27/11/2012

Por Onde Andei, parte 2



Goiânia


Em fins de 1989, minha irmã Simone se casou com um goiano, José Geraldo, e com ele foi morar em Goiânia. 1990 seria o último ano de meu segundo grau e eles me chamaram para tentar a sorte por lá. Quando cheguei, Simone estava grávida de seu primeiro filho. Eu já conhecia Goiânia de viagens anteriores, nas quais conheci boa parte da família de meu cunhado. Para seus sobrinhos, eu logo virei um "primo" e eles, uma segunda família.

Já faz uns bons anos que não ando por lá, mas Goiânia sempre foi uma cidade que adorei. Naquela época, então, com o crescimento urbano dentro de limites suportáveis, sem tantos carros nas ruas e ainda sofrendo um pouco com a má fama trazida pelo acidente com cápsulas de césio 137, ocorrido três anos antes, Goiânia tinha um sistema de transporte urbano confiável, mesmo sem qualquer luxo. Enormes avenidas (chamadas "eixos") cortam a cidade em várias direções, facilitando as viagens mais longas dos bairros ao centro. Eu morava no Setor Oeste e dali, da Avenida T-7, se podia pegar ônibus para praticamente qualquer canto da cidade. Arborizada e com canteiros caprichadíssimos, a cidade era de encher os olhos.

O colégio onde eu cursaria meu 3º ano colegial, o Carlos Chagas, ficava no Setor Universitário. Naquele tempo, eu não me tocava para a coisa, mas, lembrando hoje, é bem fácil de perceber: o Carlos Chagas era um tremendo reduto de filhinhos de papai. Quando me vêm à cabeça a imagem e as atitudes de alguns colegas, eu entendo exatamente porque era difícil me aproximar e fazer amizades com eles. Meu sotaque era praticamente um crachá de nordestino, então, na cabeça de gente de mente estreita, ser visto comigo talvez fosse "queimação". Um deles usava a camisa de uma coisa chamada "Comando Anti-Gay", pra você ter noção da jequice. Eu não me preocupava tanto com isso, na verdade, e fiz alguns bons amigos naquele terceiro ano. Pena que muitos deles, com o tempo, sumiram de tal forma que nem o Facebook me ajuda a encontrá-los.

Foi um ano escolar curioso. Nesse último ano do segundo grau, eu finalmente tive um professor de inglês que realmente dominava o idioma (antes disso, eu costumava botar meus professores no bolso). Chamava-se Nelson, um careca de voz potente e sorriso fácil. Eu tinha um bom time de professores, no geral, e me saía particularmente bem em Português, Mecânica, Termologia, Química, Biologia e, claro, Inglês. Lembro que gostava da professora de Literatura (Fátima) e do professor de Matemática (Wellington), mesmo que não me saísse especialmente bem nessas matérias. 


Dois casos curiosos desse tempo não me saem da memória.

O primeiro diz respeito a um professor de quem eu não gostava muito. Todo mundo o achava o máximo, mas eu não me entendia com Macarrão. Ele tinha uma ideia, digamos, "peculiar" sobre o tratamento que deveria dispensar aos alunos. Jamais aconteceu qualquer coisa comigo, a gente mal se olhava no olho, mas, certa vez, uma aluna levantou-se com visível desconforto e sussurrou-lhe que precisava ir ao banheiro com certa urgência. Em resposta, ele bradou, a plenos pulmões: "Vai, minha filha, soltar seu barro!" A sala veio abaixo numa gargalhada, mas o professor virou para mim um eterno exemplo negativo.

O segundo diz respeito a uma colega que era dona de olhos verdes lindos. Ela vinha diariamente de uma cidade próxima e chamava atenção. Tinha aquele jeito de boa moça e não era muito alta, nem tinha corpão, mas o rosto era uma coisa linda, a pele branquinha, os cabelos entre o castanho e o ruivo, um bibelozinho. Porém, amigo... PORÉM... Algo mais chamava atenção: o cheiro que entrava na sala junto com ela. Melhor dizendo, a nhaca! Era um cecê de fazer coçar o nariz e amargar a língua. Esta deve ter sido a mais clara lição que já tive sobre como beleza não é tudo nesta vida. Higiene conta, também.

