintetizadores. Provavelmente, a melhor versão desse clássico pop.

04 - "Daddy Cool", Boney M

Mais disco! O Boney M era uma maravilhosa armação teuto-jamaicana que ornava vários dos seus clássicos ("Ma Baker", "Rasputin") com cordas envenenadas! Qualquer uma delas mereceria figurar aqui. Lirismo a serviço do hedonismo!

05 - "Orquídea Negra", Zé Ramalho

O paraibano é um dos que melhor sabem aproveitar o potencial das cordas, sem soar meloso, como é hábito na MPB. A delirante letra de Jorge Mautner cresce na terceira estrofe com uma passagem discreta, mas marcante.

06 - "Preta Pretinha", Moraes Moreira

É difícil escolher entre tantos belos momentos violinísticos do MTV Acústico de Moraes, mas é impossível não fechar os olhos e curtir a impressionante beleza da introdução de sua canção mais emblemática, feita para "viajar" e sorrir.

07 - "I Heard it Through the Grapevine", Marvin Gaye

A solenidade dessa história de traição e decepção é enfatizada pelo arranjo que a conduz, honrando a tradição do soul com as cordas. Marvin, claro, paira acima dos meros mortais, em sua interpretação mais arrebatadora.

08 - "Viva La Vida", Coldplay

Esta canção não teria metade do impacto sem o arranjo grandiloquente. Chris Martin deixa de lado a lamentação loser e abraça o messianismo sem pudor. O produtor Brian Eno deve ter dito, "sente-se, pare de chorar e aprenda". Ou seja, é Coldplay, mas não é, entende?

09 - "The Everlasting", Manic Street Preachers

A desiludida canção dos galeses é interpretada com o coração na garganta por James Dean Bradfield e, em seu terço final, as belas cordas não param de crescer em volume e beleza. Ouça alto.

10 - "Love Letter", Nick Cave & The Bad Seeds

Mestre das baladas sombrias, Nick Cave transborda emoção ao piano, enquanto os violinos se encarregam de destroçar o que ainda resta de seu ex-insensível coração: "carta de amor / vá buscá-la / ...por favor, volte pra mim". Chuif!

23/01/2009

Maratona de DVDs

Maratona de DVDs

Os Donos da Noite - Bob Grusinski (Joaquin Phoenix, excelente) tem pai (Robert Duvall) e irmão (Mark Wahlberg) policiais - e, claro, eles não se bicam. É um boêmio notório, beberrão, cheirador e gerente de uma casa noturna, pertencente a um velho russo, sobre cujo sobrinho pesam acusações de tráfico. Uma inesperada batida policial e a retaliação dos criminosos fazem Bob questionar a qual lado ele deve lealdade. Um grande filme de 2008, com a bonita presença de Eva Mendes, que tem uma cena tórrida com Phoenix. Nota 9,0.

Trovão Tropical - Um grupo de atores com a carreira em crise é reunido para um drama de guerra. A guerra de egos e o roçamento estourado coloca o filme em risco de ser cancelado, até que o autor do livro em que o filme se basearia tem uma idéia de jerico: colocar o elenco em território verdadeiramente hostil, no sudeste asiático, para não só tornar a ação realista, como fazê-los pessoas melhores. Não espere morrer de rir, apesar da presença e da direção do quase sempre apelativo Ben Stiller. O riso que Trovão Tropical provoca provém mais da ironia que de gags visuais, embora alguns momentos arranquem gargalhadas genuínas. Presença-bônus de um Tom Cruise quase irreconhecível. Robert Downey Jr. foi indicado ao Oscar 2009, com mérito. Nota 8,0.

Kung-Fu Panda - Muita ação e uns lances bem Karatê Kid nesta animação da Dreamworks (que concorre ao Oscar, mas não deve ser páreo para Wall-E), contando como o balofo e desajeitado panda Po (voz de Jack Black) se torna o maior lutador da China, o Dragão Guerreiro. Em seu caminho, estão um aprisionado e vingativo ex-pupilo de seu mestre, a rejeição de seus próprios colegas e os planos modestos de seu pai. Os conflitos centrais são bem mais interessantes que a moral capenga do final, mas isso não atrapalha a diversão. Nota 9,0.

Conduta de Risco - A vigorosa atuação de George Clooney foi indicada ao Oscar 2008. Não levou, mas vale a pena dar crédito à história de Michael Clayton, advogado especializado em limpar a sujeira de seus endinheirados clientes. Quando um colega (Tom Wilkinson) tem um surto de consciência e decide voltar-se contra a empresa agroquímica que defendia (e que está colocando no mercado um produto potencialmente letal), Clayton é chamado para colocá-lo na linha, mas acaba tornando-se alvo de gente poderosa e perigosa. A excelente Tilda Swinton e o falecido cineasta Sydney Pollack estão no elenco. Nota 8,5.

