22/12/2012

Por Onde Andei, parte 3


Itumbiara


Meus pais se separaram em 1995. No começo de 1996, impelida pelo desejo de uma vida nova longe de meu pai e atraída pelas animadoras notícias de uma amiga que lá tinha ido viver, minha mãe decidiu tentar a sorte em Itumbiara, no sul de Goiás. Logo em seguida, foi a vez de meus irmãos. Em agosto daquele ano, tendo perdido meu emprego em Salvador, foi a minha vez.

Embora o sul goiano seja um eldorado para muita gente, nossa adaptação não foi nada fácil. Primeiro, os negócios em que minha mãe investia simplesmente naufragavam, após um tempo. Com Marcel ainda em idade estudantil, Marcone ainda verde no mercado de trabalho e eu desempregado, as coisas começaram a ficar sinistras. Para não aborrecer ao leitor com detalhes, basta dizer que nunca antes tínhamos passado e nem voltamos a passar uma pindaíba tão grande, a ponto de dormirmos os quatro (e mais um amigo nosso, Pedro Henrique) no único quarto da casa que alugávamos. Privacidade era um sonho.

Mais eis que, em meados de 1997, surgiu uma oportunidade na linha de produção de óleo de soja da Caramuru Alimentos. Pra alguém acostumado a escritórios, talvez "não pegasse bem" trabalhar de uniforme cinza e botinas em um serviço tido como "braçal", mas te digo que foram três meses excelentes, nos quais eu aprendi a jogar o barulhento truco e conquistei bons amigos. Um deles, Rone, me convidaria, alguns anos depois, a ser seu padrinho de casamento.

Com a promessa de um emprego mais vistoso no escritório de webdesign onde Marcone trabalhava, eu acabei pedindo delisgamento da Caramuru, mas a coisa não foi bem e eu me vi desempregado novamente. Foi quando meu pai me chamou para viver com ele por um tempo em Igarité, um vilarejo a meio caminho entre Ibotirama e Barra. Um pedaço esquecido de mundo que ele adotou como lar e onde fiquei até o final de 1998.

No começo de 1999, meu já mais que razoável domínio de inglês me levaria a ingressar na profissão que me sustenta desde então. Paulo Germano, professor egresso do CNA onde Marcone estudava, iria abrir uma franquia da então pequena Wizard em Itumbiara e me contratou com base apenas no que meu irmão falava de mim e numa conversa que tivemos por telefone. Naquele janeiro, eu conheci algumas das pessoas que mais me ajudaram e me valorizaram nesta vida. Espero ter feito por Paulo, Neuza e seus filhos, Matheus e Paula, ao menos metade do que lhes seria justo receber, em retribuição por toda a amizade que me dedicaram.

Acho que é de bom tom agradecer aos meus primeiros alunos pela paciência que tiveram com este professor bastante estressadinho, naquele tempo. Sabe como é, quem nunca comeu mel, quando come se lambuza. É assim quando a gente ganha certo poder, de repente. Comparada à postura cool que adoto hoje, meu rigor para com os alunos (verdade seja dita, temperado com uma doçura e sociabilidade que eu, ex-adolescente recluso, não sei de onde tirei) me conquistou tantos fãs quanto detratores. Havia quem me amasse e quem não quisesse passar nem perto de uma turma minha. Obviamente, muitos destes alunos eram, também, verdadeiros testes à paciência de qualquer Jó, então, acho que ficou tudo elas por elas. Ossos do ofício, seja de professor ou de aluno.

Logo nos primeiros meses como professor, fiz duas das amizades mais interessantes e prazerosas que já tive. Nenhum deles era professor ou aluno da Wizard, e sim do CNA, mas, devido à amizade com Paulo e ao seu amor pela língua britânica, Alexandre e Marcelo estavam sempre por lá. Uma vez que partilhávamos de vários gostos musicais em comum, nossas conversas fluíam noite adentro com uma facilidade tremenda. Éramos presenças constantes, um na casa do outro. Da mesma forma que concordávamos efusivamente, discutíamos acaloradamente quando nossos credos divergiam, principalmente com Alexandre, criatura de opiniões polêmicas. Marcelo era incapaz de levantar a voz, mas sabia encerrar discussões com alguma tirada genial que nos desarmava em risos. Aprendi muito com esses dois e gosto de saber que eles continuam, em essência, as mesmas pessoas.


