24/10/2009

Rolam as pedras...

Rolam as pedras...

Eu devo estar mesmo ficando velho.

Após a segunda morte da Bizz, em julho de 2007, a Rolling Stone ficou como o único veículo de imprensa musical de grande alcance e não excessivamente segmentado. Neste mês, ela comemora 3 anos nas bancas e eu não estou nem um pouco afim de aplaudir.

Cansei da RS na edição de agosto, aquela com uma bela capa dedicada a Raul Seixas e outra (medonha!) a Michael Jackson. Cansei daquele formato cretino. Cansei das capas que abrem no meio, abrem para trás, dobram, desdobram. Cansei dos suplementos inúteis que despencam quando eu abro uma edição plastificada. Cansei das inúmeras páginas de publicidade. Cansei das extensas matérias sobre política, desmatamento e trabalho escravo, que roubam o espaço da cultura pop (se eu quisesse saber da "dura realidade", compraria a Veja). Cansei das insuportavelmente prolixas reportagens gringas, que tentam (em vão) dar substância a esses ídolos fuleiros que dominam as paradas.

Dada a profusão de anunciantes graúdos, arrisco dizer que a revista deve estar vendendo bem. Palmas pros editores, que devem estar rindo de orelha a orelha, ainda mais depois que sua principal concorrente foi pro saco. Na verdade, a Bizz versão século 21 pecou demais com suas idiossincrasias e nem deve ter dado tanto trabalho assim. Porém, a soberba edição especial dedicada a Michael Jackson, publicada em julho deste ano, dá uma aula de precisão, concisão e emoção textual na RS. Gostaria de acreditar que isso sinaliza uma nova ressurreição da Bizz num futuro próximo e aproveito para dar algumas sugestões: a) que zerem a numeração; b) que não metam um mala-cabeça desconhecido na capa (Devendra Banhart?); c) que deem atenção aos bons nomes de hoje em dia, ao invés de excessivo saudosismo e necrofilia; d) que não capitulem à nauseante onda black-baba norte-americana.

Seja como for, a Rolling Stone acaba de ganhar uma concorrente de peso, a Billboard Brasil. A capa da primeira edição traz o assim chamado Rei - sim, ele, o meu amigo Roberto Carlos. Entretanto, por que, meu Deus, mais uma revista com formato "excêntrico"? Juro, isso me desanima demais. Ninguém pensa no suplício que é segurar um trambolho desse na sagrada hora do "número 2"? Apesar disso, decidi repensar minha imediata decisão de não comprá-la e aguardo a chegada de um exemplar por aqui.

Assim, terei uma opção à manjada e altamente questionável lista das 100 Maiores Músicas Brasileiras que orna a capa da RS deste mês. É aquilo mesmo que você está pensando: "Carinhoso", "Águas de Março", "Garota de Ipanema", "Trem das Onze" e uma interminável sequência de obviedades, coroada com a consagração da hiperestimada "Construção", de Chico Buarque, como a primeira colocada (buuuuuu!!!). Isso sem falar nos disparatados critérios que excluíram toda e qualquer canção da Legião Urbana (gostem ou não, canções como "Tempo Perdido" e "Será" marcaram toda uma geração e deveriam estar ali), mas deram um lugarzinho (o 100º) à breguice de "Anna Júlia", dos bajulados Los Hermanos. Inacreditável.

Aguardem, para breve, a minha própria edição desta lista. Tenho certeza de que vai sair muito mais legal.

EDITANDO: Eu juro que procurei bastante quando folheei a revista na banca, mas, deixei escapar "Que País É Este?" ali no 81º lugar. Enfim, tem Legião Urbana na lista da RS, mas isso não a tornou melhor. Esperem e verão.

04/10/2009

Brasil, potência mundial

Brasil, potência mundial
Estamos prontos para ser vidraça?


Na década de 1980, Howard Chaykin profetizava, em sua criação American Flagg!, que em 2032 a economia dos Estados Unidos estaria em frangalhos e que o Brasil seria uma das potências da nova ordem mundial. Os anos passaram e o que parecia um mero delírio criativo (principalmente para nós) está bastante próximo da realidade, ainda que com ressalvas: os EUA sofreram um baque com a crise, mas ainda não estão na lona; o Brasil cresceu em importância, mas não alcançou o status de país desenvolvido, embora este seja um conceito tão relativo. Afinal, o que Rússia e Itália, que integram o G8, têm que nós não temos mais e melhor?

A verdade é que o Brasil está realmente na crista da onda. Descobrimos uma reserva inestimável de combustível fóssil (o petróleo do pré-sal) e, ao mesmo tempo, temos uma alternativa ambientalmente correta (o álcool). O poder aquisitivo da população aumenta e negócios como a construção civil crescem em ritmo galopante. Fomos um dos países menos afetados pela crise econômica que abalou o mundo no fim do ano passado. Fomos escolhidos para sediar a Copa do Mundo de 2014 (ok, praticamente não havia concorrência, mas...) e, agora, a Olímpíada de 2016.

O mundo deve estar olhando um pouco acima dos exotismos, da violência e da sexualidade e pensando, "ei, talvez, enfim, exista mesmo um país ali". Admito, é ótimo colher os bônus de ser uma liderança mundial emergente. Tenho dúvidas, porém, se teremos a mesma disposição em assumir os ônus de nossa nova condição. Afinal, ninguém cresce sem despertar a inveja alheia e fazer eventuais inimigos.

Veja este bafafá com Honduras, por exemplo. Posso estar errado e não entender nada de diplomacia externa, mas por que, diabos, tínhamos que nos meter naquilo? Não se deve apoiar golpes militares, como o dado por Micheletti, mas tampouco se deve apoiar projetos de perpetuação no poder, como o que Zelaya, estimulado por (sempre ele) Hugo Chavez, pretendia "sugerir" em plebiscito. Daí, ficamos de co-protagonistas de um quase desastre político e diplomático que, se não acabou em tragédia, foi por muito pouco. Ainda que este impasse se resolva da melhor maneira possível, uma intervenção estrangeira em assuntos de Estado jamais passa 100% impune. A facção derrotada sempre tem simpatizantes, inclusive em outros países.

Terá sido este um episódio isolado? Ou apenas o primeiro de uma série? Estamos prontos para, a despeito da fama de cordiais e hospitaleiros, colecionar inimigos? Estamos prontos para ser vidraça, em vez de pedra? Será que aguentaremos, com a mesma dedicação com que sempre esculhambamos os ianques, a pecha de "porcos imperialistas tupiniquins"? A liderança exercida pelo Brasil acabará exigindo decisões impopulares e firmeza em momentos difíceis. Quero só ver se seremos capazes de defender o país, quando o que estiver em jogo não for apenas um título de Copa do Mundo.