25/02/2012

Que galera é essa, meu irmão?

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Há poucos dias, Bell Marques, o vocalista do Chiclete com Banana, quando questionado sobre o atual modelo de carnaval de Salvador, que privilegia uma minoria que pode pagar os caríssimos abadás e camarotes e espreme, no pequeno espaço que lhes sobra fora das cordas, o povo que trabalha para tirar um trocado, ou os foliões "pipoca" que simplesmente desejam aproveitar uma festa supostamente popular, saiu-se com essa:

"A corda dos blocos é necessária para que ricos e pobres possam usufruir do Carnaval. Corda sempre existiu e, na minha opinião, ao invés de separar, acaba unindo o povão, que acaba vendo de graça algo que é pago por uma parcela”.

Bell Marques: cara lisa é com ele mesmo...

O comentário, feito em entrevista ao jornal A Tarde, no último dia 10, tentava justificar um visível e contínuo estado de apartheid de classes e pegou supermal nas redes sociais. Não é para menos: é sintomático de um esquema que se alastrou feito praga no carnaval baiano, que a cada ano se elitiza um pouco mais. Aos donos de blocos (como Bell) e aos privilegiados (ou mesmo coitados) dispostos a pagar pequenas fortunas por abadás ou camarotes, tudo. Ao folião comum, que deseja apenas ver seus artistas do chão e dançar atrás de um trio, sem ter que pagar por isso, poucos e exíguos espaços, onde o esfrega-esfrega indistinto frequentemente termina em situações embaraçosas ou perigosas.

Como se fosse pouco, agora chega outro cacique-mor do carnaval, Durval Lélis, vocalista do Asa de Águia, propondo a privatização do circuito da Barra. Em poucas palavras: ele quer transformar (ainda que temporariamente) a orla de Salvador num clubinho privé, onde só entra quem paga e pronto. Caso ainda não tenha assistido a este vídeo, preste atenção aos comentários nas legendas (as interrupções no stream são propositais, para que você possa lê-los).



Eu proponho a gente fazer o que Durval pede.

Que não o façamos, porém, nas ruas de um bairro emblemático da cidade, cujo cenário natural ou urbano não pode ser loteado entre meia dúzia de ex-artistas acomodados e metidos a "magnatas do axé" e seu séquito de puxa-sacos. A Barra, como a Praça Castro Alves, é do povo. Talvez alguns dos moradores de lá até se sintam menos povo que o povão, mas, vamos falar sério: se ter transformado uma manifestação cultural genuinamente popular num evento já exclusivista em seu modelo atual não basta, depois dessa nova declaração, alguém precisa levantar a mão e dizer "calma lá, Durvalino, meu rei!".

Minha ideia é a seguinte:

Deixe o carnaval de rua na rua, que é o lugar dele. Sem corda, sem bloco milionário, sem camarote. Deixe que se abra espaço para novos artistas que ralam por um lugar ao sol, mas que, quase sempre, acabam escondidos pela sombra dos grandões do axé. Deixe que trabalhem aqueles artistas já estabelecidos que, ao contrário de vocês, acham que animar a pipoca é obrigação, não favor. Deixe que voltem aqueles senhores que faziam uma música muito mais rica e interessante para os carnavais de décadas atrás, pois vários deles ainda estão vivos, cheios de tesão pela arte, e existe uma multidão ávida de reencontro e de novidade.

Aproveito para fazer uma defesa pública de Daniela Mercury: a "insuportável", a "metida" Daniela desfila sem cordas todos os anos e faz um já tradicional show gratuito no Farol da Barra, ao fim da tarde de todo 1º de janeiro, enquanto seus amigos Bell e Durval não costumam dar sequer um arroto que se possa ouvir de graça. Pode ser que tenha razão quem diz que ela se apropria de uma cultura (a de origens africanas) que, em tese, não é a sua, mas ela o faz com beleza e reverência evidentes. Pode ser que ninguém queira ouvir canto lírico no carnaval, mas ninguém poderá acusá-la de não tentar olhar por cima da mesmice. Pode ser que hoje muitos "artistas" medíocres ou mera e flagrantemente ruins façam mais sucesso do que ela e sejam bajulados pelo mesmo povo que extorquem com um sorriso, mas o tempo, senhor de tudo, há de fazer justiça à "metida".