O dia 1º de Julho de 1990 ficou marcado em minha vida como o cenário simultâneo de uma das maiores alegrias e da maior tristeza que já experimentei.

Nessa data, por volta de meio-dia, nasceu Gabriel, meu primeiro sobrinho. Entre os vários telefonemas feitos naquela tarde para a Bahia, de onde nossa família pedia notícias constantemente, eu disse a Malcon que ele tinha que vir a Goiânia, pois ele gostaria demais da cidade e eu tinha muita coisa nova e boa de música pra mostrar. "Tem que vir conhecer seu sobrinho logo, titio", brinquei.

No começo da noite, atendo a um telefonema do meu pai e ele diz que tem uma notícia "meio triste" pra dar. Pergunto do que se trata e ele pede para falar com meu cunhado antes. Depois que conversam, ele desliga. Faço menção de ligar de volta, mas meu cunhado me impede e larga a bomba: Malcon havia acabado de falecer. Aneurisma fulminante, dois meses antes de completar 20 anos.

Não bastasse a dor imensa da perda em si e de estar longe de pais e irmãos nesta hora, eu ainda tinha um trabalho mais difícil ainda pela frente: esconder de Simone a má notícia, pelo menos, até que ela tivesse alta da maternidade, poucos dias depois. Quando ela finalmente soube, éramos o único amparo um do outro. Eu só pude ir a Ibotirama uma semana depois.

Depois disso, o ano passou meio que no automático, pra mim. A escola perdeu a graça e eu relaxei terrivelmente nos estudos, fazendo as primeiras recuperações da minha vida (mas passei). A única coisa que ainda tinha graça era cuidar de Gabriel. Jamais vou esquecer de colocá-lo para dormir ao som de "Cymbaline", do Pink Floyd, a única música que parecia acalmá-lo. Garoto de bons ouvidos, desde muito cedo! =)

Minha história em Goiânia chegou ao fim no começo de 1991. Tendo passado apenas na primeira das duas fases do vestibular (para Engenharia Civil) da UFG, decidi que queria ficar perto de minha família e ajudá-los a se recomporem do baque da perda de Malcon. Devo muita gratidão aos seus muitos amigos que, na minha volta a Ibotirama, passaram a ser meus, também, por me ajudarem a carregar o peso que a ausência dele causava.


Salvador


Como eu disse na primeira parte desta série, foi em Ibotirama que tive meu primeiro emprego formal. Trabalhava como assistente administrativo de um posto de gasolina às margens da BR-242. Certa vez, fui convidado a assumir a gerência de uma unidade em Tanquinho de Lençóis, cobrindo as férias do gerente titular. Como eu trabalhei direitinho, meu nome foi logo lembrado quando abriu-se uma vaga para a gerência da unidade do bairro de Pirajá, em Salvador.

Eu estava duplamente feliz: primeiro, por estar subindo um degrau dentro da empresa; segundo, por estar indo morar na cidade que havia finalmente entrado na minha rota de viagens. Embora esteja a apenas 100 km de Feira de Santana, eu nunca havia pensado em simplesmente passear em Salvador, até fazer parte dessa rede de postos.

Tendo feito amizade imediata com algumas figuras hilárias que trabalhavam em outras unidades, foi relativamente fácil conseguir um lugar para morar, após uma semana em hotel. A Cidade Nova ainda era um bairro relativamente tranquilo naquele 1996. Estabelecido, comecei a trabalhar, mas, caramba... Que diferença tremenda existe entre trabalhar em cidades minúsculas do interior e na capital!

Primeiro, houve o discreto aviso do gerente que deixava a vaga: "Estou saindo porque não aguento mais". Isso, ninguém tinha me falado e eu, sempre meio desligado, não me preocupei em perguntar. Logo eu saberia por quê: a área era farta em assaltos, boa parte dos funcionários não eram pessoas em quem se podia confiar e o tráfego intenso de caminhões era fonte constante de risco. A comunicação com a central distribuidora nem sempre era das melhores. Um problema com a coleta de lixo causou dias de transtorno. Um funcionário que eu havia contratado menos de uma semana antes quase morreu de uma úlcera gástrica e precisou ser "encostado".

