Quem lê esse blog há mais do que alguns meses certamente já viu aqui postagens pouco elogiosas à MPB, por tudo de ruim que costuma vir associado à sigla: pedantismo lírico, cafonice solene, produção ruim, o culto desmedido a um punhado de figuras sobre as quais mal se permite a discussão (que dirá a crítica) e, principalmente, uma plateia que se acha mais inteligente e esclarecida do que os "meros mortais" - não porque leiam mais ou debatam melhor, mas, simplesmente, porque escolheram a MPB como gênero de cabeceira. Aqui, ó!
Não faltariam, portanto, argumentos para a defesa de quem quisesse manter uma saudável distância do gênero. Só que, assim, a coisa tomaria ares extremistas... e o extremismo, não importa de qual corrente, logo torna-se insuportável e burro. Por exemplo: quando você chega em uma festa de amigos com gosto musical diferente do seu e passa o tempo todo reclamando da música que está tocando, seja ela qual for, você está sendo a) indelicado e b) um chato de galochas.
Dias atrás, eu assisti no YouTube a trechos de uma entrevista de Lobão no programa Café Filosófico, da TV Cultura. Lobão é daquele tipo de personalidade com a qual pode-se concordar ou discordar, mas é sempre bom prestar atenção ao que ele diz, porque o faz com clareza e eloquência acima da média. Como você talvez já saiba, ele tem pavor do culto quase religioso dedicado a artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso; um pavor que se estende a outros artistas do gênero e às suas respectivas obras, quando não às próprias pessoas.
Na entrevista, Lobão reclama (pela enésima vez, diga-se) da exagerada importância artística e da equivocada relevância política dadas à obra de Chico Buarque, alguém que, segundo ele, jamais esteve à esquerda de qualquer coisa. Conta, também, um "causo" no qual Gilberto Gil teria escapado de uma pergunta séria sobre sua então recente nomeação como Ministro da Cultura do governo Lula com devaneios sobre a acústica do lugar onde estava e uma incorporação espírita. A Caetano, sobra a crítica ao estilo frouxo de tocar violão, motivo pelo qual, segundo Lobão, ele não estaria "autorizado" a gravar um disco de rock (o elogiado Cê, de 2006).
Muito do que Lobão diz faz perfeito sentido e eu concordo com ele em muitas passagens do vídeo. O problema é que isso, já há algum tempo, tomou ares de coisa pessoal. Assim como muita gente da geração de Lobão costumava reclamar que não era preciso pedir a opinião de Caetano para absolutamente TUDO como se pedia, também ele, Lobão, poderia guardar para si certas considerações, especialmente quando flagrantes de uma espécie de deslocada cobrança de reparação por um suposto bloqueio dessas pessoas às suas pretensões artísticas, sejam elas quais forem.
Lobão tornou-se, portanto, um chato. Da sua geração, tornou-se o próprio modelo de Caetano Veloso que ele enxerga: alguém a cujas declarações dá-se desproporcional e ocasionalmente desmerecida importância. Não porque ele não tenha nada a dizer, claro, mas porque ouví-lo desancar os artistas que detesta tem graça e causa impacto uma vez ou outra. Que ele o faça a cada oportunidade na mídia, inocente ou propositadamente caindo nas provocações de entrevistadores em busca de declarações polêmicas, mostra o quanto ele gosta de holofotes. Ou não (rá, sacaneei!).
Não há nada de novo no que Lobão faz. Parece ser perfeitamente natural que uma nova geração dedique-se a desacreditar a anterior. Lembro de Morrissey ter escrito uma música chamada "Get Off the Stage" (desçam do palco), dedicada aos Rolling Stones, que ele julgava já estarem com validade expirada há tempos - e isso lá pelos meados da década de 80, quando eles tinham cerca de 20 anos de carreira! Hoje é o próprio Morrissey que já carrega quase 30 anos de estrada no lombo e tem seus próprios detratores. Os Stones, no entanto, continuam por aí.
Tudo isso foi para chegar até aqui e dizer a você que não é preciso temer a MPB. Com o saudável exercício de desvincular a obra de um artista de sua persona pública, sobra muita coisa boa, inclusive e principalmente de Caetano, Gil e Chico, pessoas cujas canções não teriam resistido ao teste do tempo por quatro décadas, caso fossem o monte de estrume anunciado por Lobão. Você não tem que gostar de tudo (muito menos fingir que gosta para parecer "cool"), mas é bem provável que, com os ouvidos "desarmados", acabe gostando de muita coisa. Ao contrário do que muita gente acredita, é fácil encontrar música pop no trabalho deles (e de muitos outros), feita à moda tradicional do gênero, e também, em interessantes misturas com a música tipicamente brasileira.
Ah, sim, tem as tais letras "criptografadas" a que eu já me referi mais de uma vez. Bem, há momentos em que dizer ou ouvir "eu te amo" resolve. Há outros em que a alma, seja a de quem compõe ou a de quem escuta, pede mais do que isso. Por isso é que eu dificilmente me darei por satisfeito com estilos como o sertanejo universitário ou o pagode, que são, para mim, a celebração de um modo de vida simplista e superficial, dividido em branco e preto - ou, se você preferir, entre a cama e a boite, quando a vida de pessoas de verdade não é feita somente disso. Há outros espaços na casa para se explorar. Há outros recônditos da sua alma, provavelmente lindos e interessantes, que talvez nem você mesmo conheça... e não é esse tipo de música que vai abrí-los pra você.



