10/03/2012

Gal Costa - Recanto

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Preciso ser honesto: estou longe de ser um fã ardoroso de Gal Costa e hesitei bastante em escrever sobre este disco. Tenho ternas memórias de canções suas embalando momentos bonitos de minha infância, sei que ela esteve à frente de movimentos importantes da nossa música e que seu registro vocal extremamente límpido a qualificou como a única brasileira frequentemente citada entre as grandes damas da canção mundial. Como se vê, nada que vá me qualificar como especialista.

Para azar de Gal (ou meu), eu adolesci enxergando reflexos muito mais nítidos daquilo que eu sentia e pensava no pop/rock inglês do que na MPB, gênero que, naquele tempo (meados da década de 80), havia se tornado sinônimo de coisa muito chata e muito brega (Sullivan & Massadas, alguém?). E olha que Gal não teve medo algum de meter em sua obra os sintetizadores que eram sinônimo de modernidade - só que, como quase tudo feito no Brasil daquele tempo de ainda enorme defasagem tecnológica, seu som acabava me soando ou chocho, ou over e desinteressante.

Mas, vá lá, ela começou os anos 90 com Plural e ganhou meu respeito por levar o Olodum ao centro do palco, principalmente com aquela que sempre foi, para mim, uma das canções mais fortes já feitas na Bahia e sobre ela, "Salvador Não Inerte". Volta e meia, ela também emplacava uma ou outra música simpática numa trilha de novela. Depois de um tempo, acabei até comprando um disco de Gal, veja só! Era Mina d'Água do Meu Canto (1994), com clássicos de Chico e Caetano (em versões ultracaretas, é verdade, mas isso não é coisa de que se reclame sobre músicas praticamente impossíveis de estragar, como "Milagres do Povo" e "A Rita"). Repeti a dose com o burocrático Acústico MTV, de 1998, só para ouvi-la cantar as mesmas cartas marcadas de sempre e confirmar uma impressão que me era cada vez mais forte: Gal estava acomodada - e eu, incomodado.

E tome mais discos previsíveis, homenageando os mesmos velhos mestres, já cansados de tanta homenagem: Tom Jobim, Dorival Caymmi, João Gilberto, mais Chico e mais Caetano. Não por acaso, com a chegada do século 21, enquanto seus amigos Caetano e Bethânia viviam ciclos de inquietação, renovação e alta produtividade, Gal caía no ostracismo.

Mas eis que uma improvável ideia de Caetano Veloso, confirmando o que eu disse acima, resultou em um tremendo acerto: colocar Gal Costa num disco eletrônico radical, quase minimalista, com canções inéditas escritas por ele e completamente diferente de tudo que que ela tinha feito até então. Lançado em novembro do ano passado, Recanto salvou a virtualmente finada carreira de Gal. Simples assim.



É um disco que merece a sua atenção. Não vá escutá-lo, porém, com ouvidos sedentos de ternura acústica e do timbre cristalino que sempre foi marca registrada da cantora. Como dito antes, é um disco radical, com as melodias procurando seu caminho entre batidas quebradas e timbres esquisitos. Além disso, como já se percebe desde a capa em close do rosto minimamente maquiado, a idade chegou para Gal e sua voz, embora ainda inconfundível, perdeu aquela extensão que, em tempos áureos, lhe permitia agudos inacreditavelmente precisos.

A maturidade e o desencanto realista também são claramente perceptíveis nas letras de Caetano Veloso, algumas das quais bem melhores do que muitas das que se ouvem em seus próprios discos recentes. A economia e a precisão poéticas casam perfeitamente com um dos temas mais recorrentes do disco: a inevitabilidade do envelhecimento. As referências se espalham em canções como "Recanto Escuro" ("o álcool só me faz chorar") e "Tudo Doi" ("viver é um desastre que sucede a alguns (...) os vocábulos iridescem, os hipotálamos minguam"). Até mesmo a hesitação em soar "jovem" apelando à tecnologia está lá: "não, Autotune não basta para fazer o canto andar / pelos caminhos que levam à grande beleza" (em "Autotune Auterótico").

