13/11/2011

Ahk-toong Bay-bi Covered




A revista britânica Q teve uma excelente iniciativa ao encartar, na sua edição mais recente: uma homenagem aos 20 anos de Achtung Baby, reunindo um time de artistas de diferentes escalões do rock/pop, para dar sua versão de cada uma das 12 faixas do clássico álbum que reinventou o som, a imagem e trajetória do U2.

De boas intenções, como se sabe, o inferno está lotado. Apesar de algumas boas surpresas, a homenagem fica consideravelmente aquém do homenageado. A maioria dos artistas convidados parece ter pensado "vamos pegar o que o U2 fez e fazer tudo ao contrário: onde tinha rock and roll, entrega e barulho, vamos colocar eletrônica, sussurros e leveza". 

Nada contra, desde que as novas versões tivessem realmente reinventado as canções. No entanto, a maioria não resiste a 30 segundos de comparação com a original. Não é que eu esperasse um disco melhor que o próprio Achtung Baby, mas a preguiça de certas versões chega a ser irritante.

Vamos aos fatos:

"Zoo Station", Nine Inch Nails
A faixa de abertura de Achtung Baby era um resumo das intenções do disco: guitarras no talo, bateria metálica e vocal distorcido, anunciando a chegada do humor e da atitude desencanada às praias da banda mais certinha do planeta. Trent Reznor e sua trupe, porém, fizeram uma versão eletrônica limpinha, pra ouvir esperando pelo dentista. Nota 5.

"Even Better than the Real Thing (Jacques Lu Cont Remix)", U2
Um remix com o próprio U2, o que já dá uma à faixa uma vantagem. Outros melhores já foram ouvidos antes, mas, se há algo interessante neste remix é a utilização de uma base parecidíssima com "Zoo Station" para reconstruir a faixa vizinha! Nota 6.

"One", Damien Rice
O homem que deu ao mundo "The Blower's Daughter" deu a "One" a cara de suas próprias criações: suave e de baixos teores, levada ao piano, violão e cordas. O foco da canção foi mudado e onde se ouvia "você", agora se ouve "eu". Ficou bonita, mas periga a gente dormir com tamanha calmaria. Nota 7.

"Until the End of the World", Patti Smith
Finalmente, o tributo começa a fazer algum sentido! Versão folk com linda interpretação de Patti, sendo possível imaginá-la tomando todas em um piano bar. Seria uma beleza de trilha sonora para um road movie poeirento. Nota 9.

"Who's Gonna Ride Your Wild Horses", Garbage
Mais uma banda que optou pelo caminho preguiçoso da baladinha eletrônica. Toda essa maresia dá lugar à explosão no refrão, pelo menos. O interlúdio ("don't turn around, don't turn around again...") ficou deslocado. Nota 6.

"So Cruel", Depeche Mode
Aqui, sim, temos perfeita adequação de uma banda à canção escolhida e seu tema. Se alguém gosta de cantar o sofrimento, este é Dave Gahan. Soturna, como convém ao Depeche Mode, e cantada com o coração na garganta. Nota 9.

"The Fly", Gavin Friday
Oh, Deus... mais uma balada eletrônica cantada aos sussurros! Dai-me paciência! O que alivia a barra de Gavin é a semelhança de sua voz com a do próprio Bono. Nota 5.

"Mysterious Ways", Snow Patrol
A pior do disco. Os conterrâneos do U2 estragaram uma das faixas mais vigorosas de Achtung Baby e fizeram dela uma baladinha genérica e sonolenta. O swing foi embora, a malícia foi embora, a graça foi embora. Nota ZERO!

"Trying to Throw Your Arms Around the World", The Fray
Outra banda que tem o U2 entre suas influências, The Fray fez um bom trabalho. Finalmente, uma banda orgânica no lugar de um sequenciador e alguém disposto a gastar suas preciosas cordas vocais, abrindo o vocal como Bono faria. Nota 8.

