22/12/2012

Por Onde Andei, parte 3


Itumbiara


Meus pais se separaram em 1995. No começo de 1996, impelida pelo desejo de uma vida nova longe de meu pai e atraída pelas animadoras notícias de uma amiga que lá tinha ido viver, minha mãe decidiu tentar a sorte em Itumbiara, no sul de Goiás. Logo em seguida, foi a vez de meus irmãos. Em agosto daquele ano, tendo perdido meu emprego em Salvador, foi a minha vez.

Embora o sul goiano seja um eldorado para muita gente, nossa adaptação não foi nada fácil. Primeiro, os negócios em que minha mãe investia simplesmente naufragavam, após um tempo. Com Marcel ainda em idade estudantil, Marcone ainda verde no mercado de trabalho e eu desempregado, as coisas começaram a ficar sinistras. Para não aborrecer ao leitor com detalhes, basta dizer que nunca antes tínhamos passado e nem voltamos a passar uma pindaíba tão grande, a ponto de dormirmos os quatro (e mais um amigo nosso, Pedro Henrique) no único quarto da casa que alugávamos. Privacidade era um sonho.

Mais eis que, em meados de 1997, surgiu uma oportunidade na linha de produção de óleo de soja da Caramuru Alimentos. Pra alguém acostumado a escritórios, talvez "não pegasse bem" trabalhar de uniforme cinza e botinas em um serviço tido como "braçal", mas te digo que foram três meses excelentes, nos quais eu aprendi a jogar o barulhento truco e conquistei bons amigos. Um deles, Rone, me convidaria, alguns anos depois, a ser seu padrinho de casamento.

Com a promessa de um emprego mais vistoso no escritório de webdesign onde Marcone trabalhava, eu acabei pedindo delisgamento da Caramuru, mas a coisa não foi bem e eu me vi desempregado novamente. Foi quando meu pai me chamou para viver com ele por um tempo em Igarité, um vilarejo a meio caminho entre Ibotirama e Barra. Um pedaço esquecido de mundo que ele adotou como lar e onde fiquei até o final de 1998.

No começo de 1999, meu já mais que razoável domínio de inglês me levaria a ingressar na profissão que me sustenta desde então. Paulo Germano, professor egresso do CNA onde Marcone estudava, iria abrir uma franquia da então pequena Wizard em Itumbiara e me contratou com base apenas no que meu irmão falava de mim e numa conversa que tivemos por telefone. Naquele janeiro, eu conheci algumas das pessoas que mais me ajudaram e me valorizaram nesta vida. Espero ter feito por Paulo, Neuza e seus filhos, Matheus e Paula, ao menos metade do que lhes seria justo receber, em retribuição por toda a amizade que me dedicaram.

Acho que é de bom tom agradecer aos meus primeiros alunos pela paciência que tiveram com este professor bastante estressadinho, naquele tempo. Sabe como é, quem nunca comeu mel, quando come se lambuza. É assim quando a gente ganha certo poder, de repente. Comparada à postura cool que adoto hoje, meu rigor para com os alunos (verdade seja dita, temperado com uma doçura e sociabilidade que eu, ex-adolescente recluso, não sei de onde tirei) me conquistou tantos fãs quanto detratores. Havia quem me amasse e quem não quisesse passar nem perto de uma turma minha. Obviamente, muitos destes alunos eram, também, verdadeiros testes à paciência de qualquer Jó, então, acho que ficou tudo elas por elas. Ossos do ofício, seja de professor ou de aluno.

Logo nos primeiros meses como professor, fiz duas das amizades mais interessantes e prazerosas que já tive. Nenhum deles era professor ou aluno da Wizard, e sim do CNA, mas, devido à amizade com Paulo e ao seu amor pela língua britânica, Alexandre e Marcelo estavam sempre por lá. Uma vez que partilhávamos de vários gostos musicais em comum, nossas conversas fluíam noite adentro com uma facilidade tremenda. Éramos presenças constantes, um na casa do outro. Da mesma forma que concordávamos efusivamente, discutíamos acaloradamente quando nossos credos divergiam, principalmente com Alexandre, criatura de opiniões polêmicas. Marcelo era incapaz de levantar a voz, mas sabia encerrar discussões com alguma tirada genial que nos desarmava em risos. Aprendi muito com esses dois e gosto de saber que eles continuam, em essência, as mesmas pessoas.


Em 2001, eu despiroquei e decidi ir pro Rio de Janeiro. Voltei poucos meses depois. Falo mais disso daqui a pouco.

Ao voltar pra Itumbiara, as coisas estavam diferentes. O casal que me havia contratado agora estava separado, Paulo havia deixado a cidade e a administração da escola estava nas mãos de Neuza. Ela era esforçada, mas as coisas não foram muito bem, infelizmente. A franquia trocou de mãos mais uma vez e Izabel Tonetto me manteve em sua equipe até o final de 2004, quando anunciei que desejava voltar para a Bahia.

Itumbiara é uma cidade com cerca de 100 mil habitantes, bastante agradável em sua tranquilidade. Naquele tempo, tinha bem menos opções de lazer do que provavelmente tem hoje. Como toda cidade cheia de agroboys, muito do que chamavam de "diversão" era reunir-se na bonita Avenida Beira Rio e disputar quem tinha o carro com som mais alto tocando a pior música. Para meus ouvidos, esses seis anos em Itumbiara foram um tormento: eu jamais consegui gostar de música sertaneja, um mínimo que fosse. Pra piorar, eles curtiam o axé genérico horroroso made in Santos (Axé Blonde, Tchakabum e por aí vai). Ser baiano me comprava certa simpatia imediata dos locais (ainda mais porque, acredite, naqueles tempos de É O Tchan, eu tinha samba no pé), a exemplo de Mateus, gente boníssima, um cara que praticamente nos adotou como irmãos. Quando você xinga a mãe do seu amigo e ele adora isso, você só pode supor que tem amor demais rolando aí. =)

Um saudade GRANDE: a culinária mezzo goiana, mezzo mineira. Não foi à toa que todo mundo lá em casa engordou feito porcos na ceva. Foi em Itumbiara que comi as pamonhas mais gostosas que existem, a delícia chamada galinhada e minha primeira carne de fumeiro, além de abobrinha e milho verde refogados no alho. Duas particularidades: goianos amam arroz mais do que a própria vida; e também parecem gostar de pimenta mais do que baianos. TUDO leva pimenta naquela terra!

Em 2005, tendo enviado currículos para as unidades da Wizard em Salvador e Alagoinhas, esta última me fez uma proposta interessante e saiu vitoriosa na "disputa" (haha!). Malas prontas, eu estava voltando às minhas origens... ou, pelo menos, a meros 75 km de distância delas.


São Gonçalo


Todo mundo faz (ou deveria fazer) suas loucuras na vida e mudar para São Gonçalo (RJ), em 2001, foi uma das minhas. O que talvez pouca gente saiba é que ela foi motivada por amor. Não entro em detalhes, porque isso envolve pedir autorização a alguém que pode não querer seu nome exposto - e, sinceramente, tanto tempo depois, não faz sentido ficar revirando demais um simbólico baú de recordações. Se você faz muita questão de saber, foi muito bom e valeu muito a pena. Durou pouco, porém.

