30/01/2012

Os Descendentes



Manter uma família requer um esforço hercúleo de todas as partes envolvidas. Esposos e esposas, em proporções hoje praticamente iguais, têm que buscar meios de subsistir e ainda precisam aguentar-se mutuamente, numa época em que a paciência é escassa e, contraditoriamente, a cobrança por atenção é cada vez maior.

Pior ainda quando entram na equação os filhos, essas coisinhas caras, trabalhosas, ingratas e com quase incontrolável propensão a desvios de atitude, que levam pai e mãe a envelhecerem dez anos em um. Filhos, entretanto, têm sua cota de dores de cabeça, em forma de cobrança, comparações e pequenas e grandes injustiças a que estão sujeitos, principalmente quando são "cobaias" da primeira experiência de paternidade da família.

Quando a unidade familiar já caminha sobre uma corda bamba, uma tragédia pode ter dois efeitos diversos: ou reúne a todos em busca de amparo mútuo, ou detona crises ainda maiores, com trocas de acusações e velhas feridas reabertas.

A família do havaiano Matt King (George Clooney) não vai muito bem. Ele é escravo do trabalho; sua filha adolescente, Alexandra, está brigada com a mãe e vive em um colégio interno para controlar a bebedeira; a filha caçula, Scottie, é praticamente uma quimera para o pai, que pouco reparou em seu desenvolvimento nos últimos sete anos; já sua esposa, Elizabeth, ao sofrer um acidente de lancha que a deixa em coma, catalisa os eventos que podem consertar ou arruinar de vez a família.

Matt promete, em monólogos com a mulher inconsciente, ser melhor marido e melhor pai, mesmo sem muita convicção de como fazê-lo. Seu drama familiar não anula suas urgências profissionais, como decidir o que fazer com uma cobiçada porção de terra virgem, herança de família que ele administra. Vendê-la garantirá tranquilidade financeira aos seus parentes. Os locais, porém, não querem saber de trânsito e outros problemas. Como se fosse pouco, durante uma discussão sobre suas brigas com a mãe, Alexandra faz uma revelação que acaba com a única certeza que Matt julgava ter.

Os Descendentes é o primeiro longa-metragem de Alexander Payne desde Sideways - Entre Umas e Outras, que em 2005 conquistou cinco indicações ao Oscar, tendo vencido na categoria Roteiro Adaptado. O novo filme recebeu o mesmo número de indicações, mas acredito que tenha chances de sair com mais prêmios. É uma obra superior à primeira, com personagens mais universais e direção de atores irrepreensível. 

Não à toa, George Clooney desponta como favorito na noite de 27 de fevereiro. Seu Matt King se transforma a olhos vistos, mas sem epifanias de encomenda. Suas decisões mais difíceis não são tomadas com aquele ar resoluto dos protagonistas dos dramas de Steven Spielberg, por exemplo. São cercadas de dúvidas até o último instante e depois disso, também. Suas mimadas filhas (as excelentes Shailene Woodley e Amara Miller) tampouco passam imunes às provações, sem que isso lhes tire a boca suja e o humor no qual os adolescentes se escudam do sofrimento. O humor de Os Descendentes surge nas horas mais improváveis, ainda mais quando está em cena o abobado Sid (Nick Krause), amigo de Alexandra.

Méritos sejam dados ao roteiro de Payne (com Nat faxon e Jim Rash), adaptado do livro homônimo de Kaui Hart Hemmings, publicado em 2008, com diálogos precisos e muitas coisas que são "ditas" apenas pelos olhos de Clooney. A fotografia de Phedon Papamichael (responsável por Sideways e Johnny & June, entre outros) nos leva de deslumbrantes cenários naturais do Hawaii a closes dos personagens, com igual delicadeza.