"(Ultra Violet) Light My Way", The Killers
Começa muito bem, levada apenas no baixo e na bateria. O vocal de Brandon Flowers está excelente e a canção vai surpreendendo, até que entram as guitarras, prática e desnecessariamente idênticas às originais, e percebemos que daria para ter sido bem melhor. Nota 8.

"Acrobat", Glasvegas
A arriscada missão de revisar a faixa que é tida quase unanimemente como a "menos boa" canção do disco coube aos escoceses do Glasvegas. Boa surpresa: apesar de ainda bastante parecida com a original, ganhou peso, distorção vocal e alguma personalidade própria. Nota 8.

"Love is Blindness", Jack White
A máxima de guardar o melhor para o final funciona perfeitamente aqui. Jack White abre mão da solenidade da original e transforma a canção em um quase-blues berrado e dramático, sem faltar o seu característico, curto e lindamente impreciso solo de guitarra. Nota 10!

09/11/2011

Zumbilândia



Confesso: eu gosto de filmes de zumbis.

Antes de torcer o nariz, pense bem. Filmes de zumbis são escapismo puro. Em que outro gênero você tem uma desculpa melhor do que a sua própria sobrevivência para fuzilar todo mundo ao seu redor? É diferente de um filme com monstros sem forma humana. Zumbis são, essencialmente, gente "normal", mas você não precisa sentir pena: pode atirar, dar paulada, tacar fogo, serrar membros, atropelar. Ninguém vai te culpar por nada disso. Afinal, é você ou são eles.

Entretanto, nem todo filme é igualmente legal. Prefiro aqueles com um pé (ou dois) na comédia. O típico zumbi, com aquele andar trôpego e o solitário pedido por "cérebro!" (quando não meros grunhidos) nos lábios, é um bicho ridículo. Daí que colocá-los em filmes muito sérios costuma não dar muito certo, porque uma praga que transforme as pessoas em canibais irracionais, capazes de arrastar-se por aí mesmo já estando mortas, é uma ideia impossível de levar a sério.

Mesmo sabendo que quem viu um filme de zumbi, basicamente, já viu todos, alguns se destacam pelas sacadas de humor, as referências pop, a criatividade na hora de executar os monstrengos ou, mais raramente, um roteiro realmente inteligente disfarçado pelo intencional tom de galhofa.

Os melhores filmes de zumbi que eu havia visto até hoje eram Madrugada dos Mortos (2004), de Zack Snyder, com seus zumbis incrivelmente ágeis e seus divertidos exageros; e o ultra-cínico Todo Mundo Quase Morto (2004), comédia muito bem-sucedida em parodiar um gênero que nunca inspirou muito respeito. Extermínio (2002) também merece menção, apesar de entrar na categoria que leva o apocalipse zumbi a sério.

Acabo de adicionar Zumbilândia a este seleto clube.

O filme é centrado no personagem de Jesse Eisenberg. Nos EUA assolados pela praga zumbi, ele sobrevive aos mortos-vivos seguindo certas regras: ter preparo físico para correr muito; sempre golpear ou atirar no zumbi duas vezes, para garantir que ele morreu de vez; jamais bancar o herói, pois a vida real não é como nos filmes (ha!). Há outras, mas estas são algumas das mais preciosas.

Em sua jornada até Columbus (onde espera ver seus pais vivos), ele conhece e pede carona a um tipo excêntrico (Woody Harrelson, impagável), talentoso matador de zumbi que ruma para Tallahassee. Seus destinos acabam virando seus "nomes de guerra". Assim, Columbus e Tallahassee caem na estrada. Seu caminho cruza o das irmãs Wichita (Emma Stone) e Little Rock (Abigail Breslin), que viajam em sentido contrário, rumo ao parque Pacific Playland, em Los Angeles.

Algumas sacanagens mútuas e reviravoltas depois, os quatro acabam, como era de se esperar, formando um pequeno núcleo, unido pelo interesse de sobreviver num mundo inóspito, realizar sonhos particulares... e, quem sabe, encontrar o amor. Não é um mero filme sobre enfrentar mortos-vivos e, sim, sobre saber-se vivo, mesmo entre os mortos.