Não tenho muito a falar sobre São Gonçalo em si. Ou, pelo menos, não há muito em São Gonçalo que me estimule a falar dela. Eu a achava feia, sem graça e mal-cheirosa (principalmente quando o ônibus que me levava à vizinha Niterói passava próximo a uma fábrica de sardinha em lata, quando o fedor de peixe nocauteava os mais sensíveis). A casa que eu dividia ficava numa rua com boa frequência de ônibus, o que já era um alívio. Tinha supermercado, farmácia, locadora, bar (hooray!) e a quadra da escola de samba Porto da Pedra, tudo bem perto. Estruturalmente, já vi piores.

Meus vizinhos mais próximos eram pitorescos. Uma delas era uma senhora bastante pacata que tinha uma filha adolescente no esplendor da piriguetagem funkeira. Não era raro vê-la na esquina, em poses características, mandando ver coreografias "sensuais" ao som de Tati Quebra-Barraco e outras "damas" e "lordes" desse assim chamado genêro "musical" (todas as aspas muito necessárias). Dividindo uma parede conosco, um casal chamado Maurício e Michele. Ele, um banana apaixonado e ela, uma onça estressada. As brigas (sempre apenas verbais e nunca realmente agressivas) pareciam acontecer dentro da minha sala.

- Por que você não gosta mais de mim, Michele?
- Não é iiiiisso, Maurííííício, não tem nada a ver com gostar ou não gostar, eu só não quero mais ficar aqui contiiiiigo! (Michele tinha um jeito bem particular de prolongar o som do "i").
- Eu não vou aceitar isso, não, Michele!
- POBREMA TEU!

Era assim, e daí pra baixo. Chegava a ser divertido, confesso!

Eu trabalhava na Wizard do bairro Fonseca, em Niterói, esta sim, uma cidade bem agradável - ainda que perigosíssima, pelo que contavam. Tive excelentes chefes e colegas de trabalho, mantenho contato com alguns deles via Facebook e lamento por não encontrar outros ali, bem como certos alunos que foram bastante legais comigo. Tendo sido uma experiência tão breve, acredito ter deixado poucas impressões, fossem boas ou más, nos alunos que tive, exceto por uns gatos pingados que ainda estão por aí, ao meu alcance, e que falam com certa saudade daquele tempo.

Niterói era uma alternativa praieira à capital, embora esta ficasse apenas a uma breve viagem de barca pela Baía de Guanabara. As praias urbanas eram impróprias ao banho, mas as oceânicas, embora distantes, compensavam a longa viagem com seu mar gloriosamente esverdeado.

O Rio também foi destino relativamente frequente. Mesmo gozando, desde aquela época, da fama de cidade violenta, a verdade é que, em cerca de sete meses circulando por ali, jamais vi qualquer incidente violento acontecendo perto ou longe de mim - e olha que, por vezes, eu ficava na noite até bem tarde. Era tudo tão bonito e tranquilo que só me restava concordar com Gilberto Gil: "o Rio de Janeiro continua lindo". O problema do Rio era que muita gente não era digna do pedaço de chão onde pisava. De forma semelhante a Salvador, o melhor e o pior do Rio podem ser o mesmo povo.

Nesse curto período, também pude conhecer um pouco da Região dos Lagos e da Baixada Fluminense. Tomei cervejadas homéricas e me diverti à beça com pessoas excelentes, fosse onde fosse. Quando eu deixei o Rio em direção a Goiás, em janeiro de 2002, estava resoluto... mas isso não me impediu de derramar algumas lágrimas pelo que tive, pelo que perdi e pelas grandes coisas que aprendi nesta minha breve, mas radical experiência de mudança.


Alagoinhas


Quando o ônibus da extinta Catuense me trouxe de Feira de Santana para Alagoinhas, entrou por um pedaço bastante mal-cuidado da cidade. Lá dentro, mal impressionado, eu pensava: "que diabo eu vim fazer aqui?"

Alagoinhas fica a cerca de 110 km de Salvador e a 75 km de Feira de Santana. Embora tenha fama de "capital da laranja", a cultura de citros já perdeu há tempos a relevância econômica. A cidade hoje vive muito mais da cultura de eucalipto para produção de celulose e de diversas indústrias de bebidas, devida à alta qualidade da água em seus lençóis freáticos. O comércio também cresceu a olhos vistos, desde que cheguei aqui.

Era o dia 8 de fevereiro de 2005 quando desci de um táxi na frente da Wizard Alagoinhas. Calhou de ser aniversário de Dona Helena, a zeladora que me chama de "meu filho" e faz o café mais gostoso que há, responsável por viciar gerações inteiras de alunos no seu "pretinho". O café de Dona Helena é bom até quando não é bom.

Depois de passar cerca de três meses em um pensionato (uma experiência que prefiro esquecer, com toques de comédia e suspense ruins, com direito a velhinha fofinha que vira velhinha sinistra, comida estragada servida de propósito e coisas do tipo), me mudei para um apartamento com vista para o bar, que em noites de quinta-feira tinha música ao vivo e ficava animadaço. Não dava pra dormir antes de meia-noite, mas quem é que queria dormir, mesmo?

Uma coisa une Alagoinhas e Itumbiara, mesmo tão distantes: o péssimo gosto musical médio dos seus habitantes. Se lá em Itumbiara eu sofria com sertanejo, axé classe Z e funk carioca, aqui na Bahia a coisa me atacou em três outras frentes: forró eletrônico, pagodão pornô e arrocha. É um suplício, aliviado apenas pela surpreendente quantidade de pessoas que, como eu, se recusam a abrir as simbólicas pernas dos seus ouvidos para toda esta m*rda.


Meu trabalho na Wizard começou meio tenso. Herdando turmas de outros professores cedidas a mim, não me preparei com o devido cuidado para lidar com as tensões naturais que surgem da preferência de seus alunos por seus antigos "ídolos" (os professores originais). Meus critérios avaliativos não foram bem aceitos por alguns alunos e acabei passando por situações bastante desagradáveis com eles e com seus pais. Com o tempo, os conflitos foram diminuindo, mas houve casos em que a muralha de resistência só foi amaciada após o fim da relação professor-aluno. De novo: ossos do ofício. Paciência.

Pelo menos, havia o consolo de que meu entrosamento com os colegas foi rápido e tranquilo (embora não livre de percalços), especialmente com Fabiano, um irmão-de-armas no gosto pelo rock & roll e pela cerveja em quantidades generosas; Girlande, ou apenas Gil, com seu espírito cosmopolita e empreendedor e sua tremenda facilidade para rir de minhas besteiras; e Cristiane, uma rocha em sua aparente fragilidade, alguém cuja força de princípios eu tenho como inspiração.

