20/04/2011

Odeio "antenados"!

Odeio "antenados"!


"Desajustados sofreram bullying"

Era tudo de que a mídia precisava: um inimigo invisível para encher 794 reportagens absolutamente iguais, de domingo a domingo. O bullying é o assunto da moda - e nada como um assunto da moda com nome em inglês! Agora, toda vez que acontecer uma homicídio, irão atrás de bullying na história do criminoso, como se a fúria do momento (ou a ruindade pura e simples) e uma arma na mão não bastassem. Bem, se ser zoado (até chorar, certa vez) porque eu tinha a testa grande ou porque tirava notas boas conta como bullying, então, posso dizer que fui vítima dele. Foi horrível, admito, mas, minha vida não parou por causa disso - e olha que eu nunca tive um ambiente familiar exemplar, tipo comercial de margarina: precisei vencer meus dramas todos praticamente sozinho. Mesmo assim, aqui estou, um cidadão de bem, lúcido, produtivo, amoroso e sem planos de invadir escolas e atirar em inocentes. O bullying sofrido não é carta branca pra sandices e o tratamento da mídia ao assunto facilmente leva a crer que sim.


"A palmada é prova da incapacidade de dialogar"

Quando eu era adolescente, vi um amigo de Goiânia ameaçar a mãe: "me bate, pra você ver se não vou denunciar no Conselho Tutelar!". Ela amarelou. Algum tempo depois, um irmão meu fez coisa parecida: aproximou-se da nossa mãe, virou o rosto em desafio e disse mais ou menos a mesma coisa. Ela não se fez de rogada: plantou-lhe cinco dedos na bochecha com gosto e disse, "pronto, agora vá me denunciar!". Ele foi? Foi nada... Para mim, o absurdo sempre foi que um filho falasse à mãe dessa forma. A lei, porém, diz que o crime é ela levantar a mão pra dar vergonha na cara a um filho desaforado. Por causa da descoberta (invenção?) da tal "hiperatividade", os pais se veem obrigados a entrar na fila de ingressos pro céu, tolerando as malcriações de meninos sem limites, que, coitadinhos, "não sabem" o que estão fazendo. Aqui, ó! Mesma coisa do bullying: passei minha infância tomando chineladas e cresci normalzinho. Legisladores têm milhões de coisas mais importantes de que ocupar-se, mas, agora, parece que escolhem suas causas pelo potencial de polêmica.


"Os gays querem acabar com a família"

Quem diz isso (alô, Bolsonaro!) deve pensar que gays nascem em árvores ou são uma força invasora alienígena. Acabar com a família? Com que objetivo? Então, gays não têm pais, mães, irmãos? Se parece que existem hoje mais gays do que nunca, é simplesmente porque hoje existem menos motivos para temer a exposição - e isso, a despeito da violência verbal e física a que ainda estão sujeitos. Se as coisas melhorarem, prepare-se: vai parecer que tem ainda mais gays nas ruas do que hoje. Mas, e você com isso? Quem gosta do sexo oposto deveria estar mais preocupado em ser feliz do que em estragar a felicidade alheia. Sempre houve e sempre haverá mulheres e homens de comportamento heterossexual em quantidade e disposição suficientes para garantir a perpetuação da espécie. Da mesma forma, sempre houve e sempre haverá gente gay, é uma coisa tão velha quanto o mundo. A História já provou, porém, que o homem, quando quer odiar ao diferente, transforma qualquer coisa em motivo.

8 comentários:

Gabriel disse...

Truth be told, não há trauma de infância que justifique entrar em uma escola atirando nos alunos.

É fácil jogar a culpa dos nossos erros na nossa criação, ficar se desculpando ou justificando. Não quero dizer que eu nunca fiz isso, ou nunca mais farei, mas é com certeza uma grande fraqueza humana.
Olha a quantidade de gente famosa que já alegou ter sofrido bullying na infância: Lady Gaga, Tom Cruise, Robert Pattinson, Drew Barrymore, Mika. Algum deles precisou sair matando crianças para superar seus problemas?

Caesius Maximus disse...

Cara, a maioria das tuas palavras estão na minha cabeça desde antes dessa tragédia do Rio de Janeiro acontecer.

Bullying todo mundo sofre ou já sofreu. Também faço parte das pessoas que eram motivo de chacota durante a vida.

O cara que atirou contra crianças era errado desde sempre, coisa de personalidade que foi, provavelmente, amplificado pelo tipo de tratamento que recebeu de colegas de escola.

Quanto ao fato de ser contra homossexuais, nada demais, desde que as opiniões expressas não incitem o ódio e promovam a violência contra estes.

Excelente post, meu velho.

Duda Valverde disse...

A um palavrão mais forte, minha mãe punha um ovo a ferver e me segurava junto ao fogão. Vendo o ovo cozido após a água borbulhar esperava ela dizer: "se soltar esse nome novamente, um ovo assim vai esfriar em sua boca!". Hoje rio... Sensacional, caro autor!

Marlo de Sousa disse...

Eita, Duda, sua mãe era hardcore! Fiquei fã! =D

Do Vale disse...

Amassavam meus quadrinhos e nem por isso metralhei pessoas...

Luis Araujo Verde disse...

Meu pai era Militar e gostava muito de futebol, eu sempre achei volei mais minha cara, mas meu pai não admitia que um homem não gostasse de jogo, me fazia assistir todas as partidas junto dele. E o que fazer, fiquei com trauma, hoje assisto meus jogos de volei, nos canais a cabo que tanto gosto. Bullying já começava em casa..

Vivemos num mundo moderno, vamos expressar nossas opiniões, sem promover algum tipo de violencia.

Alex disse...

Olha...Se bem que já tive vontade de matar alguns por causa de piadas e humilhações disfarçadas de brincadeiras...Me faltou coragem, mas desejei a morte de muita gente...Claro, matar inocentes é sem sentido(matar é sem sentindo né?)mas aquele filho da puta que não parava de zoar... Em alguns casos alguém acaba reagindo e da pior maneira possível, vc pede pro cara parar de falar da sua testa e o infeliz continua, continua, continua...Dá ou não dá vontade de matar? Claro...Vontade é uma coisa, fazer é outra...Só que alguém uma hora faz...

Marcone Hilton disse...

Rá! O irmão que tomou na cara fui eu, hoje um "senhor" de 33 anos, casado e pai de uma linda princesa.

A que sentou o tapa na minha cara hoje mora comigo - e ajuda a criar a tal princesa.