Comente e concorra a um exemplar de Daytripper! Sorteio em 28/04/12.
Sinceramente, tem horas que dá muita vergonha de ser brasileiro em geral e baiano em particular.
Em tudo isso que está acontecendo em Salvador, a Polícia Militar paralisada tem sua parcela de culpa; os bandidos que se aproveitam da ausência desta, também. Os danos seriam bem menores, porém, se o povo não fosse tão vira-lata.
Quando eu falo vira-lata, não falo de condição social. Estou falando da condição moral. Somos um povo moralmente degradado.
Quando um vizinho faz gato de energia, água, internet ou TV a cabo, só existe a preocupação de denunciar quando o afetado é você. Do contrário, a primeira pergunta é: "me passa o esquema?".
Quando tomba um caminhão de comida, bebida ou qualquer outra coisa que possa ser carregada, socorrer o motorista é secundário. Mais importante é levar tudo que puder - já que todo mundo está pegando, me deixa garantir o meu.
Achar um pertence alheio perdido implica em apropriar-se imediatamente dele. O contrário é tão raro de acontecer que, quando acontece, dá notícia no jornal.
"A ocasião faz o ladrão" é um adágio que praticamente define a vida de muitas pessoas. Basta não ser flagrado, basta a suposição da impunidade e já vão metendo a mão no que não é seu. Porque ninguém vai saber mesmo.
No início da greve da PM, uma loja da Ricardo Eletro na Avenida Bonocô, em Salvador, foi assaltada por uma turba ensandecida de "pais de família", "estudantes" e "pessoas de bem", simplesmente porque não havia polícia para coibi-los. Gente que, flagrada em ação por câmeras da imprensa e de celulares, fez cara de coitada na TV quando presa, se dizendo "cidadãos honestos". Agora, se você é um daqueles "justiceiros" românticos que acreditam que o povo só rouba quando tem fome, me diga: qual é o gênero de primeira necessidade que a Ricardo Eletro vende? TV de LED?
O baiano médio é não apenas amoral, mas, também, apolítico. Tem um problema com o respeito à lei que parece impregnado no DNA. Além disso, existe uma aversão endêmica à escola, à leitura e a qualquer coisa que o aproxime de um raciocínio crítico e lógico, preferindo o hedonismo cachaceiro das noitadas em "festas de camisa" e das músicas que celebram a degradação da mulher, glorificam a esperteza bandida de "descer a madeira", ou, simplesmente, não dizem coisa com coisa.
O axé produzido em escala industrial para mover a festa regada a milhões que torna a cidade um esgoto a céu aberto, com três milhões de pessoas dentro, tem sua parcela de culpa. Nada contra a diversão, a distração inconsequente, o romance e a vontade de beijar quantas bocas puder até pegar herpes, mas será que dá para UM de vocês falar de UM tema sério que seja? E, ao fazê-lo, não manter o mesmo sorriso idiota na cara de quando mandam a galera botar a mão pra cima e sair do chão?
Claro que isso não vai acontecer. O mínimo de seriedade já esfriaria o bloco com abadá de quatro dígitos e espantaria a playboyzada do sul que vem pra Salvador, exatamente porque aqui é "a terra da alegria" e aqui "tudo pode". Como ficarão os cofres dos donos de blocos, das cervejarias e dos camarotes em hotéis de luxo, se uma desgraça dessa acontece?
Como bem disse Diógenes Moura, curador da Pinacoteca do Estado de São Paulo, nascido em Recife e criado em Salvador, a cidade está "devastada pela alegria".
Uma alegria que entorpece, embota os sentidos e desliga o bom senso da população, fazendo todo mundo agir feito "baiano de novela" e só conseguir pensar em quando será a próxima festa e quais são a música e a coreografia da estação.
Uma alegria que faz do desrespeito aos preceitos mais básicos da vida em coletividade uma prática cotidiana, alçada à condição de direito inalienável, que supostamente dá passe livre para quem deseja ouvir música em altíssimo volume nas ruas e nos ônibus, ocupar espaços públicos irregularmente (como as calçadas tomadas por "tapetes" de DVDs piratas ou pelas mesas e cadeiras daquele barzinho da moda) e fazer necessidades em público, mesmo quando não é carnaval e as enormes filas dos banheiros químicos desanimam para a espera.
Não me venham dizer que falta educação. O que falta é vergonha na cara. Certas coisas são aprendidas em casa e no convívio social. Tampouco falta informação, coisa que se tem à vontade na TV, no jornal e na internet. O que falta é interesse.
Ora, se você sabe que é errado jogar lixo no chão e que isso entope bueiros e agrava alagamentos, por que joga?
Se você não gostaria que uma filha sua visse um marmanjo mijando ao ar livre, por que o faz na frente da filha do outro?
Se você rouba quando acha que ninguém vê ou, caso vejam, que nenhuma providência será tomada, como pode esperar ser imune ou protegido quando lhe fizerem o mesmo?
Veja bem, não estou jogando a culpa de todos os atuais problemas nas costas da sociedade. Que se admita, porém, o agravamento das tensões por parte desta, com boatos de arrastão possivelmente deflagrados "por brincadeira" e ações reais de alguns poucos idiotas contra o patrimônio público e privado. Os nervos já estão à flor da pele e, ao invés de tentar amenizar os efeitos do inevitável stress, instaura-se uma guerra de nervos até por "diversão", pra aparecer nos programas sensacionalistas de meio-dia, que devem estar adorando tudo isso.
Como se fosse pouco ter o povo que temos e não contentes em ficar de braços cruzados, alguns maus PMs dão sua cota de contribuição para aumentar o caos, agindo como fora-da-lei mascarados, promovendo tumultos, vandalismo e até cometendo delitos, na esperança de fazer pressão para conseguir o que querem. "Negociação" com arma na mão tem outro nome: intimidação.
Detalhe: criminalidade alta por aqui não é novidade. Entre 2000 e 2010, Salvador saltou do 25º para o 7º lugar entre as capitais mais violentas do Brasil. Simões Filho, na região metropolitana, foi nomeada a cidade mais perigosa do país, no começo do ano. Outra SEIS cidades baianas aparecem entre as 50 mais violentas do Brasil, segundo pesquisa com base em dados dos ministérios da Justiça e da Saúde.
Então, não estamos falando de uma organização com funcionamento exemplar, estamos? Como o Estado deixou chegar a isso? A culpa é só dos policiais?
Sou a favor do direito de greve (ainda que limitado, para serviços essenciais) e de salários dignos para quem expõe sua vida ao risco na defesa da sociedade. Tenho amigos na Polícia Militar e não sou insensível ao seu drama. Por outro lado, também sou a favor de termos uma polícia melhor preparada e mais investigativa do que vingativa, porque puxar o gatilho é muito fácil e não é de um esquadrão de jagunços uniformizados que precisamos. Tem que dar o exemplo (sem dar moleza, claro).
Uma solução definitiva não é fácil e não é para ontem. Seria preciso cavar muito mais fundo, listar uma série praticamente infindável de mazelas que afligem o nosso povo, das mais baixas às mais altas camadas sociais, e começar a solucioná-las. Eu me esticaria demais (mais?) e terminaria aborrecendo (mais?) aos leitores. Perdão pela pausa carrancuda no astral geralmente alto do Catapop, mas a situação por aqui (que já não era boa) tornou-se insustentável - e VAI ter Carnaval, apesar de tudo, e logo nos esqueceremos de todos os problemas, mais uma vez.
Afinal, a Bahia é linda, é a terra da alegria.