Natural e felizmente, as coisas foram mudando para melhor. De novidade temida, passei a "ídolo" com "fã-clube", também. Alguns dos meus alunos acabaram virando colegas de profissão e muitos outros são hoje amigos bastante queridos. De certa forma, pode-se dizer que "enterrei meu umbigo" em Alagoinhas. Afinal, já estou aqui há oito anos, mais tempo do que passei em qualquer outro lugar, nos últimos vinte anos. Estou comprando residência aqui. Isso deve querer dizer algo sobre meus sentimentos em relação à cidade, mesmo que não seja algo no nível "morrer de amores".

Fica fácil gostar de Alagoinhas quando se chega amparado por tanta gente boa que me cerca desde que aqui cheguei: Eva, Gomes, Neto, Marília, Beth, Carmen, André, Alex... Gente demais pra todos terem seus nomes citados, sem que eu corra o risco de ser injusto esquecendo alguém. Tive meus desencantos, senti e provoquei raiva em alguns, mas, passada a régua, tenho um grande apreço por todas estas pessoas, que ajudaram e ainda ajudam a escrever um capítulo muito bonito e importante na minha história.


"Puxadinho": Muritiba


Não, eu nunca morei em Muritiba. A primeira vez que fui lá tem menos de dois anos e a última, se não me falha a memória, foi apenas a quinta. Por que, então, Muritiba mereceria ganhar um "puxadinho" neste texto?

Era uma vez Duda, um psiquiatra de Salvador que me seguia no Twitter (culpa de um retweet de William Bonner). Calhou de ele clinicar aqui em Alagoinhas, nos conhecemos pessoalmente e ficamos amigos. Através dele, conheci seus sobrinhos Rodrigo e Rafael, residentes em Muritiba. Certa vez, fomos passar um fim de semana com eles, circulando ainda por Cachoeira e Maragojipe. 

A empatia e a simpatia entre nós foram imediatas, porque eles são uns lindos e eu sou um lindo, e os lindos se reconhecem. Eu os adotei como "sobrinhos emprestados", eles me adotaram também e, através deles, tenho conhecido uma enorme quantidade de pessoas gentis, inteligentes, divertidas e interessantes (sem mencionar que são, também, pessoas lindas, eróticas e tesudas). Gente como Thiago, Heros, Ghabi, Cissa, Léo, Fábio e muitos outros. 

Não sei o que tem na água do Rio Paraguaçú pra esse povo ser assim, mas sei que gosto cada vez mais de ir a Muritiba e das pessoas que ali conheço. Vixe, será que Muri, um dia, vai abrir o quarto capítulo desta série? =)

19/12/2012

Diário de um Imbecil Digital



Querido Diário,

Hoje eu acordei me sentindo muito bem. Logo depois do café da manhã que eu fotografei para o Instagram (era o mesmo café de sempre, mas eu adicionei uns efeitos diferentes à foto e ficou joinha), fui dar um afago no meu dog. Isso me fez lembrar de postar no Facebook, logo após meu "bom dia", que "quanto mais eu conheço as pessoas, mais gosto do meu cachorro" (acho que foi Caio Fernando Abreu que disse isso, se não me engano). Alguns amigos me chamaram de mané logo em seguida. Como as pessoas podem ser tão insensíveis? Pra acalmá-los, eu posto um monte de mensagens positivas sobre amor e amizade verdadeira, porque eu sou bom filho, bom amigo, bom namorado e sou muito humilde, também. Aí começam a me chamar de contraditório. Não entendo isso, por que as pessoas nunca estão satisfeitas? Pra encerrar a discussão, coloco uma foto de Jesus dizendo: "quem ama a Jesus, compartilha; quem odeia a Jesus, só olha". A foto ganha 259 curtidas e 798 compartilhamentos em cinco minutos. Ainda bem que pelo menos a Deus esse povo ainda respeita.

Durante o trabalho, depois de saudar a meu gerente com meu sorriso mais sincero, eu aproveito para entrar no Face mais uma vez. É apenas segunda-feira, mas acho que a galera vai gostar de saber que eu já tô contando as horas para a sexta-feira. Escolho a foto com o bebê mais fofo que encontro e ponho a legenda "chega logo, sexta, chega logo!".

Logo em seguida, no intervalo do almoço, a galera vem discutir o futebol de domingo. A conversa me anima a postar umas montagens mega-esclarecidas que encontrei, falando sobre como o time campeão (que não era o meu) só chegou ao título através de manobras escusas com a CBF, a Globo e outros patrocinadores. E daí que eles jogaram bem e fizeram gols legítimos? Isso, qualquer um faz. Tava na cara que foi tudo armação! Ainda bem que tenho amigos tão antenados quanto eu pra me alertar pra esperteza maldosa que existe no mundo!

Aproveitando que, esclarecido que sou, falei que Galvão era um saco, decidi postar uma série de cartazes legais sobre como a Rede Globo manipula as mentes das pessoas. Tem que ser muito ingênuo pra achar que novela é mero entretenimento, fala sério! Olha essa "Salve Jorge", velho: os caras estão ensinando todo o esquema pra traficar mulheres, a Globo só dá mau exemplo! Além do mais, essa saudação do título é coisa de macumbeiro, Deus me livre e guarde! Eu assisto a essa e às outras novelas sempre que posso, mas que fique claro: é só pra saber o que está acontecendo pra poder dar um toque à galera que não é tão ligada. Nem todo mundo tem o meu nível de discernimento, saca?

A tarde de segunda vai se arrastando e o Face vai meio chato. Aproveito pra entrar no site do pastor Silas Malafaia e dar meu apoio à proposta que permitirá a cura gay pelos psicólogos. Eu não odeio os gays, cara, fui criado no amor de Cristo, mas não sei como eu reagiria se levasse uma cantada de outro homem. Talvez ficasse violento, mas, nesse caso, o cara que provocou, né? Aí, pro cara não tentar de novo, eu teria que dar uma lição que ele não fosse esquecer. Lógico que logo ia aparecer uma cambada de bichonas me xingando de homofóbico, mas o que eles precisam entender é que este é o preço do estilo de vida que escolheram. A sociedade não pode admitir uma ditadura gay, cara. Tem gay em todo lugar agora! Se permitirmos que gays se casem e sejam felizes, o que será da sociedade? Tá, tá, tá... Eu sei que gays existem desde sempre e contribuem para a sociedade trabalhando e pagando impostos, igualzinho aos héteros, mas não mude de assunto, senão eu perco minha linha de raciocínio.

Por fim, chega a noite e, de volta em casa, eu descubro um vídeo genial pra divulgar pra galera! Vejo que vários de meus amigos já divulgaram ele antes, mas acho que posso dar uma forcinha, a galera sempre curte muito essas coisas cômicas! Sabe, tipo "Para Nossa Alegria"? Tomara que apareçam muitas versões bem maneiras da mesma coisa, quero ser o primeiro a postar cada uma delas! Só que agora é a hora em que a academia tá mais cheia de gatinha, então, eu vou pra lá. Por isso, meu último recado é o já tradicional "#partiu academia". O celular vai comigo, dá pra tirar umas fotos maneiríssimas na frente do espelho, tensionando o tríceps.

