1991 foi um ano histórico para o rock. Foram tantos os lançamentos importantes que fica até difícil escolher os discos para analisar num post como este. Dos gringos, escolhi uns bem manjados, mas fundamentais, sendo indispensável mencioná-los. Dos nacionais, um que quase sepultou a carreira de um grupo e um que solidificou o prestígio de outro. Não esqueça de deixar seu comentário!
Nirvana - Nevermind
Foi amor à primeira vista?
Saudado como a segunda vinda do Cristo desde seu lançamento, Nevermind era uma delícia tocada com velocidade punk, melodias pop e produção cristalina de Butch Vig. Não era a estreia do Nirvana, mas é considerado como marco zero do grunge (e, segundo seus ressentidos viúvos, da morte do hard rock). O genial e ultrabásico riff que abre "Smells Like Teen Spirit" era o bastante para desarmar qualquer resistência.
E aí, ainda rola gostoso?
Clássicos não são clássicos à toa. Todas as faixas de Nevermind ainda descem redondinhas, como se tivesse sido lançado ontem. Mesmo as mais surradas, tipo "Come As You Are" e "Lithium", ganharam um verniz que as protegeu dos efeitos nefastos da passagem dos anos. Esqueça o encanto necrofílico que o álbum exerce sobre os deslumbrados (por exemplo, aqueles que só falam de Nirvana para mencionar a tal "maldição dos 27 anos") e se esgoele junto com Kurt.
Metallica - Metallica (The Black Album)
Foi amor à primeira vista?
Nunca fui grande fã de metal e continuo não sendo. Naquele 1991, porém, o falatório sobre a "transformação" do Metallica era tanto que eu me senti obrigado a saber do que se tratava. As reações foram divididas: enquanto muita gente achava que a banda estava pagando de "traidora do movimento" thrash, outros achavam que reduzir os rococós instrumentais e a duração da música havia feito um bem danado. Sei lá quem estava certo. Tudo que eu tinha era o que saía dos fones e me fazia fumegar as orelhas: canções pesadas e poderosas, que provocavam ímpetos imediatos de tocar air guitar, air bass, air drums e air o escambau!
E aí, ainda rola gostoso?
Sim, continua excelente, até porque o Metallica nunca mais produziu algo tão bom desde então (por mais que Death Magnetic, de 2008, tenha sido um esforço honesto de resgatar antigas glórias). Taí um disco que precisa urgentemente ganhar uma remasterização, com sonoridade mais polida. Enquanto uma edição especial não sai (e é praticamente inevitável que saia), a banda disponibilizou hoje um arquivo FLAC, sem perda de qualidade. Já deve dar uma senhora vantagem em relação ao velho CD.
Legião Urbana - V
Foi amor à primeira vista?
Seja por falta de personalidade ou genuíno desejo de mudança, a verdade é que todos os discos da Legião Urbana são bastante distintos entre si. Depois da doçura acústica de As Quatro Estações (1989), a Legião voltou com um disco metido a progressivo, cheio de faixas vagarosas e enormes ("Metal Contra as Nuvens" supera "Faroeste Caboclo", estendendo-se até os ONZE minutos). Foi preciso alguma boa vontade, apesar de o primeiro single, "O Teatro dos Vampiros", ter seguido a típica linha suave e messiânica da banda. Certo dia, porém, durante uma faxina, fui definitivamente fisgado pela beleza cortante de "Vento no Litoral" e pensei, "uau, isso é muito bom!"
E aí, ainda rola gostoso?
Nem tanto. Das faixas mais longas, a que melhor resistiu ao teste do tempo foi a heroinômana "A Montanha Mágica". Já "Metal..." soa exagerada, à beira do insuportável. Para mim, assim como há 20 anos, grande parte da beleza do disco está no início, com a breve e medieval "Love Song", e no encerramento, com "Come Share My Life", singelo instrumental do cancioneiro popular norte-americano. Não é o disco mais bonito, nem o mais vendido, mas há uma boa chance de este ser o esforço mais digno da Legião.
Titãs - Tudo ao Mesmo Tempo Agora
Foi amor à primeira vista?
