14/04/2011

Cisne Negro

Cisne Negro


Ao contrário do que muita gente pensa, a perfeição existe, sim. O problema em querer chegar à perfeição é que o ser humano, definitivamente, não foi feito para ela. Há os que conseguem tal feito. Só que ela é, por definição, caprichosa, e costuma cobrar um preço altíssimo dos que se arriscam a alcançá-la. Pode ser a sua integridade, sociabilidade ou sanidade, mas, esteja certo: ela não se deixa ter de graça.

Nina Sayers (
Natalie Portman, no papel de sua vida) sabe disso. Ao ser convidada para interpretar Odette, a meiga Cisne Branca do balé O Lago dos Cisnes, ela se torna obcecada em ser considerada, pelo exigente diretor Thomas Leroy (Vincent Cassel), em ser colocada, também, no papel de Odile, a pérfida Cisne Negra que rouba da irmã o amor do príncipe Siegfried, o que leva ao suicídio de Odette. Para o diretor, Nina tem a doçura necessária para ser a cisne boa, mas falta-lhe ímpeto, paixão e sex appeal para interpretar a cisne má.

Em sua obstinação, Nina entra em um processo de degradação física e psicológica tão intenso que, em certos momentos, ficamos nós mesmos confusos sobre o que é real ou fruto da sua cabecinha fraca. Além da pressão profissional, Nina ainda tem que lidar com uma mãe que a subestima, uma colega (
Mila Kunis) que também deseja o mesmo papel, e estranhos problemas cutâneos que, aos poucos, vão revelando algo assustador: Nina, como a princesa enfeitiçada que protagoniza o balé, parece estar, de fato, transformando-se em um cisne.


Os lampejos psicóticos de Nina vão ficando cada vez mais assustadores (frequentemente envolvendo automutilação) e seria fácil para o diretor
Darren Aronofsky cair em armadilhas rasteiras de suspense barato, mas estamos falando do homem que fez Réquiem para um Sonho: de degradação humana, ele entende. O que acontece com Nina é comum a todas as pessoas, em maior ou menor grau: às vezes, descobrimos algo sobre nós mesmos que nos desagrada profundamente; nossas personalidades se desdobram em novos tons, nem sempre bonitos de se ver ou fáceis de aceitar. Alguns destes, porém, acabam sendo cruciais para nosso crescimento, ainda que provoquem muita dor.

E quando, enfim, Nina (como era de se esperar) vive seu grande momento, em meio ao delírio de que, enquanto dança a caminho da perfeição, crescem-lhe as penas do cisne negro (cena deslumbrante que entra para a História do Cinema, sem escalas), também vemos ali o desabrochar definitivo de uma atriz que sempre viveu a condição de "cisne branco": alguém com imenso potencial dentro de si para encantar e assustar, mas eternamente à espera de um papel que a fizesse desabrochar em todo o seu esplendor. Para Natalie Portman, este momento chegou com
Cisne Negro. Que bom que a Academia reconheceu isso com um Oscar que, este ano, não poderia realmente ser de mais ninguém.

13/04/2011

Rio

Rio


Na falta de qualquer argumento válido contra Rio, os críticos estão dizendo que o filme alimenta ainda mais a imagem estereotipada que as plateias estrangeiras têm dos brasileiros e mostra um Rio de Janeiro quase utópico de tão tranquilo. Ou então, implicam que o Brasil é muito mais do que apenas o Rio e que a insistência em samba e carnaval não deixa espaço para outros valores locais.

Vamos por partes:

Sim, é verdade que Rio investe pesado na imagem do brasileiro como povo alegre e que conta as horas para o carnaval. Diga-me, então, onde está a mentira ou o exagero. Claro, existem pessoas que não gostam de carnaval e preferem isolar-se em seus lares, bem longe da folia - mas, sinceramente, que graça haveria em gente assim para ser mostrada em uma produção que, enfim, é voltada para o público infantil? A quem interessa a carranca "consciente" de quem só enxerga barulho, sujeira e promiscuidade numa festa que mobiliza milhões de pessoas (e de reais) país afora (enquanto paga pau para raves, Mardi Gras e outras festas iguaizinhas em outros países)? À gurizada, certamente, não - e, admita, a você tampouco.

Outra coisa: o Rio mostrado em Rio não é imaculado. Estão ali os traficantes de animais, as crianças abandonadas, as favelas - impecavelmente retratadas, exceto pela ausência de menores com metralhadoras e cadáveres pela rua (novamente, a quem interessaria ver isso?). A realidade não é só formada por desgraças: todos os dias, muita gente sai de casa feliz, passa o dia feliz e volta para casa feliz. Ainda bem!

Por fim, vamos parar de bairrismo e coitadismo: o Brasil não é só o Rio de Janeiro, mas, querer ignorar sua representatividade ou recusar-se a admitir que o carnaval é a maior festa brasileira (e que retratá-la de modo positivo deveria ser absolutamente natural para nós) é pura e teimosa burrice. Deixe as denúncias de exploração sexual e envolvimento de bicheiros com as escolas de samba para os documentários.

Ao filme, portanto:

Capturado ainda bebê por traficantes, Blu é um macho de arara azul que vai parar em uma cidadezinha de Minnesotta (EUA), onde é criado por Linda com muito amor, mas sem jamais aprender a voar. Adulto, Blu é identificado como último macho da espécie pelo biólogo Túlio, que pretende levá-lo para o Rio, onde mantém, em seu centro de recuperação de aves silvestres feridas, uma fêmea chamada Jade. Inicialmente relutante, Linda acaba concordando com a viagem ao Brasil. Os dois pássaros, porém, acabam sequestrados por traficantes de animais. Além de fugir, Blu precisará encontrar seu caminho de volta para Linda, descobrir se pode aprender a voar e, principalmente, entender-se com Jade e, assim, salvar sua espécie da extinção.