Quando chego da academia, vejo uma coisa horrorosa, cara: algum filho da puta espancou um cachorro até a morte, as vísceras do bicho ficaram à mostra, uma coisa terrível! Como tem gente cruel nesse mundo! Compartilho imediatamente, claro. Eu sei que tem gente que está jantando a essa hora e a foto pode incomodar um pouco, mas isso não me segura. Se a gente não faz alguma coisa concreta por um mundo melhor, quem é que vai fazer? Como meu coração tá muito mole depois disso, eu acabo encaminhando dezenas de fotos de bebês sofrendo com deformidades, os pobrezinhos. Que bom que, a cada compartilhamento, o Facebook doará R$ 0,05 a cada um deles. Aparecem uns idiotas, nos comentários, dizendo que várias daquelas crianças já estão mortas e que muitas dessas fotos são farsas que já circulam pela internet há uns 15 anos, mas o que importa é o gesto, cara. É assim que eu consigo dormir tranquilo.

Por falar nisso, tá na minha hora, Diário. Amanhã é terça, faltam só mais três dias pra sexta. Boa noite! #partiu!

10/12/2012

Baby Consuelo: Tinindo, Trincando


Ao ver sua mãe protagonizar um espetáculo deprimente no Carnaval de Salvador deste ano, quando ela botou na rua um deslocado trio elétrico gospel que não arrastou ninguém atrás de si, devem ter rolado algumas lágrimas dos olhos de Pedro Baby. Em outros tempos, Baby cantava para uma Praça Castro Alves abarrotada de gente. Ultimamente, era mais conhecida como uma ex-roqueira doidona que virou uma evangélica doidona. E só. "Minha mãe merece mais que isso", deve ter pensado Pedro, guitarrista exímio, acostumado a acompanhar figuras da MPB contemporâneas da sua mãe e que não padecem no ostracismo.

Foi por um pedido de Pedro que Baby Consuelo (recuso-me a chamá-la pela apática e genérica alcunha "do Brasil") decidiu voltar aos palcos e a história de como isso aconteceu rende uma das conversas mais divertidas do show Baby Sucessos. Neste diálogo com o público, fica claro que Baby não abriu mão de suas convicções cristãs, mas soube harmonizá-las com seu passado e temperá-las com algo que falta a 9 entre 10 cristãos radicais: bom humor.

Porque, como bem diz ela nessa hora, Deus sempre esteve ali, em suas músicas, de diversas maneiras. Na menina que dança. No pensamento das flores. No dia do índio. Foi preciso que seu filho lhe mostrasse que ela não precisava ter vergonha da própria carreira, nem tentar converter o mundo inteiro à sua religião e, muito menos, amargar solidão e esquecimento no meio musical.


O principal trunfo da turnê de retorno de Baby, portanto, é o fato de que ela está se divertindo imensamente com tudo isso, talvez até mais do que nós, na plateia - e, olha, você precisa saber que eu me diverti muitíssimo na noite do dia 9 de dezembro, na Concha Acústica do Teatro do Castro Alves, em Salvador. Quem não foi, perdeu a oportunidade de ver a História musical deste país em andamento, recuperando, para um público misto de velhos fãs das décadas de 70 e 80 e jovens adultos curiosos com seu ressurgimento, a importância de uma figura ímpar.

Se houve algo para não gostar, me antecipo logo em dizer que foi a ausência de "Brasileirinho", na qual eu esperava vê-la cantando em ritmo aceleradíssimo, enquanto Pedro Baby debulhava sua guitarra, ao estilo do pai, Pepeu Gomes. Aliás, que se diga que tudo em Pedro Baby vale por um teste de DNA: a cara é a da mãe, mas a voz, a postura de palco e o talento para esmerilhar a guitarra são do pai. Não se surpreenda se ele virar um guitarrista ainda mais notável que Pepeu.

A banda que a acompanha inclui prole de gente como João Donato e Paulinho Boca e até um remanescente da Banda Black Rio no trombone. A amizade e o clima "família" da turnê foram essenciais para Baby aceitar o convite de Pedro. O que não quer dizer que eles estejam ali por outra razão que não seja o talento: afiadíssima, a banda deu a Baby um suporte muito seguro para ela construir suas melodias, algumas das quais soando ainda bastante modernas.

O repertório contemplou os grandes sucessos da sua carreira "mais ou menos solo" (já que ela e Pepeu faziam quase tudo juntos) e não faltavam hits para levantar o povo que quase lotou a Concha: a abertura com "Planeta Vênus" (do ex-marido), "Telúrica", "Cósmica", "Sem Pecado e Sem Juízo", "Um Auê com Você"... Durante "Menino do Rio", Caetano Veloso subiu ao palco para uma participação, mas sua voz, talvez devido a alguma dificuldade técnica, soava muito baixa. Juntos, eles ainda emendaram "Acabou Chorare".


O tempo que a carioca Baby passou entre os Novos Baianos foi lembrado com especial carinho e reverência, até pela presença de muitos deles ali. Bem próximo ao palco, estava Galvão, autor de diversos dos maiores clássicos da banda, assistindo ao show como um mero mortal. No palco, Baby se superava, a voz praticamente intacta, em versões caprichadíssimas de "Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira", "A Menina Dança" e, em especial, "Tinindo Trincando", um momento absolutamente arrepiante, em que ela mandou um impecável scat de "no duro, no duro, no duro, no duro..." por cerca de um minuto, enquanto Pedro e sua guitarra eriçavam os pelos do meu braço.

No bis, mais emoção: sobem ao palco o baixista Dadi Carvalho e Paulinho Boca para uma vigorosa versão de "Mistério do Planeta" que não deixa dúvidas: essas pessoas estão vivas, ativas, cheias de energia e fazendo muita falta nesse cenário musical ultra-careta que vivemos no Brasil. A liberdade para se dizer as coisas é bem maior do que já foi décadas atrás, mas as pessoas, simplesmente, não têm formação e não buscam informação suficiente para tirar proveito dela. Ser "muito louco", na cabeça de muita gente, é falar de baladas e carros amarelos - e não há nada mais reacionário e maligno do que pregar o desapego às pessoas e celebrar o apego às coisas. Enquanto isso, com um discurso totalmente oposto, a História Musical do Brasil acontecia bem na minha frente.

No finzinho, justamente quando eu pensava, "Ah, será que seria legal ela tocar 'Barrados na Disneylândia'?", Baby anunciou a música, como homenagem a Pepeu Gomes, ausência menos gritante apenas pela presença de um "clone" mais jovem no palco. A música tem uma história curiosa, mas, ouvida ontem, revelou-se não tão boa assim. Foi uma concessão interessante à minha infância, mas certas coisas devem mesmo ficar no passado.

Seja como for, diante da importância deste resgate, só posso dizer: bem-vinda de volta, Baby! Como bem disse seu filho, improvisando durante "Planeta Vênus", estávamos com saudade.

