07/06/2011

X-Men - Primeira Classe

Tem algo que eu preciso dizer de cara: X-Men - Primeira Classe é o melhor filme já feito com os mutantes e um dos melhores do gênero. Foi feito longe dos Marvel Studios, recusado pelo diretor que levou a franquia ao sucesso (Bryan Singer, que preferiu atuar neste apenas como produtor), enfrentou a limitação de um elenco sem grandes chamarizes de bilheteria e a desconfiança de um público que temia que a série virasse uma espécie de Crepúsculo com mutantes, além de ter a difícil missão de reerguer o moral da série, após a apressada e indigesta sopa de sagas que foi X-Men - O Confronto Final (2006).

Responsabilidade enorme, como se vê. Mesmo longe de seus melhores dias, os X-Men sempre foram (e provavelmente sempre serão) um dos carros-chefes da Marvel, um fenômeno de popularidade que atravessa gerações e cujo público sempre se renova, seja através das HQs, do cinema ou das animações televisivas. Tinha tudo para dar errado, mas, felizmente, o filme surpreende até o mais cético espectador.

X-Men - Primeira Classe entrega o que o título promete: o surgimento da primeira equipe mutante do Professor X. Não espere, porém, encontrar aqui o sisudo Xavier dos quadrinhos interpretado por alguém com a fleuma de Patrick Stewart. O Charles Xavier deste filme é jovem, galante, espirituoso e tão empolgado quantos seus pupilos, ainda que perfeitamente focado e ciente de suas capacidades e responsabilidades. Da mesma forma, Erik Lensherr (Magneto, para os íntimos) é alguém em busca obstinada por vingança, mas o faz com charme, inteligência e heroísmo que rivaliza com o de seus futuros arqui-inimigos. Como ele ainda não está totalmente entregue ao "lado negro da Força", não se recrimine por torcer para Magneto.


Justiça seja feita, os intérpretes dos personagens centrais da trama venceram com louvor o desafio de serem dignos de substituir Patrick Stewart e Ian McKellen (respectivamente, Xavier e Magneto nos 3 filmes anteriores). James McAvoy faz um Xavier sem qualquer ranço de "salvador do mundo"; ele é capaz de beber até a embriaguez, passar cantadas rasteiras e fazer piadas sem a menor cerimônia, interessante abordagem para um dos personagens mais ditadores de regras que pode haver nos quadrinhos. Seu potencial para a liderança e seu poder de persuasão, porém, estão ali, intactos. O trabalho de Michael Fassbender como Magneto é ainda mais digno de nota. O homem é quase uma força da natureza e a paixão com que se entrega ao papel (e à chance de virar um superastro) é tamanha que rivaliza com Hugh Jackman ao encarnar Wolverine, com o fardo e a vantagem de ser Erik um personagem bem mais complexo do que Logan.

Embora McAvoy e Fassbender praticamente levem o filme nas costas, seria injusto não elogiar Kevin Bacon, encarnando com propriedade a canalhice e a sede de poder de Sebastian Shaw, e do jovem elenco de mutantes do bem (exceção feita a Zoë Kravitz, sem graça como a personagem que interpreta, Angel). A cada aparição de Banshee (Caleb Landry Jones), um de meus X-Men favoritos desde sempre, alçando voo com seu grito supersônico, o moleque dentro de mim, que aprendeu a gostar de comics lendo as aventuras do grupo na coleção de revistas do vizinho, voava junto e soltava um largo sorriso de satisfação no cinema, como se estivesse realizando um sonho - e estava.


O time do mal não é muito exigido, exceto pela agilidade demoníaca e letal de Azazel (Jason Flemyng). Para um próximo filme, espero que a atriz que faz Emma Frost, January Jones, leve uns puxões de orelha e seja capaz de mudar de expressão. Justo Emma, a mais sacana, sarcástica e adorável das vilãs, reduzida a meia dúzia de caras de "cool". Lamentável.

Ter os melhores intérpretes, porém, não adiantaria de nada se a história não fosse envolvente, bem contada e bem dirigida. O roteiro escrito a oito mãos (entre as quais, as do diretor Matthew Vaughn) é extremamente cuidadoso e respeitoso com nossa inteligência, colocando eventos reais (a crise dos mísseis em Cuba) a serviço da ficção de forma exemplar e abordando o problema da intolerância sem histeria. Isto é uma das coisas que mais encantam no filme: todas as motivações dos personagens (com alguma boa vontade, até os esquemáticos delírios de grandeza de Shaw e seu Clube do Inferno) parecem plausíveis, vide a relutância de Mística (Jennifer Lawrence, linda) em assumir sua verdadeira forma. Num mundo que supervaloriza e padroniza a beleza física, como aceitar-se diferente do que é tido como modelo?

Acho que chega. Por mais que eu queira ficar descrevendo as virtudes de X-Men - Primeira Classe, ele é um filme que deve ser assistido e sentido por cada um de maneira particular. Para mim, foi uma deliciosa traição das sombrias expectativas que alimentei antes dos primeiros trailers e a certeza de que ainda há espaço para fantasia inteligente no cinema. Hoje, li em algum lugar que as sessões de pré-estreia de Lanterna Verde foram muito bem recebidas pelos privilegiados presentes. Verdade ou não, o guerreiro esmeralda da DC tem, no dia 17 de junho (lá nos EUA), uma tarefa árdua e que deve colocar um pouquinho de medo em seu destemido coração: igualar ou superar o glorioso filme dos mutantes da Marvel. Não vai ser nada fácil.

1 comentários:

Duda Valverde disse...

Torci pra Magneto mesmo!
Bacana seu comentário, Marlo. Dá vontade de ver impresso em revistas especializadas.