31/10/2011

Marisa Monte - O Que Você Quer Saber de Verdade


Marisa Monte é um caso raro na música brasileira. Em plena era da internet e da falta de privacidade, quase tudo que se sabe dela é apenas o que ela permite saber. Marisa não é facilmente vista em programas de auditório, faz intervalos enormes entre seus discos, dá poucas entrevistas e só faz o que quer. Chega a ser aberrante que ela venda tão bem e possua um séquito tão fiel de fãs.

Cinco anos após seus últimos lançamentos (Infinito Particular e Universo ao Meu Redor), Marisa está de volta. Cercada de parceiros habituais (Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes, Dadi Carvalho) e alguns que estão chegando agora à turma (Marcelo Jeneci e Rodrigo Amarante, entre outros), ela trouxe um pacote de 14 canções deslavadamente românticas e surpreendentemente rancheiras, com um pé na hoje cult música brega dos anos 70.

Não espere, porém, produção pobre: tudo é de primeira e quase todas as canções vêm adornadas por cordas comedidas, porém firmes, encorpadas. A cada faixa, pequenas surpresas, como as violas flamencas e os sopros mariachis de "Ainda Bem" (primeira faixa de trabalho). Em lugar da conhecida paixão pelo samba, Marisa resolveu brincar com o forró ("Hoje Eu Não Saio, Não") e baladões country ("Aquela Velha Canção"). Tudo na maior elegância, sem resvalar em qualquer coisa com o famigerado sobrenome "universitário".

Em meio ao discurso de tom romântico bastante direto das letras, encontram-se sutilezas poéticas e bem-humoradas. Faça-se justiça: Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown revelam-se, em seus próprios discos e nos de outros artistas, compositores cada vez mais refinados. Longe das brincadeiras fonéticas e semânticas que caracterizaram o trabalho de ambos por anos, os dois descobriram o valor da simplicidade, de fazer muito com pouco.

O registro vocal da cantora continua impecável, como de hábito. Para não dizer que o disco é perfeito, a penúltima faixa é um desperdício. "Seja Feliz" tem melodia primária, rimas pobres e mensagem cafona. Mesmo assim, não embaça o brilho de um álbum que há de figurar entre os melhores de Marisa, render-lhe bons frutos em forma de popularidade e furar, ainda que brevemente, o bloqueio à inteligência e à sensibilidade que foi erguido na maioria das FMs brasileiras. Não é pouco.

2 comentários:

Eduardo disse...

Assino embaixo!!
Parabéns, Marlo.

Gerlande Diogo disse...

Apesar de eu ñ ter gostado muito de seus últimos discos, ninguém pode negar: Marisa é coisa fina.