27/11/2012

Por Onde Andei, parte 2



Goiânia


Em fins de 1989, minha irmã Simone se casou com um goiano, José Geraldo, e com ele foi morar em Goiânia. 1990 seria o último ano de meu segundo grau e eles me chamaram para tentar a sorte por lá. Quando cheguei, Simone estava grávida de seu primeiro filho. Eu já conhecia Goiânia de viagens anteriores, nas quais conheci boa parte da família de meu cunhado. Para seus sobrinhos, eu logo virei um "primo" e eles, uma segunda família.

Já faz uns bons anos que não ando por lá, mas Goiânia sempre foi uma cidade que adorei. Naquela época, então, com o crescimento urbano dentro de limites suportáveis, sem tantos carros nas ruas e ainda sofrendo um pouco com a má fama trazida pelo acidente com cápsulas de césio 137, ocorrido três anos antes, Goiânia tinha um sistema de transporte urbano confiável, mesmo sem qualquer luxo. Enormes avenidas (chamadas "eixos") cortam a cidade em várias direções, facilitando as viagens mais longas dos bairros ao centro. Eu morava no Setor Oeste e dali, da Avenida T-7, se podia pegar ônibus para praticamente qualquer canto da cidade. Arborizada e com canteiros caprichadíssimos, a cidade era de encher os olhos.

O colégio onde eu cursaria meu 3º ano colegial, o Carlos Chagas, ficava no Setor Universitário. Naquele tempo, eu não me tocava para a coisa, mas, lembrando hoje, é bem fácil de perceber: o Carlos Chagas era um tremendo reduto de filhinhos de papai. Quando me vêm à cabeça a imagem e as atitudes de alguns colegas, eu entendo exatamente porque era difícil me aproximar e fazer amizades com eles. Meu sotaque era praticamente um crachá de nordestino, então, na cabeça de gente de mente estreita, ser visto comigo talvez fosse "queimação". Um deles usava a camisa de uma coisa chamada "Comando Anti-Gay", pra você ter noção da jequice. Eu não me preocupava tanto com isso, na verdade, e fiz alguns bons amigos naquele terceiro ano. Pena que muitos deles, com o tempo, sumiram de tal forma que nem o Facebook me ajuda a encontrá-los.

Foi um ano escolar curioso. Nesse último ano do segundo grau, eu finalmente tive um professor de inglês que realmente dominava o idioma (antes disso, eu costumava botar meus professores no bolso). Chamava-se Nelson, um careca de voz potente e sorriso fácil. Eu tinha um bom time de professores, no geral, e me saía particularmente bem em Português, Mecânica, Termologia, Química, Biologia e, claro, Inglês. Lembro que gostava da professora de Literatura (Fátima) e do professor de Matemática (Wellington), mesmo que não me saísse especialmente bem nessas matérias. 


Dois casos curiosos desse tempo não me saem da memória.

O primeiro diz respeito a um professor de quem eu não gostava muito. Todo mundo o achava o máximo, mas eu não me entendia com Macarrão. Ele tinha uma ideia, digamos, "peculiar" sobre o tratamento que deveria dispensar aos alunos. Jamais aconteceu qualquer coisa comigo, a gente mal se olhava no olho, mas, certa vez, uma aluna levantou-se com visível desconforto e sussurrou-lhe que precisava ir ao banheiro com certa urgência. Em resposta, ele bradou, a plenos pulmões: "Vai, minha filha, soltar seu barro!" A sala veio abaixo numa gargalhada, mas o professor virou para mim um eterno exemplo negativo.

O segundo diz respeito a uma colega que era dona de olhos verdes lindos. Ela vinha diariamente de uma cidade próxima e chamava atenção. Tinha aquele jeito de boa moça e não era muito alta, nem tinha corpão, mas o rosto era uma coisa linda, a pele branquinha, os cabelos entre o castanho e o ruivo, um bibelozinho. Porém, amigo... PORÉM... Algo mais chamava atenção: o cheiro que entrava na sala junto com ela. Melhor dizendo, a nhaca! Era um cecê de fazer coçar o nariz e amargar a língua. Esta deve ter sido a mais clara lição que já tive sobre como beleza não é tudo nesta vida. Higiene conta, também.

O dia 1º de Julho de 1990 ficou marcado em minha vida como o cenário simultâneo de uma das maiores alegrias e da maior tristeza que já experimentei.

Nessa data, por volta de meio-dia, nasceu Gabriel, meu primeiro sobrinho. Entre os vários telefonemas feitos naquela tarde para a Bahia, de onde nossa família pedia notícias constantemente, eu disse a Malcon que ele tinha que vir a Goiânia, pois ele gostaria demais da cidade e eu tinha muita coisa nova e boa de música pra mostrar. "Tem que vir conhecer seu sobrinho logo, titio", brinquei.

No começo da noite, atendo a um telefonema do meu pai e ele diz que tem uma notícia "meio triste" pra dar. Pergunto do que se trata e ele pede para falar com meu cunhado antes. Depois que conversam, ele desliga. Faço menção de ligar de volta, mas meu cunhado me impede e larga a bomba: Malcon havia acabado de falecer. Aneurisma fulminante, dois meses antes de completar 20 anos.

Não bastasse a dor imensa da perda em si e de estar longe de pais e irmãos nesta hora, eu ainda tinha um trabalho mais difícil ainda pela frente: esconder de Simone a má notícia, pelo menos, até que ela tivesse alta da maternidade, poucos dias depois. Quando ela finalmente soube, éramos o único amparo um do outro. Eu só pude ir a Ibotirama uma semana depois.

Depois disso, o ano passou meio que no automático, pra mim. A escola perdeu a graça e eu relaxei terrivelmente nos estudos, fazendo as primeiras recuperações da minha vida (mas passei). A única coisa que ainda tinha graça era cuidar de Gabriel. Jamais vou esquecer de colocá-lo para dormir ao som de "Cymbaline", do Pink Floyd, a única música que parecia acalmá-lo. Garoto de bons ouvidos, desde muito cedo! =)

Minha história em Goiânia chegou ao fim no começo de 1991. Tendo passado apenas na primeira das duas fases do vestibular (para Engenharia Civil) da UFG, decidi que queria ficar perto de minha família e ajudá-los a se recomporem do baque da perda de Malcon. Devo muita gratidão aos seus muitos amigos que, na minha volta a Ibotirama, passaram a ser meus, também, por me ajudarem a carregar o peso que a ausência dele causava.


Salvador


Como eu disse na primeira parte desta série, foi em Ibotirama que tive meu primeiro emprego formal. Trabalhava como assistente administrativo de um posto de gasolina às margens da BR-242. Certa vez, fui convidado a assumir a gerência de uma unidade em Tanquinho de Lençóis, cobrindo as férias do gerente titular. Como eu trabalhei direitinho, meu nome foi logo lembrado quando abriu-se uma vaga para a gerência da unidade do bairro de Pirajá, em Salvador.

