28/11/2010

RED - Aposentados e Perigosos

RED - Aposentados e Perigosos

O Gibi


Warren Ellis é cultuado como um dos melhores escritores de quadrinhos em atividade. Existem excelentes razões para isso, mas, nem mesmo ele está livre de uma pisada na bola.

RED - Aposentados e Perigosos configura-se como uma dessas decepções. Não que seja ruim, mas já vimos tudo isso antes vezes demais. É a velha história do agente que, após anos de trabalho sujo, torna-se uma ameaça aos seus contratantes. Com medo de que ele abra o bico, a CIA manda um mundaréu de gente pra eliminá-lo.

Previsivelmente, Paul Moses atira muito melhor do que todos os seus atacantes, não importa quantos sejam. Ele mata rigorosamente TODO MUNDO sem sofrer um arranhão. E, claro, chegando aos figurões que o desejam morto, ele toma aquela manjada lição sobre "como o mundo de verdade funciona".

Ou seja, clichê em cima de clichê. Por sorte, Cully Hamner desenha de modo ágil e faz com que a leitura flua tão rápido que a gente nem tem tempo de criticar demais. Por conta da estreia do filme baseado nela, RED teve lançamento pontual da Panini, mas, infelizmente, é esquecível e dispensável.



O Filme


Por sorte, RED - Aposentados e Perigosos, o filme, vira a trama de Ellis praticamente do avesso, colocando Frank Moses (Bruce Willis - sim, o nome foi modificado para o filme) ao lado de outros colegas e dando-lhe um interesse amoroso (Sarah, personagem de Mary-Louise Parker, que tem excelente timing cômico). Além disso, entra em ação a figura de um superagente da CIA, William Cooper, (Karl Urban) que dá muito trabalho a Moses.

Como na HQ, Moses é perseguido por sua participação em antigas missões, potencialmente comprometedoras para a agenda política de certos figurões. Ele sequestra a pobre Sarah (funcionária do Seguro Social e virtualmente a única pessoa em que ele confia) por achar que ela corre perigo por conhecê-lo. Os dois vão contatando outros agentes aposentados que trabalharam com Frank (interpretados por Morgan Freeman, Helen Mirren e John Malkovich - a este último couberam o papel mais simplório e as falas mais previsíveis). Assim, todos eles acabam na mira da CIA.

Como se vê, clichezão brabo, também! Acontece que o filme tem um roteiro muito mais bem boladao do que uma adaptação mais fiel à HQ poderia permitir. Os novos personagens e seus ótimos intérpretes ganham a simpatia do espectador no instante em que aparecem na tela. O humor funciona bem e aqueles momentos obrigatórios de "fodonice", em que as leis da Física e da Lógica são jogadas no lixo, jogam a favor da diversão.

Nada se compara, porém, à delícia de ver Helen Mirren, tão acostumada ao papel de lady refinada, divertindo-se de montão ao matar gente com armas espalhafatosas, sem sequer piscar os olhos! Não à toa, seu mais constante parceiro de cena, Brian Cox, também está muito à vontade como um agente russo bonachão. Morgan Freeman tem pouco a fazer e Malkovich, como já dito, infelizmente, é pouco mais que um alívio cômico. Willis e Urban, por sua vez, entregam-se à violência da trama com a paixão de, digamos, um John McClane e um Eomer. =)

Entre a HQ e o filme, o segundo leva clara vantagem. Criador e criatura foram superados por um clone bastardo e geneticamente modificado.

18/11/2010

Pequenas observações do cotidiano

Pequenas observações do cotidiano


Mulher não dirige carro velho. >> Preste atenção quando sair à rua: você não vê mulheres dirigindo uma fubica qualquer. Carro velho é coisa pra homem e, nestes casos, elas se contentam em bancar a passageira relutante - isso, quando não preferem pegar ônibus a entrar naquele traste metálico. Mulheres só querem dirigir carros novos ou, no mínimo, muito bem conservados - e quem há de culpá-las por isso?

Pernas são magnéticas. >> Esqueça o óbvio ululante de que elas atraem olhares famintos e mãos bobas. Pernas adultas são especialmente atrativas para crianças. Não importa se existem 50 metros livres à direita e outros 50 à esquerda, crianças correndo vão, fatalmente, esbarrar nas nossas pernas - e seus pais vão sempre olhar torto pra gente, apesar de nossa inocência.

A sua fila sempre anda mais devagar. >> Ao chegar em um banco, cinema, seja onde for, você, espertamente, escolhe aquela fila com menos gente. É batata: vai acontecer alguma coisa (algum problema de sistema, troca de bobinas de papel, falta de troco, etc) que, misteriosamente, faz todas as outras andarem mais depressa e pessoas que chegaram bem depois de você acabam sendo atendidas antes.