Hellboy II: O Exército Dourado - Decepcionante. É a única palavra que encontro para descrever Hellboy II. Tudo que era interessante, engraçado e espontâneo no primeiro filme tornou-se previsível, forçado e mecânico nesta continuação. Até Ron Pearlman parece pouco à vontade no papel do diabão de chifres serrados. O único vestígio de emoção verdadeira é o interesse amoroso de Abe Sapien pela princesa albina Nuala. Guillermo Del Toro tropeça, enfim. Nota 5,0.

Eu os Declaro Marido e Larry - Esta comédia começa como um típico filme de Adam Sandler, cheio de piadas chulas e sexistas. Conforme evolui a história do bombeiro (o ótimo Kevin James) que, para garantir a inclusão de seus dois filhos no seguro social, pede a seu mulherengo melhor amigo (Sandler) que se case com ele, aproveitando uma brecha na lei, o filme se torna mais interessante em sua defesa dos direitos das minorias. Engajado e engraçado, o filme tem participações impagáveis de Rob Schneider e Ving Rhames, além da bonitona Jessica Biel. Nota 8,0.

LJA: A Nova Fronteira - A extensa e verborrágica trama de Darwyn Cooke foi condensada com eficiência neste longa-metragem, contando como os heróis sobreviveram à caça-às-bruxas promovida por Joseph McCarthy nos anos 50, auge da histeria anticomunista. Enquanto vários heróis saem de cena, os poucos resistentes precisam reunir-se contra um perigo que ameaça toda a humanidade. A chegada do Caçador de Marte e a nomeação de Hal Jordan como Lanterna Verde estão entre os momentos mais importantes deste desenho inteligente e violento. Uma adaptação bastante digna de um clássico moderno. Nota 9,0.

A Morte do Superman - Uma das histórias mais emblemáticas do Superman (a despeito da qualidade questionável) ganha uma adaptação violenta e movimentada, que eliminou excessos, como a presença da Liga da Justiça, a destruição de Coast City e os quatro Supermen "de araque", adicionando Lex Luthor e um "bizarro bem-feito" à trama. Primeiro dos novos longa-metragens animados da DC, A Morte do Superman supera, em vários momentos, a prolixa HQ em que se inspirou. Nota 8,5.

20/01/2009

Fui a um show sertanejo... e sobrevivi!

Fui a um show sertanejo... e sobrevivi!

Na minha pasta de mp3, é possível encontrar música de vários estilos. Medalhões da MPB, dinossauros do rock, principiantes do pop e até gente que faz um axé acima da média. Estou, inclusive, curtindo cada vez mais a música pop feita em espanhol, objeto de inexplicável prevenção por parte dos brasileiros (exceto por Shakira, Maná e RBD, talvez). Com reconhecidas limitações, me considero razoavelmente eclético.

Por que, então, diabos, eu não consigo gostar de música sertaneja?

É fácil admirar gente como Rolando Boldrin, Almir Satter e Sérgio Reis, ou duplas mais antigas, como Tonico & Tinoco e Tião Carreiro & Pardinho. Afinal, eles tem esse aspecto "roots" e transpiram integridade. Estou falando de gente como Leonardo, Daniel, Zezé di Camargo & Luciano, Edson & Hudson, Bruno & Marrone e afins.

"O que há para gostar nesses caras, Batman?", você me pergunta. Ora, tudo é obviamente bem tocado, bem cantado, os shows têm excelente produção e geralmente transbordam de gente bonita. Algumas melodias são criativas, certas letras são bem bonitas ou engraçadas e muito da mise-en-cene dos caras é diretamente derivada do rock.

Mesmo assim, não dá, bicho.

Embora seja possível reconhecer virtudes, o sertanejo simplesmente não me desce pela goela. Empatia zero. Lembre-se que eu morei, por longos seis anos, no celeiro de cinco entre dez duplas sertanejas, o Estado de Goiás. Tocavam isso o dia todo, em todo lugar, e eu devo até ter tido sonhos com sertanejo na trilha sonora. Alguns amigos de lá eram até aspirantes a ídolos. Apesar de tudo isso, nunca deixei de achar o estilo uma das coisas mais chatas dessa vida.

A prova dos nove de minha imunidade ao sertanejo foi tirada no dia 18, quando a dupla Jorge & Matheus (vinda diretamente da cidade onde eu vivia, Itumbiara) apresentou-se em Teixeira de Freitas, extremo sul da Bahia, onde eu visitava parentes. Tendo dois amigos na banda (o backing vocalist Alex, eventual comentarista por aqui, e o tecladista Marciano - que não é verde, mas negro), fui convidado para entrar com eles no Parque de Exposições local, acesso ao camarim "e as porra toda", como se diz aqui na Bahia.

