28/04/2012

Resultado da Promoção "Daytripper na sua estante"!


Quando eu faço uma promoção aqui no blog e decido presentear um leitor (até aqui, com itens bastante desejados pelos fãs da Nona Arte, os quadrinhos), imagino que muita gente fica se perguntando se eu rasgo dinheiro, se estou ganhando algo em troca ou se estou, simplesmente, sendo "bonzinho".

A primeira hipótese está completamente descartada, já que não sou louco nem rico. Quer dizer, ainda não sou rico, mas garanto a vocês que meu gesto não contribuiria em nada para meu enriquecimento, o que já afasta a segunda possibilidade. Sobra, então, a terceira hipótese, mas eu entendo "bonzinho" como um dos piores insultos que uma pessoa pode proferir à outra. "Bonzinho" é aquele cara que se anula, que some na paisagem, em benefício do outro que mal o percebe.

Nada mais longe da verdade. Eu quero ser importante pra você e meu presente é a garantia de que você não há de me esquecer tão cedo. Só que eu não o faço na intenção de cobrar amizade, coisa que, em si, já é uma contradição. Muito menos desejo manter você refém de qualquer senso de dever para comigo. O presente é seu, simples assim. Goste do meu blog ou não, goste de mim ou não. Seu. (mas é claro que vai ser mais legal se você continuar lendo meu blog, né?)

Minha recompensa é saber que posso ter formado um novo leitor dessa arte ainda incompreendida e vista como coisa de criança para boa parte da população. Sim, quadrinhos são coisa de criança, mas não só delas. Adolescentes podem curti-los. Jovens adultos, também. Coroas estão liberados para curtir quadrinhos, numa boa. É uma arte incrivelmente democrática e, de forma semelhante ao que acontece com a música, pode trazer alívio para momentos difíceis.

Sendo assim, é com muito gosto que anuncio o nome do feliz ganhador de uma edição cartonada de Daytripper. Melhor dizendo, da ganhadora: concorrendo com quatro chances, Maria Gabi, uma ex-aluna minha que adora desenhar e ouvir rock (logo, só podia ser gente fina) terá na obra de Fábio Moon e Gabriel Bá um excelente referencial de texto e arte. Uma senhora porta de entrada no reino das HQs.

Parabéns, então, à ganhadora! Meus sinceros agradecimentos a todos que contribuíram com seus comentários durante o período da promoção. Sigam comigo. Nem sempre rola presente, mas a amizade é garantida e sincera. Até a próxima!

Concorreram: Alexandre Melo (6 chances), Do Vale (5 chances), Maria Gabi (4 chances), Sol numa Caixa (1 chance), João Maurício (1 chance), Dulcelino Neto (5 chances), @felipebaraujo (7 chances), Vinicius Marinho (1 chance), Caesius Maximus (1 chance), Gerlande Diogo (7 chances), Eduardo (1 chance), Lucas Andrade (2 chances), André B. (1 chance), Paranoid Android (1 chance), Gustavo (1 chance), Emanuela Cardoso (1 chance), Alex (1 chance), Carol Seixas (1 chance), Rousy Carla (2 chances), Lucas Lobo (1 chance), The Messiah (1 chance), Jorge (1 chance), Mel (1 chance), Elias (1 chance) e Rafael Alvarenga (1 chance).


27/04/2012

Os Vingadores


A essa altura, deve haver pouco que eu possa dizer sobre Os Vingadores que você ainda não tenha lido ou ouvido. Acredite, porém, que ele é uma legítima comprovação da máxima "uma imagem vale por mil palavras". Você TEM que ver este filme - e, como um favor a si mesmo, desista da ideia de ajudar àquele seu chapa que vende DVD pirata, tire o escorpião do bolso e vá vê-lo no cinema.

Os Vingadores é o ápice do ambicioso e paciente projeto dos Marvel Studios que teve início em 2008, com Homem de Ferro. A aparição de Nick Fury na cena pós-créditos deu a primeira pista da intenção de reunir Os Heróis Mais Poderosos da Terra em um único filme. De lá para cá, além de um segundo filme do Homem de Ferro (apresentando a Viúva Negra), tivemos, ainda, um novo Hulk (com Edward Norton no lugar de Eric Bana), Thor (trazendo o Gavião Arqueiro) e Capitão América - O Primeiro Vingador.

