29/12/2011

Quem tem medo da MPB?



Quem lê esse blog há mais do que alguns meses certamente já viu aqui postagens pouco elogiosas à MPB, por tudo de ruim que costuma vir associado à sigla: pedantismo lírico, cafonice solene, produção ruim, o culto desmedido a um punhado de figuras sobre as quais mal se permite a discussão (que dirá a crítica) e, principalmente, uma plateia que se acha mais inteligente e esclarecida do que os "meros mortais" - não porque leiam mais ou debatam melhor, mas, simplesmente, porque escolheram a MPB como gênero de cabeceira. Aqui, ó!

Não faltariam, portanto, argumentos para a defesa de quem quisesse manter uma saudável distância do gênero. Só que, assim, a coisa tomaria ares extremistas... e o extremismo, não importa de qual corrente, logo torna-se insuportável e burro. Por exemplo: quando você chega em uma festa de amigos com gosto musical diferente do seu e passa o tempo todo reclamando da música que está tocando, seja ela qual for, você está sendo a) indelicado e b) um chato de galochas.

Dias atrás, eu assisti no YouTube a trechos de uma entrevista de Lobão no programa Café Filosófico, da TV Cultura. Lobão é daquele tipo de personalidade com a qual pode-se concordar ou discordar, mas é sempre bom prestar atenção ao que ele diz, porque o faz com clareza e eloquência acima da média. Como você talvez já saiba, ele tem pavor do culto quase religioso dedicado a artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso; um pavor que se estende a outros artistas do gênero e às suas respectivas obras, quando não às próprias pessoas.

Na entrevista, Lobão reclama (pela enésima vez, diga-se) da exagerada importância artística e da equivocada relevância política dadas à obra de Chico Buarque, alguém que, segundo ele, jamais esteve à esquerda de qualquer coisa. Conta, também, um "causo" no qual Gilberto Gil teria escapado de uma pergunta séria sobre sua então recente nomeação como Ministro da Cultura do governo Lula com devaneios sobre a acústica do lugar onde estava e uma incorporação espírita. A Caetano, sobra a crítica ao estilo frouxo de tocar violão, motivo pelo qual, segundo Lobão, ele não estaria "autorizado" a gravar um disco de rock (o elogiado , de 2006).

Muito do que Lobão diz faz perfeito sentido e eu concordo com ele em muitas passagens do vídeo. O problema é que isso, já há algum tempo, tomou ares de coisa pessoal. Assim como muita gente da geração de Lobão costumava reclamar que não era preciso pedir a opinião de Caetano para absolutamente TUDO como se pedia, também ele, Lobão, poderia guardar para si certas considerações, especialmente quando flagrantes de uma espécie de deslocada cobrança de reparação por um suposto bloqueio dessas pessoas às suas pretensões artísticas, sejam elas quais forem.

Lobão tornou-se, portanto, um chato. Da sua geração, tornou-se o próprio modelo de Caetano Veloso que ele enxerga: alguém a cujas declarações dá-se desproporcional e ocasionalmente desmerecida importância. Não porque ele não tenha nada a dizer, claro, mas porque ouví-lo desancar os artistas que detesta tem graça e causa impacto uma vez ou outra. Que ele o faça a cada oportunidade na mídia, inocente ou propositadamente caindo nas provocações de entrevistadores em busca de declarações polêmicas, mostra o quanto ele gosta de holofotes. Ou não (rá, sacaneei!).

Não há nada de novo no que Lobão faz. Parece ser perfeitamente natural que uma nova geração dedique-se a desacreditar a anterior. Lembro de Morrissey ter escrito uma música chamada "Get Off the Stage" (desçam do palco), dedicada aos Rolling Stones, que ele julgava já estarem com validade expirada há tempos - e isso lá pelos meados da década de 80, quando eles tinham cerca de 20 anos de carreira! Hoje é o próprio Morrissey que já carrega quase 30 anos de estrada no lombo e tem seus próprios detratores. Os Stones, no entanto, continuam por aí.

Tudo isso foi para chegar até aqui e dizer a você que não é preciso temer a MPB. Com o saudável exercício de desvincular a obra de um artista de sua persona pública, sobra muita coisa boa, inclusive e principalmente de Caetano, Gil e Chico, pessoas cujas canções não teriam resistido ao teste do tempo por quatro décadas, caso fossem o monte de estrume anunciado por Lobão. Você não tem que gostar de tudo (muito menos fingir que gosta para parecer "cool"), mas é bem provável que, com os ouvidos "desarmados", acabe gostando de muita coisa. Ao contrário do que muita gente acredita, é fácil encontrar música pop no trabalho deles (e de muitos outros), feita à moda tradicional do gênero, e também, em interessantes misturas com a música tipicamente brasileira.

Ah, sim, tem as tais letras "criptografadas" a que eu já me referi mais de uma vez. Bem, há momentos em que dizer ou ouvir "eu te amo" resolve. Há outros em que a alma, seja a de quem compõe ou a de quem escuta, pede mais do que isso. Por isso é que eu dificilmente me darei por satisfeito com estilos como o sertanejo universitário ou o pagode, que são, para mim, a celebração de um modo de vida simplista e superficial, dividido em branco e preto - ou, se você preferir, entre a cama e a boite, quando a vida de pessoas de verdade não é feita somente disso. Há outros espaços na casa para se explorar. Há outros recônditos da sua alma, provavelmente lindos e interessantes, que talvez nem você mesmo conheça... e não é esse tipo de música que vai abrí-los pra você.

