30/04/2009

Noisettes - Wild Young Hearts

Noisettes
A próxima grande coisa do pop?

Dizem que o segundo disco é complicado e traumático, que a maioria das bandas se perdem em suas próprias pretensões e acabam soando broxadas, quando queriam apenas mostrar-se maduras. Pelo menos, é o que diz uma daquelas famosas regras não-escritas do pop.

Regras, como a gente sabe, foram feitas para serem quebradas - e que delícia é a gente estar vivo para ver uma banda mandar as previsões às favas, de forma tão espetacular. Noisettes é um genial trio inglês que fez um primeiro disco (What's The Time, Mr. Wolf, 2007) de punk pop rápido e gritado, uma coisa à la The BellRays, ainda mais por também contar com a presença de uma vocalista negra de voz soul, a também baixista Shingai Shoniwa.

E não, eu não conhecia o Noisettes até semana passada! Tive a felicidade de ser iniciado por este segundo disco, Wild Young Hearts, uma daquelas bolachinhas (será que hoje, em tempos digitais, teremos que chamar discos de "pastinhas"?) absurdamente prazerosas, que fazem a gente passar o dia inteiro com um sorriso no rosto.

Variado sem perder a unidade, Wild Young Hearts tem de tudo. Com a fúria punk do primeiro disco domesticada para só atacar quando necessário, a banda faz um arrastão de felicidade e melodias impecáveis, que começa com a delicadeza acústica de "Sometimes", passeia pelo funk do single "Don't Upset The Rhythm", prossegue com a nostálgica e assobiável faixa-título (guitarras rosnam no refrão) e caminha para o fim com a explosão soul de "Never Forget You" e o embalo technopop de "Saturday Night".

Há muito mais a curtir nas 11 impecáveis faixas, todas executadas com garra, graça, frescor e talento. Não me lembro de outro CD recente ter descido tão redondinho. O que mais a gente pode querer de uma banda tão jovem e promissora? Ou Noisettes estoura mundo afora, ou não existe justiça neste mundo.

25/04/2009

Ridi Pagliaccio!

Ridi Pagliaccio!
O duplo ataque do Coringa na Panini

Com estes lançamentos, a Panini atingiu uma espécie de ápice do deslumbramento com as edições em capa dura. Coringa e A Piada Mortal, apesar do preço camarada (R$ 24,90 e R$ 19,90, respectivamente), podiam perfeitamente prescindir de tão supérfluo luxo e receber edições mais modestas, ainda mais quando se considera seu reduzido número de páginas: A Piada Mortal, por exemplo, é tão fina que parece uma capa vazia!

Sim, eu gosto das edições em capa dura, mas acredito que apenas edições ou reedições realmente especiais deveriam ganhar tal acabamento. Os meus critérios e os seus, claro, são altamente subjetivos e discutíveis, mas uma coisa é ter capa dura para fenômenos artísticos e de mercado, como Watchmen ou Os Supremos Vol. 1, clássicos desde o berço e perigosamente volumosos para uma edição brochura. Outra, bem diferente, é embalar obras tão rarefeitas em alto luxo, quando nem lá fora elas são vendidas assim.

Que ninguém ponha em dúvida, porém, os méritos de qualquer das duas histórias em questão. A Piada Mortal, de Alan Moore, é um dos vértices do triângulo de tramas imortais que consolidaram a imagem moderna do Batman e o clima soturno de suas aventuras, ao lado de Ano Um e O Cavaleiro das Trevas, ambas de Frank Miller (por falar nessa última, quando a Panini vai dignar-se a reeditá-la em capa dura? O mercado de livrarias não tem que ser constantemente reabastecido? Será possível que, tendo em vista que a primeira edição esgotou-se, eles achem que ela pode encalhar?).

É deveras interessante saber, no posfácio escrito pelo desenhista e novo colorista Brian Bolland, que a origem bolada para o Coringa (tida como definitiva) e o aleijamento de Barbara Gordon ocorreram a Alan Moore meio que como uma “vingança” motivada pressão de escrever a história. Não é de admirar que agora, nos EUA, quando ele é desafeto declarado da DC e não perde uma oportunidade de pichar as adaptações para cinema de suas obras, a editora esteja pensando em desfazer, sabe Deus como, o martírio de Barbara Gordon, que acabou por transformá-la numa personagem muito mais útil e interessante, a Oráculo.

