26/09/2011

Cadê o Soul Brazuca?



Há algumas semanas, no Facebook, em resposta a um vídeo postado por um amigo, caiu a ficha: não existe mais soul music no Brasil. 

Este país já teve, pelo menos, dois cantores fenomenais, que nada deviam aos seus pares gringos: Tim Maia e Wilson Simonal, senhores absolutos da plateia em cima de um palco (isto é, descontando aquelas vezes em que Tim não aparecia, claro). Os dois sabiam tão bem o que estavam fazendo que realizaram muito bem-sucedidas cruzas entre soul e ritmos brasileiros, mas, com total respeito aos elementos mais tradicionais da metade norte-americano da mistura: ritmo forte, metaleira encorpada e coração na garganta. Eram, ao mesmo tempo, refinados e populares, interseção alcançada apenas pelos muito competentes.

Só tem um problema: Tim Maia e Wilson Simonal já morreram há muito tempo. De lá pra cá, a soul music brasileira minguou até o virtual desaparecimento, diante da crônica carência de cantores que aliem as qualidades vocais necessárias a um repertório igualmente poderoso. Não estou falando que faltam bons cantores ou boas cantoras. O Brasil é cheio de gente maravilhosa, mas que, muitas vezes, se deixam enredar pelas armadilhas do sucesso fácil e pela busca de popularidade junto a um público menos exigente (embora, talvez, mais fiel).



Ou será que estou errado em dizer que Sandra de Sá é uma das melhores vozes que este país já ouviu? A negona tem potência, alcance e swing invejáveis. Poderia ser a nossa Tina Turner, mas preferiu ser a nossa Whitney Houston, capitulando às baladonas melosas de Sullivan & Massadas e a outros compositores de mão pesada ou preguiçosa. Tanto tempo depois, já nem faz muito sentido questionar as escolhas de Sandra, mas, se é verdade que ela garantiu um belo pé-de-meia no tempo em que emplacava uma trilha de novela atrás da outra, também é verdade que poderia ter construído uma carreira bem mais sólida artisticamente. Não consigo deixar de pensar no monumento black que Sandra poderia ter sido.

(Nota: em que pese meu reconhecimento do talento de Sandra, não posso deixar de registrar aqui o assombro que foi escutar África Natividade, seu mais recente CD ao vivo, em que ela parece grogue, desafinando vergonhosamente e perdendo na comparação com qualquer um dos convidados presentes. Assombro maior ainda é que isso tenha sido lançado.)

Nossa Aretha Franklin poderia ter sido Alcione, mas o samba é, claramente, a praia da Marrom. Nem cabem críticas a ela, pois, ao contrário de Sandra, Alcione soa absolutamente verdadeira em tudo que faz. Ela é o que ela canta. Se você não gosta de samba e de matronas falando de sua vida amorosa e sexual com a sinceridade de uma lavadeira, fuja. Se isso não te incomoda, dá até pra curtir, mas seria glorioso ouví-la se esgoelando num soul furioso. Do jeito que é hoje, a única coisa em comum entre elas é o número do figurino.

Os últimos esforços visíveis de termos ídolos soul de alcance nacional acabaram revelando-se fracassos patéticos.

Ainda que carente de técnica, Mauricio Manieri é dono de uma voz encorpada e agradável, potencialmente propícia para o gênero em questão. Marcou alguns gols ("Minha Menina", "Bem Querer", algo mais?) e sumiu nas verdejantes pastagens do ostracismo.



A Fat Family nasceu como uma piada pronta. Donos de vozes invejáveis, os oito irmãos (dos quais um já faleceu) poderiam ter sido, conjunta ou individualmente, alguns dos maiores cantores deste país. Aí, o que acontece? Botam nos coitados o rótulo de "gordinhos engraçadinhos" e os mandam fazer matérias bizarras na TV, focando em nada mais do que seu peso e sua capacidade de mover o pescoço pros lados, coisa que até eu sei fazer. Pode ser que tenha havido muita gente interessada em saber o que a Fat Family comia no café, no almoço ou na janta, mas eu só queria ouví-los cantar - e disso teve muito pouco.

O quê?! Ah, é verdade: tem Seu Jorge e Paula Lima!