Compreensivelmente, minha cabeça não demoraria a rolar. Assumo minha parcela de culpa nos eventos: não fui suficientemente preparado para a função que assumi e talvez tenha confiado demais em quem não devia. Confiei demais na honestidade e boa vontade de subalternos e na prontidão e cooperação de superiores. Me estrepei nas duas pontas dessa corda. Três meses depois, já estava de malas prontas para voltar a Ibotirama, só que desligado da empresa. Um fracasso que mexeu, durante muito tempo, com minha auto-estima.


Se é verdade que existe uma compensação para tudo nesta vida, com bons e maus momentos se equilibrando constantemente, fica fácil entender por que eu me diverti TANTO, em tão pouco tempo, nestes poucos meses vivendo em Salvador. A cidade era bem mais convidativa do que hoje e os amigos que fiz ainda são pessoas de altíssima estima para mim. A gente se fala pouco, se vê menos ainda, mas são amigos que jamais perderão seu lugar no meu coração, não importa o tempo que passe. Entre churrascos na casa de um e de outro, domingos de praia, cervejadas na barraca de Bia (no final de linha da Cidade Nova) e pagodes na Codeba, os meses de maio a agosto de 1996 são um período que nunca esquecerei. Para o bem e para o mal.

Hoje, Salvador é um destino frequente, mas a cidade perdeu boa parte do seu encanto. Está perigosa demais, engarrafada demais, cara demais. O prefeito João Henrique realmente trabalhou duro na destruição do ex-segundo destino favorito dos estrangeiros no Brasil. Salvador tem a orla marítima mais feia do país, sem qualquer estrutura que proporcione a nativos e turistas o mínimo de conforto ou beleza visual. Tudo é amador, mangueado, sujo, feio e barulhento. O Pelourinho voltou a ser uma cracolândia baiana, como antes da reforma do começo dos anos 90. A ilegalidade é soberana na cidade e o espaço público não é entendido como "de todos": é entendido como "de ninguém". Respeito é bom e a gente gosta, mas é mercadoria cada vez mais rara.

Com tudo de ruim, entretanto, Salvador ainda tem charme. Não saberia dizer onde ele está, mas está ali, suspenso no ar. Eu me sinto em casa, como se estivesse voltando às minhas raízes (que, entretanto, estão enterradas em Feira). O que nos resta, agora, é esperar que ACM Neto, vencedor no último pleito municipal, tenha condições de fazer a cidade voltar a ser o que era... Ou transformá-la em algo diferente e melhor - porque, sinceramente, é difícil, até doloroso, imaginar que ainda possa piorar.


Breve, na parte 3, dose tripla, com Itumbiara, São Gonçalo e Alagoinhas.

18/11/2012

Grandes Astros Superman


Até o momento, só houve duas séries sob o selo Grandes Astros: uma dedicada a Batman & Robin (por Frank Miller e Jim Lee) e esta do Superman (por Grant Morrison e Frank Quitely).

Frank Miller jogou fora a chance de ter mais um clássico do Batman com sua assinatura. Jim Lee se esforçava, entregando seu melhor trabalho até então, com um dinamismo e capricho invejáveis, que contrastavam com a pasmaceira estática que foi, por exemplo, Pelo Amanhã (a ultra-enfadonha história do Superman escrita por Brian Azzarello). No entanto, a história andava em círculos e, quando Miller, Lee, a DC e os leitores finalmente admitiram que aquilo não ia dar em nada, cancelaram a séria na décima edição, sem um fim.

Grant Morrison, por sua vez, usou suas melhores armas para escrever a história definitiva do Superman: ciência real e além da imaginação, desafios realmente grandiosos, um vilão humanizado ao máximo e uma exacerbação de todas as qualidades que, em 70 anos, fizeram do Último Filho de Krypton um ícone. Isto sem falar da escalação de Frank Quitely, um desenhista de estilo muito particular, longe de ser uma unanimidade, mas que parece ter total sintonia com a escrita de seu amigo Morrison.