Em 2001, eu despiroquei e decidi ir pro Rio de Janeiro. Voltei poucos meses depois. Falo mais disso daqui a pouco.

Ao voltar pra Itumbiara, as coisas estavam diferentes. O casal que me havia contratado agora estava separado, Paulo havia deixado a cidade e a administração da escola estava nas mãos de Neuza. Ela era esforçada, mas as coisas não foram muito bem, infelizmente. A franquia trocou de mãos mais uma vez e Izabel Tonetto me manteve em sua equipe até o final de 2004, quando anunciei que desejava voltar para a Bahia.

Itumbiara é uma cidade com cerca de 100 mil habitantes, bastante agradável em sua tranquilidade. Naquele tempo, tinha bem menos opções de lazer do que provavelmente tem hoje. Como toda cidade cheia de agroboys, muito do que chamavam de "diversão" era reunir-se na bonita Avenida Beira Rio e disputar quem tinha o carro com som mais alto tocando a pior música. Para meus ouvidos, esses seis anos em Itumbiara foram um tormento: eu jamais consegui gostar de música sertaneja, um mínimo que fosse. Pra piorar, eles curtiam o axé genérico horroroso made in Santos (Axé Blonde, Tchakabum e por aí vai). Ser baiano me comprava certa simpatia imediata dos locais (ainda mais porque, acredite, naqueles tempos de É O Tchan, eu tinha samba no pé), a exemplo de Mateus, gente boníssima, um cara que praticamente nos adotou como irmãos. Quando você xinga a mãe do seu amigo e ele adora isso, você só pode supor que tem amor demais rolando aí. =)

Um saudade GRANDE: a culinária mezzo goiana, mezzo mineira. Não foi à toa que todo mundo lá em casa engordou feito porcos na ceva. Foi em Itumbiara que comi as pamonhas mais gostosas que existem, a delícia chamada galinhada e minha primeira carne de fumeiro, além de abobrinha e milho verde refogados no alho. Duas particularidades: goianos amam arroz mais do que a própria vida; e também parecem gostar de pimenta mais do que baianos. TUDO leva pimenta naquela terra!

Em 2005, tendo enviado currículos para as unidades da Wizard em Salvador e Alagoinhas, esta última me fez uma proposta interessante e saiu vitoriosa na "disputa" (haha!). Malas prontas, eu estava voltando às minhas origens... ou, pelo menos, a meros 75 km de distância delas.


São Gonçalo


Todo mundo faz (ou deveria fazer) suas loucuras na vida e mudar para São Gonçalo (RJ), em 2001, foi uma das minhas. O que talvez pouca gente saiba é que ela foi motivada por amor. Não entro em detalhes, porque isso envolve pedir autorização a alguém que pode não querer seu nome exposto - e, sinceramente, tanto tempo depois, não faz sentido ficar revirando demais um simbólico baú de recordações. Se você faz muita questão de saber, foi muito bom e valeu muito a pena. Durou pouco, porém.

Não tenho muito a falar sobre São Gonçalo em si. Ou, pelo menos, não há muito em São Gonçalo que me estimule a falar dela. Eu a achava feia, sem graça e mal-cheirosa (principalmente quando o ônibus que me levava à vizinha Niterói passava próximo a uma fábrica de sardinha em lata, quando o fedor de peixe nocauteava os mais sensíveis). A casa que eu dividia ficava numa rua com boa frequência de ônibus, o que já era um alívio. Tinha supermercado, farmácia, locadora, bar (hooray!) e a quadra da escola de samba Porto da Pedra, tudo bem perto. Estruturalmente, já vi piores.

