25/09/2010

Mais e Melhores Rocks!

Mais e Melhores Rocks


Meus recentes lapsos de silêncio devem muito à falta de graça do mundo. Sim, é verdade que eu não posso ir ao cinema com a frequência que gostaria; é verdade que não tenho acesso aos shows que gostaria de ver; é verdade que não tenho sequer TV por assinatura - mas, puxa vida, será que o pouco que está ao meu alcance tem que ser assim tão sem sal?

Eu gostaria de escrever mais sobre música, por exemplo. Mais especificamente, eu gostaria de poder escrever mais sobre rock nacional. Acontece que, não sei se você percebeu, o rock brasileiro é uma coisa morta. Ou será que alguém deposita alguma fé genuína em bandas como Restart, coroada no VMB 2010 de maneira constrangedora, entre as vaias dos que perceberam a forçação de barra que foram seus cinco prêmios? Alguém realmente acredita que o Restart possa, um dia, ter algo a dizer que interesse a alguém com mais de 14 anos?

Somado a isso, existe a degradação ou transmutação das gerações que já fizeram algo de interessante pela música jovem neste país. A geração 80, salvo exceções, está rica e feliz por fazer cover de si mesmos nas Festas Ploc da vida, ou fazendo MPB. A geração 90 patina na medianidade que sempre lhe foi característica. A geração 00 simplesmente não aconteceu, a não ser que você leve a sério a própria Restart e seus iguais: Hori, Cine, Hevo 84, etc. Mallu Magalhães? NOT.

E, por favor, não me mandem vasculhar a internet em busca de boas bandas brasileiras de rock. Eu já faço isso e, não vou mentir, até que esbarro com gente interessante, mas o que eu quero dizer é que não deveria ser necessário "garimpar" atrás de boas bandas! O mainstream brasileiro já foi um lugar verdejante, com bandas inteligentes e de pegada verdadeiramente Rock and Roll, e não vou gastar saliva aqui citando nomes. A própria falta de um grande ídolo rocker nos tempos que vão é a prova cabal de que não tem ninguém em atividade capaz de sacudir tal marasmo.

Falando nisso, faço minhas as palavras de Lobão, em entrevista à Billboard Brasil de julho: chega de internet, de esquema pequeno, de amadorismo, de "brodagem"! O sertanejo universitário e o gospel prosperam, beirando um irritante monopólio nas rádios e TVs, porque pensam grande: querem encher estádios, ter produção cara, fazer qualquer programa de TV que os convide e ficar milionários antes dos 30 anos. Soa familiar? Sim, essas deveriam ser as preocupações de quem faz rock! No entanto, as tais bandas "interessantes" da internet se contentam em tocar no palco alternativo de festivais do interior, em troca de merreca, tudo "na brodagem".

Aliás, esse gosto pelo "alternativo" ainda vai sepultar de vez qualquer esperança de ver o rock nas cabeças mais uma vez. Pelamordedeus, quando é que vão acabar com essa coisa anacrônica de dizer que "a Globo é o mal" e que "Faustão, nem morto"? Se você quer ser famoso, é inevitável: tem que passar pela Globo - de preferência, pelo Faustão. A integridade militante é linda, mas não vai botar um centavo na sua conta - e, ora bolas, quem não quer ser famoso deveria ser proibido de fazer rock! Deixe para fazer cu doce quando for alguém na vida.

Mas estou me empolgando e perdendo o foco. Voltando. O incipiente rock brasileiro não pode responder sozinho pela apatia que me assalta. Claro que o rock gringo, também, já foi infinitamente mais interessante do que é hoje, mas, como eu disse naquele malfadado post ilustrado pelo Justin Bieber (toc-toc-toc), as coisas saíram do controle. Por exemplo, o TVZ (do Multishow) já foi um programa de clips bastante interessante, com aquele lance da legendagem e tal. Hoje, parece uma filial do Disney Channel: Jonas Brothers, Camp Rock, Demi Lovato, Selena Gomez, Miley Cyrus e... Justin Bieber (toc-toc-toc). Esses irritantes garotos de comercial de margarina se alternam no Top 10 (do TVZ e da MTV) com as nulidades emo locais, ou com os cafetões e as vagabundas do rap/R&B.

O rock, então, perdeu a capacidade de encantar? É claro que não. O poder do rock de juntar as pessoas em torno da música não tem comparação. Nos outros gêneros, música é o de menos. Quem vai a um show de axé ou de forró eletrônico, por exemplo, vai mais interessado em contrair herpes labial, que é o prêmio reservado ao ganhador do concurso "quem beija mais". Num show sertanejo, as meninas vão para gritar sem parar porque os cantores são "lindos" e os homens vão para vigiá-las, entre gritos de "aôô, peão 'xonado!". Num show gospel, vão, segundo dizem, para "adorar Jesus".