A história de Rio é, como não podia deixar de ser, contada com a ajuda de outros animais espertos, humanos bons e maus, muito humor e alguma emoção. O que mais impressiona, porém, é o espetáculo visual da construção digital da Cidade Maravilhosa. Dos quiosques da orla carioca ao Jardim Botânico, passando pelas favelas e pelos obrigatórios Pão de Açúcar e Cristo Redentor, o filme revela o cuidado do diretor Carlos Saldanha (responsável pela trilogia A Era do Gelo) em mostrar ao mundo uma cidade que continua linda, apesar de todos os maus tratos a que é seguidamente submetida. Não há massacre de Realengo que embace sua beleza. Ainda bem (também)!

Caso seja difícil sentir orgulho da imagem (estereotipada, mas positiva) que o filme faz dos brasileiros em geral e dos cariocas em particular, tente sentir-se bem com o fato de que temos em Hollywood um diretor que não deve nada aos seus pares americanos, cujo nome é sinônimo de diversão (o que interessa diretamente a nós) e sucesso (o que interessa diretamente a Hollywood). Caso você insista em torcer o nariz, vá atrás dos 5.847 outros filmes que falam das mazelas nacionais e tenha seu dia estragado. Rio não foi mesmo feito para você.

06/04/2011

Gordo, eu?

Gordo, eu?


Cerca de um mês e meio atrás, contei a vocês que estava vencendo minha briga contra a insistência do ponteiro da balança em pender para a direita. Naquele 19 de fevereiro, minha alegria estava evidente em meu orgulho de voltar a pesar "apenas" 81 kg. Pois bem, hoje, eu volto com resultados mais vistosos: cerca de 80 dias após começar meu programa de emagrecimento, atingi o peso que desejava: 75 kg. Sem grandes sacrifícios e sem perda de saúde.


Ainda não tenho uma barriga como a da foto que ilustra este post, mas, quem sabe, ainda chegue lá? O melhor é perceber que, sim, isto é possível, mesmo levando em conta minha idade e meu gosto por cerveja e outras delícias engordantes. Provavelmente, eu precisaria abrir mão de mais algumas delas para ter um resultado tão bom - mas, francamente, para que? Meu ego se alimentaria disso por um tempo, mas não decidi emagrecer por questões meramente estéticas, mas de saúde e bem-estar. Minha meta é manter-me saudável e aproveitar melhor a vida, não caminhar para o caixão com um abdômen de figurante de 300 e frustrado por não ter feito, comido ou bebido coisas que queria. Como eu disse no post anterior sobre o assunto, é necessário dar-se pequenos "presentes", ou tanto esforço terá sido em vão.


Logicamente, não devo minha atual boa forma somente à reeducação alimentar. Meu empenho na academia, principalmente na esteira ergométrica, contribuiu muito para que eu chegasse onde estou. Só que, como eu também já havia dito, eu já malhava sem assistência antes e não conseguia mais do que parecer um gordo com braços fortes. Assim sendo, não posso deixar de incluir neste post "comemorativo" alguns agradecimentos a dois amigos muito importantes nessa história toda.


Primeiro, ao meu professor na Academia Plena Forma, Marcelo Sampaio, única pessoa que soube (ou quis) conduzir-me aos resultados esperados, em todos esses anos em que frequento academias. Sim, é claro que os resultados sempre dependeram muito mais da minha disciplina (ou da falta dela), mas é irritante perceber que, às vezes, você não recebe a atenção adequada em uma academia, só porque nasceu homem. Ao invés de simplesmente deixar que eu jogasse dinheiro fora malhando errado, pra que ele pudesse dar atenção às gostosas, Marcelo soube manter-me na linha e sempre teve total controle do processo. Fiz a contragosto alguns dos exercícios que me indicou, mas os fiz, e dei algum trabalho na semana passada, por conta de problemas com a administração do meu tempo livre. Teria sido fácil, como já foi antes, abandonar a rotina de treinos e ver meus esforços acabarem em fracasso, mas ele jamais deixou de me cobrar mais empenho. Um excelente profissional.


Segundo, ao meu amigo, aluno e ocasional parceiro de academia Euler Amaral. Alguns o consideram um chato, porque ele detesta limitar-se à conversa banal e bajulação mútua gratuita, típica das academias, e porque ele não tem medo de dizer coisas que muita gente prefere esconder, apenas para parecer "legal". Nada a ver com ofensas a quem quer que seja, mas, verdades, como algumas que ele disse a mim: "é claro que você tem tempo para malhar, só precisa parar de arrumar desculpas"; "ok, você correu meia hora, mas isso é quase nada; quando vai correr uma hora inteira?"; "pra que trabalhar tanto, se você não vai ficar rico nesse emprego e está perdendo sua saúde?". É fácil dar atenção ao que Euler diz, com sua fala pausada e dicção impecável; ou admirá-lo porque ele tem um corpo que muitos gostariam de ter. O que é realmente admirável nele, porém, é sua vontade de ajudar outros a melhorarem. É muito bom saber que conto com sua amizade e seu respeito.


Sabe o que mais? Mudei de idéia sobre o que eu havia prometido antes, de postar aqui fotos minhas, no estilo "antes e depois". Estes dez quilos que se foram são uma conquista particular e que não tem a ver com vaidades vazias. Além disso, se eu não persistir na rotina de exercícios, ganhar tudo de volta é uma questão de tempo. É uma vitória gostosa, mas, se eu não me cuido, fugaz. Acredito ter aprendido a lição e descoberto que entrar em forma não tem a ver com segredo algum, mas com mudanças de atitude. Se estes posts lhe inspiram a buscar algo semelhante para si, é minha a honra.