Meus vizinhos mais próximos eram pitorescos. Uma delas era uma senhora bastante pacata que tinha uma filha adolescente no esplendor da piriguetagem funkeira. Não era raro vê-la na esquina, em poses características, mandando ver coreografias "sensuais" ao som de Tati Quebra-Barraco e outras "damas" e "lordes" desse assim chamado genêro "musical" (todas as aspas muito necessárias). Dividindo uma parede conosco, um casal chamado Maurício e Michele. Ele, um banana apaixonado e ela, uma onça estressada. As brigas (sempre apenas verbais e nunca realmente agressivas) pareciam acontecer dentro da minha sala.

- Por que você não gosta mais de mim, Michele?
- Não é iiiiisso, Maurííííício, não tem nada a ver com gostar ou não gostar, eu só não quero mais ficar aqui contiiiiigo! (Michele tinha um jeito bem particular de prolongar o som do "i").
- Eu não vou aceitar isso, não, Michele!
- POBREMA TEU!

Era assim, e daí pra baixo. Chegava a ser divertido, confesso!

Eu trabalhava na Wizard do bairro Fonseca, em Niterói, esta sim, uma cidade bem agradável - ainda que perigosíssima, pelo que contavam. Tive excelentes chefes e colegas de trabalho, mantenho contato com alguns deles via Facebook e lamento por não encontrar outros ali, bem como certos alunos que foram bastante legais comigo. Tendo sido uma experiência tão breve, acredito ter deixado poucas impressões, fossem boas ou más, nos alunos que tive, exceto por uns gatos pingados que ainda estão por aí, ao meu alcance, e que falam com certa saudade daquele tempo.

Niterói era uma alternativa praieira à capital, embora esta ficasse apenas a uma breve viagem de barca pela Baía de Guanabara. As praias urbanas eram impróprias ao banho, mas as oceânicas, embora distantes, compensavam a longa viagem com seu mar gloriosamente esverdeado.

O Rio também foi destino relativamente frequente. Mesmo gozando, desde aquela época, da fama de cidade violenta, a verdade é que, em cerca de sete meses circulando por ali, jamais vi qualquer incidente violento acontecendo perto ou longe de mim - e olha que, por vezes, eu ficava na noite até bem tarde. Era tudo tão bonito e tranquilo que só me restava concordar com Gilberto Gil: "o Rio de Janeiro continua lindo". O problema do Rio era que muita gente não era digna do pedaço de chão onde pisava. De forma semelhante a Salvador, o melhor e o pior do Rio podem ser o mesmo povo.

Nesse curto período, também pude conhecer um pouco da Região dos Lagos e da Baixada Fluminense. Tomei cervejadas homéricas e me diverti à beça com pessoas excelentes, fosse onde fosse. Quando eu deixei o Rio em direção a Goiás, em janeiro de 2002, estava resoluto... mas isso não me impediu de derramar algumas lágrimas pelo que tive, pelo que perdi e pelas grandes coisas que aprendi nesta minha breve, mas radical experiência de mudança.


Alagoinhas


Quando o ônibus da extinta Catuense me trouxe de Feira de Santana para Alagoinhas, entrou por um pedaço bastante mal-cuidado da cidade. Lá dentro, mal impressionado, eu pensava: "que diabo eu vim fazer aqui?"

Alagoinhas fica a cerca de 110 km de Salvador e a 75 km de Feira de Santana. Embora tenha fama de "capital da laranja", a cultura de citros já perdeu há tempos a relevância econômica. A cidade hoje vive muito mais da cultura de eucalipto para produção de celulose e de diversas indústrias de bebidas, devida à alta qualidade da água em seus lençóis freáticos. O comércio também cresceu a olhos vistos, desde que cheguei aqui.

Era o dia 8 de fevereiro de 2005 quando desci de um táxi na frente da Wizard Alagoinhas. Calhou de ser aniversário de Dona Helena, a zeladora que me chama de "meu filho" e faz o café mais gostoso que há, responsável por viciar gerações inteiras de alunos no seu "pretinho". O café de Dona Helena é bom até quando não é bom.