Um show de Rock, por sua vez, tem no próprio Rock o seu maior atrativo, até porque é virtualmente impossível namorar nesses shows: a audiência masculina é absurdamente maior que a feminina. Não que isso faça muita diferença, pois, como eu disse, as pessoas se reunem em torno da música em si. Um show de Rock, apesar de algumas pessoas que insistem em bancar as cinegrafistas, com suas câmeras e celulares atrapalhando a visão de quem está atrás, é feito para a gente se esgoelar nos refrãos, fazer air guitar nos solos e testar nossa capacidade de suportar aperto, calor, sede e vontade de fazer xixi, já que às vezes é impossível sair do lugar. É uma experiência estafante, mas altamente recompensadora.

Porque, sim, ora bolas, o Rock é uma coisa verdadeiramente mágica. Apesar da MTV, do Disney Channel, dos empresários, da saturação, da superexposição, do ostracismo e dos maltratos que sofre, através de fusões indevidas e "revoluções" que o desvirtuam, a força transformadora e agregadora do Rock permanece. O rock não é conhecido por salvar favelados do tráfico, nem rende histórias edificantes pro Globo Repórter, mas eu vou sempre ser grato porque ele ME salvou da tristeza e da mediocridade e, ao contrário do que muita gente diz que ele causa, não me fez querer tomar drogas, nem me transformou numa pessoa violenta. Tampouco vi brigas descontroladas nos shows de rock a que estive presente, coisas comuns, por exemplo, na exaltada e excessivamente alcoólica alegria das micaretas.

Bem, não sei se me fiz claro pra você, já que nem eu entendo muito bem onde estou querendo chegar. Acho que só queria desabafar minha frustração de ver o Rock ser tão ignorado ou pervertido pela mídia e estar tão longe da maioria dos jovens corações, quando podia fazer tanto bem a eles. Deve haver, por aí, novas e boas bandas capazes de fazer isso pelos garotos e garotas de hoje - mas, definitivamente, não são aquelas que estão mais visivelmente ao seu alcance. Tomara que essa seja, de verdade, uma geração mais esperta que a minha, mas não vou prender a respiração, esperando que seus olhos se abram.

11/09/2010

Kick-Ass

Kick-Ass


Mark Millar é conhecido por ser um escritor capaz de começar suas histórias de modo arrebatador e levá-las por rumos surpreendentes, mas, infelizmente, concluí-las de modo medíocre ou covarde. A exceção mais notável é, logicamente, Os Supremos Vol. 1 (a melhor HQ de ação do começo do século 21). Tudo mais parece milimetricamente planejado para transformar-se em um típico filme de ação hollywoodiano: barulhento, bonito, com algumas sacadas geniais e prontamente esquecível - e, dada a frequência e a velocidade com que criações suas chegam às telas, caso de Kick-Ass, é de se indagar se isso não é proposital.

Eu ainda não vi Kick-Ass, o filme, e não tinha lido muita coisa sobre a HQ, exceto a premissa central: adolescente se questiona por que não existem super-heróis no mundo real e decide abrir caminho, com muita coragem e total falta de noção de perigo, logo inspirando a outros malucos fantasiados. Os trailers eram bons, o filme foi razoavelmente bem na bilheteria e, aliado ao hype do lançamento do último número da série nos EUA (apenas um mês antes de o filme estrear, o que provavelmente corrobora minha suposição que encerra o parágrafo anterior), animou a Panini a lançar este encadernado por aqui.

Kick-Ass, porém, não é nenhuma obra-prima e nem vai revolucionar qualquer coisa. Tampouco deve ser essa a intenção de Millar. É uma revista veloz, sangrenta, divertida e nada mais que isso. Talvez seja culpa exclusivamente nossa ou da mídia, afinal, que se dê tanta importância ao que ele diz ou escreve. Ele deve achar bem divertido ver seu nome em jornais, revistas e sites, adornando declarações rotuladas como "polêmicas". É um jeito meio "caetanovelosiano" de ser.

A história tem um protagonista muito simpático e é impossível não torcer por ele ou identificar-se com paixão e suas teorias sobre o universo nerd em geral e dos super-heróis em particular. Além disso, ele realiza uma de nossas mais secretas fantasias: a de bolar um uniforme e um nome legais e descer o pau na bandidagem. Como todo adolescente de verdade, ele ainda tem que conquistar o coração da garota mais bonita da sala, que o despreza e, como era de se esperar (pelo menos, em uma revista que se propõe a abordar o assunto de maneira mais ou menos realista), logo ele descobre, também, que nas ruas a violência pega muito mais pesado do que nos gibis.