Apesar de ter apenas 12 edições, a publicação da série nos EUA durou quase três anos. Frank Quitely é conhecido pelo ritmo lento de trabalho, mas a coisa saiu do controle dessa vez: o intervalo entre as edições 8 e 9 foi de quase um ano! No Brasil, a Panini publicou a primeira edição em janeiro de 2007, um ano após a publicação americana, e a última em dezembro de 2008, apenas um mês depois que terminou lá fora!

Tanta espera valeu a pena. Grant Morrison escreveu uma história em que os mesmos elementos que tornam o Superman intragável para alguns (o irritante bom-mocismo, o micado disfarce de Clark Kent, os poderes praticamente sem limites) são utilizados de forma bastante interessante, num limite entre o cômico e o espetacular, que respeita tudo que já foi feito de bom com o personagem e utilizando elementos introduzidos pelo próprio Morrison, como os Supermen do futuro, vistos na saga DC Um Milhão (1998).

No começo de Grandes Astros Superman, o herói está próximo ao sol, auxiliando em uma pesquisa do astrofísico Leo Quintum, quando um dos tripulantes se revela um agente inflitrado por Lex Luthor. Quintum e sua equipe são salvos da morte pelo Superman, mas o próprio herói acaba descobrindo que está morrendo aos poucos: exposto a níveis críticos de radiação solar, o corpo do Superman está, literalmente, cometendo lento suicídio. 

Com a iminência da morte, Superman passa a buscar meios de resolver todas as pendências que possa ter, inclusive a de declarar seu amor por Lois Lane e revelar-lhe sua identidade secreta. Além disso, ele terá que realizar doze grandes trabalhos antes de seu fim, revelados pelos seus descendentes do século 853.


A série passeia pelo humor, aventura, ficção científica e romance com eficiência, dando ao incrivelmente poderoso personagem uma humanidade que, ao contrário do que acontece em muitas de suas histórias, não parece um favor aos alquebrados terrestres, sempre em busca de exemplos. Ciente de sua própria mortalidade, mas carregado de energia como jamais esteve, Superman mostra-se poderoso e engenhoso, mas, também, sensível e quase trágico. As coisas parecem irremediavelmente perdidas, por exemplo, em seu exílio no Planeta Bizarro.

Não faltam referências ao legado kryptoniano, ao seu "assassino" Apocalypse (em versão ligeiramente diferente), à sua família terrestre (no sexto capítulo, o Superman conhece a pior das derrotas) e, principalmente, à sua delicada relação de ódio/admiração com Lex Luthor (no quinto capítulo, com texto primoroso, que empata com o de Brian Azzarello como a melhor construção já feita do personagem, na minissérie com seu nome). Embora pareça permitir uma continuação, a verdade é que a série tem um desfecho taxativo, com o herói assumindo um compromisso do qual, por muito tempo, não poderá se desconcentrar.


Esta edição encadernada da Panini tem o formato ligeiramente maior das Edições Definitivas, embora menor do que o formato Absolute original, em cuja edição se baseia. São 306 páginas em papel LWC e capa dura com verniz no título e nos créditos. É um tratamento luxuoso que, embora encareça o produto (R$ 79 é o preço bruto sugerido, mas é possível encontrar descontos generosos e parcelamentos na internet), é digno da história que comporta. 

Dividindo o pódio de melhor história de super-heróis do século 21 com Os Surpreendentes X-Men, de Joss Whedon, Grandes Astros Superman é um clássico instantâneo, provando que o primeiro super-herói da História continua relevante.

16/11/2012

Por Onde Andei, parte 1


Decidi escrever esta série de posts como tributo aos lugares onde vivi, com a intenção de saciar a curiosidade de amigos que nem sempre se sentem à vontade para perguntar, bem como minha própria vontade de relembrar de pessoas, coisas e situações que me fizeram (e fazem) ser quem sou.