Depois de passar cerca de três meses em um pensionato (uma experiência que prefiro esquecer, com toques de comédia e suspense ruins, com direito a velhinha fofinha que vira velhinha sinistra, comida estragada servida de propósito e coisas do tipo), me mudei para um apartamento com vista para o bar, que em noites de quinta-feira tinha música ao vivo e ficava animadaço. Não dava pra dormir antes de meia-noite, mas quem é que queria dormir, mesmo?

Uma coisa une Alagoinhas e Itumbiara, mesmo tão distantes: o péssimo gosto musical médio dos seus habitantes. Se lá em Itumbiara eu sofria com sertanejo, axé classe Z e funk carioca, aqui na Bahia a coisa me atacou em três outras frentes: forró eletrônico, pagodão pornô e arrocha. É um suplício, aliviado apenas pela surpreendente quantidade de pessoas que, como eu, se recusam a abrir as simbólicas pernas dos seus ouvidos para toda esta m*rda.


Meu trabalho na Wizard começou meio tenso. Herdando turmas de outros professores cedidas a mim, não me preparei com o devido cuidado para lidar com as tensões naturais que surgem da preferência de seus alunos por seus antigos "ídolos" (os professores originais). Meus critérios avaliativos não foram bem aceitos por alguns alunos e acabei passando por situações bastante desagradáveis com eles e com seus pais. Com o tempo, os conflitos foram diminuindo, mas houve casos em que a muralha de resistência só foi amaciada após o fim da relação professor-aluno. De novo: ossos do ofício. Paciência.

Pelo menos, havia o consolo de que meu entrosamento com os colegas foi rápido e tranquilo (embora não livre de percalços), especialmente com Fabiano, um irmão-de-armas no gosto pelo rock & roll e pela cerveja em quantidades generosas; Girlande, ou apenas Gil, com seu espírito cosmopolita e empreendedor e sua tremenda facilidade para rir de minhas besteiras; e Cristiane, uma rocha em sua aparente fragilidade, alguém cuja força de princípios eu tenho como inspiração.

Natural e felizmente, as coisas foram mudando para melhor. De novidade temida, passei a "ídolo" com "fã-clube", também. Alguns dos meus alunos acabaram virando colegas de profissão e muitos outros são hoje amigos bastante queridos. De certa forma, pode-se dizer que "enterrei meu umbigo" em Alagoinhas. Afinal, já estou aqui há oito anos, mais tempo do que passei em qualquer outro lugar, nos últimos vinte anos. Estou comprando residência aqui. Isso deve querer dizer algo sobre meus sentimentos em relação à cidade, mesmo que não seja algo no nível "morrer de amores".

Fica fácil gostar de Alagoinhas quando se chega amparado por tanta gente boa que me cerca desde que aqui cheguei: Eva, Gomes, Neto, Marília, Beth, Carmen, André, Alex... Gente demais pra todos terem seus nomes citados, sem que eu corra o risco de ser injusto esquecendo alguém. Tive meus desencantos, senti e provoquei raiva em alguns, mas, passada a régua, tenho um grande apreço por todas estas pessoas, que ajudaram e ainda ajudam a escrever um capítulo muito bonito e importante na minha história.


"Puxadinho": Muritiba


Não, eu nunca morei em Muritiba. A primeira vez que fui lá tem menos de dois anos e a última, se não me falha a memória, foi apenas a quinta. Por que, então, Muritiba mereceria ganhar um "puxadinho" neste texto?

Era uma vez Duda, um psiquiatra de Salvador que me seguia no Twitter (culpa de um retweet de William Bonner). Calhou de ele clinicar aqui em Alagoinhas, nos conhecemos pessoalmente e ficamos amigos. Através dele, conheci seus sobrinhos Rodrigo e Rafael, residentes em Muritiba. Certa vez, fomos passar um fim de semana com eles, circulando ainda por Cachoeira e Maragojipe. 

