MPBestas

Chico Buarque vai morrer. Isso não é um desejo, nem uma premonição, apenas uma fato biológico. Às vezes, me pego pensando no vulto da comoção nacional em tal ocasião, já que dificilmente seu status de gênio vivo (isto é, até aquele momento) será arranhando por qualquer coisa antes disso. Com sua eventual morte, seu caráter legendário será, muito provavelmente, ampliado até a saturação. Aos seus adoradores, restará o regozijo com seu legado cultural. Aos seus detratores (sim, eles existem), sobrará a clandestinidade - afinal, se, hoje em dia, dizer que não se gosta de Chico Buarque já faz algumas pessoas arregalarem os olhos em descrença, imagine quando ele for alçado à condição de semidivindade.
Não que seja culpa do próprio Chico. Ele deve achar certa graça de tudo isso, embora não vá abrir mão tão facilmente da adulação que lhe abre tantas portas, dizendo "gente, não é pra tanto". No fundo, ele gosta do conforto de sentar-se neste imaginário Olimpo da música brasileira, de cujo topo compartilha o rarefeito ar com outros "deuses" da MPB: Caetano Veloso, Milton Nascimento, Tom Jobim, Elis Regina, Gilberto Gil, só para citar alguns. Outras "divindades menores" se espremem nos degraus inferiores: Djavan, Simone, João Bosco, Oswaldo Montenegro...
O problema de tamanha adoração é que ela fatalmente leva à superestimação. O típico fã de MPB costuma ser uma criatura absurdamente intransigente em seu gosto musical: ele só gosta de música brasileira "pura", aquela feita ou abençoada pelos mesmos medalhões de sempre, e despreza com veemência "toda essa porcaria cantada em inglês". Além do mais, sente-se mais inteligente e esclarecido do que qualquer outro ser humano e recusa-se a reconhecer que seus ídolos tenham gravado uma eventual merda de música (1) - é mais fácil que acredite que o problema está nele próprio, pois não consegue compreender a genialidade daquela composição.
(1): Isto, aliás, é típico de qualquer fã roxo. Um fã de Beatles que não admite que eles fizeram uma das piores músicas de todos os tempos ("Ob-la-di, Ob-la-da"), ou um fã de heavy metal que não admita sequer a existência de outro gênero de música interessante, não é menos merecedor de um esculacho pesado do que um "MPBesta".
E, cara, como tem estrume sendo chamado de pérola na MPB! Esta sigla, como a conhecemos, já tem cara de coisa velha. Só me traz à memória aquelas canções aboleradas e cafonas que reinaram até o final década de 80, com um(a) intérprete "intenso(a)" e o som de bateria mais chocho possível - e isso quando usam bateria, porque é notória a fixação pelo minimalismo instrumental de um piano ou violão absolutamente secos. É uma espécie de antipop total.
Existe, ainda, o problema das letras. Como todo mundo prestava muita atenção no que era dito pelas figuras exiladas no auge da ditadura, só pra ver que nova forma eles encontrariam de soltar uma farpa em direção aos militares, criou-se um culto exagerado a letras criptografadas que, agora, fora de seu contexto, soam a mera boçalidade intelectualoide. Muita gente se esforça, também, para entender o que não pode ou não precisa ser entendido, exceto, quem sabe, pelo seu próprio autor, caso típico de algumas famosas composições de Caetano e Gil. O fã de MPB quer achar sentido,"inteligência", em absolutamente tudo. Por isso que é tão divertido quando aparece alguém como Oswaldo Montenegro e diz que, com o verso "fiz um drops de hortelã da bala que eu te dei", ele não queria dizer nada além do que as palavras revelam. Era aquilo ali mesmo e só. Um golpe na autoestima dos "esclarecidos" e diversão pura para mim!
Falando assim, eu posso estar soando como alguém que não gosta de MPB, mas isso não é verdade. Eu simplesmente tenho critérios e ouço a MPB em ondas: escuto direto durante alguns dias e, depois, passo meses sem querer passar perto. Acho Caetano um gênio, sim, mas também acho várias de suas músicas umas belas drogas. Tom Jobim e Vinícius de Moraes escreviam canções incríveis, mas deveriam ter sido proibidos por decreto de aproximar-se de um microfone (exceto que fosse para Vinícus, bêbado, soltar uma pérola de incorreção política). "Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores", de Geraldo Vandré, teve sua importância e seu refrão (2) fica doce na boca de gurus de autoajuda, mas ela está completamente ultrapassada e deve ser deixada onde está: no passado.