As cores de Bolland primam pela discrição, ao contrário da psicodelia do trabalho original de John Higgins, particularmente na sequência da casa de espelhos. Com suas cinquenta e poucas páginas, A Piada Mortal teve que ser vitaminada com o conto “Sujeito Inocente” (extraído do Batman Preto & Branco Vol. 1 e colorizado) e uma reedição da Batman 1 original, de 1940, primeira aparição do Coringa. Mesmo assim, é tão fina e leve dentro de sua capa dura, que a gente a segura nas mãos com medo de “quebrar”. Pode ficar bonito na estante, mas precisar, não precisava.

Coringa sofre um pouco menos de “anorexia celulósica”, mas agradaria mais em capa cartão e com preço abaixo dos R$ 20. Na trama escrita por Brian Azzarello (100 Balas) e desenhada por Lee Bermejo (Lex Luthor: Homem de Aço), o Coringa deixa o Asilo Arkham e, escoltado por um pé-de-chinelo chamado Jonny Frost, parte para recuperar o comando do crime em Gotham. O bom da história é focar mais no aspecto gangster do Coringa do que ficar remoendo clichês sobre sua loucura – aliás, que loucura? Assim como no filme que consagrou Heath Ledger, o Coringa de Coringa (sic) deixa claro desde o princípio que louco ele não é. Sobra, então, a maldade que ele mostra de sobra, em vinganças nada delicadas sobre seus desafetos.

O passeio pelo submundo de Gotham contempla ainda o Crocodilo, o Pinguim e o Duas-Caras. Existe ainda, é lógico, o Batman, aquele Batman sacana que Azzarello apresentou em Cidade Castigada, publicada em Batman 23 e 24 (2004), que adora falar pouco e esmurrar muito. Ao contrário da lucidez com que geralmente é representado por outros autores, aqui ele se permite dar uma bela sacaneada no bandido, na virtual única vez em que abre a boca. Variações na arte-final (dividida entre Bermejo e Mick Gray) saltam aos olhos, mas não chegam a incomodar. Difícil dizer se Coringa alcançará o mesmo status de clássico de A Piada Mortal, mas apesar do enfoque diferente sobre a personalidade do infernal nêmesis do Batman, é companhia mais do que digna.

18/04/2009

Luz verde no fim do túnel

Luz verde no fim do túnel
Será que só Geoff Johns pensa no futuro?

Há seis meses, anunciei aqui minha decisão de limitar meu consumo de revistas mensais da DC/Panini a quatro títulos: Batman, Superman, Liga da Justiça e Lanterna Verde. Na ocasião, me disse o parceiro Paranoid Android, via MSN, que com tal decisão eu seria um nerd mais feliz. Resignado, concordei; mas, por dentro, eu não entendia muito bem como era possível ser feliz deixando de lado as histórias dos personagens que eu tanto amava, por mais que sua recente qualidade estivesse oscilando (quase sempre para baixo).

Pois bem, aqui estamos. São quatro meses sem comprar Novos Titãs ou Superman & Batman (sim, eu confesso, fraquejei durante dois meses) e, vejam só, me sinto um nerd realmente mais feliz. Não apenas porque conseguir colocar um critério de qualidade acima do impulso de colecionador, mas, também, por ter escolhido preservar o material que, hoje, melhor compensa o investimento. Enquanto isso, sucessivas edições das malfadadas maxisséries Contagem Regressiva e Prelúdio Para Crise Final chegam às bancas, sem que eu sinta o menor comichão de comprá-las (e pelo que observo ao ler as edições emprestadas de um aluno, cada vez mais, me convenço de que fiz a coisa certa!).

Também ando lendo emprestadas algumas coisas da Marvel, com positivo destaque para Thor, Capitão América, Thunderbolts e Quarteto Fantástico, fase Millar. Os Novos Vingadores do bajulado Brian Bendis é lixo puro, apenas repetindo seus cacoetes: o linguajar coloquial (por vezes, chulo) e os diálogos em estilo ping-pong que, um dia, já foram interessantes. De modo geral, nada está tãããão superior à DC assim, mas a Marvel domina de 70% a 80% do Top 10 americano todo mês. "Por que será, Batman?", você pergunta, aflito.

A saber:

1) Mesmo empregando um exército de incompetentes, a Marvel também concentra um maior número de bons criadores. Isso, provavelmente, deve-se ao fato de não possuir por trás de si um megaconglomerado de entretenimento, como é o caso da Warner em relação à DC. Em termos práticos, isso significa menos caciques apitando e um pouco mais de liberdade criativa.

