29/08/2011

Planeta dos Macacos - A Origem

O que nos torna humanos? Dizem que é nossa capacidade de raciocínio que nos diferencia dos outros animais, mas, e se essa barreira fosse superada? Será que daríamos aos nossos cães um lugar à mesa? Se durante uma briga, por não serem capazes de dar um empurrão ou um tapa, eles acabassem mordendo alguém, ficariam apenas de castigo e depois levariam um sermão conciliador do seus donos? Será que eles ficariam contentes em continuar sendo meros mascotes e empregados dos humanos?

O homem, como se sabe, não é amigo nem de si próprio, que dirá de outras espécies. Deve ser a virtual impossibilidade de que uma troca de mãos no domínio do planeta possa um dia ocorrer que torna o tema tão fascinante. Dez anos depois do último esforço (a "reimaginação" de Tim Burton, em 2001, cujo final dividiu opiniões e fechou as portas para uma continuação), eis que a série volta aos cinemas, num filme cuja história se pretende anterior a todos os outros, mostrando como os macacos dominaram o mundo e a humanidade foi praticamente extinta.

Os triunfos tecnológicos do filme, evidentes desde o primeiro trailer, são de encher os olhos e causar assombro, tamanha a verossimilhança visual dos símios comuns e do naturalismo das emoções nos olhos daqueles evoluídos, principalmente Caesar, o macaco destinado a liderar a rebelião contra os humanos. Se alguém ainda via imperfeições no trabalho de captura digital de movimentos e expressões faciais, iniciada com o Gollum de O Senhor dos Anéis e com passagem pelo King Kong de 2005 (ambos frutos do dificílimo trabalho de Andy Serkis, já um especialista nesse tipo de atuação), ela atinge um ápice no filme do diretor Rupert Wyatt (até aqui, sem qualquer destaque em seu currículo).


Tamanha perfeição técnica, no entanto, de nada serviria se o filme fosse uma droga. Felizmente, Planeta dos Macacos - A Origem tem uma história muito bem contada, livre de alívios cômicos indevidos, com forte conteúdo emocional, momentos alternados de ternura e terror e uma invejável coleção de cenas que arrepiam e grudam na memória. Melhor ainda, o filme é paciente ao narrar os eventos que formam a personalidade de Caesar e o levam à liderança dos seus (ainda quase) iguais. Todo o sofrimento por que passa poderia levar um humano à insanidade homicida desenfreada, mas, para nossa surpresa, Caesar, o "animal", preserva um elaborado senso de ética e pensamento estratégico em sua luta pela liberdade.

Não há mesmo muito o que dizer sobre os humanos do filme, já que eles são meras "escadas" para o show dos primatas. Vale mencionar, porém, que John Lithgow (no filme, vítima de Alzheimer e pai do personagem de James Franco) divide cenas de forte impacto emocional com Caesar, e que Freida Pinto (de Quem Quer Ser um Milionário?) dá o mais valioso dos conselhos ao seu namorado (Franco): "é prudente ter medo de um chimpanzé".

E se o plano de fundo da trama parece simplista (em poucas palavras, pesquisa sobre regeneração cerebral dá inteligência aos macacos e a gente se estrepa), saiba que muita coisa é dita sem necessidade de palavras. Não há nada de simples em Caesar. Toda a sua complexidade emocional está ao alcance de um olhar. E se você não entende por que está torcendo para um macaco detonar com a raça humana, relaxe: é impossível não gostar de Caesar. Não é olhando nos olhos que a gente se apaixona?

2 comentários:

Eduardo Valverde disse...

Sensacional, Marlo! Você captou com precisão cirúrgica e muita sensibilidade toda a grandeza do filme. Muito bom!

Roquenrou aka Fabiano. disse...

Achei o filme muito bom. E bastante coerente com a idéia geral da franquia. Esperemos a possível sequência. Long live Caesar.