30/08/2011

Admirável Mundo (Quase) Novo

Acho que estou "crescendo". 

Em março, comecei um post com esta mesma frase, incluindo as aspas. Na ocasião, eu estava deixando de lado algumas das revistas em quadrinhos que, por décadas, foram minhas mais constante forma de lazer (exceto, talvez, pela música, da qual volto a falar daqui a pouco). Basicamente, eu cortei pela metade o meu consumo de títulos mensais, hoje limitado a apenas quatro. Todos vão muito bem, obrigado. Batman e Lanterna Verde passam por uma fase tão interessante que os dois foram os únicos personagens escalados para "sobreviver" ao reboot da DC Comics que começa em setembro, nos EUA. Suas origens e sagas continuam válidas e, basicamente, inalteradas.


Só que, sei lá... de repente, eu cansei. Antigamente, eu relia sem parar as histórias que mais me cativavam e isso fazia valer o investimento. Hoje em dia, por mais que eu goste de algumas edições em particular, não sinto a mesma vontade de relê-las. Passo os olhos nos melhores trechos e olhe lá. Aí ficam as revistas se acumulando, enchendo seu já apertado espaço, sem que eu tenha vontade (ou tempo) de dar-lhes uma nova chance. Alguns anos atrás, isso me tiraria o sono. Agora, só me atiça a vontade de colocar tudo na calçada, dentro de uma caixa, e deixar que algum felizardo descubra a alegria que os quadrinhos podem proporcionar.

Não, eu não estou sendo contraditório. Quem mudou não foram os quadrinhos: fui eu. Eles ainda são fonte de diversão e encantamento e não há zeramento que mude isso. Zeramento este, aliás, que também deve ser adotado aqui, pela Panini Comics, por volta de setembro do ano que vem. Mais do que expectativa pelos novos lançamentos, isso agora me chega como um momento perfeito para encerrar minha longa jornada como leitor de HQs mensais de super-heróis. Foi ótimo enquanto durou e, provavelmente, eu continuaria me divertindo muito com a Nova DC ou qualquer outro título que eu passasse/voltasse a colecionar.

Só que eu não quero mais. Simples assim. Despeço-me de vez dos títulos mensais da DC Comics em algum ponto entre agora e o final deste ano. Sem choro, nem vela.

Isto não significa, porém, que deixarei o hábito de ler quadrinhos - nem mesmo de super-heróis. O excelente trabalho da Panini na encadernação de grandes sagas, mesmo com gigantescas lacunas entre publicações novas e desejadas reprises, tem sido bastante competente. Então, meu negócio agora é a leitura de sagas completas. São volumes com beleza gráfica de fazer babar, principalmente aqueles em capa dura, que ficam lindos numa estante e são mais resistentes à ação do tempo.


Meu cuidado, então, tem que ser o de não exagerar nas aquisições e sempre buscar descontos na hora da compra (por exemplo, comprei Capitão América - A Ameaça Vermelha junto com Thor - O Renascer dos Deuses, que normalmente custariam R$ 108, pela bagatela de R$ 53, podendo parcelar!).

Ao lado dos encadernados DC e Marvel, ficarão aqueles da Vertigo/Wildstorm, outra linha que continua bastante interessante, com direito a republicação de edições esgotadas, como Ex Machina e 100 Balas, edições 1 e 2. Uma coisa boa da Vertigo: a maioria dos títulos têm prazo de validade. Ou seja, você tem a garantia de uma história com começo, meio e fim, coisa rara no universo dos heróis. Além do mais, a variedade temática e o aprofundamento psicológico tornam a leitura mais atrativa para quem já se prepara para dobrar a esquina dos "enta" (vixe, já???).

Vem aí, portanto, um admirável mundo quase novo para mim - e não só nos quadrinhos.

Pode me chamar de louco, diante de toda a facilidade oferecida pela internet, mas eu estou com vontade de voltar a comprar CDs. Falo sério. Pode ser que eu não ache ou não tenha "bala na agulha" para comprar versão física dos mais de 1.300 CDs que se alojam no meu HD, mas o fato é que ouvir música em mp3 está acabando com minha sensibilidade musical (sim, eu tenho isto e, não, não é algo exclusivo em músicos). Sempre gostei de parar para efetivamente escutar a música em todos os seus detalhes; ler o encarte com as letras; olhar na ficha técnica quem compôs, tocou ou produziu; onde isso tudo foi feito. No mp3 não dá pra fazer nada disso.