A viagem começa agora!


Feira de Santana


Minha cidade natal goza de péssima fama. Dizem por aí que seus habitantes são uns metidos a besta, que falam dela como se fosse uma capital (por exemplo, o cara chega em Feira e, ao explicar que é de alguma cidade menor, ouve: "ah, você é do interior!"). Aliás, há quem reclame de TUDO em Feira: do calor, do frio, do trânsito, do que tem, do que não tem e até da sua própria existência.

Eu nem posso falar muito de Feira. Deixei-a quando tinha apenas 11 anos e o máximo de liberdade de que desfrutava por lá era ir ao centro (aliás, "pra rua") desacompanhado, onde adorava circular pelas lojas, em busca de etiquetas charmosas pra minha coleção (não tem gente que coleciona selos, latas, chaveiros, etc? Eu gostava de colecionar etiquetas!).

Depois que passei a morar em Ibotirama, em novembro de 1984, tentava voltar para pequenos passeios tão constantemente quanto possível, para rever meus amigos de escola e comprar LPs da minha nascente coleção de rock and roll. Várias aquisições preciosas (The Smiths, U2, Pink Floyd...) foram feitas por mim e meu irmão mais velho, Malcon, nessas viagens.

Com o passar do tempo, veio uma melhor adaptação a Ibotirama, as viagens começaram a escassear, mas não tem jeito: meu umbigo está enterrado em Feira de Santana e ela pode ser o lugar mais sem graça do universo pra você, que eu gosto dela, mesmo assim. É, eu sei, lá tem pouco lazer, faz um calor do inferno no verão, um frio da zorra no inverno, tem ladrão pra caramba, mas também tem parentes e uns poucos e selecionados amigos que jamais saíram da minha vida, mesmo quando as distâncias (e que distâncias, amigo!) só não eram maiores que a saudade.

Hoje, apesar da proximidade, eu vou pouco a Feira e, quando o faço, é só pelo prazer de rever essas pessoas tão importantes em minha vida. Quanto a desfrutar do que a cidade oferece... Sorry, Feira. Prefiro Salvador, que é capital de verdade! =P


Ibotirama


Sem meias palavras: eu odiava Ibotirama.

Logo que cheguei lá de mudança, em 07 de novembro de 1984, por várias noites dormi maldizendo a meus pais por conta da súbita saída de Feira de Santana. Imagine sair de uma "capital" para uma cidade que devia ter, na época, pouco mais de 20 mil habitantes, se tanto. Um lugar onde todo mundo parecia e soava como ETs, com seu sotaque e seus modos incrivelmente diversos dos nossos (Aliás, hoje, eu me pergunto de onde veio tamanho choque, uma vez que eu já havia visitado esta e outras cidades da região, durante as viagens com meu pai, em seu tempo de entreposto comercial de lojas de miudezas em Feira).

Minha relutância em aceitar a nova realidade era tamanha, que, mesmo numa cidade tão pequena, levou anos até que muitas pessoas soubessem sequer que eu existia, já que minha vida era da escola pra casa e de casa pra loja de minha mãe (que era em casa), com escala na banca de revistas (onde eu me fartava de Bizz, Set e gibis de super-heróis em formatinho). Imagine como foi adolescer com esse odiozinho ridículo no coração e delírios de uma suposta superioridade de "homo feirensis"! Malcon, ao contrário, logo se enturmou e fez uma galera imensa.

Uma coisa muito boa resultou desse meu comportamento ermitão: eu me agarrei aos meus discos, livros e revistas como a uma tábua de salvação e aprendi inglês sozinho, através de meus maravilhosos LPs. Este conhecimento é de onde tiro meu sustento, nos últimos 14 anos.

Apesar de tudo, meu perfil social arredio não resultou em uma alma de serial killer. Ao contrário, conforme eu baixava a guarda, comecei a fazer alguns amigos, oriundos principalmente da escola (quase sempre, gente mais velha, entre a qual eu me sentia perdidaço com tanta malícia que eu, um ingênuo de dar pena, não dava conta de decifrar) e da turma de meu irmão.