Baianos não têm identidade própria fora da Bahia. >> Se você é baiano, seu nome pode ser Bill Clinton da Silva de Jesus, mas ninguém lhe conhecerá por este ou outro nome, que não "baiano" - e, apesar de isso estar explícito no seu sotaque, sempre perguntam se você é da Bahia e te submetem ao ridículo de reproduzir expressões como "bichim" e "oxente" - que nem são tipicamente baianos. Preferimos "ôxe". =D

Bichas adoram hipérboles. >> A alta popularidade entre as bibas de cantoras com sex appeal claramente heterossexual (Beyoncé, por exemplo) continua um mistério para mim. O que eu não consigo deixar de perceber é como bicha gosta de exagerar, dizendo que fulana é "maravilhuóóóósa", "é tu-dô", ou que o show dela foi "muito perfeito" (sic), como se algo pudesse ser "pouco perfeito".

14/11/2010

Um banquinho, um violão...e um revólver!

Um banquinho, um violão... e um revólver!

Fico espantado de ver a durabilidade de certas canções no repertório dos barzinhos e rodas de violão. Os anos passam, as gerações se sucedem, e lá estão elas, garbosas, onipresentes, muitas vezes ignorando o fato de que o contexto que as gerou não existe mais, ou que aquela gíria na sua letra já não é entendida pelo pessoal mais jovem - ou que, simplesmente, a gente não aguenta mais ouvir aquela droga.

Fico em dúvida se isso é reflexo da incontestável qualidade dessas canções ou sintoma da ruindade das atuais. Na verdade, acredito que tenha menos a ver com a idade da canção e mais com a insistência dos violonistas naquelas de apelo mais imediato e garantido. Afinal, por que queimar cartuchos com uma música bacana mas, hoje, semidesconhecida, como "Eclipse Oculto", de Caetano Veloso, quando "Sozinho" vai fazer o bar inteiro reverberar?

Ainda assim, não há doce tão gostoso que não enjoe. Dá um certo bode sentar para tomar um choppinho e ser capaz de virtualmente adivinhar todo o repertório do cara ao microfone. Pior ainda se o dito cujo a) esforça-se para imitar o cantor original, ou b) só consegue imprimir "personalidade" própria quebrando a melodia original a ponto de deixá-la irreconhecível. Violonista "excêntrico" é um porre!

A seguir, você tem uma pequena lista de músicas impiedosamente repetidas pelos bares da vida. Escolha seu objeto de ódio ou faça sua própria lista nos comentários.

"Madalena do Jucu", Martinho da Vila
Madalena, Madalena / Você é meu bem querer / Eu vou falar pra todo mundo / Vou falar pra todo mundo / Que eu só quero é você
Certos nomes são caros ao samba e Madalena é um favorito, mas coitada da "homeageada". Por causa dessa canção (e de algumas outras), o nome Madalena só me inspira dificuldades desanimadoras para namorar uma mulher que, afinal, não merece o esforço.

"Andança", Beth Carvalho
Olha a lua mansa se derramar / Ao luar descansa meu caminhar / Meu olhar em festa se fez feliz / Lembrando a seresta que um dia eu fiz / (Por onde for quero ser seu par)
Essa é uma daquelas que pouca gente se preocupa em decorar a letra, limitando-se ao "amooooor... amooooor..." entre as frases acima - e, claro, ninguém deixa passar a chance de trocar "meu namorado é rei" por "seu namorado é gay". Sua glória (e sua perdição) é que não funciona sem o publico pra ajudar no "amoooor...", parece ficar um buraco na melodia.

"Noite do Prazer", Brylho
Na madrugada a vitrola rolando blues / Tocando BB King sem parar / Sinto por dentro uma força brilhando, uma luz / A energia que emana de todo prazer
Falemos sério: uma festa em que toca BB King sem parar só pode estar muito CHATA! Vítima de famosos equívocos ("trocando de biquini sem parar"), esta música é simpática, mas a tal festa só me faz pensar num salão mal iluminado, com gente entediada no sofá e um bêbado fazendo air guitar no centro.

"Pais e Filhos", Legião Urbana
É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã / Porque se você parar pra pensar, na verdade não há
A Legião tem dezenas de músicas superiores a esta, em letra e melodia. Isso não impediu a sentimentalóide "Pais e Filhos" de tocar até além do limite do suportável e tornar-se obrigatória entre as concessões à música "jovem" dos MPBistas menos tolerantes. Um dia, descobrirão que ela era a canção preferida da Suzanne von Richtoffen.

Qualquer coisa do Jorge Benjor
Cá pra nós, Benjor é deveras superestimado. As canções que o fazem famoso mais parecem jingles: "Taj Mahal", "Chove Chuva", "País Tropical" (chapa branca até dizer chega), "W/Brasil" (esta É, de fato, um jingle - e dos ruins). Deve haver em seus discos, principalmente aqueles da primeira metade dos anos 70, canções que mereçam mais crédito. Missão para um futuro próximo: garimpar o Jorge Ben, pré-numerologia, que valha a pena.