Violência esta, aliás, que explode gloriosa no traço econômico e eficiente de John Romita Jr., principalmente nas cenas em que a pequena Hit-Girl sacode suas espadas: a guria de 10 anos nem pisca ao cortar cabeças e membros e o desenhista não alivia nos detalhes. A trama usa e abusa de velhos clichês sobre responsabilidade, lealdade e traição, já vistos várias vezes antes, no cinema e nos quadrinhos. As referências pop se acumulam em cada página e os nerds vão ter pequenos orgasmos a cada menção. Tamanho exercício de metalinguagem deve ter sido bastante divertido para Millar e Romita.

Por sorte, eles não são os únicos a divertir-se. Ainda que esteja longe de ser uma obra-prima, Kick-Ass oferece uma leitura empolgante e ultra-rápida (o encadernado se esgota em cerca de uma hora, se muito) e deve ser o momento mais feliz do inconstante Millar nos últimos anos. É lazer barato em conteúdo e intenções, e a Panini bem podia ter dispensado o luxo da capa dura, garantindo um preço mais camarada. Se eu não tivesse conseguido um belo desconto, não teria arriscado.


Kick-Ass - Panini Books - 212 páginas

Alias, Vol. 1

Alias, Vol. 1


Houve um tempo em que o hoje manjado estilo de Brian Michael Bendis estava a serviço de ideias verdadeiramente boas, mesmo quando improváveis. Quem diria, por exemplo, que transformar uma esquecida heroína da série D dos Vingadores em uma detetive particular, problemática e boca-suja, poderia render uma série adulta igualmente popular e premiada? Pois foi esta a proeza conseguida com Alias, um dos primeiros e melhores títulos da linha MAX, um selo adulto da Marvel Comics.

O habitual ping-pong verbal proposto por Bendis é uma saraivada de frases curtas, uma troca de perguntas e respostas que pode estender-se por toda uma página ou até mais, alternada com ocasionais rompantes de verborragia, sempre recheados de coloquialismos. Em Novos Vingadores, título também escrito por Bendis já há alguns anos, soa deslocado e irritante. Em Alias, porém, o estilo cai como uma luva na personalidade retraída e pouco paciente de Jessica Jones.

Espertamente, Bendis não desvincula Jessica totalmente do universo Marvel conhecido. Com isso, temos pontas ilustres de personagens como o Capitão América, Demolidor e Miss Marvel, o que traz um maior senso de familiaridade e proporciona bons momentos, como aqueles em que Jessica recorda com certa vergonha do seu tempo como vingadora, seja pelo uniforme sem-noção ou por achar que não tem a "chama" do heroísmo em si. Ainda assim, ela, às vezes, precisa apelar a esses poderes que já nem sabe usar direito.

Na primeira das histórias deste encadernado, Jessica é contratada por uma mulher para localizar sua irmã. Um caso aparentemente simples, mas que se complica muito quando Jessica descobre um detalhe muito importante sobre o namorado da procurada. A contratante, porém, lhe deu telefone endereços falsos. Quando parece que nada pode piorar, Jessica acaba envolvida em uma trama para incriminá-la e, além de descobrir a verdade sobre sua cliente, precisa sobreviver para chegar ao centro de uma conspiração.

A segunda também diz respeito a gente desaparecida - desta vez, alguém razoavelmente famoso: Rick Jones, antigo parceiro de aventuras do Capitão América, do Hulk e do Capitão Marvel. Sua alegada esposa procura a ajuda de Jessica Jones, o que a leva ao encontro de um Rick Jones delirante e arredio, ao mesmo tempo em que tenta elucidar um caso de infidelidade conjugal.

Fechando a edição, J. Jonah Jameson, o irascível dono do Clarim Diário, aproveita o ensejo da revelação pública da identidade do Demolidor e contrata Jessica Jones a peso de ouro para descobrir a identidade do Homem-Aranha, seu Santo Graal particular. Será que Jessica colocará o profissionalismo acima do corporativismo super-heroico?

Todas as histórias foram ilustradas pelo competentíssimo Michael Gaydos, que imprime às desventuras de Jessica Jones um clima quase noir, cheios de ambientes mal iluminados, gente bebendo e fumando e alguma (eventualmente muita) tensão sexual. Para mim, que havia me desfeito há alguns anos de minha coleção de Marvel Max, onde essas histórias foram publicadas entre 2003 e 2005, foi um prazer reencontrar Jessica. Aguardo ansioso pelos próximos volumes.


Alias, Vol. 1 - Panini Books - 228 páginas

07/09/2010

Estressado, eu?

Estressado, eu?


Há alguns meses, eu convivia com manchas vermelhas em minhas bochechas. Elas não coçavam ou causavam qualquer incômodo, além do visual à la Papai Noel e das piadas dos meus alunos sobre eu estar me maquiando. Nada, enfim, que me motivasse a procurar um dermatologista.