2) A Marvel tem um histórico recente de grandes sucessos no cinema, com pelo menos três franquias de sucesso, enquanto a DC só teve dois filmes bem-sucedidos, ligados a um mesmo personagem, o Batman. Talvez um bom filme não forme toda uma geração de novos leitores, mas mesmo que apenas dois fiquem interessados, hão de recomendar a leitura a outros dois, que recomendarão a outros dois, e assim sucessivamente. É um trabalho de formiga, mas certamente tem dado frutos. Enquanto a Marvel deitava rolava nas telas, a DC cancelava todas as suas possíveis adaptações.

3) Mesmo que se possa criticar a Marvel pela mais que duvidosa qualidade (?) de coisas como Miss Marvel, Exilados e Pantera Negra, não se pode deixar de admitir: o seu universo encontra-se num invejável estado de coesão, com tudo convergindo espetacularmente para a Invasão Secreta e, posteriormente, ao Dark Reign. A DC já conseguiu isso antes, não faz muito tempo, naquele um ano ou dois que conduziram até a Crise Infinita. Hoje, porém, às portas da Crise Final, cada escritor atira para um lado e o leitor que se salve, se puder.


Este último talvez seja o sintoma mais nefasto da propalada decadência da DC: a falta de um plano de longo prazo (ou da divulgação deste) para resgatar e preservar o interesse dos leitores. Hoje, na DC, tudo parece muito transitório, descartável e mediano, exceção feita às bissextas passagens de Brad Meltzer pela casa, à alucinógena egotrip de Grant Morrison e aos excitantes one-shots de Paul Dini com o Batman; e ao paciente e meticuloso trabalho do mais competente e versátil escritor nos quadros da editora, Geoff Johns, com o Lanterna Verde e Superman. Embora também esteja fazendo bonito em séries menores, como Sociedade da Justiça e Gladiador Dourado, Johns tem sido particularmente feliz na construção de uma mitologia consistente para o Super e, mais ainda, para o Lanterna.

No caso do Homem de Aço, cuja revista sobreviveu, por anos, mais do apelo inextinguível de seu personagem do que de boas histórias, a tarefa de reerguê-lo das cinzas foi inicialmente dividida com os também inspirados Greg Rucka e Mark Waid. Johns, porém, logo se destacaria dos demais, alcançando picos de adrenalina em Último Filho. Agora, atrela de modo definitivo o Superman à Legião dos Super-Heróis clássica, desde a Saga do Relâmpago (em parceria com Brad Meltzer) até a vindoura Legião de Três Mundos, em que deve resolver a quizumba da coexistência da "Malhação dos Super-Heróis" que habitava a extinta Os Melhores do Mundo, com a versão mais icônica (que parece ir além da evidente diferença etária).

Com o Lanterna Verde, porém, Johns se superou, pegando um personagem (Hal Jordan) desgastado por anos de desmandos, que iam desde sua transformação em vilão com nome de remédio (Parallax) a hospedeiro do Espectro, e o devolveu ao seu lugar de direito: o de principal Lanterna Verde do setor 2814. Olha que estou falando isso depois de ter me divertido bastante com as aventuras de Kyle Rayner, sozinho ou com a Liga da Justiça. Kyle não apenas preservou, como reacendeu toda a mitologia esmeralda e, felizmente, não precisou ser morto em uma aventura mequetrefe para abrir caminho ao seu antecessor. Johns, porém, jamais teve ou deixou dúvidas: o astro da revista é Jordan. Os lanternas ao seu redor são apenas coadjuvantes.


Daí que Hal Jordan foi ressuscitado em Lanterna Verde: Renascimento, uma história que dava explicações convincentes para a loucura sangunária de Hal e até para o surgimento de seus precoces cabelos brancos. De quebra, Johns ainda acabou com as patacoadas envolvendo outro favorito dos leitores, Guy Gardner, também maltratado pela "genialidade" de escritores que o fizeram descobrir-se um híbrido de alienígena que transformava partes do corpo em armas. Tudo estava de volta ao seu lugar: Hal Jordan estava vivo e portando seu anel, Guy Gardner voltava a ser um lanterna e o também ressuscitado Sinestro provava-se um grande motherfucker.

