23/09/2011

Saudade de quê?

O Facebook é um barato, provavelmente a rede social mais interessante de que já fiz parte. Apesar das algumas enervantes modificações de privacidade e compartilhamento, que pouco agregam à experiência de uso, gosto do visual limpo, padronizado, sem margem para aquele excesso de personalização que fazia do Orkut de algumas pessoas uma verdadeira agressão às retinas.

Claro, existem problemas: as chatíssimas correntes, brincadeiras e aplicativos que todo mundo parece adorar... menos eu. "Cole isso no seu mural", para mim, equivale a dizer "já que você não consegue pensar em nada original para escrever, repita o que todo mundo está dizendo e sinta-se menos mané". E tome "campanhas" para "ajudar" crianças com câncer, homenagens ao pai e à mãe aos quais você geralmente se refere como chatos, convites para eventos aos quais ninguém comparece ou sorteios cujo regulamento pode ser traduzido com uma só palavra: golpe.

Existem ainda aqueles cuja participação está limitada à citação de escritores, pensadores ou estadistas. Nada contra, mas, que tal dizer algo comovente, espirituoso ou engraçado que VOCÊ tenha bolado, só pra variar? Sinto particular pena de dois escritores cujas almas jamais terão descanso (assim como as nossas), tamanha a amolação pelo uso de seus textos no Facebook: Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu, os favoritos de quem não tem nada a dizer.

Tão triste quanto a falta de originalidade é a evocação de um passado supostamente mais feliz, só porque tinha Xou da Xuxa, He-Man, pião, bambolê, pirulito Dip'n'Lik e outras tranqueiras. Grande bosta.

Não se iluda. Você fala mal dos garotos que passam o dia na frente de um videogame porque, provavelmente, não teve videogame na infância. Fala mal de quem passa o dia trocando torpedos ou acessando a internet pelo celular porque, no seu tempo, isso era ficção científica.

Se a gente olhar bem, o passado é um horror.

Não havia tantos carros congestionando as ruas, é verdade; mas, também, havia uma boa chance de não haver um na sua garagem, já que ter carro era bem mais difícil do que é hoje. Tecnologicamente, eram as tais "carroças" preconizadas por (vade retro!) Fernando Collor.

Possuir um telefone fixo era um luxo pelo qual se pagava uma pequena fortuna e que podia levar anos entre a solicitação e a instalação.

Viajar de avião era coisa de barão e ponto final.

LP era legal de colecionar, mas o vinil nacional era de baixa qualidade. A oferta de títulos ficava ao sabor dos critérios dos "gênios" no comando das gravadoras, que lançavam edições porcas, sem encartes. Hoje, na internet, a gente encontra praticamente qualquer coisa que se queira ouvir.

A pirataria musical era feita em fita cassete, aquele negócio que constantemente enroscava no aparelho com teclas duras e barulhentas, tornando um suplício a simples tarefa de encontrar uma música. Se a fita enroscasse, a gente teria que cumprir o humilhante ritual de rebobiná-la com uma caneta Bic.

Ainda havia TVs em preto-e-branco, com seletor ou teclas de canais e sem controle remoto. Uma TV com mais de 20 polegadas era um trambolho pesadíssimo e era preciso um senhor móvel para acomodá-la.

Os computadores eram monocromáticos e, para abrir um programa, era necessário digitar um comando tão extenso quanto este parágrafo.

Os quadrinhos Marvel e DC só existiam no formatinho consagrado pela Editora Abril, com capas alteradas e histórias vergonhosamente mutiladas. Formato americano só ficou popular no fim da década de 80, quando o Batman completou 50 anos e houve uma avalanche de (excelentes) lançamentos no formato original.

A Liga da Justiça dos desenhos se chamava Superamigos e era um sacolão de frases feitas, vilões idiotas e personagens constrangedores, como os Supergêmeos Zan e Zayna (sem esquecer do seu fiel macaco, Gleek).

Os efeitos especiais do cinema eram bem mais complexos de se fazer, já que era tudo praticamente artesanal e, ainda assim, tinham que ficar convincentes. Hoje, o CGI ressuscita bichos extintos com perfeição e faz até gente de mentira que parece de verdade.

Poucos conheciam seus direitos de consumidor, não havia eleições diretas para presidente, praticamente não se viam negros na publicidade e a homofobia era quase um dogma familiar, que começava quando o filho se atrevia a dizer que não gostava de futebol (esportes jogados com as mãos, como vôlei e basquete, eram considerados "coisa de fresco").

E, pelamordedeus, NÃO HAVIA INTERNET!

É sério que você tem saudade desse tempo?

11 comentários:

Maitê disse...

