Querida Amy,
Tão logo o sucesso interestelar de Back to Black (2006) bateu à sua porta, você começou a dar sinais de que não aguentaria a pressão. Não saberia dizer quando você começou a usar drogas, mas, ouvindo as letras de seus discos, arrisco-me a dizer que foi bem antes do sucesso. Admitamos, por um instante, que você já fosse uma junkie contumaz desde sempre. Mesmo assim, você estava ali, com uma aparência razoavelmente saudável, impressionando a todos com sua potência, domínio e versatilidade vocal. Méritos sejam dados, também, a Mark Ronson, pela produção impecável de seu segundo disco, que deflagrou uma onda de novos artistas de soul music que se recusam a acreditar que é preciso viver seminu pra chegar a algum lugar.
Acontece, Amy, que você ficou nua, em sentido denotativo e conotativo. Artista cedendo às pressões da fama e buscando fuga nas drogas não é novidade alguma, é um expediente que se repete há quase um século, com entediante regularidade, e que, infelizmente, vitima a muita gente tão talentosa quanto você. Só que você foi fundo demais em tempo de menos. Será que não dava mesmo pra curtir seu goró, sua farinha ou sei lá o que mais que você usava, de maneira que o barato viesse e você não precisasse cair na sarjeta a ponto de perder os dentes, como aconteceu? Sabemos que a drogadição é uma condição clínica, algo que foge ao controle do drogadito, mas, por que foi que você, simplesmente, não disse a todo mundo do que é que tinha tanto medo?
Sei lá, talvez nem fizesse diferença alguma e você já estivesse morta do mesmo jeito. Mas, pelo menos, a gente poderia tentar entender. Do jeito que aconteceu, ficou muita gente com a impressão de que você buscava a própria morte. Você parou o mundo ao morrer e o que se seguiu à notícia da sua partida foi um vagalhão de hipocrisia e moralismo fora de hora, todo mundo dizendo que você "chegou onde queria". Bem, eu não acho que você queria morrer. Mesmo achando que você gostava mesmo de andar chapada, acredito que você queria ficar, pelo menos, sóbria o suficiente pra assinar um contrato, subir num palco e saber o que estava fazendo ali, ou entrar num estúdio e soltar a voz pra gravar o terceiro disco que nunca veio.
E, meu Deus, como eu esperei esse bendito CD! Ainda que fosse o tal disco de reggae que você gravou no Caribe e que sua gravadora jogou no lixo (neste momento, porém, eles já devem estar fuçando o lixo atrás desta e de suas outras tentativas frustradas de volta, na esperança de capitalizar sobre o último resquício de sua voz, não importando, agora, a qualidade das gravações - ou a falta dela), eu queria MUITO ouvir a sua voz de novo.
Mas, vou correr o risco de machucar seu coraçãozinho e falar com sinceridade: por mais "diva" que pudessem te rotular, eu é que não ia ficar sentado esperando, anos a fio, por um trabalho que não dava pinta de sair tão cedo. Por isso é que, mesmo que seu lugar na História da Música esteja mais que garantido, eu fui atrás de outras pessoas. Talvez, até menos talentosas que você, mas, definitivamente, com uma aparência mais saudável e maior disposição de fazer da soul music um modo de VIDA, não um caminho pra cova. Claro, nada garante que eles estejam vivos amanhã, talvez também morram jovens e das mesmas causas que você, mas, sinto dizer, inspiram muito mais confiança. Gente como Adele, Cee-Lo Green, Eli Paperboy Reed, Janelle Monáe e outros brancos e negros que honram uma tradição cinquentenária.
Acho que já chega, né? Falei demais e ainda não falei o principal: vou sentir saudade sua. Sério. Você era uma ilha de verdade e talento bruto em um oceano de gente fabricada em série e afinada a fórceps com AutoTune. Vão começar as coletâneas picaretas e os discos-tributos, mas, te juro, não vou atrás de nada disso. Faixas inéditas só teriam graça se você pudesse gravar um vídeo ou apresentá-las num talk show qualquer, acompanhadas de uma entrevista em que você falasse da delícia de estar viva e sentir-se tão limpa quanto o momento permitisse. Nem tudo sai como a gente quer, porém. Só me resta esperar que o lugar pra onde você vai agora seja mais divertido do que este mundo sem sua presença.
É isso, por enquanto.
Com afeto e com beijinhos,
Marlo
Tão logo o sucesso interestelar de Back to Black (2006) bateu à sua porta, você começou a dar sinais de que não aguentaria a pressão. Não saberia dizer quando você começou a usar drogas, mas, ouvindo as letras de seus discos, arrisco-me a dizer que foi bem antes do sucesso. Admitamos, por um instante, que você já fosse uma junkie contumaz desde sempre. Mesmo assim, você estava ali, com uma aparência razoavelmente saudável, impressionando a todos com sua potência, domínio e versatilidade vocal. Méritos sejam dados, também, a Mark Ronson, pela produção impecável de seu segundo disco, que deflagrou uma onda de novos artistas de soul music que se recusam a acreditar que é preciso viver seminu pra chegar a algum lugar.
Acontece, Amy, que você ficou nua, em sentido denotativo e conotativo. Artista cedendo às pressões da fama e buscando fuga nas drogas não é novidade alguma, é um expediente que se repete há quase um século, com entediante regularidade, e que, infelizmente, vitima a muita gente tão talentosa quanto você. Só que você foi fundo demais em tempo de menos. Será que não dava mesmo pra curtir seu goró, sua farinha ou sei lá o que mais que você usava, de maneira que o barato viesse e você não precisasse cair na sarjeta a ponto de perder os dentes, como aconteceu? Sabemos que a drogadição é uma condição clínica, algo que foge ao controle do drogadito, mas, por que foi que você, simplesmente, não disse a todo mundo do que é que tinha tanto medo?
