Eu passei dias tentando, sem sucesso, encontrar as palavras certas para começar meu review de Daytripper. Até que, durante o último fim de semana, assisti ao filme Zumbilândia, com Jesse Eisenberg e Woody Harrelson, e foi como se a cratera negra da minha inspiração, de repente, se enchesse de luz.
Ao final do filme (diga-se, muito mais divertido do que eu podia imaginar), Columbus, apelido do personagem de Eisenberg, profere uma frase aparentemente muito simples, mas que diz muito sobre as intenções do livro: "sem outras pessoas, você vira um zumbi".
Daytripper não tem zumbis, mas está carregado de sugestões sobre o quanto nossas relações com as pessoas definem quem somos. Se é verdade que somos o resultados de nossas escolhas, talvez a mais importante delas seja ter as pessoas certas ao nosso lado, nos momentos certos. Amigos, amores, familiares: são eles que nos levam para a frente e para o alto. A vida é sua, mas ela é mais gostosa quando compartilhada.
Brás de Oliva Domingos, o protagonista da história, vive de escrever obituários, enquanto acalenta o sonho de ser um romancista de renome mundial, como seu pai (o sucesso dos pais é uma sombra que paira sobre a vida de quase todo mundo). Embora seu trabalho agrade ao seu chefe e aos leitores, ele se ressente da própria falta de sinceridade ao lamentar a morte de gente desconhecida. Até que ele ganha motivos para envolver-se de coração.
Sim, a morte é uma das experiências que atravessam o caminho de Brás, mas não a única. O amor e o abandono, a amizade e a solidão, o sucesso e o fracasso... Ele é apresentado a variados e nem sempre bonitos matizes da vida. Entre família, amigos e até desconhecidos, não faltará quem lhe exorte, "vai, Brás, vai atrás do que é seu!" Nem sempre, porém, ele terá habilidade para aprender a lição ensinada. Igualzinho a mim. Igualzinho a você.
E se o final do primeiro capítulo deixa dúvidas quanto aos rumos e às intenções da história, aos poucos a lição vai ficando mais clara: o único dia que temos para buscar a felicidade é hoje, porque tudo é tão fugaz, principalmente a vida. E se até o travadíssimo Brás consegue, por que você não conseguiria?
Fábio Moon e Gabriel Bá demonstram com Daytripper lirismo e segurança narrativa dignos de gente com o dobro da sua idade. Os desenhos transpiram vida, verdade e beleza incomuns. Os cenários reais (por exemplo, a Chapada Diamantina e os bairros do Pelourinho e Rio Vermelho, em Salvador), fielmente retratados, aproximam o leitor das andanças de Brás; os tipos que ele encontra podem ser vistos em qualquer esquina do país. É espantoso vê-los alcançando o sucesso cosmopolita mirando o próprio quintal.
Os dois prêmios Eisner recebidos (como Melhor Minissérie e para Melhor Colorista, Dave Stewart) e o sucesso como uma das graphic novels mais vendidas do ano nos EUA (num circuito - o de roteiristas - ainda muito restrito para estrangeiros) sugerem a entrada de Daytripper no seleto rol das obras que apagam a linha que ainda separa os quadrinhos da literatura "de verdade". Uma experiência transformadora.

1 comentários:
Hehe, a última pessoa que comentado Daytripper chamou a obra de Day Stripper (sério, foi a cabelo de fogo de qual falei, Marlo).
Se você gostou desse trabalho dos gêmeos, procure este outro badalado especial ( http://bit.ly/tIke9w ) e prepare-se para seu queixo cair... de novo.
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