23/05/2010

Onde Vivem Os Monstros

Onde Vivem Os Monstros


Na ânsia de aliviar e justificar suas faltas como pais, os adultos, de vez em quando, gostam de se iludir, dizendo a si mesmos e aos outros que seus filhos são auto-suficientes. Para tanto, utilizam seu desembaraço com computadores e celulares como evidência, esquecendo-se de que, não importa quanta tecnologia envolvam, nem quão caros sejam, certos itens, nas mãos de crianças, não passam de brinquedos. Mesmo no século 21 e com tamanha exposição a agentes "adultificantes", como a violência e a sexualidade banalizadas de hoje, crianças sempre foram e sempre serão crianças. Pais que falham em admitir isso não foram feitos para a paternidade.

Daí que, diante da maré de idiotização infanto-juvenil a que me referi no post anterior, um filme como Onde Vivem Os Monstros tem muito mais valor. Não apenas porque é cinema de primeira grandeza, com direção do excelente Spike Jonze (diretor de filmes tão incomuns quanto fascinantes, como Quero Ser John Malkovich e Adaptação) e atuações convincentes de humanos e bonecos (especialmente destes últimos), mas porque sua história nos faz lembrar que a maturidade não é algo que a criança decide por si só que chegou, nem conquistada através do domínio desse ou daquele artifício tecnológico. Ela é fruto de experiências doces e amargas; vem do controle de emoções difíceis de domesticar, como a raiva e a frustração; e do aprendizado da difícil arte de admitir o erro, pedir perdão e demonstrar afeto àqueles que machucamos.

Sentindo-se rejeitado pela irmã adolescente (que já não se interessa por suas brincadeiras) e pela mãe (que o "trocou" por um novo namorado), o agitado Max, de 10 anos, decide fugir de casa. Em um barco, ele chega a uma ilha habitada por monstros peludos gigantes. Sua empatia pelo problemático Carol (voz de James Gandolfini) é imediata. Como Max, Carol tem problemas de relacionamento com a irmã. Apesar de não ser muito bem aceito por todos os monstros, Max é declarado rei e começa a mudar as coisas. No início, tudo vai bem, mas logo ele percebe que administrar um reino (ou um lar) e os inevitáveis conflitos entre os monstros (ou pessoas) não é exatamente a mais fácil das tarefas.

Se eu tivesse 10 anos, provavelmente terminaria a sessão sentindo minha vida dividida entre antes e depois de Onde Vivem Os Monstros. Ele fala ao coração e à cabeça infantil de um modo direto, mas que não subestima sua capacidade ou sua necessidade de aprender. Como eu acabo de provar, através da minha empolgação, adultos também se divertem um bocado, enquanto admiram a perfeição técnica e narrativa de uma história que, afinal, fala à nossa criança interior, aquela que nunca envelhece, não importa quantos anos passem. Acredite, cinema foi feito para isso. Nota 10.


PS: eu tinha me preparado para escrever uma resenha exaltando a diversão de primeira que é o Sherlock Holmes de Guy Ritchie, mas, de repente, a movimentada, inteligente e engraçada aventura vitoriana dos impecáveis Robert Downey Jr., Jude Law, Rachel McAdams e Mark Strong (que Sinestro teremos!) parece um pouco menos importante. Entretanto, permanece a dica: assista, que é legal paca.

18/05/2010

Síndrome de Peter Pan

Síndrome de Peter Pan

Justin Bieber: "Podicrê, mano, eu sô das quebrada, tá ligado?"

O rock nunca foi muito gentil com os maduros. Alguns dos lemas mais caros ao gênero professavam que a morte era preferível à velhice: "quero morrer antes de ficar velho", "viva rápido, morra jovem", "é melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez". É claro que essas ideias foram perdendo a validade e até seu encanto, conforme as próprias pessoas que as pregavam foram chegando aos seus 40, 50, 60 anos ou mais.

Gente muito jovem no topo das paradas não chega a ser novidade e não tem que ser sempre uma coisa nociva, vide Michael Jackson. Daí que, olhando para as paradas, sites e canais de entretenimento hoje em dia, fico pensando se as pessoas com mais de 16 anos não compram música, não vão ao cinema, nem assistem TV, porque parece que a indústria só tem se preocupado em agradar à gurizada, esse público estranho que troca de paixão a cada banho tomado.

