18/01/2011

Qual é a graça?

Qual é a graça?

Vão dizer que eu estou de mau humor enquanto escrevo estas linhas nada delicadas sobre os ídolos de muita gente, mas juro que não é o caso. Estes três atores já tiveram sua graça e costumavam justificar uma ocasional visita minha à locadora, mas, nos últimos anos, perderam a mão e o rumo, entregando filmes cada vez mais debilóides. Portanto, se você pretende ir ao cinema para ver sua mais nova "obra" (do verbo "obrar"), lembre-se de NÃO me chamar.


Eddie Murphy


Ele já foi o maior nome da comédia americana, lá pelos anos 80, quando conquistou o mundo com Um Tira da Pesada e outros filmes muito divertidos. Depois de um período de ostracismo, ensaiou uma volta nos anos 90, com O Professor Aloprado. Na década que passou, seu único trabalho digno de nota foi uma dublagem, o Burro de Shrek. O fato, porém, é que Eddie Murphy perdeu sua estrela e há muito, MUITO tempo, não faz um filme que preste. Basta lembrar que ele é dono de um dos fracassos mais retumbantes da História, As Aventuras de Pluto Nash, que custou 100 milhões de dólares e não rendeu nem um décimo disso. Seus filmes mais recentes são uma sucessão de piadas ruins e egolatria, vide a obsessão de interpretar diversos papéis em cada filme. Curiosamente, ele fica bem como coadjuvante, seja cômico (Os Picaretas) ou dramático (Dreamgirls). Quem sabe, ainda possa rolar uma "ressurreição".


Jackie Chan


Chan saiu de Hong Kong, onde era ídolo dos filmes de ação à la Bruce Lee, para vir aos EUA reforçar todos os estereótipos que os americanos alimentam sobre civilizações orientais. Ninguém vai negar que, por um tempo, suas criativas coreografias marciais e sua capacidade de usar qualquer coisa ao alcance das mãos para dar porrada encantaram as plateias em alguns filmes divertidos, como Bater e Correr ou A Hora do Rush. Mas, então, as rugas começaram a aparecer numa velocidade superior às cirurgias plásticas e começou a ficar meio ridículo ver aquele vovô metido em filmes cada vez piores, com fiapos de roteiro sustentando sequências sonolentas e inverossímeis de wi-fu e a expressão única de "china bonzinho" que ele ostenta, enquanto regurgita filosofia de almanque sobre coisas como paciência e destino. Chan é peça de museu - e olhe lá.


Adam Sandler


Por que gostam tanto desse cara? Tá, ele fez umas coisas legais, mas, sinceramente, NÃO É engraçado por si só, costuma levar um banho dos parceiros de cena e seus filmes mais famosos são comédias, ao mesmo tempo, escatológicas e moralistas. Um de seus maiores sucessos é Click, um filme absurdamente RUIM que não se decide entre ser comédia ou drama, com cenas mortalmente constrangedoras, como aquela em que peida na cara de um "congelado" David Hasselhoff. No geral, o "humor" de seus filmes vem disso: piadas sobre fluidos corporais ou insinuações de baixo calão que já foram vistas e ouvidas 3.659 vezes. Não fosse a ajuda de colegas bem mais talentosos, como Drew Barrymore e Jack Nicholson (com quem dividiu seu único filme que realmente me fez rir, Tratamento de Choque), estaria fazendo filmes de orçamento limitado, sem direito a passagem pelo cinema.

17/01/2011

Gibis de Verão

Gibis de Verão

A Noite Mais Densa


Eu gosto de Geoff Johns e costumo elogiá-lo, mas não dá pra fingir: A Noite Mais Densa prometia, mas revelou-se profunda feito um pires. A minissérie alterna edições interessantes com outras em que absolutamente NADA importante acontece. Confesso que acompanho no automático, porque é frustrante ver a caprichada arte de Ivan Reis ilustrar um texto tão fraco.

A Noite Mais Densa só engrena de verdade na revista do Lanterna Verde. É nela que estão as boas ideias e os desdobramentos mais significativos, com Johns escrevendo com bem mais garra que na mini, embora o filé seja o trabalho de outro escritor, cujo talento é mais perceptível a cada nova edição: Peter Tomasi escreve uma Tropa dos Lanternas Verdes empolgante e grandiosa, com ação e emoção dignos de um desenhista melhor que Patrick Gleason, que não chega a ser ruim, mas tampouco se destaca. Doug Mahnke (cujo estilo aos poucos se distancia daquele que Gleason aprendeu a emular) também é um substituto à altura para Ivan Reis: menos espetaculoso, mas dramático e dinâmico. Só não gosto do seu Larfleeze de focinho curto.

As minis relacionadas a outros personagens podem ser assim resumidas: gente morta volta para assombrar os heróis, eles sofrem um pouquinho, mas, vencem no final. Nada mais que valha a pena ser dito, exceto que o trabalho de J.T. Krul com os Novos Titãs merece ser acompanhado. Espero que a Panini se anime a publicar sua fase em Universo DC, uma vez que a série deixou tantos órfãos, com o fim de sua revista própria, no ano passado.