Objeto de Desejo 1: edição limitada da obra dos Smiths. Aceito doações.

O problema é que música em mp3 é um acessório. Você dificilmente vai sentar para ouvir mp3, seja à frente de um computador, com um celular ou outro player qualquer, dedicando sua atenção exclusivamente a esta atividade. Você ouve mp3 enquanto navega na internet, corre, estuda... Com um CD ou LP, é diferente: você tem no encarte uma espécie de guia para o melhor desfrute da música. Às vezes, o próprio encarte tem um trabalho gráfico tão interessante que o torna uma atração à parte! É música de ver e de pegar. Um barato sem igual.

Some-se a isso o relançamento glorioso de obras que são essenciais em qualquer coleção de discos que se preze e que fizeram parte da formação do meu gosto musical, como as edições remasterizadas de Beatles, Queen, Nirvana, U2 e Smiths, todos com tratamento gráfico de encher os olhos e discos extras com faixas raras, versões alternativas, takes ao vivo e entrevistas. Como, me diga, como resistir a algo assim? Como alguém, em sã consciência, pode achar melhor dar 2 cliques e virar sua atenção para outra coisa?



Objeto de Desejo 2: edição limitada de Achtung Baby, do U2. Aceito doações.

E não estou sozinho nessa: por mais que os profetas do apocalipse (entre os quais, eu mesmo, em alguns de meus antigos posts) trombeteiem o fim do CD, a verdade é que as grandes lojas estão sempre de corredores cheios. Se este fosse mesmo um negócio tão morto assim, o departamento dedicado a ele em lojas como Cultura, Saraiva e Siciliano já teria sido fechado há muito tempo. Acredite, não é por caridade que eles ainda estão lá: CD vende - e, pasme, vende cada vez mais, após mais de uma década de baixas sucessivas. Mesma coisa com os vinis. A quantidade e variedade de títulos disponíveis só aumenta, a despeito do preço salgado.

Fique tranquilo, eu não sou idiota. Vou continuar baixando mp3 e reservar espaço na prateleira apenas aos itens mais especiais. A menos que eu ganhe na loteria, receba uma herança ou arrume um trabalho para ganhar três vezes ou mais o que ganho hoje, dificilmente poderei ter tudo que quero em CD. É preciso ter paciência e alguma dose de resignação. Felizmente, estas são algumas das coisas que a idade me ensinou a ter.

Espero que crescer seja isto.

29/08/2011

Planeta dos Macacos - A Origem

O que nos torna humanos? Dizem que é nossa capacidade de raciocínio que nos diferencia dos outros animais, mas, e se essa barreira fosse superada? Será que daríamos aos nossos cães um lugar à mesa? Se durante uma briga, por não serem capazes de dar um empurrão ou um tapa, eles acabassem mordendo alguém, ficariam apenas de castigo e depois levariam um sermão conciliador do seus donos? Será que eles ficariam contentes em continuar sendo meros mascotes e empregados dos humanos?

O homem, como se sabe, não é amigo nem de si próprio, que dirá de outras espécies. Deve ser a virtual impossibilidade de que uma troca de mãos no domínio do planeta possa um dia ocorrer que torna o tema tão fascinante. Dez anos depois do último esforço (a "reimaginação" de Tim Burton, em 2001, cujo final dividiu opiniões e fechou as portas para uma continuação), eis que a série volta aos cinemas, num filme cuja história se pretende anterior a todos os outros, mostrando como os macacos dominaram o mundo e a humanidade foi praticamente extinta.

Os triunfos tecnológicos do filme, evidentes desde o primeiro trailer, são de encher os olhos e causar assombro, tamanha a verossimilhança visual dos símios comuns e do naturalismo das emoções nos olhos daqueles evoluídos, principalmente Caesar, o macaco destinado a liderar a rebelião contra os humanos. Se alguém ainda via imperfeições no trabalho de captura digital de movimentos e expressões faciais, iniciada com o Gollum de O Senhor dos Anéis e com passagem pelo King Kong de 2005 (ambos frutos do dificílimo trabalho de Andy Serkis, já um especialista nesse tipo de atuação), ela atinge um ápice no filme do diretor Rupert Wyatt (até aqui, sem qualquer destaque em seu currículo).


