22/01/2013

Astronauta: Magnetar


O que vou dizer agora pode parecer meio deslocado, mas é pertinente: estradas vicinais me encantam. Em termos de aventura e de descoberta, considero mil vezes mais interessante embrenhar-me por uma estrada rústica, sem a menor noção de onde ela possa terminar (porque, para mim, a graça está em percorrê-la), do que acelerar no tapete de asfalto de um caminho já percorrido. Ao viajar por uma rodovia, meus olhos são sempre atraídos por estradinhas de terra que somem num curva, algumas dezenas de metros adiante, por trás de algum morro ou matagal.

Este fascínio por trilhar caminhos desconhecidos e ir cada vez mais longe é partilhado com o Astronauta, criação de Maurício de Sousa que completa 50 anos em 2013. No universo tradicional da Turma da Mônica, o Astronauta vive aventuras cômicas e reflexivas, a um só tempo. Singrando o espaço sideral em uma nave redonda como seu uniforme, ele vai fazendo contato com seres estranhos e vendo coisas que ninguém mais vê, sem deixar de sentir aquela pontadinha de saudade da Terra, onde ficou Ritinha, seu grande (e perdido) amor.



A linha Graphic MSP é fruto direto das edições comemorativas MSP 50, MSP +50 e MSP Novos 50, em que diversos artistas nacionais, entre os internacionalmente consagrados e alguns desconhecidos do grande público, deram sua visão particular da obra de Maurício de Sousa. Um grande sucesso de crítica e de vendas. Depois de dominar o mercado de quadrinhos para crianças e adolescentes (A Turma da Mônica Jovem é hoje o gibi mais vendido do país), esta nova linha inaugura a ambição dos Estúdios MSP de aproximar-se do púbico adulto.

Em Magnetar, o Astronauta se vê diante do fenômeno cósmico que dá nome à revista. Em resumo grosseiro, é um dos estágios finais da "vida" de estrelas superdensas (a história traz uma explicação detalhada de como tudo acontece). Enquanto coleta dados, porém, ele enfrenta os perigos da proximidade com o magnetar e tem sérios problemas com sua nave, ficando aprisionado no pequeno asteroide em que havia pousado. Em total solidão e enfrentando as privações do mais hostil dos ambientes, o Astronauta tenta encontrar um jeito de sair dali e preservar a própria sanidade.



A abordagem do roteirista e artista Danilo Beyruth funciona muito bem, seja em termos narrativos ou visuais. O roteiro de Magnetar fala de Astrofísica sem ser maçante e de contato humano sem ser piegas, uma vez que as lembranças que o Astronauta tem da Terra são, simultaneamente, sua força e seu calcanhar-de-Aquiles. Os temas do naufrágio (ainda que espacial) e da superação de limites são bem tratados e, se há alguma queixa a fazer, é que a história se encerra justamente no ápice da vontade de ler mais.

Demorou até que eu resolvesse apostar meus suados reais na HQ, mas valeu a pena. Por um preço camarada (R$ 19,90), a edição de bancas tem 80 páginas em luxuoso papel couché. Há uma edição para livrarias, em capa dura, por R$ 29,90. Astronauta: Magnetar não é um evento transformador de vidas, mas é uma HQ digna do investimento. Um belo pontapé inicial numa coleção que prestigia talentos nacionais e promete empolgantes surpresas, como se vê na lista de próximas edições: Turma da Mônica (de Vitor e Luciana Cafaggi), Chico Bento (de Gustavo Duarte) e Piteco (de Shiko). Aguardo ansioso!