20/12/2011

Renda-se em 2012


Não sou muito chegado nessa coisa de "fazer balanço da vida" ao final do ano, porque ficar lamentando o que deu errado é tão infrutífero quanto contar vantagem pelo que deu certo. No fim das contas, qualquer ano traz alegrias e tristezas em proporção razoavelmente equilibrada e, para cada queda no caminho, existe o amparo de pequenos e grandes êxitos. 

Se você me permite, porém, o abuso de passar uma pequena "lição de vida", eu aprendi em 2011 que o melhor a fazer diante do inevitável é render-se. Não se trata de capitular à Lei de Murphy: às vezes, sabemos que algo não só pode, como vai dar errado; porém, por medo de perder aquilo que nos é precioso, ou por culpa de um otimismo boboca aprendido com algum guru de auto-ajuda da moda, ou por conta de noções românticas aprendidas em filmes ruins, não sabemos abrir mão daquilo que, repito, inevitavelmente, deixará de ser nosso. Ou, pior ainda, nos negamos a cortar o laço nós mesmos, quando esta atitude pouparia a todos os envolvidos um bocado de sofrimento extra. 

"Extra" porque, não se engane, você vai sofrer... e vai fazer sofrer, também. Você vai se indagar por dias, talvez semanas ou meses, se fez a coisa certa, se valeria a pena ter lutado um pouco mais e coisas do tipo. Vou facilitar as coisas pra você, então: você fez o certo. Mesmo agora, se sua cabeça estiver pegando fogo de tanto refletir sobre a dureza do que você teve que ver, fazer, dizer ou ouvir e lágrimas estiverem correndo por sua face, acredite: foi melhor assim. Renda-se. Assumir a queda ajuda a gente a se levantar mais depressa.

Tudo isso serve, também, para dizer a você que, embora eu quisesse ter escrito muito mais do que escrevi aqui no Catapop, em 2011, chego ao final do ano resignado em não ter conseguido alcançar a autoproposta meta de superar os 52 posts de 2010. Não é que eu esteja pedindo desculpas: eu só não escrevo quando não me sobra tempo ou energia, ou quando não tenho nada a dizer - e nas vezes em que escrevo no piloto automático, cedendo a uma espécie de "obrigação" com o blog, fico me sentindo mal, mesmo se o post rende elogios. Tenha comigo a mesma paciência que tenho com quem, muitas vezes, passa meses sem vir aqui ou só deixa um comentário de vez em nunca. Sim, esta foi pra você. =D 

Sendo este, possivelmente, o último post do ano, aproveito para fazer um pequeno balanço (A-HÁ!) do melhor do que li, vi e ouvi em 2011. 


Artista do Ano: Adele 


O principal mérito de todo o sucesso alcançado por Adele com seu disco 21 foi o de ela ter chegado ao topo apoiada em nada mais do que sua arte. Adele não é especialmente bonita, não se encaixa no tipo gostosão exigido das cantoras pop de hoje e não tem a vida pautada por escândalos semanais. Ela só tem a oferecer sua voz soberba e seu talento como compositora, escancarados em canções poderosas e com alto potencial radiofônico. É só isso, afinal, que se espera de artistas de verdade. 


Música do Ano: "Someone Like You" de Adele, claro. 

Menções honrosas: "Reckless Serenade" (Arctic Monkeys), "I Want the World to Stop" (Belle & Sebastian), "Darling" (Copacabana Club), "Não Existe Amor em SP" (Criolo), "Juro por Deus" (Filipe Catto), "Rope" (Foo Fighters), "Neguinho" (Gal Costa), "The Magic" (Joan As Police Woman), "Aquela Velha Canção" (Marisa Monte), "Stop the Clocks" (Noel Gallagher), "Lonely Boy" (The Black Keys), "Post Break-Up Sex" (The Vaccines), "Born Alone" (Wilco). 


Desastre do Ano: Rock in Rio. 


OK, tudo bem ter Cláudia Leitte, mas tinha que ter mais rock - e, por favor, deixem o Guns N' Roses na tumba.


Ausência do Ano:  R.E.M. 


Vamos mudar de assunto, senão vou chorar. 
Ah, e a minha ausência nos shows do U2. Outra vez. =( 


Filmes do Ano 

Ano de poucas visitas ao cinema. De cabeça, só lembro desses - e não, ainda não vi Melancolia ou A Árvore da Vida

X-Men: Primeira Classe 
Planeta dos Macacos - A Origem 
Rio 
Cisne Negro 
Bravura Indômita 


Livro do Ano: 1808, de Laurentino Gomes

Como um país (o Brasil) foi construído ao custo da virtual destruição de outro (Portugal), quando D. João VI transferiu a corte portuguesa para sua maior colônia. História rica e interessante, contada com linguagem acessível. Não é um lançamento de 2011, mas só li este ano. 1822, sobre o período da Independência, segue igualmente excelente.


HQs do Ano 

Melhor série encadernada: Fábulas (Panini). 
Melhor álbum inédito: Daytripper (Panini). 
Melhor republicação: a aguardadíssima nova tiragem de Batman: O Cavaleiro das Trevas, em capa dura (Panini). 


Barato do Ano: Facebook 

Sim, apesar da chatice de quem posta fotos de pessoas ou bichos mortos; de quem quer fazer dele igreja, palanque ou privada; de quem o usa para espalhar ódio ou ignorância; da patrulha dos politicamente corretos e insuportavelmente chatos. Apesar de tudo isso e muito mais, o Facebook foi e continua sendo muito divertido e útil na formação, manutenção e resgate de laços de amizade e na descoberta de coisas bacanas - e a Timeline é simplesmente sensacional! =) 


Grandes expectativas para 2012 

- Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge 
- Os Vingadores 
- Reboot da DC no Brasil. Sim, acho que vou comprar. Sou um rato. 
- Eleições. Vamos tentar acertar mais dessa vez, combinado?