Eu estava duplamente feliz: primeiro, por estar subindo um degrau dentro da empresa; segundo, por estar indo morar na cidade que havia finalmente entrado na minha rota de viagens. Embora esteja a apenas 100 km de Feira de Santana, eu nunca havia pensado em simplesmente passear em Salvador, até fazer parte dessa rede de postos.

Tendo feito amizade imediata com algumas figuras hilárias que trabalhavam em outras unidades, foi relativamente fácil conseguir um lugar para morar, após uma semana em hotel. A Cidade Nova ainda era um bairro relativamente tranquilo naquele 1996. Estabelecido, comecei a trabalhar, mas, caramba... Que diferença tremenda existe entre trabalhar em cidades minúsculas do interior e na capital!

Primeiro, houve o discreto aviso do gerente que deixava a vaga: "Estou saindo porque não aguento mais". Isso, ninguém tinha me falado e eu, sempre meio desligado, não me preocupei em perguntar. Logo eu saberia por quê: a área era farta em assaltos, boa parte dos funcionários não eram pessoas em quem se podia confiar e o tráfego intenso de caminhões era fonte constante de risco. A comunicação com a central distribuidora nem sempre era das melhores. Um problema com a coleta de lixo causou dias de transtorno. Um funcionário que eu havia contratado menos de uma semana antes quase morreu de uma úlcera gástrica e precisou ser "encostado".

Compreensivelmente, minha cabeça não demoraria a rolar. Assumo minha parcela de culpa nos eventos: não fui suficientemente preparado para a função que assumi e talvez tenha confiado demais em quem não devia. Confiei demais na honestidade e boa vontade de subalternos e na prontidão e cooperação de superiores. Me estrepei nas duas pontas dessa corda. Três meses depois, já estava de malas prontas para voltar a Ibotirama, só que desligado da empresa. Um fracasso que mexeu, durante muito tempo, com minha auto-estima.


Se é verdade que existe uma compensação para tudo nesta vida, com bons e maus momentos se equilibrando constantemente, fica fácil entender por que eu me diverti TANTO, em tão pouco tempo, nestes poucos meses vivendo em Salvador. A cidade era bem mais convidativa do que hoje e os amigos que fiz ainda são pessoas de altíssima estima para mim. A gente se fala pouco, se vê menos ainda, mas são amigos que jamais perderão seu lugar no meu coração, não importa o tempo que passe. Entre churrascos na casa de um e de outro, domingos de praia, cervejadas na barraca de Bia (no final de linha da Cidade Nova) e pagodes na Codeba, os meses de maio a agosto de 1996 são um período que nunca esquecerei. Para o bem e para o mal.

Hoje, Salvador é um destino frequente, mas a cidade perdeu boa parte do seu encanto. Está perigosa demais, engarrafada demais, cara demais. O prefeito João Henrique realmente trabalhou duro na destruição do ex-segundo destino favorito dos estrangeiros no Brasil. Salvador tem a orla marítima mais feia do país, sem qualquer estrutura que proporcione a nativos e turistas o mínimo de conforto ou beleza visual. Tudo é amador, mangueado, sujo, feio e barulhento. O Pelourinho voltou a ser uma cracolândia baiana, como antes da reforma do começo dos anos 90. A ilegalidade é soberana na cidade e o espaço público não é entendido como "de todos": é entendido como "de ninguém". Respeito é bom e a gente gosta, mas é mercadoria cada vez mais rara.

Com tudo de ruim, entretanto, Salvador ainda tem charme. Não saberia dizer onde ele está, mas está ali, suspenso no ar. Eu me sinto em casa, como se estivesse voltando às minhas raízes (que, entretanto, estão enterradas em Feira). O que nos resta, agora, é esperar que ACM Neto, vencedor no último pleito municipal, tenha condições de fazer a cidade voltar a ser o que era... Ou transformá-la em algo diferente e melhor - porque, sinceramente, é difícil, até doloroso, imaginar que ainda possa piorar.


Breve, na parte 3, dose tripla, com Itumbiara, São Gonçalo e Alagoinhas.

18/11/2012

Grandes Astros Superman


Até o momento, só houve duas séries sob o selo Grandes Astros: uma dedicada a Batman & Robin (por Frank Miller e Jim Lee) e esta do Superman (por Grant Morrison e Frank Quitely).

Frank Miller jogou fora a chance de ter mais um clássico do Batman com sua assinatura. Jim Lee se esforçava, entregando seu melhor trabalho até então, com um dinamismo e capricho invejáveis, que contrastavam com a pasmaceira estática que foi, por exemplo, Pelo Amanhã (a ultra-enfadonha história do Superman escrita por Brian Azzarello). No entanto, a história andava em círculos e, quando Miller, Lee, a DC e os leitores finalmente admitiram que aquilo não ia dar em nada, cancelaram a séria na décima edição, sem um fim.

Grant Morrison, por sua vez, usou suas melhores armas para escrever a história definitiva do Superman: ciência real e além da imaginação, desafios realmente grandiosos, um vilão humanizado ao máximo e uma exacerbação de todas as qualidades que, em 70 anos, fizeram do Último Filho de Krypton um ícone. Isto sem falar da escalação de Frank Quitely, um desenhista de estilo muito particular, longe de ser uma unanimidade, mas que parece ter total sintonia com a escrita de seu amigo Morrison.


Apesar de ter apenas 12 edições, a publicação da série nos EUA durou quase três anos. Frank Quitely é conhecido pelo ritmo lento de trabalho, mas a coisa saiu do controle dessa vez: o intervalo entre as edições 8 e 9 foi de quase um ano! No Brasil, a Panini publicou a primeira edição em janeiro de 2007, um ano após a publicação americana, e a última em dezembro de 2008, apenas um mês depois que terminou lá fora!

Tanta espera valeu a pena. Grant Morrison escreveu uma história em que os mesmos elementos que tornam o Superman intragável para alguns (o irritante bom-mocismo, o micado disfarce de Clark Kent, os poderes praticamente sem limites) são utilizados de forma bastante interessante, num limite entre o cômico e o espetacular, que respeita tudo que já foi feito de bom com o personagem e utilizando elementos introduzidos pelo próprio Morrison, como os Supermen do futuro, vistos na saga DC Um Milhão (1998).

No começo de Grandes Astros Superman, o herói está próximo ao sol, auxiliando em uma pesquisa do astrofísico Leo Quintum, quando um dos tripulantes se revela um agente inflitrado por Lex Luthor. Quintum e sua equipe são salvos da morte pelo Superman, mas o próprio herói acaba descobrindo que está morrendo aos poucos: exposto a níveis críticos de radiação solar, o corpo do Superman está, literalmente, cometendo lento suicídio. 

Com a iminência da morte, Superman passa a buscar meios de resolver todas as pendências que possa ter, inclusive a de declarar seu amor por Lois Lane e revelar-lhe sua identidade secreta. Além disso, ele terá que realizar doze grandes trabalhos antes de seu fim, revelados pelos seus descendentes do século 853.


