21/03/2011

Homenagem: Lulu Santos

Esta nova série do Catapop pretende prestar tributos a artistas de diversas áreas enquanto eles ainda estão vivos, porque me irrita perceber que, às vezes, é preciso que alguém morra para ter seu valor reconhecido ou "descoberto" pela manada de ignorantes que acham que só o que ganha hashtag #RIP no Twitter vale a pena ser visto, ouvido ou lido.

Homenagem para quem está vivo
LULU SANTOS


Tenho a firme convicção de que todas as 190 milhões de pessoas que habitam este país conheçam ou, em algum momento, tenham ouvido uma música de Lulu Santos, tenha sido com o próprio ou em versões de outros artistas. É até engraçado que alguém surgido em uma banda (Vímana) de um dos subgêneros de rock (o progressivo) mais esnobes que existem tenha virado sinônimo de canções de apelo popular tão forte, com suas melodias redondas, letras simples e inteligentes e refrões irresistíveis.

Quando pensamos que lá se vão quase 30 anos desde seu surgimento com "Tempos Modernos", entende-se o porquê. Lulu Santos atravessou gerações e, ao contrário de muitos dos seus contemporâneos ou predecessores mais longevos, não teve vontade de "amadurecer", coisa que, nesta terra de equívocos, é entendido como usar blazer e cantar cafonices. Ele segue fazendo o que sempre soube fazer melhor: música pop rica, mas, acessível, daquele tipo que transita com desenvoltura entre os carros dos playboys e as FMs comunitárias nos morros.

"Tempos Modernos" foi, inclusive, a minha porta de entrada no universo de Lulu, como deve ter sido para muita gente que viveu o boom do rock brasileiro nos anos 80. Naquele 1982, eu nem tinha 10 anos ainda e já me via ligado naquele monte de gente colorida e divertida que vinha, quase sempre, do Rio de Janeiro, terra do "rock de bermudas", que nos daria Lulu, a Blitz, o Kid Abelha e alguns outros menos dignos de nota. Acontece que "Tempos Modernos" pairava muito acima de tudo mais que tocava no rádio, por conta da sua letra que refletia, como nenhuma outra, os anseios de uma juventude que, sim, buscava ver-se livre dos militares que ainda governavam o país, mas que achava que melhor do que pegar em armas e forçar liberdade ao custo de muito sangue, era espalhar (sem ranço hippie) amor e autoconhecimento, caminhos que levam a revoluções mais importantes e duradouras: aquelas que acontecem dentro das pessoas e, só então, para fora delas.

A alegria e o humor das bandas cariocas logo se tornariam um estereóptipo odioso e não demoraria a gerar a invasão das bandas paulistas e candangas. Lulu Santos, porém, seguia firme em sua carreira, emplacando hits, angariando respeito e comparações com o até então inquestionável Rei da nossa música, Roberto Carlos, pela sensibilidade melódica e pela capacidade de agradar, com as mesmas canções, às empregadas da periferia e às patricinhas do condomínio.

Se houver justiça neste mundo, porém, a verdade é que Lulu Santos tem muito mais méritos do que vossa majestade RC, pois não precisou apelar para temas religiosos para manter-se vivo no mercado.

Passaram-se décadas e Lulu manteve-se fiel ao seu estilo, apenas refinando-o ao sabor das novas tendências. Quando radicalizou em seu amor pela disco music, porém, conheceu o maior sucesso de sua carreira, o disco Eu e Memê, Memê e Eu (1995), que ultrapassou um milhão de cópias vendidas e renovou seu público. Outro que se aproximou do milhão foi seu primeiro Acústico MTV (2000), tido pelo próprio como um adequado balanço de sua carreira até então.

É verdade que Lulu Santos já não vende hoje como antigamente (e quem é que vende?) e que seu nome anda meio esquecido em meio à montanha de gente inexpressiva que tomou as rádios de assalto com canções simplórias e repetitivas. Para nossa sorte, porém, agora já quase um sessentão, ele segue ativo e inquieto. Não consigo pensar em outro artista pop brasileiro mais digno de homenagens. Obrigado pelos últimos 30 anos, Lulu.



Top 15 Lulu Santos
Tarefa inglória, essa de escolher apenas 15. =\

"O Último Romântico"
"Tempos Modernos"
"Minha Vida"
"Toda Forma De Amor"
"A Cura"
"Fogo De Palha"
"Como Uma Onda (Zen Surfismo)"
"Sereia"
"Apenas Mais Uma De Amor"
"Papo Cabeça"
"Certas Coisas"
"Vale de Lágrimas"
"Adivinha O Quê"
"Já É"

1 comentários:

Caesius Maximus disse...

Confesso que só comecei a admirar Lulu Santos após ter assistido a uma performance ao vivo, na Pedreira Pulo Leminski, em meados da década de 90. Algum tempo antes ele tinha dado entrevista no Faustão e demonstrou ser meio boçal, angariando minha antipatia. Naquela noite fui assistir especificamente ao show do Skank, banda revelação na época, e só fiquei para o show do Lulu (última atração da noite) porque já tinha pago o ingresso. Depois de um longo atraso, ele começou seu show e, para minha surpresa, dominou toda a platéia e foi um show memorável. Tempos depois, já no início dos anos 2000, fui a uma apresentação no Guairão do seu show acústico. Porra, tenho que admitir: Lulu Santos comanda em suas apresentações ao vivo. Merece todo respeito, ainda que se ache a última bolacha do pacote. Bela iniciativa, Marlo!