Quanto ao seu carnaval VIP, com portaria e catraca, abadá mais caro que um salário mínimo, seguranças de terno e gravata, convidados globais e "gente bonita" (subjetividade que geralmente implica certas preferências étnicas), leve-o para um espaço fechado, mesmo. Um estádio. Um latifúndio qualquer, seu ou de um amigo (Bell, por exemplo). Eu sugeriria uma ilha. Não a de Itaparica, que é praticamente uma extensão de Salvador. Faça assim, ó: compre logo uma ilha, se é que você ainda não tem uma! Compre uma bem, mas beeeem afastada da costa, que é para não atrapalhar o carnaval dos plebeus aqui na cidade e não encher o saco de quem não está nem aí pra folia. Da mesma forma, visto que lá só se chegará de iate ou helicóptero, você estará livre de ambulantes e de outros tipos de "gente feia" que é sempre mantida, a empurrões, do lado de fora das cordas que Bell tanto preza.

Devolver o carnaval baiano ao seu povo não é utopia.  O carnaval do Rio tem o luxo da Sapucaí e seus camarotes, mas as ruas do centro são tomadas por pessoas comuns, seguindo charangas em pequenos blocos ou totalmente avulsas. Este não é o carnaval que vai pra televisão, mas é o verdadeiro evento que reúne milhões (ao menos de pessoas, se não de reais). Mesma coisa no Recife, onde a multidão divide as ruas sem cordas ou cordeiros (e se eu estiver equivocado, que algum pernambucano se manifeste). Não dá pra entender como é que um modelo tão perverso se enraizou tão firmemente aqui na Bahia.

"Melhor carnaval do mundo"? Aham, Cláudia, senta lá.

7 comentários:

Emanuela Cardoso disse...

Sempre fui carnavalesca de carteirinha, de curtir de quarta a quarta em uma época em que a Lavagem do Porto abria "oficiosamente" a folia. Desde criança, levada pelos meus pais, curtia os bailes infantis do Clube do Bahia e Campomar que infelizmente não existem mais. Aos onze, doze anos já estava na rua e fui testemunha do surgimento do circuito Barra-Ondina, que em sua estréia contou com a presença da inesquecível Banda Reflexu´s, devidamente patrocinada pelo Paes Mendonça e com o próprio Durvalino meu rei, puxando o Crocodilo... Também estive em vários encontros de trios na Praça Castro Alves que ao longo do tempo "miaram"...Ai que sds da Banda Mel, Netinho, Daniela Mercury, Gerônimo, Margarete Menezes e do Olodum que desfilava no Pelô e usava fantasia, nada de abadá... Muita gente estranhou qdo postei no FB a minha dúvida em cair na folia em 2012, mas qdo pensei nos váriooooooos reais que seriam desembolsados pra "curtir", resolvi ficar em casa assistindo pela TV e sonhando em curtir a folia de 2013 no Rio de Janeiro...

Alex disse...

O Estado mais racista do Brasil é a Bahia: vende uma imagem de identidade afro-brasileira, Olodum... mas quem conhece ou consegue ver de perto, percebe que não é nada disso.

Alexandre Melo disse...

Aqui na minha cidade acontece a auto-propalada "maior micareta do país", o FORTAL.
Anos atrás a situação chegou a um limite com o descaramento dos donos de blocos (inclusos, estes mesmos srs, Bell Marques e Durval Lélis) se achando não só donos do espaço público, mas de toda a cidade, deslocando a estrutura de segurança, saúde, e energia elétrica.
Uma mudança se fez necessária, não por tomada de consciência de nossos cidadãos, em grande medida. E sim de alguns poucos, dentro do Ministério Público. Hoje, a "festa" acontece em lugar privado e fechado, os órgãos públicos poderam se concentrar (não com eficiência, como seria de esperar de qualquer coisa governamental deste país, mas ao menos o foco está correto) nos agentes locais.
E talvez não por acaso, houve um florescimento de blocos carnavalescos na cidade, revitalizando a cena de Fortaleza.

Carol Seixas disse...

Estive em Pernambuco (Recife e Olinda) e vi o melhor carnaval da minha vida e não paguei nada por isso. Carnaval feito para o POVO, que era respeitado na estrutura e na programação.

Do Vale. disse...

Decepcionado com Bell e Durvalino.

Maria Gabi disse...

Bell ta se achando o pica das galáxias... me poupe!

@felipebaraujo disse...

Ia passar o carnaval em Salvador, ainda bem que nao fui.