05/01/2011

A Rede Social

A Rede Social


Sendo as redes sociais (em tese) pouco mais do que uma futilidade divertida e consumidora de tempo útil, o anúncio de que seria feito um filme sobre a criação do Facebook provocou riso em algumas pessoas e grande desconfiança em outros (inclusive neste que vos escreve). Uma tolice dos nossos tempos só poderia, enfim, gerar um filme tolo - no máximo, esquecível em trinta minutos.

Tudo começou a parecer mais interessante com a chegada de David Fincher ao projeto. O diretor de petardos como Seven, Clube da Luta e Zodíaco não é conhecido por meter-se em barcas furadas. Seus filmes são aguardados com ansiedade e costumam gerar polêmica, devido à força de suas histórias e à ambiguidade moral de seus protagonistas e suas decisões.

Daí, que, embora grande parte do público ignorasse o fato, a criação do Facebook envolveu elementos de grande potencial explosivo: amizade, sexo, inveja, traição, gênio científico, suspeitas de plágio e muito, mas muito dinheiro envolvido. Baseado no livro The Accidental Billionaires, de Ben Mezrich, A Rede Social é tudo isso embalado em cinema de primeira.

Uma vez que você passe pela cena inicial, em que Mark Zuckerberg (o sócio criativo da rede, interpretado com garra por Jesse Eisenberg) "metralha" sua namorada num diálogo impossivelmente veloz, em que misturam dois ou três assuntos sem pausa para respirar, e no qual se revelam alguns dos problemas de personalidade que costumam acometer aos gênios, será apresentado aos demais personagens cujas vidas se misturam ao site que fez de Zuckerberg o bilionário mais jovem da História. Entre eles, está um brasileiro, Eduardo Saverin (papel de Andrew Garfield, o novo Homem-Aranha), virtualmente o único amigo de Zuckerberg, co-fundador e principal financiador do site em seu nascimento; os gêmeos Winklevoss, premiados remadores de Harvard que encomendam a Zuckerberg uma rede social que teria "inspirado" o Facebook; e, principalmente, o renascido Sean Parker (um excelente Justin Timberlake), criador do Napster, o P2P que forçou a indústria da música a adaptar-se aos novos tempos digitais.

Mesmo como todo o papo geek, a história é emocionalmente tão intensa que o palavreado técnico e as piadas internas acabam tornando-se irrelevantes. Um bom exemplo é a amizade entre Saverin e Zuckerberg. A extrema paciência e amabilidade de Saverin constrastam fortemente com o ultrapragmatismo e a baixa sociabilidade de Zuckerberg, o que já torna o laço entre eles, no mínimo, delicado. A chegada de Parker à sociedade, com quantias obscenas de dinheiro, charme, arrogância e veneno, seduz a Zuckerberg e põe Saverin em alerta, culminando na sequência em que este último é chutado para fora do barco, com a silenciosa anuência do primeiro. A decepção e o ressentimento entre os dois são visíveis no julgamento de Zuckerberg, do qual Saverin saiu com o reconhecimento permanente como co-fundador do Facebook e uma indenização previsivelmente vultosa, mas jamais revelada.

As sequências de tribunal, inseridas ao longo da trama, são alguns dos pontos altos do filme. Nela se revelam a habilidade do roteirista Aaron Sorkin em dar sentido à aparente desfaçatez de Zuckerberg, com sua mente funcionando sempre a mil por hora, e o talento de Jesse Eisenberg na construção de um personagem que passa, em segundos, do encantador ao detestável - e de volta, no momento seguinte. O filme é, desde já, franco favorito ao Oscar 2011 e tanto Eisenberg quanto Timberlake têm grandes chances de voltar para casa premiados.

A trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross ajuda muito na construção dos climas, indo do minimalismo soturno ao eletrônico frenético, temas estes que foram objeto de recente
polêmica sobre a elegibilidade desta trilha para o Oscar, uma vez que alguns sets são canções pré-existentes do Nine Inch Nails (grupo comandado por Reznor), reciclados pela dupla responsável. A Academia, porém, julgou-a apta.

Num ano em que os estúdios faziam crer que usar 3D era mais importante do que ter uma boa história, não deixa de ser agradável surpresa que tenhamos chegado ao fim de 2010 com tantos bons filmes, entre os quais o filme de Fincher sobressai (se não por seus muitos méritos, pelo hype). A disputa pelos prêmios vai ser embolada, mas A Rede Social, um projeto filho de seu tempo e em que tudo deu tão certo, tem um nariz de dianteira.

6 comentários:

Ícaro disse...

De fato um dos melhores filmes do ano... Acho que esse filme conseguiu de uma forma majestosa falar de tecnologia e jogos humanos.

O texto está otimo tmb, abordando de forma rápida, como no filme, o tema, mas sem deixar de ser coerente e sem deixar de tocar em questões importantes.

Acho que apenas um detalhe passou. A atuação de Andrew Garfield, ela foi impecavel, pra mim, de longe a melhor do elenco. Isto não quer dizer que os outros esteja ruins, pelo contrario. Estão muito bons também. Apenas Que ele ficou excelente.

O filme tem uma dinânimca que reflete bem essa nova geração. Sem forçar a barra ele chegou entre os melhores filmes do ano.

Alexandre disse...

Foi dessas ocasiões em que é maravilhoso estar errado sobre algo. Achava esse filme uma perda de tempo,e terem chamado o merda do Justin Timberlake para um dos protagonistas não ajudava em nada.
Mas foi como o texto do Marlo apontou, a verdadeira estratégia para o cinema é a mesma de sempre: o roteiro. Diálogos vertiginosos, num filme em que até as cenas de tribunal são alucinantes, e atentem que dispensou qualquer guinada drástica, para uma história pública!!
Tudo culminando na espetacular e melancólica cena final: Baby, I'm a rich man!

Stalone disse...

Este filme me fez lembrar a frase, Na vida nada se cria tudo se copia...Agora é aguardar para saber qual será a novidade do momento...

Do Vale disse...

Só passando aqui pra dizer que adiei tanto ver esse filme que ele saiu dos cinemas de São Luis.
MAS QUEM EU QUERO ENGANAR, TÁ CHEIO DE CAMELÔ AQUI NO CENTRO! =D

Filipe Harpo disse...

Eu sabia que vc ia gostar Marlos! rsrsrs e sim, eu fui á em baixo ver se vc tinha mudado o post de melhores do ano rsrsrs. abração rapaz.

Kelnner disse...

A Rede Social é realmente um filme digno de nota. Extremamente bem dirigido por Fincher, com uma montagem dinâmica e personagens curiosos. Acho o filme um primor técnico. As atuações de Andrew e Jesse são absurdamente boas, impecáveis na verdade. O filme pra mim só tem um defeito... ele não tem muita alma, que acredito ser justamente o que Fincher queria mostrar, mas isso fez com que a minha identificação com o filme como um todo fosse prejudicada. Adoro filmes em que crio empatia com os personagens, mas em ARS eu simplesmente me sinto assistindo um documentário político.

De qualquer maneira um filme que deve ser assistido, de certo um dos melhores do ano.