O que fazer depois? Apontar para o futuro, lógico. O plano de restaurar a glória de Hal Jordan não poderia limitar-se a tirá-lo da tumba. Era preciso um grande desafio para que o herói, ainda sofrendo desconfiança de alguns colegas na Terra e na Tropa, pudesse provar novamente seu valor. O desafio veio na forma da Tropa Sinestro, comandada pelo próprio, reunindo as criaturas mais capazes de instilar grande medo e ostentando a luz amarela de Parallax. Para vencê-los, os Guardiões tiveram que fazer uma perigosa concessão aos seus soldados: permitir força letal. As primeiras consequências dessa nova liberdade de ação já se fazem sentir em Lanterna Verde 8, da Panini.


Assim, quando vemos Geoff Johns pacientemente preparando o terreno para uma guerra entre todos os espectros da luz, cada cor representando um aspecto do caráter humano, podemos colecionar algumas certezas: ele ama esses personagens e sabe muito bem aonde os está levando. Johns escreve hoje com olhos no futuro. Melhor ainda, está erguendo seu castelo em bases pra lá de sólidas (a Guerra dos Anéis foi uma profecia imaginada, em uns poucos quadrinhos, por Alan Moore nos anos 80, numa história protagonizada por Abin Sur - consulte o seu Grandes Clássicos DC 9), acrescentando a elas seu toque pessoal. Isso é muito mais do que vêm fazendo 95% do staff da DC Comics atualmente. Há que se elogiar, porém, a decisão da editora de manter o nosso Ivan Reis no comando do lápis, ao menos nos momentos mais importantes. Sem ele, a Guerra dos Anéis não teria tido o mesmo impacto.

Por tudo isso, quando os sites de entretenimento aparecem com um promissor boato de que Geoff Johns e Jim Lee formariam em breve a nova equipe criativa da Liga da Justiça (hoje entregue a aventuras simpáticas, porém pouco impactantes, de Dwayne McDuffie e outros), vejo motivos para comemorar e dizer: yes, please! Johns não é nenhuma unanimidade (vide seu fiasco com os Novos Titãs e a Crise Infinita), mas não há ninguém na DC com maior poder de consertar cronologias estragadas (vide seus triunfos com o Gavião Negro e a Sociedade da Justiça) e reviver de maneira decente personagens mortos, tanto que a DC confiou-lhe a tarefa de, após a Crise Final, trazer de volta Barry Allen, o Flash que morreu na Crise de 1985, ocupante de um dos poucos túmulos não violados da editora - isto é, até hoje.

Talvez seja muito cedo para dizer isso, mas... in Johns we trust.

05/04/2009

"No meu tempo é que era bom!"

"No meu tempo é que era bom!"


Em 2000, chegou às lojas um disco simplesmente impecável, em forma, conteúdo e propósitos. Escuta Aqui mostrava que, aos 15 anos de carreira, o Biquini Cavadão (desde sempre, uma banda da "segunda divisão" do rock nacional) estava pronto para o século 21. Com produção gringa e uma música de trabalho (a faixa-título) que emulava o melhor de New Order e The Cure (quem não ouviu ecos de "Friday I'm In Love" que atire a primeira pedra), o Biquini Cavadão versão ano 2000 fazia pop como gente grande e inteligente.

Infelizmente, Escuta Aqui veio ao mundo no pior dos momentos: o auge da era saudosista das gravadoras, quando 90% do que os artistas nacionais lançavam no mercado eram coletânea, ao vivo e acústico. Como ousavam estes rapazes aparecer com um disco de material novo, interessante e mega-ambicioso em sua simplicidade? Ah, isso não podia ficar impune! Geladeira neles!

Daí que, já no ano seguinte, sabe Deus se por decisão própria ou imposta pela gravadora, o Biquini lançou 80, com suas versões para o repertório alheio daquela década, incluindo uma releitura de sua própria "Múmias", que reaproveitava e dava novo destaque ao vocal de Renato Russo na versão original, de 1985. Por fim, dois Ao Vivo intercalados por apenas UM trabalho inédito (o honesto, porém mediano, Só Quem Sonha Acordado Vê O Sol Nascer, de 2007). Por sobrevivência ou por gosto, o Biquini Cavadão capitulou à onda revivalista e assumiu de vez uma identidade de banda "de baile".

Toda essa introdução, por mais que pareça, não era para falar do Biquini Cavadão, mas sim para levantar uma questão que ronda 10 entre 10 debates sobre música: o que é antigo é sempre melhor? Não se produz mais música original, apenas emulações do passado? Admito que muitos dos meus artistas favoritos são hoje veteranos em torno dos 50 anos, mas será que os jovens de hoje não sabem mesmo fazer música interessante?