Caetano Veloso, "Sozinho"
Às vezes, no silêncio da noite / Eu fico imaginando nós dois / Eu fico ali sonhando acordado / Juntando o antes o agora e o depois
Ok, a música é de Peninha, Sandra de Sá já havia gravado antes, mas quem há de contestar que foi Caetano quem a formatou para voz e violão? Tamanho desserviço é comprovado pela absoluta incapacidade dos cantores de escapar às inflexões e maneirismos caetanianos e pelas inevitáveis palminhas que surgem, emulando o que se ouve no CD Prenda Minha.

"Borboletas", Victor e Leo
Você tenta provar que tudo em nós morreu / Borboletas sempre voltam e o seu jardim sou eu
É cedo para incluí-la nesta lista? Não se você, como eu, vive perto de algum espaço de festas e já teve que submeter-se a um karaokê em que ela foi executada (com requintes de crueldade) nada menos que SETE vezes seguidas, por um bando de tias bêbadas. Além disso, abriu as portas para o sertanejo pop dominar TODOS os canais midiáticos existentes. Para certos crimes não há perdão.

"Maluco Beleza", Raul Seixas
Eu vou ficaaaaaaaaaaaaaaaaaaar / Ficar com certeza / Maluco Beleza
Esta é a PIOR música de Raul Seixas e umas das canções mais chatas que existem no universo. Nada mais a declarar. "Toca Raul" my eggs!

07/11/2010

Criminal - Covarde

Criminal - Covarde


Foram longos meses desde o lançamento deste primeiro encadernado de Criminal até que eu, finalmente, decidisse comprá-lo. Minha decisão era guiada por duas razões: a primeira é que, naquele momento, a Panini ainda parecia presa à "maldição do número 1", ou seja, lançava o primeiro volume de uma coleção e depois simplesmente a deixava de lado; a segunda era que outros lançamentos pareciam, à primeira vista, mais interessantes, o que sempre me fazia adiar sua aquisição.

Mas, antes tarde do que nunca. Uma conjunção de fatores favoráveis trouxe Criminal - Covarde às minhas mãos: o anúncio do segundo volume no newsletter da Panini e uma promoção que baixou seu preço a R$ 25. Houve, ainda, uma motivação muito mais nobre: Ed Brubaker é um dos melhores escritores de comics em atividade nos EUA. Apesar da sua questionável passagem por X-Men (uma série que, afinal, se distancia demais de seu "habitat natural"), Brubaker dificilmente erra quando escreve histórias policiais ou de espionagem. Os memoráveis arcos que escreveu para Batman, Gotham Central e Demolidor estão aí para confirmar isso.

Criminal segue de perto a vida de Leo Patterson, um ladrão que goza da nada invejável reputação de ser um cagão: quando a coisa aperta, pode ter certeza que Leo será o primeiro a piar fino e dar no pé. Não se trata apenas de medo, mas de um extremado senso de autopreservação - afinal, quando criança, Leo viu seu pai ir para um presídio e lá morrer, e a coisa que mais o apavora é pensar que pode ter o mesmo destino. Assim, cada roubo praticado por Leo envolve meticuloso planejamento e variadas rotas de fuga. Para ele, ficar vivo é melhor do que ficar rico e as regras que criou para si são suas únicas garantias.

Por seu talento, Leo é contratado por um tira corrupto para ajudar no roubo de provas contra um traficante de joias. Ele reúne uma equipe com gente de sua confiança, mas as coisas dão brutalmente errado - e eu não posso contar mais do que isso sem estragar surpresas. O que você pode saber é que, com Leo, as coisas simplesmente não param de piorar... e que há muito mais a descobrir sobre esse homem famoso por sua covardia.

Um detalhe importante: uma vez que você inicie a leitura deste livro, não vai conseguir largá-lo. A história de Brubaker, primorosamente ilustrada por Sean Phillips, é absurdamente magnética, transitando entre o noir e o contemporâneo, com personagens críveis e diálogos que respeitam os neurônios do leitor. Não à toa, faturou o Eisner (o "Oscar" das HQs) de 2007 como Melhor Série Nova. Ainda bem que o segundo volume, chamado Lawless (em inglês mesmo, já que é um sobrenome), já está a caminho. Criminal não é recomendada apenas a quem gosta de boas HQs: ela é perfeita para qualquer um que aprecie boa literatura policial. Irrepreensível.


Cabe aqui um aparte. É fato: a Panini parece finalmente livre da supracitada "maldição do número 1". Os encadernados da linha Vertigo/Wildstorm saem com uma periodicidade decente (Y - O Último Homem, por exemplo, já terá seu quarto volume publicado em dezembro, pouco mais de um ano desde o primeiro), a variedade de títulos tem crescido e, depois de um período de estagnação, os lançamentos DC e Marvel começaram a tornar-se mais frequentes, incluindo coisas que muita gente apostava que nunca veria, como o segundo volume de A Morte do Superman. Ponto positivo, parabéns registrados, mas, ainda há muitas coleções que precisam sair do ponto morto, entre as quais Os Supremos, Liga da Justiça por Grant Morrison e Starman. Vamos cobrar!