Antes da saída, chegou à porta do hotel um camarada chamado Bruno Caliman. Já ouviu falar dele? Talvez não, mas você certamente já se divertiu ou espumou de raiva ao som de alguma de suas composições. Ele é co-autor das onipresentes "Beber, Cair e Levantar" e "Locutor" ("estou num celular, falando de um bar..."). Fiquei em dúvida entre cumprimentá-lo pelo sucesso ou xingá-lo por abastecer o mercado com drogas tão nocivas.

E lá fomos nós, levando na van duas groupies em seus melhores modelitos "me come". Piadas durante e depois do trajeto, inclusive uma impagável anedota sobre bichas, interpretada com excelência por um dos violeiros da banda. Com o "toque de recolher" para o início do show, fui conduzido ao camarote, onde a cerveja rolava na faixa. A noite não seria perdida, enfim.

Começa o show e várias das composições da dupla são cantadas em uníssono pelo bom público, que reage da maneira esperada às manjadas brincadeiras dos cantores. A elas, somam-se sucessos de outras duplas e até um bloco de axé. Dois músicos dão palhinhas: o violeiro da piada das bichas manda uma versão de "Maluco Beleza" (Raul Seixas) e nosso amigo Alex bota fogo no povão com "Have You Ever Seen The Rain" (Creedence Clearwater Revival).

Juro que eu tentava me empolgar, mas fui embora do jeito que cheguei: detestando sertanejo. Não houve concessão ao rock, cerveja grátis ou corpo embalado a vácuo que mudasse minha opinião. Pensei que, de repente, era culpa do ambiente controlado do camarote e fui atrás das fortes emoções de uma volta no meio do populacho. Que nada, nem isso adiantou. Mal eles anunciaram o fim do show, eu já estava na porta, procurando condução pra ir embora.

Talvez minha recusa em abraçar o sertanejo tenha a ver com algum tipo de ressentimento, pelo fato de ter sido o estilo que sucedeu o BRock no topo das paradas, no começo dos anos 90, quando meus ídolos deixaram de frequentar os programas de TV e, em seu lugar, entrou esse povo jeca. Ou com o fato de seus fãs se referirem ao rock como "música de doido" ou "de drogado", como se seus ídolos não gostassem, também, de dar seus tirinhos na farinha e chiliques em hotel. Ou com a hipocrisia de eles fazerem essas coisas enquanto posam de bons filhos e genros dos sonhos de toda sogra, emendando uma canção sobre amor eterno a outra descrevendo suas artimanhas para chifrar a esposa.

O fato é que eu fui a um show sertanejo e vivi para contar a história. Serviu, ao menos, para me convencer de que não é preconceito puro e simples - é apenas uma completa falta de identificação. Não espere por outra dessa tão cedo.

14/01/2009

O Melhor de 2008 - Cinema

O Melhor de 2008 - Cinema


Verdade seja dita, eu não vi tantos filmes assim no ano que passou. Felizmente, também não perdi tempo ou dinheiro com porcarias. Não sei se estou ficando mais seletivo ou preconceituoso, mas alguns princípios me tornaram menos suscetível a decepções cinematográficas:

1) Paródias não têm mais graça alguma. Basta ver a falta de imaginação na hora de batizá-las: Superhero Movie, Disaster Movie, etc.

2) Comédias românticas não valem um ingresso de cinema. Isto é um mero fato da vida, aceite-o. Aguarde o DVD.

3) Poucos filmes nacionais merecem crédito. A menos que sejam fenômenos de popularidade, mantenha os dois pés atrás.

Os Cinco Melhores Filmes de 2008


1) Batman - O Cavaleiro das Trevas

Este não é apenas um ótimo filme: é o maior batedor de recordes da temporada e um quebrador de paradigmas, extrapolando o conceito de "adaptação de quadrinhos" e ganhando respeito para um gênero que sempre rendeu muita grana, mas pouco prestígio. A atuação singular de Heath Ledger dominou as atenções, mas não é o único mérito deste drama policial exemplar. Se existir justiça, ao menos quatro indicações a Oscars importantes estão por vir.

2) Sangue Negro

As mútuas humilhações entre os personagens de Daniel Day-Lewis (um magnata do petróleo) e Paul Dano (um ganancioso pastor de araque) são cenas antológicas do cinema recente, em mais uma direção primorosa de Paul Thomas Anderson. Um autêntico clássico moderno, muito mais merecedor do Oscar 2008 do que Onde Os Fracos Não Têm Vez.

3) Homem de Ferro

O primeiro produto dos Marvel Studios é uma aventura inteligente, com excelente elenco, e já andou desbancando o Batman em algumas premiações. O papel de Tony Stark caiu como uma luva para Robert Downey Jr. e o filme é o primeiro passo na criação de um universo cinematográfico coerente e interligado, conduzindo à formação dos Vingadores, em alguns anos.