Em 1990, Malcon morreu. História para outro dia.

Com a então recém-adquirida percepção da fugacidade da vida, eu me abri de vez para Ibotirama e nela fiz muitos dos melhores amigos que ainda tenho. A cidade em si mudou pouco nestes quase 30 anos, "mérito" da sequência de administrações desastradas de duas famílias cujo ciclo alternado de poder só se encerrou nas eleições deste ano. A mais popular forma de lazer na cidade continua sendo, claro, "cumê água" (coisa que só aprendi a apreciar já adulto).

O melhor de Ibotirama, felizmente, também é praticamente imutável: o Rio São Francisco agracia seus habitantes e visitantes com um cenário e um por-do-sol de tirar o fôlego, emoldurados pela ponte João Durval Carneiro. 

A cidade acabou sendo palco de acontecimentos importantes da minha vida: o primeiro beijo sem paixão e o primeiro beijo com paixão; o primeiro contato com as drogas (de minha parte, só visual: com enorme tristeza no coração, presenciei amigos fumando maconha, em tempos de muito preconceito e pouco discernimento); o primeiro emprego formal; a primeira conta bancária (e os primeiros enroscos bancários, também!); o primeiro contato com a morte. Ela me viu chegar menino e fez de mim um homem.

Peço perdão se meu relato parecer impessoal, pela falta de nomes reconhecíveis, mas isto, provavelmente, resultaria em desnecessária prolixidade. As experiências vividas em Ibotirama foram tantas e tão intensas que eu poderia cansar de escrever e não teria terminado. Então, encerro aqui este texto com um agradecimento aos meus pais, exatamente pelo mesmo motivo pelo qual eu os odiei (de mentirinha, claro) por um tempo:

- Obrigado, Painho e Mainha, por me levarem para Ibotirama! =)



Breve, na Parte 2: Goiânia e Salvador.

Sobre Lobões e Bundões



Lobão é uma figura cujo nome sempre é visto por aqui. Primeiro, porque gosto dele como músico. Segundo, porque, mesmo não gostando de certas coisas que ele diz, o que Lobão diz jamais passa em brancas nuvens. Ele tem opiniões fortes, exageradas e até implicantes, mas, ao contrário do que se pensa, não o diz para criar polêmica: Lobão é assim. Ele realmente pensa o que diz.

Daí, que eu estava lembrando de uma recente declaração sua, na qual ele desancava Maria Gadu e toda uma leva de novos artistas de MPB - você sabe, gente como Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz, etc. Segundo Lobão, "esta nova geração da MPB é pernóstica e medíocre. Fica tentanto emular a MPB dos anos 60, sendo que naquela época já era uma merda, mas pelo menos era original."

Por favor, não vá ainda para o campo dos comentários detonar Lobão. Vamos conversar mais. 

Eu discordo de Lobão, em parte. Primeiro, porque a música brasileira dos anos 60 era legal. Segundo, porque acho esta uma geração bem superior, por exemplo, àquela que tentou, no início dos anos 00, conquistar seu lugar ao sol mais por força do nome de seus pais (figurões da MPB como Elis Regina, Jair Rodrigues e Wilson Simonal) do que pela qualidade de sua própria obra.

Os "Artistas Reunidos" naufragaram em sua pretensão (e põe pretensão aí) de revolucionar a MPB porque faziam discos para si, não para os ouvintes. Era um tal de vozes pequenas, funk de baixos teores, batida quebrada, ruidinhos eletrônicos, clima etéreo... Tudo muito bem feito e muito chato

Não por coincidência, aquela que desde o começo se assumiu como pop (Luciana Mello) foi justamente a que se deu melhor (embora ela seja aquele tipo de artista simpática que a gente gosta quando vê, mas que não habita o pensamento coletivo de forma consistente, como convém a alguém que se pretenda estrela).