A série passeia pelo humor, aventura, ficção científica e romance com eficiência, dando ao incrivelmente poderoso personagem uma humanidade que, ao contrário do que acontece em muitas de suas histórias, não parece um favor aos alquebrados terrestres, sempre em busca de exemplos. Ciente de sua própria mortalidade, mas carregado de energia como jamais esteve, Superman mostra-se poderoso e engenhoso, mas, também, sensível e quase trágico. As coisas parecem irremediavelmente perdidas, por exemplo, em seu exílio no Planeta Bizarro.

Não faltam referências ao legado kryptoniano, ao seu "assassino" Apocalypse (em versão ligeiramente diferente), à sua família terrestre (no sexto capítulo, o Superman conhece a pior das derrotas) e, principalmente, à sua delicada relação de ódio/admiração com Lex Luthor (no quinto capítulo, com texto primoroso, que empata com o de Brian Azzarello como a melhor construção já feita do personagem, na minissérie com seu nome). Embora pareça permitir uma continuação, a verdade é que a série tem um desfecho taxativo, com o herói assumindo um compromisso do qual, por muito tempo, não poderá se desconcentrar.


Esta edição encadernada da Panini tem o formato ligeiramente maior das Edições Definitivas, embora menor do que o formato Absolute original, em cuja edição se baseia. São 306 páginas em papel LWC e capa dura com verniz no título e nos créditos. É um tratamento luxuoso que, embora encareça o produto (R$ 79 é o preço bruto sugerido, mas é possível encontrar descontos generosos e parcelamentos na internet), é digno da história que comporta. 

Dividindo o pódio de melhor história de super-heróis do século 21 com Os Surpreendentes X-Men, de Joss Whedon, Grandes Astros Superman é um clássico instantâneo, provando que o primeiro super-herói da História continua relevante.

16/11/2012

Por Onde Andei, parte 1


Decidi escrever esta série de posts como tributo aos lugares onde vivi, com a intenção de saciar a curiosidade de amigos que nem sempre se sentem à vontade para perguntar, bem como minha própria vontade de relembrar de pessoas, coisas e situações que me fizeram (e fazem) ser quem sou.

A viagem começa agora!


Feira de Santana


Minha cidade natal goza de péssima fama. Dizem por aí que seus habitantes são uns metidos a besta, que falam dela como se fosse uma capital (por exemplo, o cara chega em Feira e, ao explicar que é de alguma cidade menor, ouve: "ah, você é do interior!"). Aliás, há quem reclame de TUDO em Feira: do calor, do frio, do trânsito, do que tem, do que não tem e até da sua própria existência.

Eu nem posso falar muito de Feira. Deixei-a quando tinha apenas 11 anos e o máximo de liberdade de que desfrutava por lá era ir ao centro (aliás, "pra rua") desacompanhado, onde adorava circular pelas lojas, em busca de etiquetas charmosas pra minha coleção (não tem gente que coleciona selos, latas, chaveiros, etc? Eu gostava de colecionar etiquetas!).

Depois que passei a morar em Ibotirama, em novembro de 1984, tentava voltar para pequenos passeios tão constantemente quanto possível, para rever meus amigos de escola e comprar LPs da minha nascente coleção de rock and roll. Várias aquisições preciosas (The Smiths, U2, Pink Floyd...) foram feitas por mim e meu irmão mais velho, Malcon, nessas viagens.

Com o passar do tempo, veio uma melhor adaptação a Ibotirama, as viagens começaram a escassear, mas não tem jeito: meu umbigo está enterrado em Feira de Santana e ela pode ser o lugar mais sem graça do universo pra você, que eu gosto dela, mesmo assim. É, eu sei, lá tem pouco lazer, faz um calor do inferno no verão, um frio da zorra no inverno, tem ladrão pra caramba, mas também tem parentes e uns poucos e selecionados amigos que jamais saíram da minha vida, mesmo quando as distâncias (e que distâncias, amigo!) só não eram maiores que a saudade.

Hoje, apesar da proximidade, eu vou pouco a Feira e, quando o faço, é só pelo prazer de rever essas pessoas tão importantes em minha vida. Quanto a desfrutar do que a cidade oferece... Sorry, Feira. Prefiro Salvador, que é capital de verdade! =P


Ibotirama


Sem meias palavras: eu odiava Ibotirama.

Logo que cheguei lá de mudança, em 07 de novembro de 1984, por várias noites dormi maldizendo a meus pais por conta da súbita saída de Feira de Santana. Imagine sair de uma "capital" para uma cidade que devia ter, na época, pouco mais de 20 mil habitantes, se tanto. Um lugar onde todo mundo parecia e soava como ETs, com seu sotaque e seus modos incrivelmente diversos dos nossos (Aliás, hoje, eu me pergunto de onde veio tamanho choque, uma vez que eu já havia visitado esta e outras cidades da região, durante as viagens com meu pai, em seu tempo de entreposto comercial de lojas de miudezas em Feira).

Minha relutância em aceitar a nova realidade era tamanha, que, mesmo numa cidade tão pequena, levou anos até que muitas pessoas soubessem sequer que eu existia, já que minha vida era da escola pra casa e de casa pra loja de minha mãe (que era em casa), com escala na banca de revistas (onde eu me fartava de Bizz, Set e gibis de super-heróis em formatinho). Imagine como foi adolescer com esse odiozinho ridículo no coração e delírios de uma suposta superioridade de "homo feirensis"! Malcon, ao contrário, logo se enturmou e fez uma galera imensa.

Uma coisa muito boa resultou desse meu comportamento ermitão: eu me agarrei aos meus discos, livros e revistas como a uma tábua de salvação e aprendi inglês sozinho, através de meus maravilhosos LPs. Este conhecimento é de onde tiro meu sustento, nos últimos 14 anos.

Apesar de tudo, meu perfil social arredio não resultou em uma alma de serial killer. Ao contrário, conforme eu baixava a guarda, comecei a fazer alguns amigos, oriundos principalmente da escola (quase sempre, gente mais velha, entre a qual eu me sentia perdidaço com tanta malícia que eu, um ingênuo de dar pena, não dava conta de decifrar) e da turma de meu irmão.



Em 1990, Malcon morreu. História para outro dia.

Com a então recém-adquirida percepção da fugacidade da vida, eu me abri de vez para Ibotirama e nela fiz muitos dos melhores amigos que ainda tenho. A cidade em si mudou pouco nestes quase 30 anos, "mérito" da sequência de administrações desastradas de duas famílias cujo ciclo alternado de poder só se encerrou nas eleições deste ano. A mais popular forma de lazer na cidade continua sendo, claro, "cumê água" (coisa que só aprendi a apreciar já adulto).

O melhor de Ibotirama, felizmente, também é praticamente imutável: o Rio São Francisco agracia seus habitantes e visitantes com um cenário e um por-do-sol de tirar o fôlego, emoldurados pela ponte João Durval Carneiro. 

