24/09/2011

R.E.M.:The One I Love



Em julho de 1991, fazia um ano que eu havia perdido um irmão, Malcon, vítima de aneurisma fulminante. Talvez por alguma misteriosa lei natural de compensação, eu, que havia sido um adolescente recluso e antissocial, acabei descobrindo o valor da amizade e, de repente, me vi cercado de uma galera imensa, formada por amigos de meu irmão falecido e de outro irmão ainda vivo, com os quais ia a jogos de basquete, festas e noitadas sem qualquer razão especial que marcaram um período particularmente feliz da minha vida, em Ibotirama.


Foi nesta época que o R.E.M. chegou na minha vida e na de muita gente, a bordo de "Losing My Religion" e sua melodia irresistível, aliada a um vídeo que fez história e tornou-se referência para inúmeros outros. Como não podia deixar de ser, a música tornou-se obrigatória em nossas reuniões, fossem alcoólicas ou abstêmias. Out of Time foi um dos 10 primeiros CDs que tive na vida e várias de suas canções traziam grande alegria ao meu dia: "Radio Song", "Shiny Happy People", "Belong", "Texarkana", "Country Feedback"...


Ao fim do mesmo ano, com o grupo devidamente firmado no céu do megaestrelato, sua antiga gravadora, a I.R.S., lançou uma excelente coletânea, trazendo o fino do período do R.E.M. como banda indie, antes de assinar com a Warner e ganhar o mundo. São canções cuja qualidade melódica e encanto só encontram rivalidade na curtíssima e impecável trajetória dos Smiths, que acabaram justamente quando se preparavam para ser "a grande coisa" do fim dos anos 80.


Da "triste felicidade" eletroacústica de baladas perfeitas como "Perfect Circle" e "So. Central Rain", passando pelo country de "(Don't Go Back to) Rockville", até chegar ao seu primeiro grande hit, "The One I Love" e à desafiadora letra de "It's the End of the World As We Know It (and I Feel Fine)", eram 16 faixas para se ouvir com um sorriso de orelha a orelha.


Pouco mais de um ano depois, quando todo mundo pensava que o R.E.M. iria limitar-se a colher os louros do sucesso de Out of Time e lançar mais do mesmo, eis que a banda nos presenteia com um dos álbuns mais bonitos e sensíveis que este mundo já teve o privilégio de ouvir: Automatic for the People (1992) chegava transbordante de suavidade acústica e orquestral.


Os hits foram "Everybody Hurts" (reconhecida como uma das músicas mais tristes de todos os tempos) e "Man on the Moon" (homenagem ao esquisito comediante americano Andy Kauffman). Entre elas, outras excelentes e emocionantes canções. Na 11ª de suas 12 canções, porém, a beleza e a sensibilidade atingiam um ápice, numa monumental peça para piano e cordas chamada "Nightswimming", cuja letra celebra momentos de felicidade perdidos em tempos mais inocentes. Não menos bela, "Find the River" encerra a experiência com a doce memória dos cheiros e sabores evocados na letra.


Depois disso, o R.E.M. flertou com o grunge em Monster (1994), de novo com a semi-independência (sonora) em New Adventures in Hi-Fi (1996), com a eletrônica em Up (1998), entregou-se às baladas em Reveal (2001) e Around the Sun (2004), para voltar guitarreiro em Accelerate (2008) e pop em Collapse Into Now (2011).



Um dado fundamental, porém, não se alterava de um disco para o outro: nunca houve um lançamento do R.E.M. de onde não se pudesse pinçar ao menos uma faixa marcante, daquelas que fazem a gente se perguntar "como esses caras conseguem?". Como não se desmanchar com o clima solene e a arrepiante participação de Patti Smith em "E-Bow the Letter"? Como não sair dançando ao som de "Imitation of Life", que provou que o tino pop continuava intacto após 20 anos? Como não admitir que até uma faixa com rap ("The Outsiders") fica legal quando estamos falando de Michael Stipe, Peter Buck e Mike Mills?


Aí, poucos dias depois de ouvir que eles já haviam começado a gravar um novo álbum, chega a inesperada, estranha e amarga notícia de que o R.E.M. chegava ao fim, por consenso entre seus membros. Na agitação do dia-a-dia, eu nem havia parado para mensurar o tamanho do estrago. Hoje, porém, nas duas horas em que eu fazia o trajeto entre Alagoinhas e Salvador, vim ouvindo suas grandes canções e, pela força natural de sua obra e pelo pesar de perceber que um pedaço muito querido de minha vida, de repente, se acabou, rolaram-me insistentes lágrimas pelo rosto - e outras e outras e outras...


Sim, eu sei que Stipe não morreu, nem seus amigos. Sei que um reunião é possível e que daí podem florescer interessantes carreiras-solo, mas não consigo disfarçar meu luto. Ou eu estou ficando cada vez mais mole com a idade, ou o rock realmente perdeu uma parte importante do seu encanto para mim. É o fim do mundo como o conhecemos (e eu não me sinto bem).

3 comentários:

Caesius Maximus disse...

Condensou muito bem a trajetória da banda, guri! Só tenho dois álbuns do REM (a coletânea e New Adventures). A Re tem Automatic. Esses álbuns, por si, já bastam para saber a falta que eles farão nesse cenário árido e sem graça que o rock apresenta atualmente.

Ao menos temos a esperança que, do fim da banda, surgam novos projetos que tragam alento a nós, velhos apreciadores do bom rock 'n' roll.

Roquenrou aka Fabiano Belchior disse...

Pô, Marlo, e como se sentir bem com uma notícia dessas? O REM é parte fundamental também na minha vida, desde que ouvi The One I Love, ainda nos anos 80. Ficam os momentos propriciados pela excelente trilha sonora e os dois shows de 2008, que pude presenciar. O REM está morto. Vida longa ao REM!

Alexandre disse...

Nos últimos dias também me peguei traçando paralelos entre as carreiras do R.E.M. e Smiths, e me lembrei duma frase do Marlo sobre os últimos; que eles tinham alcançado ao apogeu, e depois acabaram... não houve um período de decadência.
Já para o grupo americana, temos fases de percalços, mas seguramente nenhuma decepcionante, que possamos qualificar de "maldita".
Muito disso deve-se a qualidade intrínseca das suas músicas, mas também a postura serena de seus integrantes quanto aos seus (improváveis) status de superstars do rock. Não posavam de indie-zinhos panacas, contudo davam de ombros para modismos de fãs e gravadoras. Tinham claro posicionamento e ativismo político, sem aborrecer as pessoas numa cruzada messiânica e marketeira (chuuuupa essa, Bono Vox).
Hoje, o R.E.M., tal como os Smiths são história. Poderemos sempre fazer suposições sobre como essas bandas estariam se tomassem rumos diferentes...
... entretanto me animo agora lembrando que tanto Morrissey quanto (ainda que mais discretamente) Johnny Marr continuam satisfeitos com suas escolhas pessoais, e artistas fundamentais ainda HOJE!
Não tem porque pensar que será diferente com Michael Stipe, Peter Buck, Mike Mills e (lembrando de) Bill Berry.