"Parece Indiana Jones" é o comentário mais recorrente sobre este filme na internet. Há que se lembrar que Joe Johnston é um cineasta velho de guerra e pertenceu à mesma turma que reinventou o cinema de fantasia nos anos 80, na qual se incluía Steven Spielberg. Junte-se a isto a ambientação na 2ª Guerra Mundial, nazistas em busca de poder místico e, sim, pode-se dizer que "Caps" parece "Indy" - mas só por isso. Felizmente, não há formigas subindo umas nas outras para devorar-lhe o escudo estrelado.
Diz-se, ainda, que o personagem seria difícil de adaptar, por causa do sentimento antiamericano que existe mundo afora, há décadas. Desde o nome um defensor do American Way, temia-se que o público não fosse vê-lo em uma odisseia patriótica contra os nazistas malvadões. Bobagem. A única coisa que o público realmente não tolera é filme ruim e, embora este aqui não vá fazer do personagem um fenômeno de popularidade no nível do Homem-Aranha ou dos X-Men, ele é um dos mais bem-acabados produtos da Marvel Studios.
O maior e mais improvável acerto do filme é, pasme, o seu protagonista. Quando anunciaram Chris Evans para o papel de Steve Rogers, eu fui um dos muitos a pensar "WTF?". Afinal, ele já encarnava o Tocha Humana nos micados filmes do Quarteto Fantástico e parecia ter nascido com aquela postura de gostosão de filme colegial, sempre com um sorriso de canto de boca e cara de quem sacaneia os fracotes da escola. Nada mais impróprio para a missão à qual foi designado.
Ainda bem que viram algo que eu não vi, porque Evans acerta gloriosamente o tom, fazendo um Steve Rogers com o qual podemos simpatizar, sem um pingo de sarcasmo indevido. No primeiro terço do filme, quando ainda é um baixinho esquelético (impressionante trabalho de efeitos visuais), provoca aquela identificação que vem da piedade de vê-lo deixar-se socar por valentões com o dobro do seu tamanho, e da admiração por seu caráter perfeitamente seguro do que é certo e errado. Depois do soro de supersoldado, seria fácil imaginar que ele virasse uma arrogante montanha de músculos, mas o prometido é cumprido à risca: Steve Rogers vira um herói de primeira grandeza, justo e destemido, mas nada soberbo e sem chavões ufanistas na ponta da língua.
O vilão do filme é seu inimigo mais clássico, o Caveira Vermelha, que foi o primeiro a experimentar o soro de supersoldado e provar que ele potencializa tanto as boas quanto as más qualidades de quem o toma. Hugo Weaving se sai muito bem, mesmo debaixo da pesada maquiagem. No filme, o Caveira pretende usar um artefato dos deuses nórdicos perdido na terra (nada menos que o Cubo Cósmico, uma das armas mais poderosas do universo) para energizar suas armas na investida contra não só os inimigos de Hitler, como o próprio Führer, a quem considera indigno de comandar o mundo que ele vislumbra.
O desenvolvimento do filme é paciente e é este cuidado com a história e a formação dos personagens que o torna mais interessante do que foi, por exemplo, o afobado Thor. As sequências de ação estão muito bem coreografadas e os retoques digitais não são exagerados: mesmo quando o Capitão soca com força um soldado inimigo, ele não é lançado a 50 metros, como em outros filmes do gênero. O uso do escudo de vibranium é discreto, mas empolgante.
Os coadjuvantes estão muito bem, principalmente Hayley Atwell como Peggy Carter, interesse amoroso de Steve. Tommy Lee Jones, como o General Chester Phillips, tem tiradas humorísticas leves e bem colocadas. Talvez se possa reclamar que Sebastian Stan foi pouco aproveitado como Bucky Barnes, mas quem leu os recentes quadrinhos do Capitão (principalmente na fase escrita por Ed Brubaker) sabe que o personagem pode ter novas e boas chances.
Na já esperada cena pós-créditos, um primeiro vislumbre do que será o filme dos Vingadores, dirigido por Joss Whedon, ano que vem, aliando o Capitão América ao Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Thor (Chris Hemsworth), Viúva Negra (Scarlett Johansson), Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) e Hulk (Mark Ruffalo), finalmente amarrando as pontas soltas ao final de cada filme lançado desde 2008. Se não for esvaziado pelo lançamento de O Espetacular Homem-Aranha, de Marc Webb, que sai praticamente junto, tem tudo para ser o filme-evento de 2012, páreo duro para o terceiro Batman de Christopher Nolan.

5 comentários:
Engraçado, li recentemente uma crítica ao filme de um famoso crítico, que tinha uma opinião bem próxima a sua, a única diferença era sobre o ator, ele achou que não foi o ideal.
Enfim, não importa o quanto digam o quanto é bom, é muito difícil eu ir aos cinemas ver este filme. O motivo? Puro preconceito mesmo. Não leve a mal, eu gosto de um ou outro super herói, mas esse parece que está escrachado. O American Way versus o Red Devil.
Assino embaixo do que escreveu. Também pensava sobre o antiamericanismo, mas isso se dilui quando ele - o personagem - decide abandonar a propaganda midiática pró-guerra e escolhe como seus companheiros os párias - e estrangeiros - do regimento. Muitíssimo bem escrito, parabéns.
Sua crítica só aumentou minha vontade de ver o filme... e está muuuuito bem escrita!!! Parabéns!
Um dos meus personagens preferidos desde que me entendo por nerd. Vou assistir.
Sua crítica aguça a vontade deste que ainda não viu esse filme. Imagino que seja muito bom mesmo... Até Lanterna Verde, eu ainda não assisti, se bem que esse eu tenho certeza de que decepcionarei.
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