A empatia e a simpatia entre nós foram imediatas, porque eles são uns lindos e eu sou um lindo, e os lindos se reconhecem. Eu os adotei como "sobrinhos emprestados", eles me adotaram também e, através deles, tenho conhecido uma enorme quantidade de pessoas gentis, inteligentes, divertidas e interessantes (sem mencionar que são, também, pessoas lindas, eróticas e tesudas). Gente como Thiago, Heros, Ghabi, Cissa, Léo, Fábio e muitos outros. 

Não sei o que tem na água do Rio Paraguaçú pra esse povo ser assim, mas sei que gosto cada vez mais de ir a Muritiba e das pessoas que ali conheço. Vixe, será que Muri, um dia, vai abrir o quarto capítulo desta série? =)

19/12/2012

Diário de um Imbecil Digital



Querido Diário,

Hoje eu acordei me sentindo muito bem. Logo depois do café da manhã que eu fotografei para o Instagram (era o mesmo café de sempre, mas eu adicionei uns efeitos diferentes à foto e ficou joinha), fui dar um afago no meu dog. Isso me fez lembrar de postar no Facebook, logo após meu "bom dia", que "quanto mais eu conheço as pessoas, mais gosto do meu cachorro" (acho que foi Caio Fernando Abreu que disse isso, se não me engano). Alguns amigos me chamaram de mané logo em seguida. Como as pessoas podem ser tão insensíveis? Pra acalmá-los, eu posto um monte de mensagens positivas sobre amor e amizade verdadeira, porque eu sou bom filho, bom amigo, bom namorado e sou muito humilde, também. Aí começam a me chamar de contraditório. Não entendo isso, por que as pessoas nunca estão satisfeitas? Pra encerrar a discussão, coloco uma foto de Jesus dizendo: "quem ama a Jesus, compartilha; quem odeia a Jesus, só olha". A foto ganha 259 curtidas e 798 compartilhamentos em cinco minutos. Ainda bem que pelo menos a Deus esse povo ainda respeita.

Durante o trabalho, depois de saudar a meu gerente com meu sorriso mais sincero, eu aproveito para entrar no Face mais uma vez. É apenas segunda-feira, mas acho que a galera vai gostar de saber que eu já tô contando as horas para a sexta-feira. Escolho a foto com o bebê mais fofo que encontro e ponho a legenda "chega logo, sexta, chega logo!".

Logo em seguida, no intervalo do almoço, a galera vem discutir o futebol de domingo. A conversa me anima a postar umas montagens mega-esclarecidas que encontrei, falando sobre como o time campeão (que não era o meu) só chegou ao título através de manobras escusas com a CBF, a Globo e outros patrocinadores. E daí que eles jogaram bem e fizeram gols legítimos? Isso, qualquer um faz. Tava na cara que foi tudo armação! Ainda bem que tenho amigos tão antenados quanto eu pra me alertar pra esperteza maldosa que existe no mundo!

Aproveitando que, esclarecido que sou, falei que Galvão era um saco, decidi postar uma série de cartazes legais sobre como a Rede Globo manipula as mentes das pessoas. Tem que ser muito ingênuo pra achar que novela é mero entretenimento, fala sério! Olha essa "Salve Jorge", velho: os caras estão ensinando todo o esquema pra traficar mulheres, a Globo só dá mau exemplo! Além do mais, essa saudação do título é coisa de macumbeiro, Deus me livre e guarde! Eu assisto a essa e às outras novelas sempre que posso, mas que fique claro: é só pra saber o que está acontecendo pra poder dar um toque à galera que não é tão ligada. Nem todo mundo tem o meu nível de discernimento, saca?

A tarde de segunda vai se arrastando e o Face vai meio chato. Aproveito pra entrar no site do pastor Silas Malafaia e dar meu apoio à proposta que permitirá a cura gay pelos psicólogos. Eu não odeio os gays, cara, fui criado no amor de Cristo, mas não sei como eu reagiria se levasse uma cantada de outro homem. Talvez ficasse violento, mas, nesse caso, o cara que provocou, né? Aí, pro cara não tentar de novo, eu teria que dar uma lição que ele não fosse esquecer. Lógico que logo ia aparecer uma cambada de bichonas me xingando de homofóbico, mas o que eles precisam entender é que este é o preço do estilo de vida que escolheram. A sociedade não pode admitir uma ditadura gay, cara. Tem gay em todo lugar agora! Se permitirmos que gays se casem e sejam felizes, o que será da sociedade? Tá, tá, tá... Eu sei que gays existem desde sempre e contribuem para a sociedade trabalhando e pagando impostos, igualzinho aos héteros, mas não mude de assunto, senão eu perco minha linha de raciocínio.