Com a formação pretendida devidamente apresentada, a Marvel teve um insight de mestre ao entregar a direção do filme a Joss Whedon. Antes mais conhecido como o criador de "Buffy, a Caça-Vampiros" e com experiência cinematográfica mínima (seu único longa foi Serenity, de 2005, um fiasco de bilheteria), Whedon ganhou uma moral imensa na Marvel ao escrever a série Astonishing X-Men, entre 2004 e 2005. Foram dois anos de diálogos primorosos, desafios grandiosos e momentos emocionantes que entraram, sem escalas, para o panteão das melhores fases dos mutantes nas HQs.

Quem leu, sabe: Joss Whedon sabe como poucos dar a cada personagem uma função na história e uma chance de brilhar. Não há personagem ou diálogo supérfluos - todos têm sua importância nos eventos (e saber disso serviu para tranquilizar os fãs temerosos de que a Viúva e o Gavião fossem "sumir" no meio da pancadaria dos grandões).

Para nossa delícia, tudo que foi prometido ao longo de quatro anos é gloriosamente cumprido. Os heróis estão reconhecíveis para qualquer um que saiba o mínimo sobre eles: o Capitão América é o líder natural, a Viúva Negra é linda e letal e o Hulk... o Hulk esmaga! Os atores estão completamente à vontade em seus papéis, com previsível destaque para Robert Downey Jr. como Tony Stark, mas, não se engane: você nem vai lembrar de Edward Norton depois de ver Mark Ruffalo como Banner/Hulk. 

Os efeitos especiais são competentes e as cenas de batalha crescem em grandiosidade, com a seguinte sempre deixando a anterior no chinelo. Apesar disso, as "pausas dramáticas" que faz jamais resvalam em tédio, servindo para o público tomar fôlego e melhor sorver as sutilezas da história.

Ignorando os clamores de uma parcela do público por "realismo", com heróis mais sombrios e impiedosos, em Os Vingadores mal se vê sangue, embora muita gente morra, inclusive um personagem bastante querido. O vilão é odioso e Tom Hiddleston é um Loki absolutamente convincente, oscilando entre a pretensão e a covardia peculiares ao personagem. A invasão dos chitauri (aliens surgidos na série dos Supremos, uma espécie de "Vingadores Alternativos") leva o caos a Nova York e nela temos momentos de tirar o fôlego (sugiro especial atenção ao confronto entre Hulk e Loki).

No meio de tudo isso, há muito humor. Sim, Joss Whedon é tão hábil no que faz que consegue a proeza de provocar gargalhadas em meio à ação estonteante (e isso não tem nada a ver, por exemplo, com o que se vê nos filmes de Michael Bay, coalhados de personagens cuja única função é fazer graça advinda da estupidez).

Os Vingadores divide com Homem de Ferro e X-Men: Primeira Classe o primeiro lugar entre os melhores filmes já feitos com personagens da Marvel. São os três que melhor equilibram os aspectos drama, ação e humor e saciam tanto ao fã de longa data que faz questão de coerência mínima com o que leu nos quadrinhos, quanto ao neófito interessado apenas em excelente cinema. Um novo e merecidíssimo triunfo dos Marvel Studios e um desafio enorme para a DC/Warner: provar que consegue fazer o mesmo com a Liga da Justiça. É preciso começar tudo do zero (já que o Batman de Christopher Nolan não se encaixa e o Lanterna Verde de Martin Campbell é melhor que se esqueça), mas a Marvel mostrou que dá. A sorte está lançada.

PS: a semente de uma continuação é plantada na já tradicional cena pós-créditos e vai deixar velhos leitores babando de ansiedade!

02/04/2012

Madonna - MDNA

Todo novo lançamento de Madonna é um acontecimento. Com MDNA, não foi diferente: o novo álbum foi precedido por um elogiado e grandioso espetáculo no intervalo da final do SuperBowl, que provou, mais uma vez, o que todo mundo já sabe desde sempre: novas divas vão e vêm o tempo inteiro, mas, trinta anos depois, ainda é Madonna quem dá as cartas. Quanto mais pensam que ela ficou irrelevante, mais ela prova que ainda tem muito gás pra queimar. Conforme-se: ela só descerá morta do topo do Olimpo Pop.

Mesmo vinda de um disco relativamente desastrado, o ultraproduzido (e ultrafake) Hard Candy (2008), Madonna diz a que veio no novo trabalho. Primeira boa providência: livrar-se dos excessos do R&B de gente como Timbaland e Pharrell, seus produtores no álbum anterior. Nada contra os dois, já que produzem sucessos a rodo, mas Madonna não é "mana". Sua praia é outra. Ela é um tipo diferente de biatch. Assim, com William Orbit (do clássico Ray of Light) de volta à produção (junto com Benny Benassi e outros nomes de ponta na música eletrônica), em lugar de beats quebrados e percussivos, a opção geral foi pelo bate-estaca que há de fazer de MDNA uma febre nos nightclubs mundo afora.