A cidade acabou sendo palco de acontecimentos importantes da minha vida: o primeiro beijo sem paixão e o primeiro beijo com paixão; o primeiro contato com as drogas (de minha parte, só visual: com enorme tristeza no coração, presenciei amigos fumando maconha, em tempos de muito preconceito e pouco discernimento); o primeiro emprego formal; a primeira conta bancária (e os primeiros enroscos bancários, também!); o primeiro contato com a morte. Ela me viu chegar menino e fez de mim um homem.

Peço perdão se meu relato parecer impessoal, pela falta de nomes reconhecíveis, mas isto, provavelmente, resultaria em desnecessária prolixidade. As experiências vividas em Ibotirama foram tantas e tão intensas que eu poderia cansar de escrever e não teria terminado. Então, encerro aqui este texto com um agradecimento aos meus pais, exatamente pelo mesmo motivo pelo qual eu os odiei (de mentirinha, claro) por um tempo:

- Obrigado, Painho e Mainha, por me levarem para Ibotirama! =)



Breve, na Parte 2: Goiânia e Salvador.

Sobre Lobões e Bundões



Lobão é uma figura cujo nome sempre é visto por aqui. Primeiro, porque gosto dele como músico. Segundo, porque, mesmo não gostando de certas coisas que ele diz, o que Lobão diz jamais passa em brancas nuvens. Ele tem opiniões fortes, exageradas e até implicantes, mas, ao contrário do que se pensa, não o diz para criar polêmica: Lobão é assim. Ele realmente pensa o que diz.

Daí, que eu estava lembrando de uma recente declaração sua, na qual ele desancava Maria Gadu e toda uma leva de novos artistas de MPB - você sabe, gente como Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz, etc. Segundo Lobão, "esta nova geração da MPB é pernóstica e medíocre. Fica tentanto emular a MPB dos anos 60, sendo que naquela época já era uma merda, mas pelo menos era original."

Por favor, não vá ainda para o campo dos comentários detonar Lobão. Vamos conversar mais. 

Eu discordo de Lobão, em parte. Primeiro, porque a música brasileira dos anos 60 era legal. Segundo, porque acho esta uma geração bem superior, por exemplo, àquela que tentou, no início dos anos 00, conquistar seu lugar ao sol mais por força do nome de seus pais (figurões da MPB como Elis Regina, Jair Rodrigues e Wilson Simonal) do que pela qualidade de sua própria obra.

Os "Artistas Reunidos" naufragaram em sua pretensão (e põe pretensão aí) de revolucionar a MPB porque faziam discos para si, não para os ouvintes. Era um tal de vozes pequenas, funk de baixos teores, batida quebrada, ruidinhos eletrônicos, clima etéreo... Tudo muito bem feito e muito chato

Não por coincidência, aquela que desde o começo se assumiu como pop (Luciana Mello) foi justamente a que se deu melhor (embora ela seja aquele tipo de artista simpática que a gente gosta quando vê, mas que não habita o pensamento coletivo de forma consistente, como convém a alguém que se pretenda estrela).

Mão à palmatória, os Artistas Reunidos tinham algumas faixas bem legais, quando consideradas isoladamente. Por exemplo: "Música Romântica" e "Lua Clara", de Wilson Simoninha; "Papo de Psicólogo" e "Você por Perto", de Jair Oliveira; "Voz no Ouvido" e "Tem que Ser Agora", de Pedro Mariano... A lista tende a crescer, mas não muito. Os discos dessa galera eram torturantes de se ouvir inteiros, pela repetição de cacoetes e aquele ar de "sou foda, curve-se" a cada faixa.

Jeneci, Tulipa e outros nomes atuais, pelo menos, entendem que é importante ter canções que se possa cantar junto. Fazem discos agradáveis e conquistaram um sucesso mais do que razoável, num universo em que os "deuses" ainda caminham entre nós, vivos e produtivos. A nova geração da MPB tem méritos. Faz boa música. Faz umas coisas chatas, também, mas eu gosto. Sorry, Lobão.

Por outro lado, eu entendo sua queixa. Esses jovens artistas fazem música "de velho". Apelam a Gal, Bethânia, Milton, Caetano, Chico, Roberto... São apostas seguras - e, sabe, ninguém pode obrigá-los a dar o que Lobão quer deles: muito mais tesão, energia e juventude e muito menos reverência, "inteligência" e "maturidade". Mas, venhamos e convenhamos, já faz alguns anos, está fazendo bastante falta que surja alguém assim.

A geração de Lobão tomou de assalto as paradas com uma linguagem que traduzia muito melhor os anseios de uma juventude que começava a ter um gostinho de liberdade, com a progressiva derrocada da ditadura militar. Havia tesão, havia barulho, havia menos floreio e mais objetividade no discurso, sem que isso significasse pobreza lírica. Os grandes letristas daquela geração (Renato Russo, Herbert Vianna, Cazuza, Arnaldo Antunes, Roger Moreira) foram reconhecidos como tal ainda em seus primeiros trabalhos e eram homens do pop/rock. Seus ocasionais flertes com a chamada brasilidade jamais os impediram de ligar as guitarras no talo.

É isso que Lobão quer: que surja uma geração de jovens músicos que não se envergonhem de sua juventude - e, caramba, no mundo todo o rock é conhecido como a perfeita expressão da juventude, a melhor válvula de escape pra pressão insuportável de ser jovem num mundo de velhos. No Brasil, a juventude perde seu tempo com farsas como os gêneros subtitulados com o famigerado termo "universitário" (que nos faz ter severas dúvidas sobre a qualidade do ensino superior no país).

Grande parte do que se ouve hoje é terrivelmente pobre em termos musicais, as letras costumam ser um atestado de baixa escolaridade e primam pela misoginia, pelo romantismo tatibitate e descompromisso com qualquer coisa que não seja a balada do fim de semana. A ascensão econômica das camadas sociais mais baixas também levou a uma enxurrada de português deficiente, gírias e palavrões que, na cabeça de sociólogos e historiadores deslumbrados, devem ser o "retrato de um povo", "a cara do Brasil" e outros clichês, mas, para mim, são apenas um retrato da falência educacional do país.

Na verdade, eu não fico surpreso. Estes são tempos esquisitos, em que as pessoas não vão a um show por causa do artista no palco. Elas não vão para ver alguém: vão para serem vistas. Quem toca e o que toca é o de menos. Então, por que se preocupar em melhorar a qualidade da música, se quem lota eventos musicais não está nem aí pra isso? A música nesses lugares é mera trilha de fundo pra azaração ou chapação total.

(Eu comecei falando de um assunto e meti outros no meio. Perdão pela impertinência, mas ela foi totalmente pertinente.)

Mas, tenha paciência, Lobão. Talvez essa recusa ao rock tenha a ver com a irritação produzida por (cof, cof, cof) "fenômenos" como o NX Zero e o Restart, que fraudam uma linguagem musical naturalmente subversiva para fazer (essa, sim) a música mais bundona do planeta. A geração do rock 80 foi bonita, talentosa e importante demais para ser ignorada - mais cedo ou mais tarde, alguém, fatalmente, vai ouvi-los e dizer, "Pô, isso é tão legal, vamos fazer algo nessa linha?". Só espero que vivamos para ver esse dia.