Geralmente, filmes de zumbis têm muito cérebro na história e bem pouco na realização. Zumbilândia, entretanto, tem diálogos acima da média e saídas interessantes para dilemas-clichês, além de uma hilariante participação de Bill Murray como Bill Murray.

Para uma obra em que gente morta se acumula às centenas, o filme demonstra um inusitado apreço pela vida e pela diversão, sintetizado em um dos "mandamentos" de Columbus ("aproveite as pequenas coisas") e na simultaneamente simples e genial frase que encerra o filme: "sem pessoas, você se torna um zumbi".

Cine trash? Na embalagem, talvez. Em sua essência, Zumbilândia é artigo fino.

08/11/2011

Daytripper


Eu passei dias tentando, sem sucesso, encontrar as palavras certas para começar meu review de Daytripper. Até que, durante o último fim de semana, assisti ao filme Zumbilândia, com Jesse Eisenberg e Woody Harrelson, e foi como se a cratera negra da minha inspiração, de repente, se enchesse de luz.

Ao final do filme (diga-se, muito mais divertido do que eu podia imaginar), Columbus, apelido do personagem de Eisenberg, profere uma frase aparentemente muito simples, mas que diz muito sobre as intenções do livro: "sem outras pessoas, você vira um zumbi".

Daytripper não tem zumbis, mas está carregado de sugestões sobre o quanto nossas relações com as pessoas definem quem somos. Se é verdade que somos o resultados de nossas escolhas, talvez a mais importante delas seja ter as pessoas certas ao nosso lado, nos momentos certos. Amigos, amores, familiares: são eles que nos levam para a frente e para o alto. A vida é sua, mas ela é mais gostosa quando compartilhada.

Brás de Oliva Domingos, o protagonista da história, vive de escrever obituários, enquanto acalenta o sonho de ser um romancista de renome mundial, como seu pai (o sucesso dos pais é uma sombra que paira sobre a vida de quase todo mundo). Embora seu trabalho agrade ao seu chefe e aos leitores, ele se ressente da própria falta de sinceridade ao lamentar a morte de gente desconhecida. Até que ele ganha motivos para envolver-se de coração.

Sim, a morte é uma das experiências que atravessam o caminho de Brás, mas não a única. O amor e o abandono, a amizade e a solidão, o sucesso e o fracasso... Ele é apresentado a variados e nem sempre bonitos matizes da vida. Entre família, amigos e até desconhecidos, não faltará quem lhe exorte, "vai, Brás, vai atrás do que é seu!" Nem sempre, porém, ele terá habilidade para aprender a lição ensinada. Igualzinho a mim. Igualzinho a você.

E se o final do primeiro capítulo deixa dúvidas quanto aos rumos e às intenções da história, aos poucos a lição vai ficando mais clara: o único dia que temos para buscar a felicidade é hoje, porque tudo é tão fugaz, principalmente a vida. E se até o travadíssimo Brás consegue, por que você não conseguiria?

Fábio Moon e Gabriel Bá demonstram com Daytripper lirismo e segurança narrativa dignos de gente com o dobro da sua idade. Os desenhos transpiram vida, verdade e beleza incomuns. Os cenários reais (por exemplo, a Chapada Diamantina e os bairros do Pelourinho e Rio Vermelho, em Salvador), fielmente retratados, aproximam o leitor das andanças de Brás; os tipos que ele encontra podem ser vistos em qualquer esquina do país. É espantoso vê-los alcançando o sucesso cosmopolita mirando o próprio quintal.

Os dois prêmios Eisner recebidos (como Melhor Minissérie e para Melhor Colorista, Dave Stewart) e o sucesso como uma das graphic novels mais vendidas do ano nos EUA (num circuito - o de roteiristas - ainda muito restrito para estrangeiros) sugerem a entrada de Daytripper no seleto rol das obras que apagam a linha que ainda separa os quadrinhos da literatura "de verdade". Uma experiência transformadora.