A primeira música de trabalho, a coloquial "Neguinho", tem elementos que a candidatam a hit, mas quem vai querer vestir a carapuça de versos como "neguinho compra três TVs de plasma, um carro, um GPS e acha que é feliz"? Espertamente, a letra foge do discurso hipócrita ao revelar-se autocrítica ("neguinho que eu falo é nóis"). Perto do fim, um funk carioca torto, "Miami Maculelê", convidando justiceiros à dança ("São Dimas, Robin Hood e o Anjo 45") e atestando uma disposição de ousar que parecia extinta em Gal. O disco termina com "Segunda", a faixa mais ortodoxa, quase épica, como que para lembrar que, sim, é a mesma Gal de sempre - só que não.

Um disco lindo de tão troncho. Em tempos de lançamentos independentes pipocando diariamente na internet, não dá pra dizer que inaugura uma tendência, mas certamente recoloca Gal no mapa. Meus ouvidos, deliciados com a novidade, agradecem.

04/03/2012

Billi Pig

Comente e concorra a um exemplar de Daytripper! Sorteio em 28/04/12.


Billi Pig é uma comédia nacional lotada de boas intenções (entre elas, continuar dando fôlego ao surgimento de um "cinema de gênero" nacional mais cosmopolita, que se afaste da já cansada estética favela/caatinga), mas, infelizmente, estragada pelo ritmo irregular, pelo excesso de coadjuvantes inúteis e pelas soluções capengas e absurdas aplicadas a problemas interessantes.

O filme de José Eduardo Belmonte (de Se Nada Mais Der Certo) mostra o inferno astral de Wanderley (Selton Mello): ele é um vendedor de seguros falido e está tendo problemas em manter satisfeita a esposa aspirante a atriz, Marivalda (Grazielli Massafera). Perto de sua casa, mora o falso padre Roberval (Milton Gonçalves), que vive dando pequenos golpes e tem um romance perigoso com uma jovem vizinha. Paralelamente, a filha do traficante Seu Boca (Otávio Müller) leva um tiro durante um baile funk e fica entre a vida e a morte.

A tragédia de Seu Boca é o catalisador da união entre Wanderley e Roberval. Com a filha desenganada pelos médicos, ele apela para o pretensamente milagreiro padre e seus "assistentes" Wanderley e Marivalda. Por uma indecente quantia e diversos outros privilégios, espera nada menos que um milagre que traga sua filha de volta do coma. 

A operação do tal milagre é o principal fio condutor de Billi Pig, rendendo algumas boas piadas, mas é constantemente interrompido para dar atenção a um grupo de coadjuvantes absolutamente dispensáveis, com especial destaque negativo para os personagens de Preta Gil e Milhem Cortaz. Durante um teste de atuação de Marivalda, a bancada formada por Cassia Kiss, Sandra Pera e Monique Lafond solta uma piada desagradável e desnecessária com baianos. A única coadjuvante digna de nota é Andrea Neves, a abusada secretária Beijoca.

Por outro lado, o trio central está muito bem. Não é que Grazielli seja uma superatriz, mas ela sempre defende seus personagens com muita graça e Marivalda não é exceção. O Wanderley de Selton Mello parece cansado demais da vida para ter o tutano de arquitetar um grande golpe, mas, ainda assim, funciona. A grande virtude do filme, porém, se chama Milton Gonçalves. Sua interpretação sobressai e seu Padre Roberval é o único personagem que tem um passado. Isto o torna mais crível que os demais, apesar das lambanças que o roteiro apronta com ele.

Sim, porque embora tenha uma trama que, por si só, poderia dar margem a situações interessantes e divertidas, Billi Pig apela ao sobrenatural (na subitamente real mediunidade de Padre Roberval) ou ao trash puro e simples (no porco de brinquedo que passa a falar com Marivalda, com uma voz irritante, conselhos de comadre fofoqueira e influência zero nos resultados do filme). Pior: se antes só Marivalda via o porco falar (sacada legal sobre a insanidade de sua obsessão pelo sucesso), logo Wanderley também o descobre "vivo" e, ao final do filme, lá está o porco, todo à vontade, conversando entre os personagens. Entrei num filme da Xuxa e não percebi?

Louvado o esforço em ser diferente e em não parecer um mero episódio estendido de algum seriado da Globo, é preciso dar a Billi Pig o valor que lhe cabe e que, infelizmente, é muito pouco. Num momento em que uma lei pretende obrigar os canais por assinatura a incluir cada vez mais produção artística brasileira em sua programação, é de pensar se alguém vai querer pagar tanto dinheiro por tão pouca diversão. Minha sorte foi pagar meia.