Jonah Hex, Vol. 1 e 2


Hesitei por algum tempo em adquirir estes encadernados de Jonah Hex, mas foram tantos os elogios que acabei cedendo à oportunidade na segunda edição. Justin Gray e Jimmy Palmiotti são um fiasco escrevendo super-heróis, mas parecem ter encontrado um estilo e um personagem que casam bem com suas ideias. As tramas que escrevem para Jonah Hex são ágeis e sangrentas, sem desperdício de diálogos - HQ pra macho, se você me permite o lampejo de sexismo. Incrível como eles conseguem pegar histórias que são, basicamente, variações do mesmo tema e torná-las únicas. A personalidade de Hex, com seu inabalável (ainda que questionável) senso de dever e justiça, está muito bem construída e não se trai em momento algum. A Panini fez bem em não desperdiçar este belo material, publicando-o em revistas de linha. O tratamento gráfico e o preço (R$ 14,90) são convidativos e a série deve estar fazendo sucesso, já que está com o terceiro volume engatilhado para este mês. Uma bela surpresa e uma leitura altamente recomendada.


Powers


Eu não comprei Powers, nem vou comprar - pelo menos, não pelos R$ 100 pedidos na capa. Estou usando-a para questionar a política editorial da Panini, que se apodera de materiais ansiosamente aguardado pelos leitores e anunciam com alarde seu lançamento (geralmente, ainda protelado por alguns meses) e, quando finalmente o faz, é num formato pouco convidativo como este: um tijolo em capa dura de 400 páginas, sendo que mais de 100 delas são de extras. Fazendo um paralelo com a semelhante iniciativa adotada em A Liga Extraordinária, há que se dizer: Alan Moore é, por assim dizer, Grande Arte, enquanto Brian Michael Bendis é, no máximo, um feijão-com-arroz saboroso. Sim, muita gente gosta mais de feijão-com-arroz do que de Grande Arte, mas dois encadernados com capa cartão e menos extras (ou um só, sem os extras) aumentariam as chances de sucesso da série. Quando estiver custando algo em torno de R$ 50, talvez eu me anime.

12/01/2011

DVD: Shrek Para Sempre

DVD: Shrek Para Sempre


Talvez seja proposital e a gente não saiba, mas o fato é que a saga de Shrek, ao longo de quatro filmes, se parece com um relacionamento amoroso. O primeiro filme era a fase do namoro, quando tudo é uma divertida e excitante novidade. A incorreção política era inteligente, as piadas eram realmente engraçadas e o Burro era como aquele cunhado que você adora. O segundo foi como o noivado, mais grandioso e envolvendo mais expectativa, mas, ainda, basicamente, um namoro, com a diferença de que agora os pais dela já se acostumaram com você. O terceiro era, enfim, o casamento - só que um casamento já lá pelo sétimo ano, quando a rotina começa a tirar a graça das coisas. Aquelas suas tiradas espirituosas, que costumavam alegrar as reuniões familiares, já parecem repetitivas e forçadas, e as pessoas riem apenas por educação.

Este quarto (e último) episódio equivale não a um divórcio, mas, a uma dolorosa aceitação de que sua vida conjugal não vai a lugar algum, não importa o que você invente. O melhor, portanto, é parar de reclamar que o casamento o deixou gordo e que seus amigos (com razão) se afastaram, passando a ostentar a hipócrita fachada de "casal estável". Não é de se admirar que o próprio personagem esteja passando por uma crise em sua vida familiar, em que ele sente saudades dos tempos de namoro, quando ainda era um ogro livre da marcação cerrada da mulher e sem três filhos pra criar, comendo e dormindo onde quisesse e fazendo o que bem entendesse.

A solução aparece para Shrek na forma de Rumpelstiltskin, um bruxo/duende que, no passado, esteve prestes a fechar um acordo com os pais de Fiona, em que estes o entregariam o reino de Tão Tão Distante, em troca da libertação da princesa/ogra. Quando já se preparavam para assinar os termos, Fiona foi libertada (por Shrek, no primeiro filme). Agora, ele enxerga na crise de meia-idade do ogro a oportunidade para concretizar seus plano. Em troca de apenas um dia mágico, sem as responsabilidades da sua vida de casado, Shrek concede a Rumpelstiltskin um dia qualquer de sua vida. O problema é que o bruxo lhe toma justamente o dia em que nasceu. Assim, quando acabe aquele dia, Shrek deixará de existir.

Embora Shrek para Sempre não chegue a ser monótono, a primeira risada genuína não vem antes da metade do filme - e isto é muito grave para uma série cujo primeiro capítulo fez muita gente rir até doer o maxilar. Pior, só o fato de que não há mesmo muito motivo para risos, sem que isso se deva à compreensão de que aquela á despedida dos personagens. Tampouco é a culpa exclusiva das piadas escatológicas, que se tornaram uma autêntica praga na produção cômica hollywoodiana dos últimos dez ou quinze anos. O que salta aos olhos é que Shrek, em seu capítulo final, virou, pasme, uma série dramática - e não das melhores. Os bons coadjuvantes reunidos ao longo da tetralogia são desperdiçados - ou será que alguém viu graça no Burro deste episódio? O Gato de Botas, gordo e preguiçoso feito um Garfield, passa o filme fazendo exatemente o que se espera de alguém no seu estado: comendo e dormindo.