Filmes como Os Descendentes chegam na hora certa, para nos lembrar de que o cinema (pelo menos, o bom cinema) é feito de emoções, não de 3D e outras pirotecnias. Quando fica para trás, também, a tentação de apelar a exageros que transformam drama em dramalhão, graça em macaqueios, medo em susto fácil, vemos nascer uma daquelas obras que marcam a vida de quem assiste. É o caso aqui. Corra para o cinema e volte para dizer se estou enganado.

26/01/2012

As Aventuras de Tintim


Já ouvi falar muito da criação do quadrinista belga Hergé (1907-1983), mas, nunca li uma história sequer. Nada contra Tintim, que fique claro. Eu, simplesmente, não tive a oportunidade ainda. Daí que, quando foi anunciado que Steven Spielberg dirigiria uma adaptação em CGI, eu não sabia bem o que esperar - mas, hey, quase tudo em que Spielberg põe a mão, seja como diretor ou produtor, merece, no mínimo, uma espiada.

Assistindo a As Aventuras de Tintim, felizmente, constatei que é verdade o que dizem por aí: é o melhor filme de Spielberg em muito tempo - e se um terço do que dizem sobre a ruindade de Cavalo de Guerra for verdade, vai ser difícil acreditar que o mesmo sujeito tenha realizado dois filmes de resultados tão díspares, quase simultaneamente.

Após comprar uma antiga miniatura de galeão pirata, Tintim (Jamie Bell) é perseguido e, por fim, capturado pelo sinistro Sakharin (Daniel Craig). No cativeiro, conhece o Capitão Haddock (Andy Serkis) e é arrastado para uma disputa pelo tesouro naufragado do pirata Rackham, o Terrível. Não há muito mais a dizer sobre a história, porque logo começa o esperado e sensacional jogo de gato-e-rato, com improváveis desafios à física que aproximam o filme de outro produto com a marca Spielberg: Indiana Jones. Só que, mesmo considerando a origem cartunesca, não há nada tão ridículo quanto formigas loucas se empilhando. Ufa!

Com sua história simples e aquele perfeito timing de ação e comédia que aprendemos a amar em Spielberg (e que andava esquecido desde, sei lá, Prenda-me Se For Capaz? Antes disso?), As Aventuras de Tintim possui um bom punhado de cenas que grudam na memória, como a abertura, a trombada de navios no oceano (na qual revisitamos um momento sempre impactante e já tradicional nos seus filmes de fantasia: uma "chuva" de coisas), a exibição do "rouxinol milanês" (sem perguntas, por favor) e a vertiginosa perseguição no porto de Bagghar, um primor de técnica em um plano-sequência de vários minutos, enquanto os personagens disputam preciosos pergaminhos. Uma verdadeira aula de cinema, que põe Spielberg no lugar que lhe é de direito: ainda um dos maiores diretores vivos.


A técnica de captura de movimentos está simplesmente perfeita e, não fosse pelos traços cartunescos dos personagens principais, o filme passaria como live action numa boa. A movimentação dos personagens é incrivelmente fluida. Apesar do realismo, o "sotaque" dos quadrinhos e dos desenhos animados é perceptível em algumas cenas que beiram o pastelão, na presença do cãozinho Milu (mais inteligente do que a maioria dos humanos que passam pela tela) e no desenvolvimento superficial dos personagens. Haddock tem algumas "epifanias", mas é tudo muito rápido e simplista - trata-se de um filme infantil, enfim. Uma pausa para a plateia respirar e conhecê-los melhor, contudo, talvez tivesse feito bem ao resultado final.

Chega a ser triste ler que As Aventuras de Tintim não foi bem de bilheteria nos EUA, contando agora com melhor sorte no circuito internacional para que seja realizado o segundo filme, em que Spielberg trocará de lugar com aquele que foi seu diretor de segunda unidade neste primeiro Tintim: Peter Jackson (O Senhor dos Anéis). Como se vê, o que não falta à dupla é know-how e cacife. Esperemos, então, por boas notícias.