Na música, Justin Bieber é o nome que não sai das bocas e das fantasias pré-adolescentes femininas. O garoto parece um estereótipo: branquinho, loirinho, penteado emo e canções tolinhas sobre garotas, com uma embalagem R&B cafona. As meninas estrilam, "ele é produzido pelo Usher!", como se isso lhe conferisse alguma credibilidade de rua (coisa que nem Usher tem) ou lhe tornasse menos garoto-Toddy.

No Brasil, uma vez que NX Zero e Fresno estão ficando "velhos", já arrumaram sucessores no trono da música sem sabor: Cine, Hori, Restart. O maior ídolo da música sertaneja no momento também é um adolescente, Luan Santana.

No cinema e na TV, como bem observou Léo Jaime no Twitter, a capacidade dramática de uma atriz adolescente é medida pelo sua desenvoltura em franzir a testa e balançar a cabeça negativamente, ao mesmo tempo. Menção desonrosa seja feita a Miley Cyrus: ruim cantando, pior atuando. Hannah Montana é uma das coisas mais imbecis da TV. O Disney Channel, diga-se, tem sido exemplar no despejo de nulidades teen no mercado: Jonas Brothers, Demi Lovato, Vanessa Hudgens e daí pra pior.

A histeria motivada por Crepúsculo me faz lembrar aquela do finalzinho de 1997, quando era impossível assistir a Titanic no cinema, devido à gritaria a cada aparição de Leonardo DiCaprio. Hoje são Robert Pattinson, o vampiro Edward, e Taylor Lautner, o lobisomem Jacob, que polarizam a atenção das menininhas sonhadoras, que se imaginam na pele da fraca Kristen Stewart e sua personagem de nome pretensioso, Bella Swan. A diferença é que Leonardo DiCaprio já era um bom ator e Titanic é um filme infinitamente superior a Crepúsculo.

O pior é perceber que, daqui a seis meses, quando a gravadora decidir que é hora de colocar alguns deles na simbólica geladeira de onde alguns jovens ex-astros jamais conseguem sair, começará a obrigatória peregrinação de drogas, bebedeiras, calcinhas esquecidas, namoros problemáticos e outras manobras que desesperadamente visam à sua permanência sob os holofotes e os tornam mais chatos ainda!

Eu corro o risco de estar soando como um velho dinossauro, relutando em dar passagem à manada faminta de novidades que vem atrás, mas o problema é justamente esse: a falta de graça, de novidade, de qualquer resquício de algo que dê o mínimo trabalho a esses jovens cérebros. Eu gosto, sim, de acompanhar novos artistas, mas, pô, seria muita falta de critério se eu, na minha idade, passasse a usar drogas pesadas!

Meu trabalho como professor me obriga a andar minimamente atualizado com o que acontece aos ídolos dos meninos e meninas sob minha responsabilidade, mas tem horas em que é difícil demonstrar qualquer entusiasmo com suas sugestões culturais. Pior, quando eu tento mostrar-lhes algo mais substancioso, o único contra-argumento que conhecem é "credo, que música velha!" (na verdade, muitas vezes, é algo recém-lançado). Quer dizer, na cabeça deles, eu, do alto da minha secular idade, jamais poderia estar por dentro de algo novo e interessante.

Minha vingança é saber que, em um ano ou pouco mais, eles próprios terão vergonha de admitir suas atuais preferências. Espero que as troquem por outras melhorzinhas.

10/05/2010

Bono faz 50

Bono faz 50


Enquanto certas pessoas gostam de pensar que são Deus, hoje é aniversário do homem que Deus pensa que é: Bono Vox.

Junto com Morrissey, Bono foi a companhia musical mais constante na minha juventude. Meu primeiro contato com ele (leia-se com o U2) foi em novembro de 1985, no pôster encartado na Bizz número 4. Pouco depois, ele ganhava capa na revista e eu me perguntava: quem é esse cara? Por que gostam tanto dele? Entenda que eu morava no fim do mundo e não fazia ideia de como a música do U2 soava.

Nada como uma trilha de novela pra apresentar ao povão um artista legal. "With Or Without You" entrou na trilha internacional da novela Mandala (1987), o que me fez imediatamente correr atrás de The Joshua Tree, o álbum de onde ela foi pinçada. Mais até do que a guitarra de The Edge, a voz de Bono foi o grande chamariz, com seu timbre versátil e entonação apaixonada.