Por fim, chega a noite e, de volta em casa, eu descubro um vídeo genial pra divulgar pra galera! Vejo que vários de meus amigos já divulgaram ele antes, mas acho que posso dar uma forcinha, a galera sempre curte muito essas coisas cômicas! Sabe, tipo "Para Nossa Alegria"? Tomara que apareçam muitas versões bem maneiras da mesma coisa, quero ser o primeiro a postar cada uma delas! Só que agora é a hora em que a academia tá mais cheia de gatinha, então, eu vou pra lá. Por isso, meu último recado é o já tradicional "#partiu academia". O celular vai comigo, dá pra tirar umas fotos maneiríssimas na frente do espelho, tensionando o tríceps.

Quando chego da academia, vejo uma coisa horrorosa, cara: algum filho da puta espancou um cachorro até a morte, as vísceras do bicho ficaram à mostra, uma coisa terrível! Como tem gente cruel nesse mundo! Compartilho imediatamente, claro. Eu sei que tem gente que está jantando a essa hora e a foto pode incomodar um pouco, mas isso não me segura. Se a gente não faz alguma coisa concreta por um mundo melhor, quem é que vai fazer? Como meu coração tá muito mole depois disso, eu acabo encaminhando dezenas de fotos de bebês sofrendo com deformidades, os pobrezinhos. Que bom que, a cada compartilhamento, o Facebook doará R$ 0,05 a cada um deles. Aparecem uns idiotas, nos comentários, dizendo que várias daquelas crianças já estão mortas e que muitas dessas fotos são farsas que já circulam pela internet há uns 15 anos, mas o que importa é o gesto, cara. É assim que eu consigo dormir tranquilo.

Por falar nisso, tá na minha hora, Diário. Amanhã é terça, faltam só mais três dias pra sexta. Boa noite! #partiu!

10/12/2012

Baby Consuelo: Tinindo, Trincando


Ao ver sua mãe protagonizar um espetáculo deprimente no Carnaval de Salvador deste ano, quando ela botou na rua um deslocado trio elétrico gospel que não arrastou ninguém atrás de si, devem ter rolado algumas lágrimas dos olhos de Pedro Baby. Em outros tempos, Baby cantava para uma Praça Castro Alves abarrotada de gente. Ultimamente, era mais conhecida como uma ex-roqueira doidona que virou uma evangélica doidona. E só. "Minha mãe merece mais que isso", deve ter pensado Pedro, guitarrista exímio, acostumado a acompanhar figuras da MPB contemporâneas da sua mãe e que não padecem no ostracismo.

Foi por um pedido de Pedro que Baby Consuelo (recuso-me a chamá-la pela apática e genérica alcunha "do Brasil") decidiu voltar aos palcos e a história de como isso aconteceu rende uma das conversas mais divertidas do show Baby Sucessos. Neste diálogo com o público, fica claro que Baby não abriu mão de suas convicções cristãs, mas soube harmonizá-las com seu passado e temperá-las com algo que falta a 9 entre 10 cristãos radicais: bom humor.

Porque, como bem diz ela nessa hora, Deus sempre esteve ali, em suas músicas, de diversas maneiras. Na menina que dança. No pensamento das flores. No dia do índio. Foi preciso que seu filho lhe mostrasse que ela não precisava ter vergonha da própria carreira, nem tentar converter o mundo inteiro à sua religião e, muito menos, amargar solidão e esquecimento no meio musical.