O disco abre com "Girl Gone Wild", cujo vídeo mira no sempre fiel público gay. Muita gente há de enxergar pequenas semelhanças com o clipe de "Lay It On Me", de Kelly Rowland, exceto pelo abismo entre a macheza (será?) dos dançarinos nos dois vídeos. Musicalmente, a faixa não faz muito pela carreira de Madonna. É divertida, mas absolutamente ordinária.

A segunda faixa, a monocórdica "Gang Bang", é mais interessante. "Vagaba maluca, morcego do inferno, peixe fora d'água" são algumas das definições que ela faz de si. "Turn Up the Radio" é um hino festeiro na tradição de "Holiday" e mostra que Madonna funciona muito melhor na escola clássica de pop melódico na linha 80's. "Give Me All Your Luvin'", o primeiro single, traz as desbocadas Nicki Minaj e M.I.A. como convidadas. É bacana, mas seu coro de cheerleaders enche o saco um pouco.

Em "Some Girls", ela volta a desancar rivais: "Algumas garotas não são como eu / Nunca quero ser como certas garotas". No outro dueto com Nicki Minaj, "I Don't Give A", minha impressão se confirmou: Madonna, você não é negona. Desista disso. A tradicional cota de faixas meia-boca é cumprida com coisas esquecíveis como "I'm Addicted" e "Love Spent".

"Masterpiece", da trilha do seu filme W.E., só deve ter entrado no disco pela ótima receptividade que obteve, já que destoa completamente das faixas restantes - e isso é um elogio. Deve ser uma das melhores faixas que Madonna escreveu nos últimos 15 anos. Outra faixa atípica, "Falling Free", encerra de modo inesperado (sem batidas, apenas cordas e sintetizadores suaves) a edição simples do CD.

A opção pela edição dupla é plenamente justificada por, pelo menos, duas das cinco faixas do segundo disco. "Beautiful Killer" e "I Fucked Up" são um par de joias pop que enriquecem a já opulenta coleção de Madonna. A primeira é dançante e sensual. A segunda é um pedido de desculpas ao namorado esculachado, cheio de frases como "eu estraguei tudo / cometi um erro / ninguém faz isso melhor que eu". Completam o disquinho a simplória "B-Day Song", com M.I.A., a chatinha "Best Friend" e um remix de LMFAO para "Give Me All Your Luvin'".

Candidatas a "nova Madonna" surgem todo ano e algumas já estão aí há tempo mais do que suficiente para mostrar a que vieram, mas o fato é que, mesmo não estando entre seus melhores discos, MDNA ajuda a manter Madonna no trono de onde dificilmente será removida. Você pode achá-la velha, estar de saco cheio de seus namoros e casamentos breves como relâmpagos, odiá-la porque ela aplica toneladas de Photoshop pra esconder rugas e veias nas fotos ou porque não deixa sua nova princesinha-do-pop-sem-graça-da-semana virar rainha, mas não pode negar que existe uma boa razão para ela estar aí há décadas: ela entende do seu ofício. Às outras, resta sentar-se nos degraus abaixo e aprender.

Tá na hora da minha novela!


Sou noveleiro assumido e desavergonhado. Só não assisto mais porque meu trabalho é, em grande parte, noturno. Há tempos não sei o que é acompanhar uma novela das seis ou das sete. A única que me resta é a novela das nove (nova denominação oficial da clássica "novela das oito" da Globo, o chamado horário nobre dos folhetins, onde se concentram as obras mais marcantes).

Juro que não entendo a perseguição de certas pessoas à novela brasileira. Na minha opinião, ninguém faz novelas melhor do que nós. Muitas dessas pessoas se dedicam a acompanhar séries americanas enfadonhas e enroladas, ou sitcoms sem qualquer graça, achando isso o máximo. "Como é que você perde tempo com isso? Vai ler um livro!", há quem diga. Ora, do mesmo jeito que existe livro bom e livro chato, existe novela boa e novela chata. Quando é chata, a gente larga mão e vai fazer outra coisa. Essa patrulha do lazer alheio é uma coisa muito antiquada e muito besta, viu? Hum!!!

Obviamente, eu sei que existem produções da TV americana muito superiores às novelas brasileiras, coisas tão aparentadas do cinema (como Roma, The Walking Dead ou Mad Men) que fica difícil distinguí-las, tamanho o esmero da produção e da pesquisa de época. Aqui, apesar do orçamento infinitamente mais modesto e de eventuais lambanças históricas e dramáticas, consegue-se um saldo bastante positivo. E que se diga: temos atores e atrizes muito bons e vê-los atuar é sempre um prazer.