(2): (Vem, vamos embora / que esperar não é saber / quem sabe faz a hora / não espera acontecer)
E, claro, o fato de que o culto extrapolado à MPB é um saco não eclipsa outro, comprovado nos últimos 20 anos: sempre pode ficar pior, muito pior. Houve um tempo em que MPB tocava nas FMs mais populares. Hoje, suplantada por gêneros mais queridos pelo povão (como funk, pagode e sertanejo), a MPB se encolhe nas ditas rádios de (iiihh...) "bom gosto", as Globo FM e Antena 1 da vida (ca-shing!), exceção feita a estrelas mais jovens e com um pouco mais de sintonia e (humm) penetração junto à juventude: Vanessa da Mata, Maria Rita, Marisa Monte, Ed Motta e outros devidamente consagrados, abrindo o caminho para uma geração que já começa a fascinar e soprar um pouco de frescor nesse gênero um tanto embolorado, Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci à frente.
Agradecemos sinceramente à colaboração desses dinossauros, inclusive porque eles continuam esforçando-se em constantes novos trabalhos, mas, senhores, com o devido respeito aos seus cabelos brancos, é hora de dar um passinho para o lado e desocupar o palco, em favor de um monte de gente mais jovem, muito talentosa e com fome de produzir arte que, oxalá, será mais rica, mais bonita, mais dinâmica e mais ligada aos ouvidos e corações daqueles que consomem música hoje em dia.
Não que seja culpa do próprio Chico. Ele deve achar certa graça de tudo isso, embora não vá abrir mão tão facilmente da adulação que lhe abre tantas portas, dizendo "gente, não é pra tanto". No fundo, ele gosta do conforto de sentar-se neste imaginário Olimpo da música brasileira, de cujo topo compartilha o rarefeito ar com outros "deuses" da MPB: Caetano Veloso, Milton Nascimento, Tom Jobim, Elis Regina, Gilberto Gil, só para citar alguns. Outras "divindades menores" se espremem nos degraus inferiores: Djavan, Simone, João Bosco, Oswaldo Montenegro...
O problema de tamanha adoração é que ela fatalmente leva à superestimação. O típico fã de MPB costuma ser uma criatura absurdamente intransigente em seu gosto musical: ele só gosta de música brasileira "pura", aquela feita ou abençoada pelos mesmos medalhões de sempre, e despreza com veemência "toda essa porcaria cantada em inglês". Além do mais, sente-se mais inteligente e esclarecido do que qualquer outro ser humano e recusa-se a reconhecer que seus ídolos tenham gravado uma eventual merda de música (1) - é mais fácil que acredite que o problema está nele próprio, pois não consegue compreender a genialidade daquela composição.
(1): Isto, aliás, é típico de qualquer fã roxo. Um fã de Beatles que não admite que eles fizeram uma das piores músicas de todos os tempos ("Ob-la-di, Ob-la-da"), ou um fã de heavy metal que não admita sequer a existência de outro gênero de música interessante, não é menos merecedor de um esculacho pesado do que um "MPBesta".
E, cara, como tem estrume sendo chamado de pérola na MPB! Esta sigla, como a conhecemos, já tem cara de coisa velha. Só me traz à memória aquelas canções aboleradas e cafonas que reinaram até o final década de 80, com um(a) intérprete "intenso(a)" e o som de bateria mais chocho possível - e isso quando usam bateria, porque é notória a fixação pelo minimalismo instrumental de um piano ou violão absolutamente secos. É uma espécie de antipop total.
Existe, ainda, o problema das letras. Como todo mundo prestava muita atenção no que era dito pelas figuras exiladas no auge da ditadura, só pra ver que nova forma eles encontrariam de soltar uma farpa em direção aos militares, criou-se um culto exagerado a letras criptografadas que, agora, fora de seu contexto, soam a mera boçalidade intelectualoide. Muita gente se esforça, também, para entender o que não pode ou não precisa ser entendido, exceto, quem sabe, pelo seu próprio autor, caso típico de algumas famosas composições de Caetano e Gil. O fã de MPB quer achar sentido,"inteligência", em absolutamente tudo. Por isso que é tão divertido quando aparece alguém como Oswaldo Montenegro e diz que, com o verso "fiz um drops de hortelã da bala que eu te dei", ele não queria dizer nada além do que as palavras revelam. Era aquilo ali mesmo e só. Um golpe na autoestima dos "esclarecidos" e diversão pura para mim!