Quando quer, ele comanda seriamente. Fez uma participação elegantíssima no megalomaníaco DVD de Ivete Sangalo no Madison Square Garden e acabou de lançar um disco de samba-rock ultrassimpático, Músicas para Churrasco, Vol. 1. Seu mal é a mania de meter-se em roubadas mastodônticas como a medonha (per)versão de Ana Carolina para "The Blower's Daughter" (aquela do "eu não sei paraaaaaar de te olhaaaaaar!", um torturante compêndio de cacoetes boçais pra impressionar a quem não sabe nada de música). Seu repertório tem bom balanço, mas é bastante indigente nas letras. Tem potencial para ir muito mais longe, investindo num soul mais à la 70s e deixando de lado a preocupação imediata de ser visto como "do povão". Se nada mais der certo, sempre tem o Cinema, no qual ele também é muito bom.



Paula Lima é linda e chique, tem repertório simpático, mas sempre na linha "não fede, nem cheira". Falta-lhe um sucesso avassalador e um produtor que a desamarre da imagem de "cantora de baile". Talvez seja hora de deixar essa turma cheia de vícios (como Max de Castro e o Funk Como Le Gusta) e buscar gente interessante e eclética, pero sin perder la coerencia jamás. Melhor apressar-se, com a idade vai ficando mais difícil.

Deve ter gente boa no gospel, também, mas é um repertório que nem merece comentários.

Aí, eu fico vendo os artistas que chegam ao sucesso de massa lá de fora: Amy Winehouse, Adele, Sharon Jones, Eli "Paperboy" Reed, Fitz and the Tantrums, Cee-Lo Green... e me dá um desgosto que só não é maior do que a revolta de ver que o nosso hit parade (alguém ainda fala "hit parade" hoje em dia?) é formado por 90% de sertanejo universitário e os 10% restantes disputados a dentadas entre a turma do pagode paulista e do axé. Tem tanta gente boa por aí, mas tão sufocada por esse cenário desolador!

Houve um tempo em que música boa tocava na rádio e todo mundo curtia. Alguma coisa se perdeu desde então (provavelmente, a capacidade de discernimento do público jovem, vítima de péssima escolarização) e é preciso oferecer à audiência alguma coisa, nova, diferente e interessante para estabelecer as bases de uma comparação que permita destronar as porcarias que hoje reinam. Não sei se é falta de talento, de carisma ou de oportunidade da concorrência, mas, mesmo sem ideia do quanto pode demorar, pretendo viver para ver o dia em que as coisas mudarão por aqui.

4 comentários:

Marcone Hilton disse...

First!

É como dizem por aí: sou doido pro sertanejo universitário se formar logo e ir fazer mestrado na gringa.

Rapaz, e o tamanho do susto que eu levei quando ouvi "Pretty World" do Stevie Wonder? É Sá Marina! E pior: a "versão" é do ceguinho, que ficou apaixonado por ela qdo esteve por aqui há muitos anos.

De todos os citados é bom que se diga que Seu Jorge tem, sim, potencial, voz e malandragem pra isso. O último disco dele (Músicas para Churrasco) se não é um primor, passa longe da chatice destilada em encontros (?) vocálicos (??) com Ana Carolina - que podia pegar uma grave doença nas cordas vocais e nos fazer o favor de sumir do mainstream (eita, e mainstream, ainda usa?).

Alexandre disse...

Acho que o problema da música Soul (e do rock, samba, baião, dança de roda...) é a quase extinção dos produtores clássicos, muito disso pelo declínio das principais gravadoras que os empregava.
Os livros memorialistas do Nelson Motta como Vale Tudo, ou Noites Tropicais, mostram que seja pela sensibilidade artística, ou o tino empresarial desses sujeitos, mantiveram malucos talentosos e incontroláveis tais como Tim Maia e Hyldon funcionais.
Atualmente o negócio da música é tocado ou de forma mambembe, como o do insuportável Teatro Mágico; ou dominado por esquemões furados de fórmula para sucessos de Rick Bonadio.

Gerlande Diogo disse...

O novo visual do blog ficou ótimo, muito bom.

Ronaldo Jr. disse...

Vou dizer, tá com Ed Mota e um outro cara chamado Sérgio Saas!