Sempre preciso agradecer quando leio coisas assim. Obrigada! Agora, o melhor do facebook é a possibilidade de bloquear/excluir tudo aquilo que não me interessa, não gosto, me incomoda ou me agride. Meu facebook, minhas regras! Chato que nunca fala cmg e só manda corrente? bloqueio! Convites para cityville? Bloqueados a anos luz atrás. E não, no mundo real eu não faço a mesma coisa, hehehe

paulo germano disse...

oxente!!!!
posso assinar embaixo???

Josemar disse...

Como comentei com você... a Maitê tem a mesma opinião que eu. Para que esquentar a cabeça ... nessa vida moderna temos tantos problemas... transformar o face em outro? No mais seu texto é lindo ...um dia vou escrever como você!rsrsrsrsrsrs

Alexandre disse...

Em exatas duas semanas, o Deep Purple fará um show em Fortaleza, ou melhor o arremedo caça-níqueis sem vergonha do que um dia foi o Deep Purple faz uma apresentação num lugar badalado, mas horrível em trazer conforto para a sua platéia.
Engraçado, a comoção que tomou meus amigos e familiares, mesmo para quem não é público-alvo da banda, mas só por "estar próximo" duma das maiores bandas da história do rock.
Essa tal banda não é mentira, só que acabou décadas atrás...

Marlo de Sousa disse...

MAITÊ e JOSEMAR, justamente porque eu NÃO me esquento a cabeça é que escrevo sobre eles. Deixo correr solto, pra ter assunto para posts como este. =)

ALEXANDRE, musicalmente, o passado é mais interessante porque tudo era novo, o mercado ainda era relativamente inocente e havia a paixão acima do dinheiro. Hoje, o capital estuprou todos os setores do entretenimento e todo mundo já chega ao mundo supercético, com esse papo de que o ídolo é "gente como a gente". Os meus estão lá, no pedestal de sempre - e se Morrissey, um dia, apertar minha mão, estou sujeito a reações vergonhosas. =D

PAULO GERMANO, não já assinou? ;-)

Abraços!

Eduardo Valverde disse...

Concordo com tudo, desde que não inclua no que se refere a passado, vídeos de grandes artistas hoje mais velhos - ou mortos -, cenas de filmes e novelas que marcaram época e feitos com brilhantismo. Se for assim, implodam-se museus e bibliotecas! E quanto ao que assistia na infância, que vai dizer sobre o "Sítio do Picapau Amarelo"? O de agora foi melhor? Você sabe que não. Abração e parabéns!

Eduardo Valverde disse...

E a saudade é algo inevitável!
Tenho saudades do presente e até do futuro, saiba... hehehe.

Caesius Maximus disse...

Esse saudosismo (o qual me acomete de maneira avassaladora, vez ou outra) acaba quando você tenta ouvir um LP e precisa acertar o ponto da agulha na faixa que quer ouvir, quando lembra das cacetadas que levava dentro do carro quando estava sem cinto de segurança e um imbecil batia no carro do seu pai, quando precisava fazer compras do mês inteiro pra inflação não comer o salário... Às vezes, quando estou na casa de meus pais e eles me pedem para ir comprar pão, a panificadora que normalmente faço isso me deprime porque fica pertinho da rua onde morei por 6 anos (dos 7 aos 13 de idade) e a situação em casa era das mais brabas. Se quero voltar ao passado? Sim! Existe um período da minha vida que poderia entrar em loop eterno, que vai de dezembro de 1988 até junho de 1991. Se eu morrer e Deus me permitir ficar "aprisionado" nesse tempo, serei o ser humano mais feliz de todos...

Marlo de Sousa disse...

EDUARDO VALVERDE, entendo seu ponto de vista, mas o que sinto é que, a despeito da qualidade realmente superior de muito da produção cultural de tempos idos, em relação aos atuais, sinto que sempre existe uma certa falta de critérios nessas revisões do passado - está aí a Festa Ploc, pra provar que até porcarias notórias, de repente, viram "cult". Há momentos em que há razão para o orgulho, mas isso também esconde um pouco de "inveja da juventude". Normal: toda geração se acha mais legal que a anterior e mais sábia que a próxima. =)

Abraço!

Marlo de Sousa disse...

CAESIUS MAXIMUS, você falou de um tópico primordial pra gente não ter tanta saudade do passado: a inflação anual de 4 dígitos. Brrrr... Nem vou me prolongar no assunto, isso não é coisa de Deus.

Galera, é óbvio que eu, também, sinto saudade do passado: pessoas, momentos, canções, filmes, coisas... Eu sou uma pessoa comum e sinto as mesas coisas que todo mundo.

Meu problema é com quem fica falando do passado como se TUDO antes fosse maravilhoso e que NADA de agora prestasse. Então, chamei a atenção de vocês para coisas que faziam do passado um tempo não tão legal assim.

Eu só não deixo o que tinha de bom antes me cegar para o que tem de bom hoje. É isso. Abraço a todos.

Gerlande Diogo disse...

Hoje é infinitamente melhor, apenas temos saudade de algumas coisas do passado. Ótimo post.