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Atribui-se a O Artista, em críticas que pipocam pela internet, o "crime" de ser saudosista. Dizem que a Academia o laureou com 10 indicações ao Oscar 2012 (apenas uma a menos que A Invenção de Hugo Cabret) porque muitos dos seus membros estão "com saudade do que não viveram". Bobagem. Pode ser que toda a badalação com o filme esteja te deixando desconfiado, mas O Artista merece todos os prêmios que ganhou e que ainda venha a ganhar.
(E que se diga: quando é Quentin Tarantino que faz filmes com cara de produção de quinta categoria dos anos 70, com seus diálogos fervilhantes de cultura pop e personagens inverossímeis, ele é chamado de cool e de gênio, não de saudosista. Adoro Tarantino e adoro seus filmes, mas, por favor, não é a falta da violência e do aspecto trash que justifica o uso de dois pesos e duas medidas)
Na Hollywood do final dos anos 1920, George Valentin (Jean Dujardin, excelente) reina como astro do cinema mudo. Ele é talentoso e carismático, mas, também, dono de um ego gigantesco. Durante as filmagens de uma de suas produções, ele reencontra Peppy Miller (Bérénice Bejo, encantadora), uma fã que pretende ser atriz, e a ajuda a dar-se bem no estúdio onde trabalha. O interesse amoroso é instantâneo, mas o fato de Valentin ser (mal) casado é um obstáculo entre os dois. Após desdenhar da nascente tecnologia dos filmes falados, ele é posto de lado pelos chefões do seu estúdio e cai no ostracismo, enquanto Peppy rapidamente torna-se o principal rosto dos talkies.
Eu sei, a história não é nenhum primor de complexidade e, sendo o filme mudo, são poucos os diálogos importantes o suficiente para aparecer em quadros inteiros, exatamente como nas produções da época. Também é verdade que o ritmo cai bastante durante o tempo de "vacas magras" de Valentin. Mesmo assim, o filme do francês Michel Hazanavicius é uma realização tão bonita (com fotografia perfeita de Guillaume Schiffman) e de tamanha entrega (não dá para não se derreter pelas performances apaixonadas e pelos sorrisos de Bejo e Dujardin), que só mesmo uma lamentável recusa das plateias mais jovens em experimentar um tipo de cinema sem efeitos especiais ou piadas de mau gosto pode explicar o fracasso nas bilheterias: O Artista custou US$ 15 milhões, tendo arrecadado apenas US$ 20 milhões, até 5 de fevereiro (segundo o IMDB). O jeito é torcer, então, para que tenha melhor sorte em outros países e seja reconhecido pelos prêmios que vem colecionando (o último deles, melhor filme no Bafta, espécie de Oscar britânico).
Ainda prefiro Os Descendentes para Melhor Filme e George Clooney para Melhor Ator no próximo dia 26, mas se os prêmios foram dados a O Artista e a Jean Dujardin, acredito que a Academia terá sido, ao menos, parcialmente feliz. O filme de Clooney tem história, personagens e atuações mais interessantes, mas este aqui exala uma alegria de fazer arte que parece esquecida nesses tempos de maravilhas tecnológicas que enchem os olhos e as bilheterias, mas desviam o cinema do coração, caminho obrigatório das obras que ficam para a posteridade.

5 comentários:
O Artista é um ótimo filme. Uma história simples, mas interessante, que te prende do começo ao fim. Vale a pena prestar atenção a certas sutilezas do roteiro, que emprega um pouco de metalinguagem, dando graça ao filme.
A princípio, mesmo tendo gostado da película, não conseguia entender a avalanche de indicações ao Oscar que o filme recebeu. Como um filme que usa uma linguagem abandonada há quase 100 anos pela indústria cinematográfica pode concorrer ao prêmio de melhor filme, desprezando vários avanços conquistados na arte de filmar, tais como a sonorização, o uso da cor, montagem etc. ?
Posso, claro, compreender a indicação para melhor roteiro, diretor, ator e atriz, e outros mais técnicos. Mas melhor filme ?
Em tempo, também gostei de Os Descendentes. Mas minha torcida pelo Oscar de melhor filme vai para Histórias Cruzadas. Por enquanto, pois ainda não assisti Hugo Cabret.
ANDRÉ B., eu acredito que os acadêmicos veem na "linguagem muda" um dos méritos de O Artista, justamente pela coragem de usá-la (quem suspeitaria que um filme assim pudesse parecer tão encantador às plateias atuais?). A metalinguagem, mencionada por você, era algo que eu gostaria de ter lembrado de mencionar em minha resenha. Numa coisa, concordamos: é um grande filme. Quanto a Histórias Cruzadas, está na fila para breve. Abraço!
é muito filme bom. Cad~e tempo? e dinheiro?
Ainda não vi "O Artista", os cinemas perto da minha casa não o colocaram em cartaz =/. Também discordo que eles estão com saudade da época que não viveram. Mas se pensar bem, o cinema esta em uma fase saudosista. Tivemos Mercenários ( Não julgue a qualidade da história) relembrando os clássicos filmes de brucutus dos anos 80. “Hugo Cabret” presta uma homenagem linda ao cinema e sem mencionar “Super 8” que também é saudosista =)
Queria muito ver esse filme, mas nenhum cinema aqui perto está exibindo :(
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