Tome como exemplo a novela das nove, Avenida Brasil.



Vários erros de pesquisa foram apontados nos primeiros capítulos, como a presença de automóveis e eletrônicos incompatíveis com o 1989 em que se passa a primeira fase da trama de João Emanuel Carneiro (autor de A Favorita). É legítimo cobrar da Rede Globo mais capricho com certos detalhes, mas o quanto isso é realmente importante, diante dos fatos que pesam em favor da novela?

Primeiro, a boa expectativa por um novo trabalho de João Emanuel Carneiro. Com A Favorita, ele mostrou que dá pra fazer uma boa novela com elenco enxuto. Loucos como Manoel Carlos creem que precisam inventar mais de 100 personagens para contar uma história que se resolveria com menos de 50. Além disso, depois de confundir o espectador (alguns diriam que ele se atrapalhou todo, mesmo) com a dualidade de caráter de Donatela (Cláudia Raia) e Flora (Patrícia Pillar), a segunda acabou tornando-se uma das vilãs mais formidáveis que já vimos numa novela.

Segundo, temos uma mudança de foco radical: saem os personagens caricatos e esquemáticos da Fina Estampa de Aguinaldo Silva (além de sua irritante obsessão pelo auto-elogio) e entra um tom mais realista e sombrio, enriquecido pela fotografia em película de cinema. Saem as perseguições e armadilhas dignas de desenho do Scooby-Doo, entram golpes verossímeis com consequências desastrosas (sim, novela é entretenimento e já existe muita maldade no mundo real, mas Fina Estampa, em certos momentos, era um insulto à inteligência). 

Avenida Brasil deve investir pesado no suspense e dar a Adriana Esteves uma chance de brilhar que ela dificilmente perderá. Pelo que se viu nos primeiros capítulos, e se controlar os tiques dos muitos personagens cômicos que já interpretou, vai ser daquelas vilãs cínicas e espumantes que o povo ama odiar e comentar. Sua falsidade ao consolar o marido (Tony Ramos, em participação breve, mas de tirar o chapéu) contra o qual havia armado um golpe, sem saber que ele estava a par de tudo, foi de revirar o estômago. Ao fim da primeira semana, ela já conseguiu acabar, também, com o noivado do homem que atropelou seu marido sem querer. Essa vai ser das boas! (boas?)

Outras boas surpresas: Heloísa Perissé livre dos exageros e da irritante voz fanha de seus habituais personagens cômicos (ela é ótima, mas insiste demais em certos tiques); a sempre simpática presença de Fabíula Nascimento, muito mais afeita ao cinema que à TV; a menina Mel Maia, como Rita (a mocinha da história, papel que será de Débora Falabella na fase adulta), tão pequena em tamanho e já tão grande em talento. A cena em que ela é abandonada no impressionante lixão cenográfico, seja pelo aspecto dramático ou pela crítica social, mereceria ser tratada em um artigo à parte, mas, por enquanto, me atenho ao que senti: foi de partir o coração.

Certo, a novela tem Alexandre Borges repetindo o eterno papel de mulherengo incorrigível, mas quem vai dizer que ele não faz isso muito bem? Tem Carolina Ferraz fazendo mais um papel de ricaça, mas quem mandou ela nascer com cara de ricaça? Tem o desempenho oscilante de Murilo Benício, mas vai que a gente se surpreende, né?

Boas razões para assistir Avenida Brasil não faltam, como se vê. O texto de João Emanuel Carneiro, a menos que sofra interferências ou pedidos da alta cúpula global para encher linguiça, dá o devido peso e importância a tudo que dizem e fazem os personagens - o que deve tornar a perda de um capítulo um pesadelo - e a emissora parece determinada a reduzir a duração de suas novelas, dos habituais 8 a 9 meses de exibição, para cerca de 6 meses (já é assim, por exemplo, com o horário das seis da tarde, em que o sucesso de crítica e público A Vida da Gente teve cerca de 120 capítulos). 

Ou estou muito enganado, ou grandes emoções me aguardam de segunda a sábado, ao final do expediente.

01/04/2012

Maria Bethânia - Oásis de Bethânia


Um novo trabalho de Maria Bethânia é sempre aguardado com muita ansiedade. O público de "Dona Maria" é fidelíssimo e contribui para isso o fato de ela ser absurdamente criteriosa em seu trabalho, especialmente de 2001 em diante, quando foi "convidada a sair" do universo das gravadoras multinacionais e obteve liberdade artística praticamente incondicional na então modesta Biscoito Fino. De lá pra cá, os anos se alternam entre um lançamento de estúdio (às vezes, dois, como Mar de Sophia e Pirata em 2006, e Encanteria e Tua, em 2009) e outro ao vivo, logo em seguida.