Mão à palmatória, os Artistas Reunidos tinham algumas faixas bem legais, quando consideradas isoladamente. Por exemplo: "Música Romântica" e "Lua Clara", de Wilson Simoninha; "Papo de Psicólogo" e "Você por Perto", de Jair Oliveira; "Voz no Ouvido" e "Tem que Ser Agora", de Pedro Mariano... A lista tende a crescer, mas não muito. Os discos dessa galera eram torturantes de se ouvir inteiros, pela repetição de cacoetes e aquele ar de "sou foda, curve-se" a cada faixa.

Jeneci, Tulipa e outros nomes atuais, pelo menos, entendem que é importante ter canções que se possa cantar junto. Fazem discos agradáveis e conquistaram um sucesso mais do que razoável, num universo em que os "deuses" ainda caminham entre nós, vivos e produtivos. A nova geração da MPB tem méritos. Faz boa música. Faz umas coisas chatas, também, mas eu gosto. Sorry, Lobão.

Por outro lado, eu entendo sua queixa. Esses jovens artistas fazem música "de velho". Apelam a Gal, Bethânia, Milton, Caetano, Chico, Roberto... São apostas seguras - e, sabe, ninguém pode obrigá-los a dar o que Lobão quer deles: muito mais tesão, energia e juventude e muito menos reverência, "inteligência" e "maturidade". Mas, venhamos e convenhamos, já faz alguns anos, está fazendo bastante falta que surja alguém assim.

A geração de Lobão tomou de assalto as paradas com uma linguagem que traduzia muito melhor os anseios de uma juventude que começava a ter um gostinho de liberdade, com a progressiva derrocada da ditadura militar. Havia tesão, havia barulho, havia menos floreio e mais objetividade no discurso, sem que isso significasse pobreza lírica. Os grandes letristas daquela geração (Renato Russo, Herbert Vianna, Cazuza, Arnaldo Antunes, Roger Moreira) foram reconhecidos como tal ainda em seus primeiros trabalhos e eram homens do pop/rock. Seus ocasionais flertes com a chamada brasilidade jamais os impediram de ligar as guitarras no talo.

É isso que Lobão quer: que surja uma geração de jovens músicos que não se envergonhem de sua juventude - e, caramba, no mundo todo o rock é conhecido como a perfeita expressão da juventude, a melhor válvula de escape pra pressão insuportável de ser jovem num mundo de velhos. No Brasil, a juventude perde seu tempo com farsas como os gêneros subtitulados com o famigerado termo "universitário" (que nos faz ter severas dúvidas sobre a qualidade do ensino superior no país).

Grande parte do que se ouve hoje é terrivelmente pobre em termos musicais, as letras costumam ser um atestado de baixa escolaridade e primam pela misoginia, pelo romantismo tatibitate e descompromisso com qualquer coisa que não seja a balada do fim de semana. A ascensão econômica das camadas sociais mais baixas também levou a uma enxurrada de português deficiente, gírias e palavrões que, na cabeça de sociólogos e historiadores deslumbrados, devem ser o "retrato de um povo", "a cara do Brasil" e outros clichês, mas, para mim, são apenas um retrato da falência educacional do país.

Na verdade, eu não fico surpreso. Estes são tempos esquisitos, em que as pessoas não vão a um show por causa do artista no palco. Elas não vão para ver alguém: vão para serem vistas. Quem toca e o que toca é o de menos. Então, por que se preocupar em melhorar a qualidade da música, se quem lota eventos musicais não está nem aí pra isso? A música nesses lugares é mera trilha de fundo pra azaração ou chapação total.

(Eu comecei falando de um assunto e meti outros no meio. Perdão pela impertinência, mas ela foi totalmente pertinente.)

Mas, tenha paciência, Lobão. Talvez essa recusa ao rock tenha a ver com a irritação produzida por (cof, cof, cof) "fenômenos" como o NX Zero e o Restart, que fraudam uma linguagem musical naturalmente subversiva para fazer (essa, sim) a música mais bundona do planeta. A geração do rock 80 foi bonita, talentosa e importante demais para ser ignorada - mais cedo ou mais tarde, alguém, fatalmente, vai ouvi-los e dizer, "Pô, isso é tão legal, vamos fazer algo nessa linha?". Só espero que vivamos para ver esse dia.