As mudanças na atitude de Bono acompanharam (ou ajudaram a causar) as minhas próprias mudanças. Primeiro, a inflexível seriedade de quem começa a formar valores e ainda acredita que o mundo é apenas preto ou branco. Depois, o saudável aprendizado da autocrítica e da autoparódia, seguido de uma explosão de narcisismo de mentirinha. Por fim, a sabedoria e a tranquilidade vindas com a maturidade. Se você prestar atenção, vai ver que foi assim com você, também.

O legal é que Bono, desde sempre, não estava nem aí pro que diziam dele: quando o chamavam de "chato messiânico", aí é que ficou messiânico (e chato) pra valer; quando o acusaram de "traidor do próprio passado" ao mudar o som do U2, ele experimentou mais ainda na eletrônica e na atitude debochada; quando esse virou seu comportamento-padrão, ele voltou a militar contra as injustiças, mas agora mostrando que estava muito mais por dentro de como as coisas funcionavam. Pô, o cara teve a manha de vir pra Bahia, cantar "chupa toda" com Ivete Sangalo! Isso é que é mandar as patrulhas às favas.

Ainda que o U2 não seja mais capaz de revolucionar a música ou qualquer outra coisa, a dignidade com que este agora cinquentão senhor e seus companheiros deixam sua marca no showbiz é merecedora de aplausos. É triste constatar que o tempo passa para todo mundo e que, a qualquer momento, podemos ler ou ouvir por aí que Bono passou desta para uma melhor, mas, hoje, o momento é de celebração e eu me sinto privilegiado de ser contemporâneo da sua vida e obra.

Happy birthday, man!

O primeiro parágrafo alude a uma piada que circula no meio do rock desde que o U2 trocou uma atitude megalomaníaca (o messianismo exacerbado dos anos 80) por outra (o gigantismo e o narcisismo da Zoo TV Tour), envolvendo o guitarrista Stevie Ray Vaughn, que havia morrido em um desastre aéreo, em 1990.

Nela, Stevie Ray chegava ao céu e, acompanhado por um anjo, passava por alguns quartos no caminho do seu, vendo ali alguns de seus ídolos, parceiros e fãs: Jim Morrison, Jimi Hendrix, Marvin Gaye... até que ele passa por um certo quarto e vê Bono admirando-se num espelho.

Curioso e incrédulo, ele pergunta ao anjo: "O que Bono está fazendo aqui? Ele não morreu! Ou morreu?".

Ao que o anjo lhe responde: "não, Steve, o Bono está bem lá na Terra. Esse aí é Deus. Ele só pensa que é o Bono". =)

09/05/2010

À Queima-Roupa

À Queima-Roupa


Depois de vários reviews de livros de quadrinhos, enfim voltamos a indicar um belo exemplar da leitura de palavras, deixando para o nosso cérebro o maravilhoso exercício de visualização dos acontecimentos.

Greg Rucka é velho conhecido dos leitores da DC, tendo escrito arcos memoráveis para o Batman, Mulher-Maravilha e Xeque-Mate. Acabo de descobrir uma outra faceta sua, a de romancista. À Queima-Roupa (Critical Space) é um suspense embalado de presente para Hollywood filmar, com um especialista em "ação com profundidade" (um Paul Greengrass, por exemplo) no comando.

O personagem principal do livro é Atticus Kodiak, sócio de uma empresa de segurança de luxo, encarregado de proteger a vida de um membro da realeza britânica, a filantropa Lady Antonia Ainsley-Hunter, em visita aos EUA. Este trabalho, porém, o coloca em rota de colisão com uma assassina implacável, conhecida apenas como Drama. Apenas um ano antes, Kodiak havia frustrado um trabalho encomendado a Drama e ainda havia escapado com vida. O episódio gerou um livro, escrito por uma amiga de Kodiak, que estava despertando grande interesse e, ao que parecia, algum incômodo, visto que Drama estava de volta ao país. A dúvida de Kodiak é se ela está atrás dele (para terminar o que não conseguiu antes) ou de Lady Antonia. Ou seria algo completamente diferente?

(Um aviso: a sinopse escrita na capa e nas orelhas no livro entrega um detalhe-chave da trama. Portanto, se puder controlar sua curiosidade, NÃO LEIA esta sinopse e você vai ter uma bela surpresa.)