Depois de se tornarem uma quase unanimidade de público e crítica com Õ Blésq Blom (1989), os Titãs decidiram deixar de lado as experimentações neotropicalistas e voltar ao rock & roll mais básico. A mudança assustou e desagradou: Tudo ao Mesmo Tempo Agora foi massacrado pela crítica e boa parte do público também deu as costas às canções rápidas e recheadas de escatologia, a maioria sem qualquer traço da crítica social refinada de alguns dos clássicos da banda, como "Comida". Eu não achava ruim e ouvia bastante, mas, já naquele tempo, sabia que havia sido um retrocesso na sua escalada criativa.
E aí, ainda rola gostoso?
Não. O disco hoje soa ainda mais anacrônico do que na época, quando já havia sido acusado disso. Se com 18 anos aquela coleção de faixas boca-suja e francamente preguiçosas (que trabalho dá compor algo como "Obrigado"?) já não impressionava, que direi hoje, aos 38... Para não dizer que o disco é totalmente descartável, "Agora" é um genuíno achado em meio à fedentina inspirada pelas letras. "Flat-Cemitério-Apartamento", apesar de algumas referências datadas, é um bom momento de humor. Pensando bem, vou aliviar para a banda: ponho parte da culpa do fracasso em Liminha e sua produção antenada como tudo que havia de mais moderno... em 1986.
R.E.M - Out of Time
Foi amor à primeira vista?
Era a primeira vez que eu ouviria um disco inteiro do R.E.M. e a expectativa criada por "Losing My Religion" (que dispensa apresentações) era altíssima. O então quarteto não decepcionou, emendando uma grande canção à outra e produzindo clássicos da alegria ("Shiny Happy People"), da estranheza ("Low"), do lirismo ("Half a World Away") e da tristeza ("Country Feedback"). Foi um dos primeiros CDs que comprei e eu estava absolutamente feliz com minha aquisição. O R.E.M. logo tornou-se uma de minhas bandas favoritas.
E aí, ainda rola gostoso?
Sim, rola muito bem. "Losing My Religion", apesar da onipresença e de ser uma concessão fácil na boca de quem diz odiar rock (a gente não precisa dessa esmola, falô?), tem apelo perene. Out of Time é todinho tão bonito que pega até mal ficar procurando defeito. É pop na melhor acepção da palavra. Ou seja, foi feito para a Eternidade.
U2 - Achtung Baby
Foi amor à primeira vista?
Depois da egotrip americana de Rattle and Hum (1988), o U2 se recolheu em Berlim para tentar seguir relevante nos seus próximos dez anos de vida. Para isso, deixaram de lado o discurso ideológico, investiram em letras altamente emocionais ("One", "So Cruel" e "Love is Blindness" ainda estão entre as melhores coisas que Bono escreveu), botaram a distorção no talo (vide as guitarras de "Zoo Station" e "The Fly") e aprenderam a rir de si mesmos. Foi uma ousadia sem precedentes, totalmente inesperada para uma das bandas mais caretas da história. Deu tão certo que o U2, com todos os seus altos e baixos, ainda é a maior banda do planeta.
E aí, ainda rola gostoso?
Engraçado que o disco soa mais datado justamente no que o fazia mais moderno, à época do seu lançamento: as batidas dançantes. As guitarras mais agressivas que o habitual, a atitude desencanada e a alta qualidade geral das composições permitiram que ele envelhecesse dignamente. A remasterização que chega às lojas em novembro deve dar novo fôlego ao disco que é considerado por muita gente (inclusive por este que vos escreve) como o melhor trabalho do U2.






6 comentários:
Grandes discos. Saudades...
que ano, amigo, que ano! infelizmente não deve rolar uma edição comemorativa do black album, até agora nenhum disco dos caras teve reedições de luxo. mas resta torcer.
Fantástico, seu texto!
Só fica a vergonha de nunca ter ouvido parte considerável dos discos.
Mas ainda é tempo...
Obrigado e abraços.
E cadê cowboy Junkies?
Às vezes me penitencio por não ter Nevermind na minha discoteca. Dentre os demais, não tenho esse dos Titãs (não faz falta). Quanto aos outros, envelheceram bem, obrigado... rs... Mas admito que minha vontade de ouvir Legião (banda nacional que mais aparece em minha coleção) já não é a mesma há um bom tempo.
Tem uma outra coisa que faz-me notar que Achtung Baby tem 20 anos... é bom demais para ter sido produzido nestes dias de hoje.
Embora seja um tanto amargo, acho estes tempos interessantíssimos, nunca tivemos tanta oferta de música feita agora, (e para um fã de Sinatra, que sou) quanto de outrora.
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