4) Wall-E

A Pixar é detentora de uma coleção invejável de pontos altos, e este é certamente um "Everest" entre eles. A história do robozinho compactador de lixo em busca do amor diverte, emociona e faz pensar. Nada mau para um desenho cujos primeiros 30 minutos quase não têm diálogos.

5) Rebobine, Por Favor

Uma engraçada e emocionante homenagem ao caráter artesanal do cinema, com divertidas "suecagens" (refilmagens com sérias limitações orçamentárias) de grandes sucessos do passado. Deve haver algo muito especial no que rappers comem, bebem ou fumam, que os torna tão bons atores: Mos Def já havia me impressionado em O Guia do Mochileiro das Galáxias e mostra bastante talento, mais uma vez.


O ATOR
Heath Ledger, que não interpretou o Coringa: virou ele.

A ATRIZ
Ano fraco. Na falta de outra melhor, fico com Frances McDormand em Queime Depois de Ler. Eu deveria ter assistido Vicky Cristina Barcelona.

01/01/2009

Ora, direis, fazer reformas!

Ora, direis, fazer reformas!

A esta altura, já não é novidade para ninguém: entrou em vigor a reforma ortográfica que visa a unificar a escrita do sexto idioma mais falado no mundo. Junto com ela, as inevitáveis queixas e dúvidas quanto à extensão, critérios e aplicabilidade das mudanças. Boa parte dessa contestação é embasada em conservadorismo e má-vontade – reação, diga-se, plenamente justificável. Afinal, ninguém gosta de pensar que, de repente, toda a sua biblioteca e seu conhecimento tácito da língua ficaram obsoletos.

Não deixo de pensar que boa parte dessas reclamações baseia-se na simples mania de reclamar e que isso bate especialmente forte aqui no Brasil, onde tudo é motivo para as pessoas bancarem as coitadas. Lembro da tempestade em copo d’água que foi a adoção do código de operadora nas ligações interurbanas, algo hoje tão automático para nós quanto antes era não usá-lo. Do estranhamento e resistência às mudanças, logo passaremos ao hábito e conforto com as novas regras. É inevitável, felizmente.

Imagino que, para os portugueses, deva ser bem mais difícil. Eles ainda ostentam com orgulho formas ortográficas que, para nós, parecem arcaicas, como “actor” e “óptimo”. Para um brasileiro, ler um artigo em português “puro” pode tornar-se uma tortura por conta desses detalhes. Se a reforma tornar essa leitura mais fluente, ela já se justifica.

Fala-se em empobrecimento do idioma, mas acredito que uma língua não se faz rica apenas por ser complicada. A simplificação não é sequer privilégio do português. Leia um livro ou site em inglês contemporâneo e, em seguida, leia Shakespeare. É outro idioma, praticamente. Se certos aspectos da reforma parecem desnecessários, como a extinção de alguns acentos em ditongos abertos, convém lembrar que, além de Brasil e Portugal, outros quatro países e algumas colônias fazem uso deste idioma e devem ter recebido sua cota de concessões favoráveis à dialética local.

Além do mais, não importa quantas palavras tenham mudado, dificilmente usaremos tantas delas juntas, de modo que um texto pareça tão aberrante a quem o lê. No fim, tudo fica resumido a uma questão de hábito, de exposição às novas regras. Quanto menos intransigência, mais rapidamente a reforma será absorvida. Este velho nerd, que implicava com seus pais quando eles esqueciam acentos abolidos em palavras como “nôvo”, está disposto a fazer sua parte.

DVD: O Operário

DVD: O Operário

O mecânico industrial Trevor Reznik (Christian Bale) não é mais o mesmo. Nem poderia: ele já não dorme há cerca de um ano! A privação de sono aos poucos consome sua saúde física e mental. Sua vida social resume-se a eventuais visitas de uma prostituta. Apesar disso, sua vida segue sob controle, até que ele, acidentalmente, causa a mutilação de um colega de trabalho. Hostilizado pelos demais e perseguido por um mecânico russo que ninguém parece conhecer, Trevor tenta não se perder entre a realidade e a alucinação, para solucionar mistérios que o colocam em perigo.

O Operário é um bom suspense. Não muito diferente do que se vê por aí, mas tem um ponto de partida mais interessante (imagine como seria passar um ano sem pregar o olho!), além de contar com a entrega absurda de Christian Bale ao papel: se você achou que Tom Hanks emagreceu para fazer Náufrago, vai ficar chocado com o sacrifício feito pelo então futuro Batman (o filme é de 2004). Mesmo as maiores pirações puxadas para o sobrenatural acabam ganhando uma explicação decente ao final. Bônus para nerds babões: Jennifer Jason-Leigh, ainda muito bonita, pagando peitinho. Nota 8,0.