Como se vê, uma despedida melancólica e, a julgar pelo estado das coisas, é melhor que não se tente qualquer novidade para "reacender a velha chama", subterfúgio ligeiramente ridículo usado por casais já sem qualquer sintonia entre si. Deixem o Shrek descansar em paz, antes que, num virtual quinto episódio, vejamos seu suicídio por depressão. Melhor ficar com as recordações, já meio amareladas pelo tempo, do saudoso início de namoro.

05/01/2011

A Rede Social

A Rede Social


Sendo as redes sociais (em tese) pouco mais do que uma futilidade divertida e consumidora de tempo útil, o anúncio de que seria feito um filme sobre a criação do Facebook provocou riso em algumas pessoas e grande desconfiança em outros (inclusive neste que vos escreve). Uma tolice dos nossos tempos só poderia, enfim, gerar um filme tolo - no máximo, esquecível em trinta minutos.

Tudo começou a parecer mais interessante com a chegada de David Fincher ao projeto. O diretor de petardos como Seven, Clube da Luta e Zodíaco não é conhecido por meter-se em barcas furadas. Seus filmes são aguardados com ansiedade e costumam gerar polêmica, devido à força de suas histórias e à ambiguidade moral de seus protagonistas e suas decisões.

Daí, que, embora grande parte do público ignorasse o fato, a criação do Facebook envolveu elementos de grande potencial explosivo: amizade, sexo, inveja, traição, gênio científico, suspeitas de plágio e muito, mas muito dinheiro envolvido. Baseado no livro The Accidental Billionaires, de Ben Mezrich, A Rede Social é tudo isso embalado em cinema de primeira.

Uma vez que você passe pela cena inicial, em que Mark Zuckerberg (o sócio criativo da rede, interpretado com garra por Jesse Eisenberg) "metralha" sua namorada num diálogo impossivelmente veloz, em que misturam dois ou três assuntos sem pausa para respirar, e no qual se revelam alguns dos problemas de personalidade que costumam acometer aos gênios, será apresentado aos demais personagens cujas vidas se misturam ao site que fez de Zuckerberg o bilionário mais jovem da História. Entre eles, está um brasileiro, Eduardo Saverin (papel de Andrew Garfield, o novo Homem-Aranha), virtualmente o único amigo de Zuckerberg, co-fundador e principal financiador do site em seu nascimento; os gêmeos Winklevoss, premiados remadores de Harvard que encomendam a Zuckerberg uma rede social que teria "inspirado" o Facebook; e, principalmente, o renascido Sean Parker (um excelente Justin Timberlake), criador do Napster, o P2P que forçou a indústria da música a adaptar-se aos novos tempos digitais.

Mesmo como todo o papo geek, a história é emocionalmente tão intensa que o palavreado técnico e as piadas internas acabam tornando-se irrelevantes. Um bom exemplo é a amizade entre Saverin e Zuckerberg. A extrema paciência e amabilidade de Saverin constrastam fortemente com o ultrapragmatismo e a baixa sociabilidade de Zuckerberg, o que já torna o laço entre eles, no mínimo, delicado. A chegada de Parker à sociedade, com quantias obscenas de dinheiro, charme, arrogância e veneno, seduz a Zuckerberg e põe Saverin em alerta, culminando na sequência em que este último é chutado para fora do barco, com a silenciosa anuência do primeiro. A decepção e o ressentimento entre os dois são visíveis no julgamento de Zuckerberg, do qual Saverin saiu com o reconhecimento permanente como co-fundador do Facebook e uma indenização previsivelmente vultosa, mas jamais revelada.

As sequências de tribunal, inseridas ao longo da trama, são alguns dos pontos altos do filme. Nela se revelam a habilidade do roteirista Aaron Sorkin em dar sentido à aparente desfaçatez de Zuckerberg, com sua mente funcionando sempre a mil por hora, e o talento de Jesse Eisenberg na construção de um personagem que passa, em segundos, do encantador ao detestável - e de volta, no momento seguinte. O filme é, desde já, franco favorito ao Oscar 2011 e tanto Eisenberg quanto Timberlake têm grandes chances de voltar para casa premiados.

A trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross ajuda muito na construção dos climas, indo do minimalismo soturno ao eletrônico frenético, temas estes que foram objeto de recente
polêmica sobre a elegibilidade desta trilha para o Oscar, uma vez que alguns sets são canções pré-existentes do Nine Inch Nails (grupo comandado por Reznor), reciclados pela dupla responsável. A Academia, porém, julgou-a apta.

Num ano em que os estúdios faziam crer que usar 3D era mais importante do que ter uma boa história, não deixa de ser agradável surpresa que tenhamos chegado ao fim de 2010 com tantos bons filmes, entre os quais o filme de Fincher sobressai (se não por seus muitos méritos, pelo hype). A disputa pelos prêmios vai ser embolada, mas A Rede Social, um projeto filho de seu tempo e em que tudo deu tão certo, tem um nariz de dianteira.