Falando assim, eu posso estar soando como alguém que não gosta de MPB, mas isso não é verdade. Eu simplesmente tenho critérios e ouço a MPB em ondas: escuto direto durante alguns dias e, depois, passo meses sem querer passar perto. Acho Caetano um gênio, sim, mas também acho várias de suas músicas umas belas drogas. Tom Jobim e Vinícius de Moraes escreviam canções incríveis, mas deveriam ter sido proibidos por decreto de aproximar-se de um microfone (exceto que fosse para Vinícus, bêbado, soltar uma pérola de incorreção política). "Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores", de Geraldo Vandré, teve sua importância e seu refrão (2) fica doce na boca de gurus de autoajuda, mas ela está completamente ultrapassada e deve ser deixada onde está: no passado.
(2): (Vem, vamos embora / que esperar não é saber / quem sabe faz a hora / não espera acontecer)
E, claro, o fato de que o culto extrapolado à MPB é um saco não eclipsa outro, comprovado nos últimos 20 anos: sempre pode ficar pior, muito pior. Houve um tempo em que MPB tocava nas FMs mais populares. Hoje, suplantada por gêneros mais queridos pelo povão (como funk, pagode e sertanejo), a MPB se encolhe nas ditas rádios de (iiihh...) "bom gosto", as Globo FM e Antena 1 da vida (ca-shing!), exceção feita a estrelas mais jovens e com um pouco mais de sintonia e (humm) penetração junto à juventude: Vanessa da Mata, Maria Rita, Marisa Monte, Ed Motta e outros devidamente consagrados, abrindo o caminho para uma geração que já começa a fascinar e soprar um pouco de frescor nesse gênero um tanto embolorado, Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci à frente.
Agradecemos sinceramente à colaboração desses dinossauros, inclusive porque eles continuam esforçando-se em constantes novos trabalhos, mas, senhores, com o devido respeito aos seus cabelos brancos, é hora de dar um passinho para o lado e desocupar o palco, em favor de um monte de gente mais jovem, muito talentosa e com fome de produzir arte que, oxalá, será mais rica, mais bonita, mais dinâmica e mais ligada aos ouvidos e corações daqueles que consomem música hoje em dia.
5 comentários:
Cara, depois de ler o texto só me lembrei de um fato que ocorreu comigo. Meu pai curte muito MPB e odeia rock. Certo dia tava eu vendo a MTV e tava passando uma apresentação do Ira e Skank juntos. Eles tavam tocando Jorge Maravilha, na parte do refrão ("Você não gosta de mim, mas sua filha gosta"), aí meu pai diz, "que letrinha, heim?", e eu respondo, "é do Chico Buarque", ele desconversou na hora, kkkkkk...
Ah, e eu gosto de Ob-la-di, Ob-la-da, ruim mesmo é Revolution 9 e seus 8 min de ruídos.
É que Narciso acha feio o que não é espelho...
Ah, me sinto burro ouvindo algumas do Djavan e do Caetano, é uma aflição. =D
Rsrsrsrsrrsrs...De maneira estúpida e ignorante eu já dizia algo parecido com isso uns 10/12 anos atrás...
E esse povo não morre...Não sei o que eles tomam ou comem, mas são eternos...(Espíritos do mal, transformem essa forma decadente em...)
Eu concordo com 100% do que vc disse Marlo. Sou fã de MPB mas tb gosto de outros gêneros e ñ acho q um seja superior a outro pois todo estilo musical é válido, depende apenas de ouvi-los no momento certo. Quanto a "eternidade" dos MPBs eu sigo Belchior quando diz na famosa música que "o novo sempre vem".
Na boa, admito que já passei por situações como essa citada pelo Paranoid: critiquei algo interpretado por alguém que me desagradava, mas que provinha de alguém que admirava.
Com relação à MPB, comprei algumas coisas de Marina (antes de virar Lima), Djavan (hoja não mais) e um único CD da Marisa Monte.
Meu saco pra MPB é pequeno, acho irritante esse povo que segue cegamente os "MPBistas", sem perceber que nem tudo que reluz é ouro.
Apesar de o gênero que prefiro, o rock, estar em fase de redescoberta e recriação (até quando, meu Deus?), não consigo dar abertura suficiente pra MPB, nem no sentido amplo da expressão...
Abraço!
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