09/11/2011

Zumbilândia



Confesso: eu gosto de filmes de zumbis.

Antes de torcer o nariz, pense bem. Filmes de zumbis são escapismo puro. Em que outro gênero você tem uma desculpa melhor do que a sua própria sobrevivência para fuzilar todo mundo ao seu redor? É diferente de um filme com monstros sem forma humana. Zumbis são, essencialmente, gente "normal", mas você não precisa sentir pena: pode atirar, dar paulada, tacar fogo, serrar membros, atropelar. Ninguém vai te culpar por nada disso. Afinal, é você ou são eles.

Entretanto, nem todo filme é igualmente legal. Prefiro aqueles com um pé (ou dois) na comédia. O típico zumbi, com aquele andar trôpego e o solitário pedido por "cérebro!" (quando não meros grunhidos) nos lábios, é um bicho ridículo. Daí que colocá-los em filmes muito sérios costuma não dar muito certo, porque uma praga que transforme as pessoas em canibais irracionais, capazes de arrastar-se por aí mesmo já estando mortas, é uma ideia impossível de levar a sério.

Mesmo sabendo que quem viu um filme de zumbi, basicamente, já viu todos, alguns se destacam pelas sacadas de humor, as referências pop, a criatividade na hora de executar os monstrengos ou, mais raramente, um roteiro realmente inteligente disfarçado pelo intencional tom de galhofa.

Os melhores filmes de zumbi que eu havia visto até hoje eram Madrugada dos Mortos (2004), de Zack Snyder, com seus zumbis incrivelmente ágeis e seus divertidos exageros; e o ultra-cínico Todo Mundo Quase Morto (2004), comédia muito bem-sucedida em parodiar um gênero que nunca inspirou muito respeito. Extermínio (2002) também merece menção, apesar de entrar na categoria que leva o apocalipse zumbi a sério.

Acabo de adicionar Zumbilândia a este seleto clube.

O filme é centrado no personagem de Jesse Eisenberg. Nos EUA assolados pela praga zumbi, ele sobrevive aos mortos-vivos seguindo certas regras: ter preparo físico para correr muito; sempre golpear ou atirar no zumbi duas vezes, para garantir que ele morreu de vez; jamais bancar o herói, pois a vida real não é como nos filmes (ha!). Há outras, mas estas são algumas das mais preciosas.

Em sua jornada até Columbus (onde espera ver seus pais vivos), ele conhece e pede carona a um tipo excêntrico (Woody Harrelson, impagável), talentoso matador de zumbi que ruma para Tallahassee. Seus destinos acabam virando seus "nomes de guerra". Assim, Columbus e Tallahassee caem na estrada. Seu caminho cruza o das irmãs Wichita (Emma Stone) e Little Rock (Abigail Breslin), que viajam em sentido contrário, rumo ao parque Pacific Playland, em Los Angeles.

Algumas sacanagens mútuas e reviravoltas depois, os quatro acabam, como era de se esperar, formando um pequeno núcleo, unido pelo interesse de sobreviver num mundo inóspito, realizar sonhos particulares... e, quem sabe, encontrar o amor. Não é um mero filme sobre enfrentar mortos-vivos e, sim, sobre saber-se vivo, mesmo entre os mortos.

Geralmente, filmes de zumbis têm muito cérebro na história e bem pouco na realização. Zumbilândia, entretanto, tem diálogos acima da média e saídas interessantes para dilemas-clichês, além de uma hilariante participação de Bill Murray como Bill Murray.

Para uma obra em que gente morta se acumula às centenas, o filme demonstra um inusitado apreço pela vida e pela diversão, sintetizado em um dos "mandamentos" de Columbus ("aproveite as pequenas coisas") e na simultaneamente simples e genial frase que encerra o filme: "sem pessoas, você se torna um zumbi".

Cine trash? Na embalagem, talvez. Em sua essência, Zumbilândia é artigo fino.

1 comentários:

Eduardo disse...

Também vi e adorei. Sou fã incondicional de Abigail Breslin desde "Pequena Miss Sunshine".
Muito bom, o seu texto, Marlo.