Sei lá, talvez nem fizesse diferença alguma e você já estivesse morta do mesmo jeito. Mas, pelo menos, a gente poderia tentar entender. Do jeito que aconteceu, ficou muita gente com a impressão de que você buscava a própria morte. Você parou o mundo ao morrer e o que se seguiu à notícia da sua partida foi um vagalhão de hipocrisia e moralismo fora de hora, todo mundo dizendo que você "chegou onde queria". Bem, eu não acho que você queria morrer. Mesmo achando que você gostava mesmo de andar chapada, acredito que você queria ficar, pelo menos, sóbria o suficiente pra assinar um contrato, subir num palco e saber o que estava fazendo ali, ou entrar num estúdio e soltar a voz pra gravar o terceiro disco que nunca veio.
E, meu Deus, como eu esperei esse bendito CD! Ainda que fosse o tal disco de reggae que você gravou no Caribe e que sua gravadora jogou no lixo (neste momento, porém, eles já devem estar fuçando o lixo atrás desta e de suas outras tentativas frustradas de volta, na esperança de capitalizar sobre o último resquício de sua voz, não importando, agora, a qualidade das gravações - ou a falta dela), eu queria MUITO ouvir a sua voz de novo.
Mas, vou correr o risco de machucar seu coraçãozinho e falar com sinceridade: por mais "diva" que pudessem te rotular, eu é que não ia ficar sentado esperando, anos a fio, por um trabalho que não dava pinta de sair tão cedo. Por isso é que, mesmo que seu lugar na História da Música esteja mais que garantido, eu fui atrás de outras pessoas. Talvez, até menos talentosas que você, mas, definitivamente, com uma aparência mais saudável e maior disposição de fazer da soul music um modo de VIDA, não um caminho pra cova. Claro, nada garante que eles estejam vivos amanhã, talvez também morram jovens e das mesmas causas que você, mas, sinto dizer, inspiram muito mais confiança. Gente como Adele, Cee-Lo Green, Eli Paperboy Reed, Janelle Monáe e outros brancos e negros que honram uma tradição cinquentenária.
Acho que já chega, né? Falei demais e ainda não falei o principal: vou sentir saudade sua. Sério. Você era uma ilha de verdade e talento bruto em um oceano de gente fabricada em série e afinada a fórceps com AutoTune. Vão começar as coletâneas picaretas e os discos-tributos, mas, te juro, não vou atrás de nada disso. Faixas inéditas só teriam graça se você pudesse gravar um vídeo ou apresentá-las num talk show qualquer, acompanhadas de uma entrevista em que você falasse da delícia de estar viva e sentir-se tão limpa quanto o momento permitisse. Nem tudo sai como a gente quer, porém. Só me resta esperar que o lugar pra onde você vai agora seja mais divertido do que este mundo sem sua presença.
É isso, por enquanto.
Com afeto e com beijinhos,
Marlo

6 comentários:
Linda a cartinha... Tbm vou sentir muita saudade dela!!
Numa das minhas frases de efeitos favoritas; o impressionante em Fiodor Dostoievski não foi ter usado sua epilepsia como tema, e sim, ter escrito o que escreveu apesar dela. Talvez não teríamos as poéticas descrições do estado pós-crises do protagonista d'O Idiota, mas é falso pensar que o russo não seria o escritor que é, sem ter que passar por elas.
Na verdade, quem conhece sua biografia, sabe que nesses períodos de ataques, sua produção era nula.
Todos ouvimos sobre essa balela de "autenticidade" e sobre o suposto auge criativo vindo das drogas. Tudo conversa furada.
Amy Winehouse não foi vítima de ninguém, a não ser de si mesma. Encontrou um jeito estúpido de lidar com seus, não digo nem demônios interiores que é muito melodramático, mas o prosaico vazio de seu cotidiano. (Acho que o verdadeiro problemas das drogas, é que elas entregam o que prometem, o que maquiam é sobre o preço).
Músicas como Love Is A Losing Game, fizeram o mesmo por mim, e sem os efeitos deletérios das drogas (hehe, embora não obtidos por meios lícitos, mas sobre isso, não quero falar). Ajudaram-me em momentos de dor e tristeza. Sou grato à Amy por isso, em respeito à ela, a única coisa que consumia e exigia dela era mais música.
E agora que ela está morta, continua sendo a única coisa que me interessa.
R.I.P. Amy Winehouse.
Bonito texto. Bonito e verdadeiro.
Adorei seu desabafo tão sentido...
Saudades Amy ! Meu coração esta ferido sem a sua presença aqui na terra, onde vc poderia mostrar muito mais seu vozeirão... Talento desperdiçado, yo te quiero,
Não sei o que dizer, perder alguém talentosa não tem preço... Desde 2008 comecei a ouvi-la, impresionante ! Seu timbre, seu vozeirão, seu estilo., suas músicas. tudo isso me chamou atenção até hoje, pena :'( que nem ela mesma conseguiu entender seu talento, chegou a um ponto que não dava mais... nem Deus poderia ajuda-la, pois tudo que Amy passou aqui na terra ja tava tudo escrito... Simplesmente num livro ! Ouço suas músicas e começo a lembrar, porquê ? Tão jovem ! Muita vida pela frente... amy deixou sua familia: seu pai Mitch, sua mãe Janis, seu irmão Alex, sua melhor amiga Kelly Osbourne entre outros, e sua afilhada Dionne Bromfield, que pode ser uma grande revelação do Soul, Jazz etc...
Amy we love you
resist in peace, nunca esqueceremos de ti, vc vai ser sempre a Diva do Soul e da Rehab. I love you S2.
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