Sabem, sim. É lógico que, quando você ouve a uma FM ou assiste à MTV e vê artistas milimetricamente fabricados para atingir um público-alvo e totalmente desprovidos de qualquer resquício de alma verdadeira (citar nomes aqui vai, inevitavelmente, parecer pessoal e provocativo demais), alguém com o mínimo de conhecimento sobre música vai sentir-se ultrajado e descrente - e esta não é uma declaração elitista ou exclusivista: existe, sim, música boa de verdade e música ruim de verdade, que pairam muito acima ou rastejam muito abaixo de questões como o gosto pessoal.

Ao contrário do que se diz, não é a música pop que é implacável com os "não-jovens", mas sim, o mercado. Tratar uma redução nas vendas de artistas com 20 ou 30 anos de carreira como declínio é ignorar o curso natural das coisas: os jovens buscam uma identificação com outros jovens; os já não tão jovens assim seguem fiéis, mas quase sempre assumem compromissos que nem sempre deixam espaço (ou dinheiro) para seguir com a adoração fanática à sua banda favorita. Exceções como Madonna e U2, ainda relevantes e recusando-se a viver de glórias passadas, apenas confirmam essa regra.

E aos outros, o que acontece? Ora, eles seguem produzindo, não raramente melhor do que em seus anos dourados. Fazem turnês mais modestas e vendem um décimo do que vendiam antes, ou menos, mas estão lá, dando vazão ao talento e à força criativa que impele os artistas verdadeiros para a frente.

Exemplos? O Screaming Trees é um nome recorrente quando se fala dos anos do grunge, mas quantos sabem que Mark Lanegan lançou dois fabulosos discos de country music, junto a Isobel Campbell, ex-vocalista do Belle & Sebastian? Elvis Costello (que você talvez só conheça da onipresente "She", que nem é dele), nome forte dos anos 70, lança belos discos quase todo ano. Robert Plant, do lendário Led Zeppelin, ganhou o Grammy de melhor álbum este ano, ora pombas!

Aqui no Brasil não é muito diferente, mas parece haver uma consiração midiática que mantém a velha guarda vivendo eternamente dos seus bons tempos, dando lugar a nulidades com delineador nos olhos. Isso não impediu, porém, que aparecesse uma Mallu Magalhães, que, por mais chata que seja (e, meu deus, como ela é chata!), merece aplausos por destacar-se da manada emo-skatista e iniciar sua carreira em bases mais saudáveis, por menos espontâneas que suas referências sejam.

De mais a mais, cobrar originalidade no rock é insensato, às raias do inútil, uma vez que o gênero já nasceu apoiado sobre os ombros de coisas já existentes: o blues, o jazz e o country. O erro dos fãs mais jovens ao desprezar os artistas mais velhos é o mesmo que cometem os velhos em suas críticas aos jovens: esquecer que o tempo é fluido e que o presente não é um momento estanque, desligado do passado. Enquanto uns poderiam ter mais interesse pelo que se fez antes (às vezes, bem melhor) de seus pululantes ídolos e assim desenvolver um ponto de vista mais crítico, outros poderiam entender que existe respeitosa reverência ao passado, e não mera vampirização, no trabalho de jovens músicos.

A meu ver, todas as bases possíveis já foram lançadas e tudo que vem agora vai apenas reciclar, de forma mais ou menos interessante, o que já foi feito - o que não diminui em nada o mérito dos jovens, pois compor uma linha melódica decente não é trabalho para qualquer zé-mané e não há facilidade tecnológica que substitua o talento musical genuíno. Você pode reclamar, alegando que os "cantores" (cantores?) de funk estão aí pra me desmentir, mas lembre-se que um baile funk cumpre propósitos sociais (uns louváveis, outros deploráveis) que vão além da música (música?).

Relaxe, então, meu caro coroa, do seu apego por sua coleção dos Beatles, do Iron Maiden, ou seja lá quem for, e abra seus olhos e ouvidos para os bons nomes que surgem todo ano e que, graças a essa coisa bendita chamada internet, estão ao alcance de seus ouvidos de uma maneira que era impensável há 20 anos ou mais. Você, também, jovem, que acha que qualquer um com mais de 25 anos não faz outra coisa além de pagar mico, deixe de ser imbecil e saiba que só consultando o passado é que se consegue alguma cultura musical.

E assim, todos foram (e serão) felizes para sempre.