Tamanha perfeição técnica, no entanto, de nada serviria se o filme fosse uma droga. Felizmente, Planeta dos Macacos - A Origem tem uma história muito bem contada, livre de alívios cômicos indevidos, com forte conteúdo emocional, momentos alternados de ternura e terror e uma invejável coleção de cenas que arrepiam e grudam na memória. Melhor ainda, o filme é paciente ao narrar os eventos que formam a personalidade de Caesar e o levam à liderança dos seus (ainda quase) iguais. Todo o sofrimento por que passa poderia levar um humano à insanidade homicida desenfreada, mas, para nossa surpresa, Caesar, o "animal", preserva um elaborado senso de ética e pensamento estratégico em sua luta pela liberdade.

Não há mesmo muito o que dizer sobre os humanos do filme, já que eles são meras "escadas" para o show dos primatas. Vale mencionar, porém, que John Lithgow (no filme, vítima de Alzheimer e pai do personagem de James Franco) divide cenas de forte impacto emocional com Caesar, e que Freida Pinto (de Quem Quer Ser um Milionário?) dá o mais valioso dos conselhos ao seu namorado (Franco): "é prudente ter medo de um chimpanzé".

E se o plano de fundo da trama parece simplista (em poucas palavras, pesquisa sobre regeneração cerebral dá inteligência aos macacos e a gente se estrepa), saiba que muita coisa é dita sem necessidade de palavras. Não há nada de simples em Caesar. Toda a sua complexidade emocional está ao alcance de um olhar. E se você não entende por que está torcendo para um macaco detonar com a raça humana, relaxe: é impossível não gostar de Caesar. Não é olhando nos olhos que a gente se apaixona?

Lanterna Verde


O atraso de dois meses entre o lançamento norte-americano e o brasileiro (quando a regra para blockbusters é lançamento mundial simultâneo) já dava pistas sobre o descrédito que este filme sofreria. A Warner, porém, não se ajudava mesmo: um primeiro trailer ruim, com efeitos inacabados, ajudou a aumentar a má impressão que teve início com a contratação do fraco Ryan Reynolds para ser Hal Jordan, o destemido piloto de testes que se torna o primeiro Lanterna Verde terrestre. Acontece que eu, ingênuo, tinha fé de que Martin Campbell, um diretor que havia salvo a franquia 007 duas vezes (com Goldeneye, em 1995, e Casino Royale, em 2006) poderia render acima do esperado e que a primeira impressão não seria aquela a ficar.

Para meu azar, de fato, Lanterna Verde deixa a desejar em muitos aspectos. Quando a melhor cena de um filme de ação é aquela do treinamento do herói, algo não vai mesmo muito bem. Falta ação, a lenga-lenga romântica com Carol Ferris (Blake Lively, linda) é muito comprida e há outras cenas desnecessárias tomando o tempo que seria melhor aproveitado caprichando-se mais nas batalhas do herói. Até que Hal Jordan está bem construído pelo roteiro (supervisionado pelo cara que fez de Green Lantern uma das HQs mais vendidas da atualidade, Geoff Johns), com direito a menção à morte de seu pai e seu medo de perder outros daqueles a quem ama. Faltam a Reynolds, porém, carisma e talento. Ele dá para o gasto e nada mais.

Dos vilões, pouco se pode reclamar: Peter Saarsgard faz um Hector Hammond ressentido e pusilânime e Mark Strong entrega o melhor Sinestro que alguém poderia pedir (se um possível segundo filme se concentrar na sua traição à Tropa, tenho certeza que Strong vai dar show). A aparência de Parallax, totalmente diversa daquela que tem nos quadrinhos, está adequada para uma ameaça cósmica, mas sua derrota nas mãos de Hal Jordan é patética, apressada e sintomática do incômodo desperdício da Tropa dos Lanternas Verdes.

Diante de tudo isso, chega a ser engraçado que eu tenha saído o cinema com a sensação de ter visto um filme razoavelmente bom. Apesar de seus defeitos, Lanterna Verde entretém e isso tem lá seu valor. Só que se a Warner deseja que esta série seja páreo para, digamos, um Homem-Aranha da vida, vai ter que caprichar muito mais nos próximos. Se é pra ficar na mesma prateleira de Elektra ou Demolidor, então, é isso aí mesmo. Do jeito que está, Hal Jordan vai continuar segurando lanterna.