Inicialmente, achei que poderiam ser consequência da luz solar incidindo através das lentes dos meus óculos. Depois, como não melhorassem com o uso contínuo de óculos escuros, associei-as a alguma alergia alimentar - sempre me pareciam um pouco mais vermelhas quando eu abusava, por exemplo, de cerveja ou de chocolate. Cheguei a cogitar que fosse algum tipo de micose, provocado por unhas contaminadas. Sabe como é, o homem coça algumas partes do corpo instintivamente e vai que, num momento de distração...

Daí que, na minha insistência em bancar o Dr. House do litoral norte baiano, as manchas chegaram, em agosto, a uma preocupante aparência de irritação, com mudança na textura da pele. Ok, se eu precisava de motivos para ficar preocupado, acabara de encontrá-los. Antes de finalmente convencer-me da necessidade de ir ao médico, ainda botei a culpa em inocentes caixas de Bis que eu havia devorado naqueles dias.

Ok, consulta marcada. De cara, sou depenado em R$ 130, mas o tal médico tem fama de melhor da cidade. Sou atendido no começo da tarde e mal me olha (com uma lupa cheia de luzes psicodélicas, hiperlegal), o doutor vai logo dizendo: "isso é dermatite seborréica, geralmente causada por stress; não é nada mortal", ele me tranquiliza.

Saio do consultório com receitas que me custam mais R$ 60 em remédios e pedidos de exames que ainda não fiz e devem me custar mais uns dinheiros. Levo, também, a certidão de entrada no clube dos estressados, condição da qual sempre me esquivei, tendo como sagradas as minhas horas de descanso e lazer, e raramente levando trabalho para casa.

Acontece que o stress, embora quase sempre relacionado a excesso de trabalho, não tem nele sua única causa. Muitos são os fatores que podem desencadeá-lo e eu me via acometido por alguns deles. Não vou aborrecê-los com detalhes sobre os comos e os porquês, mas basta que você saiba que poucos ditados são tão simples e tão cheios de sabedoria quanto "o que não tem remédio, remediado está". De repente, percebi que dava a certas coisas um peso muito maior do que elas realmente tinham.

Espero, enfim, estar no caminho certo. A medicação tem funcionado, minhas bochechas já estão com tonalidades e texturas naturais e (oba!), uma vez que alergias estão descartadas, não preciso me privar de mariscos, chocolate ou cerveja! =)

Foi assim, que dentro desse homérico esforço em prol da minha plena recuperação (ah, como eu precisava de uma desculpa assim!), passei parte deste feriado prolongado em Salvador, usufruindo de prazeres bem simples da vida, como banho de mar, cerveja gelada, boa comida e boas companhias.

Meu último programa na capital baiana foi um almoço no restaurante em estilo australiano Outback, cuja franquia soteropolitana está localizada no shopping Iguatemi. Chegando lá, eu e um amigo traçamos uma blooming onion, uma grande cebola assada e acompanhada de molho picante, acompanhada de generosas canecas de chopp, como a que você vê na foto que abre este post.


Como prato principal, costelas de porco com molho barbecue. Carne macia, desprendendo-se com deliciosa facilidade das costelas, acompanhadas unicamente por batatas fritas. Um assado divino, de lamber os beiços. Nessas horas, a gente manda às favas todo o risco de câncer supostamente decorrente do consumo de carne e dá uma risadinha sacana, direcionada a quem prefere atracar-se com um prato de salada de alface com bife de soja.


Coroando a orgia gastronômica, uma sobremesa exageradamente doce e gostosa: Cinnamon Oblivion - uma generosa bola de sorvete de creme, decorada com nozes carameladas, uma bola de chantilly e maçãs douradas em calda de canela. Fazia tempo que eu não encarava um troço tão opulento.


O problema de se comer no Outback é que ele não é exatamente um restaurante popular, embora possua um cardápio "de pobre" (aspas muito necessárias), com refeições a preços mais acessíveis. Minha pedida é o best-seller da casa, mas o menu é cheio de outras coisas que parecem deliciosas. Se tem Outback na sua cidade, apareça e trace uma costelinha de vez em quando,
mate!

Ah, eu juro que este post não foi encomendado pelo Outback.


PS: Fico meio puto quando lojas e restaurantes (o Outback entre eles) fazem uso de termos em inglês para coisas que têm tradução bem simples em português. Por que, diabos, uma loja anuncia uma "sale", com "50% off", se é bem mais garantido anunciar "liquidação" com "50% de desconto"? Por que uma anunciar uma sobremesa que leva molho de "raspberry", quando é bem mais fácil entender "framboesa"? Não consigo deixar de pensar que isso é artimanha para cobrar mais caro por coisas absolutamente prosaicas.