Ao contrário de Gal e Caetano, que sempre gostaram de mostrar-se antenados ao que rola no mundo em termos musicais, sociais e políticos, Maria Bethânia empenhou-se na construção de uma discografia de formato atemporal, justamente por não prender-se a modismos da produção ou temas passageiros. Bethânia trata, basicamente, de dois temas em suas canções: o amor (em suas variantes mais extremas de doçura e amargor) e a fé (no candomblé e no catolicismo, ou num modelo que abarca ambos). A obra de Bethânia não acompanha movimentos, nem os provoca.

O ano passado não foi fácil para a cantora. Primeiro, ela se viu envolvida numa polêmica relacionada ao uso de R$ 1,3 milhões, que seriam captados pela Lei Rouanet de Incentivo à Cultura, para a criação de um blog de vídeos em que declamaria poesias. Sempre tão avessa ao aspecto mais circense da fama, ao ter as contas de seus produtores contestadas, se viu agredida e debochada na imprensa e nas redes sociais (sobre o episódio, vale a pena ler uma recente entrevista em que ela dá sua versão). Em setembro, ela desistiu oficialmente do projeto. No fim de outubro, Bethânia perdeu a irmã mais velha, Nicinha, que era sua assistente particular durante as turnês.

Como bem observado por um amigo meu, pode vir daí, da aridez de alma que restou com a partida da irmã amada (e não apenas de um trecho de sua autoria em "Carta de Amor"), que venha o título do novo disco, Oásis de Bethânia. É um trabalho econômico, de apenas 10 faixas, mas que sintetiza a senhora riqueza da nossa música nas canções cuidadosamente escolhidas por Bethânia, entre as quais consta uma belíssima inédita de Djavan, "Vive" e um tema de Chico Buarque de 1987, "O Velho Francisco". A produção foi dividida em um diferente colaborador por faixa: tem o próprio Djavan, Jorge Helder, Lenine e Jaime Alem, entre outros.

Mais conhecido por seus sambas de roda na tradição do Recôncavo, Roque Ferreira contribui com três canções de amor: "Casablanca", faixa jazzy e elegante, levada somente em piano e sax; a linda "Fado", em que brilha o violão de Jaime Alem; e a intensa "Barulho" ("eu só sei amar direito, nasci com esse defeito no coração"). "Calmaria", de Jota Velloso, mistura-se ao poema "Não Sei Quantas Almas Tenho", de Bernardo Soares, vulgo Fernando Pessoa. 



Compartilhando com o irmão Caetano da opinião de que Orlando Silva foi o maior cantor que o Brasil já teve, ela escolheu gravar "Lágrima" como homenagem. Do repertório de Dalva de Oliveira, contrapartida feminina do mesmo status, veio "Calúnia", em que a diva dava um chega-pra-lá, sucinto e cheio de classe, em Herivelto Martins.

Nada se compara, porém, à força de "Carta de Amor", mescla de composição de Paulo César Pinheiro com texto da própria cantora. Em uma arrepiante epopéia com sete minutos de fortíssimas imagens sonoras, Bethânia, voz em primeiro plano, faz um compêndio de suas crenças e manda recados aos seus detratores: "Não mexe comigo, que eu não ando só / (...) eu não provo do teu fel / eu não piso no teu chão / (...) você está tão mirrado, que nem o Diabo te ambiciona / (...) chorando, eu refaço as fontes que você secou". Promessa de grande momento na turnê vindoura, a faixa é daquelas que não se ouve e sai "impune". É impossível ficar indiferente a ela. 

Outra criação de Pinheiro, em parceria com Rafael Rabelo, "Salmo", encerra o disco. Bonitas firulas de André Mehmari ao piano realçam a beleza de versos como "Diante da vida delirante / ai de quem, vacilante / repousa e não ousa viver". 

É bom perceber que cheguei a um momento da vida em que escuto Maria Bethânia com o coração pronto e os ouvidos certos: sem a pressão de "dar valor ao que é nosso" independente da qualidade e sem medo de ser visto como "traidor do movimento" por quem divide comigo o gosto pelo rock/pop gringo. Na vida, é preciso deixar-se encantar pelo que é belo - e o belo é abundante na obra de Dona Maria. É disso que fala o verso de "Salmo", logo acima. Ele diz muito sobre Maria Bethânia, uma mulher que, para nossa sorte, só sabe amar direito e viver por inteiro. Bendita a água deste oásis.