O principal trunfo da turnê de retorno de Baby, portanto, é o fato de que ela está se divertindo imensamente com tudo isso, talvez até mais do que nós, na plateia - e, olha, você precisa saber que eu me diverti muitíssimo na noite do dia 9 de dezembro, na Concha Acústica do Teatro do Castro Alves, em Salvador. Quem não foi, perdeu a oportunidade de ver a História musical deste país em andamento, recuperando, para um público misto de velhos fãs das décadas de 70 e 80 e jovens adultos curiosos com seu ressurgimento, a importância de uma figura ímpar.

Se houve algo para não gostar, me antecipo logo em dizer que foi a ausência de "Brasileirinho", na qual eu esperava vê-la cantando em ritmo aceleradíssimo, enquanto Pedro Baby debulhava sua guitarra, ao estilo do pai, Pepeu Gomes. Aliás, que se diga que tudo em Pedro Baby vale por um teste de DNA: a cara é a da mãe, mas a voz, a postura de palco e o talento para esmerilhar a guitarra são do pai. Não se surpreenda se ele virar um guitarrista ainda mais notável que Pepeu.

A banda que a acompanha inclui prole de gente como João Donato e Paulinho Boca e até um remanescente da Banda Black Rio no trombone. A amizade e o clima "família" da turnê foram essenciais para Baby aceitar o convite de Pedro. O que não quer dizer que eles estejam ali por outra razão que não seja o talento: afiadíssima, a banda deu a Baby um suporte muito seguro para ela construir suas melodias, algumas das quais soando ainda bastante modernas.

O repertório contemplou os grandes sucessos da sua carreira "mais ou menos solo" (já que ela e Pepeu faziam quase tudo juntos) e não faltavam hits para levantar o povo que quase lotou a Concha: a abertura com "Planeta Vênus" (do ex-marido), "Telúrica", "Cósmica", "Sem Pecado e Sem Juízo", "Um Auê com Você"... Durante "Menino do Rio", Caetano Veloso subiu ao palco para uma participação, mas sua voz, talvez devido a alguma dificuldade técnica, soava muito baixa. Juntos, eles ainda emendaram "Acabou Chorare".


O tempo que a carioca Baby passou entre os Novos Baianos foi lembrado com especial carinho e reverência, até pela presença de muitos deles ali. Bem próximo ao palco, estava Galvão, autor de diversos dos maiores clássicos da banda, assistindo ao show como um mero mortal. No palco, Baby se superava, a voz praticamente intacta, em versões caprichadíssimas de "Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira", "A Menina Dança" e, em especial, "Tinindo Trincando", um momento absolutamente arrepiante, em que ela mandou um impecável scat de "no duro, no duro, no duro, no duro..." por cerca de um minuto, enquanto Pedro e sua guitarra eriçavam os pelos do meu braço.

No bis, mais emoção: sobem ao palco o baixista Dadi Carvalho e Paulinho Boca para uma vigorosa versão de "Mistério do Planeta" que não deixa dúvidas: essas pessoas estão vivas, ativas, cheias de energia e fazendo muita falta nesse cenário musical ultra-careta que vivemos no Brasil. A liberdade para se dizer as coisas é bem maior do que já foi décadas atrás, mas as pessoas, simplesmente, não têm formação e não buscam informação suficiente para tirar proveito dela. Ser "muito louco", na cabeça de muita gente, é falar de baladas e carros amarelos - e não há nada mais reacionário e maligno do que pregar o desapego às pessoas e celebrar o apego às coisas. Enquanto isso, com um discurso totalmente oposto, a História Musical do Brasil acontecia bem na minha frente.

No finzinho, justamente quando eu pensava, "Ah, será que seria legal ela tocar 'Barrados na Disneylândia'?", Baby anunciou a música, como homenagem a Pepeu Gomes, ausência menos gritante apenas pela presença de um "clone" mais jovem no palco. A música tem uma história curiosa, mas, ouvida ontem, revelou-se não tão boa assim. Foi uma concessão interessante à minha infância, mas certas coisas devem mesmo ficar no passado.

Seja como for, diante da importância deste resgate, só posso dizer: bem-vinda de volta, Baby! Como bem disse seu filho, improvisando durante "Planeta Vênus", estávamos com saudade.