Uma vez iniciada a leitura, é difícil largar este livro, embora a edição da Landscape não seja das mais cuidadosas. A tradução é boa, mas as páginas 261 a 264 são repetidas e tive a clara impressão de que, em pelo menos dois momentos, a ordem de alguns parágrafos está trocada. Não conheço o texto original, então, pode ser um recurso estilístico de Rucka, mas tem toda a cara de escorregada do revisor. Felizmente, nada que comprometa a compreensão da trama, cheia de personagens e situações críveis e complexas, cujo ritmo vai num crescendo impecável de emoções. Recomendadíssimo!

05/05/2010

Homem de Ferro 2

Homem de Ferro 2


Não havia como não manter altas expectativas para este filme, uma vez que o primeiro havia sido simplesmente primoroso, com sua dosagem perfeita de drama, ação e humor. Também não havia como não temer que a Paramount, a Marvel e o diretor Jon Favreau metessem os pés pelas mãos, dada a dinheirama e a alta garantia de retorno envolvidas. Bom, eu trago boas e más notícias: Homem de Ferro 2 tem várias das qualidades do filme de 2008, mas também traz consigo alguns vícios irritantes dos atuais blockbusters americanos.

O principal mérito do filme continua sendo Robert Downey Jr.. Não deixa de ser espantoso que o alter-ego de um super-herói chame mais atenção do que a versão uniformizada, mas é isso: todos querem ver Tony Stark muito mais do que o Homem de Ferro. A naturalidade com que Robert assume o papel de ricaço manguaceiro e mulherengo já foi exaustivamente relacionada à sua vida pessoal, então, vamos falar disso como cinema e nada mais: o cara simplesmente detona. Ele é engraçado, dramático e heróico na medida certa. Uma escolha ainda mais feliz que a de Hugh Jackman para ser Wolverine.

No filme, o sucesso do Homem de Ferro em desequilibrar a balança de poder e trazer paz (ao menos, temporária) ao mundo arregala os olhos dos militares, que querem controle sobre a tecnologia da armadura, e de Justin Hammer (Sam Rockwell, também excelente, ainda que esquemático), concorrente de Stark, que está de olho em gordos contratos com as Forças Armadas. Na Rússia, Ivan Vanko (Mickey Rourke, definitivamente renascido para o cinema), filho do co-autor do projeto do reator que alimenta (e mata) o coração de Stark, parte em busca de vingança pelo destino do pai, carregando consigo medonhos chicotes energéticos. Além de tudo isso, Tony ainda precisa lidar com o alcoolismo e as investidas de Nick Fury para formação de um supergrupo (os Vingadores, claro).

Outro grande atrativo do filme atende pelo nome de Scarlett Johansson. Sabe aquele tipo de mulher que é bonita até molhada? Scarlett é assim. Sua presença como Natasha Romanoff é simplesmente magnética, ainda mais quando existe a expectativa de vê-la distribuindo sopapos em seu uniforme de Viúva Negra. Quando isso finalmente acontece, ficamos extasiados com a plasticidade e a credibilidade das cenas e lamentamos que elas durem tão pouco, além de ansiar por um filme só dela.

O mesmo, porém, não pode ser dito de Don Cheadle. Eu gosto dele, mas colocá-lo no lugar de Terrence Howard foi uma barrigada da Paramount. Sei que Howard é problemático e queria uma dinheirama para voltar ao papel, mas Cheadle está pouco convincente na pele de James Rhodes e sua sorte é que queríamos muito ver o Máquina de Combate - e, felizmente, para nós, a armadura não é nada decepcionante.

Talvez eu estivesse de mau humor, mas achei que o filme tem explosões e apoteoses em demasia, além de apelar para um recurso que parece obrigatório na Hollywood de hoje: a escatologia (na já famosa cena do xixi na armadura). Devem achar que ninguém se interessa por filmes que não mostrem arrotos, peidos, vomitadas ou outros espetáculos de gosto duvidoso. Ainda que seja bem discreta e até engraçada, era dispensável. Bem, na cena, Stark está bêbado e de bêbados a gente espera qualquer coisa. Deve ser isso. Ainda bem que, para cada piada forçada, existe uma cena icônica, como a da armadura-maleta, sensacional.

No fim das contas, Homem de Ferro 2 é uma excelente aventura, que honra um original que beirou a perfeição, mas que poderia ter ganhado um polimento aqui e ali. Tive a clara impressão de que poderia ter sido melhor, como uma pulga atrás da orelha que coçava, mas não impedia que eu me divertisse. Além disso, a já esperada cena pós-créditos abre caminho de forma empolgante para o filme do Thor (pronto, falei). Está ficando bonito esse negócio de Vingadores. Aguardemos. Nota 9.