28/04/2013

Teste dos 20 Anos

GABRIEL O PENSADOR


Foi amor à primeira vista?
Enquanto os artistas da década anterior entravam em entressafra criativa ou franca decadência, uma leva enorme de novos artistas invadiu as rádios e TVs em meados dos anos 90. Gabriel chegou como um furacão: um cara jovem, muito articulado, com uma prosa afiada e indignada, num gênero (o rap) pouco difundido por aqui, na época. Não adiantou acusá-lo de "poser" (branco e abastado, ele não teria, segundo alguns, "credibilidade de rua"): "LôraBurra", "175 Nada Especial", "Lavagem Cerebral" e outras, com suas rimas precisas e samples matadores, conquistaram muita gente, inclusive a mim.

Ainda rola gostoso?
O tempo se encarregou de fazer expirar a validade dos temas de algumas canções, as batidas estão ultrapassadas e a empostação da voz de Gabriel incomoda um pouco. Mesmo que hoje pareçam mais ingênuas do que geniais (afinal, éramos todos 20 anos mais jovens), muitas letras de Gabriel continuam soando contundentes, principalmente em comparação ao vácuo intelectual que é a maior parte da atual produção musical jovem em evidência no país. Digamos que dá pra curtir metade do disco sem fazer cara feia.


LEGIÃO URBANA - O DESCOBRIMENTO DO BRASIL


Foi amor à primeira vista?
Os fãs já estavam até preocupados: quatro anos de espera entre As Quatro Estações e O Descobrimento do Brasil, já que Música p/ Acampamentos (1992) era pouco mais que uma coletânea, com pouquíssimo material inédito. Mas ali estava uma Legião diferente: bateria eletrônica e discurso agridoce na estranha faixa de trabalho ("Perfeição", que não me impressionou) e uma variedade instrumental até então inédita. Como não se derreter pela cítara da pungente "Love in the Afternoon"? O nada glorioso fim do amor que viveu, aliás, era o mote do disco, uma espécie de "volta por baixo" de Renato Russo, que demonstrava perceptível amadurecimento como letrista. Analisando bem, um disco capaz de integrar, com méritos, um Top 3 da Legião.

Ainda rola gostoso?
Difícil dizer. Ultimamente, ouvir Legião Urbana me dá um "bode" terrível. Não tenho mais tanta paciência com certos tiques de Renato e me pego indagando se ele era mesmo aquilo tudo que me parecia na época. Tudo isso, obviamente, também tem a ver com a megaexposição que a Legião viveu e o culto radical (e sacal) que muitos fãs prestam à obra da banda, desde antes da morte do vocalista, em 1996. Calado o ruído dos legionários xiitas, porém, a verdade é que, sim, o cara era muito bom cantando e compondo e este disco ainda é muito agradável de se ouvir. Pronto, falei. Eternos pontos altos: "Os Barcos", "Giz" e "Só Por Hoje".


MORRISSEY - BEETHOVEN WAS DEAF


Foi amor à primeira vista?
Depois de um disco que não cheirava nem fedia (Kill Uncle, 1991), Morrisey voltou à habitualmente gloriosa forma em Your Arsenal, no ano seguinte. Era preciso sacramentar a "ressurreição" com um registro ao vivo: Beethoven Was Deaf foi gravado no Le Zenith, em Paris, diante de uma multidão apaixonada, barulhenta e extasiada com a vigorosa performance praticamente rockabilly da excelente banda de Morrissey, em que se destacavam as duelantes guitarras de Alain Whyte e Boz Boorer. Ouvir este disco com fones de ouvido, uma guitarra apitando em cada orelha, era algo muito próximo da felicidade plena.

Ainda rola gostoso?
Ora, amigo(a), se há algo que se pode dizer sobre o bom rock & roll é que ele não envelhece, vira clássico. Não há quem diga que, após o fim dos Smiths, Morrissey não estava em boa companhia naqueles tempos: esta banda (completada pelo baixista Gary Day e o baterista Spencer Cobrin) é simplesmente SENSACIONAL e este disco ainda é uma das gravações ao vivo mais empolgantes e faiscantes que já tive o prazer de ouvir. Até os dois minutos de microfonia ao final da épica "The National Front Disco" continuam fazendo sentido. Era o meu Elvis particular em grande momento - e ainda é.


TITÃS - TITANOMAQUIA


Foi amor à primeira vista?
Não. Acostumados a ter a crítica a seus pés desde Cabeça Dinossauro (1986), os Titãs vinham do fracasso de Tudo ao Mesmo Tempo Agora (1991) e tentavam pegar uma tardia carona na onda grunge de Seattle. Para tal, contrataram o mesmo Jack Endino que produziu a estreia do Nirvana (Bleach, 1989). O resultado foi um disco com bem mais peso que o anterior e sem tanta escatologia, mas, estranhamente, aquilo me empolgou muito pouco, exceção feita à energética "Será que é Isso que Eu Necessito" e à impoluta "Disneylândia".

Ainda rola gostoso?
Um pouco melhor que antes. Continuo achando que alguns trabalhos vocais carregam uma agressividade artificial, pouco condizente com a história da banda até ali (e, falta grave, não tinha mais Arnaldo Antunes). Pelo menos, pode-se dizer que os Titãs haviam voltado a ser o dínamo de rock que a produção chocha do disco de 1991 meio que ocultou. A competência técnica da banda é inquestionável: os caras estavam mandando muito bem... Pena que num repertório tão pouco marcante. Depois vieram o pop de Domingo, os acústicos e as decadentes baladinhas românticas e de auto-ajuda.


U2 - ZOOROPA


Foi amor à primeira vista?
O lançamento de Zooropa foi discreto e, para mim, uma agradável surpresa, visto que a primeira cópia dele que tive foi presente de aniversário, dado pela minha irmã. E lá fui eu, todo contente, esperando encontrar algo minimamente parecido com o impecável Achtung Baby (1991). Mas os segundos passavam e aquela longa introdução de ruídos de "Zooropa", a canção, parecia não acabar nunca. Quando entra a guitarra de The Edge, alívio e arrebatamento. "What do you want?", perguntava uma voz aleatória. Ora, eu queria ouvir aquele disco lindo e estranho, sempre com mais atenção aos detalhes que não paravam de surgir, e sempre mais, e sempre de novo.

Ainda rola gostoso?
Estamos falando do disco menos comercial da história do U2, considerado uma "traição" pelo fãs mais intolerantes (e intoleráveis). Quem dera toda traição gerasse pérolas de beleza do quilate de "Lemon", "Stay (Faraway, So Close!)" e "The Wanderer". A única faixa que me parece não ter envelhecido muito bem é "Daddy's Gonna Pay for Your Crashed Car" (ficar datada parece o inevitável destino de toda canção muito eletrônica). Corrija-me se eu estiver enganado, mas 90% de eficiência, após 20 anos de bons serviços, me parece uma excelente média.