16/06/2013

Antes de Watchmen: Coruja


É público e notório que Alan Moore desaprova qualquer adaptação ou revisão de obra sua. Ele procura explicar sua atitude dizendo, por exemplo, que tudo que havia para ser dito ou feito, já foi dito ou feito por ele. Ou que a história foi originalmente pensada para a mídia impressa e não funcionaria fora dela, na vã tentativa de evitar adaptações para o cinema. Ninguém há de duvidar da integridade artística de Alan Moore, mas essa birra também revela uma certa arrogância autoral, como se dissesse, "Como alguém OUSA mexer em minhas criações perfeitas?" 

(Mesmo considerando as quedas de ritmo, exageros e reviravoltas meia-boca, o desenvolvimento do conceito da "Noite Mais Densa" feito por Geoff Johns na série do Lanterna Verde, na década passada, aproveitando uma ideia que Moore aventou em apenas uma página de uma história protagonizada por Abin Sur em 1986, mostra que nem tudo que ele faz é tão "imexível" assim).

Precisar, não precisava, mas a moderna indústria dos quadrinhos não é movida por qualquer necessidade genuína, exceto, talvez, a de cifras cada vez maiores. Não consigo pensar em outro motivo plausível para a existência desta coleção de minisséries que compõem o projeto Antes de Watchmen - com a possível exceção de a DC Comics estar simples e infantilmente mandando um recado ao co-criador (e encrenqueiro-mor) Alan Moore: "Watchmen é nossa e fazemos dela o que quisermos. Viva com isso."

Em favor da DC Comics, que se diga, pesa a escalação de nomes expressivos para a empreitada de criar histórias ligadas ao ultradesiludido universo de Watchmen. Independentemente dos resultados alcançados (com delicado equilíbrio de críticas positivas e negativas nos EUA), a editora teve um certo cuidado para que a coisa toda parecesse pertinente.

Veja o caso de J. Michael Straczynski e sua mini do Coruja, por exemplo. Muita gente treme só de pensar no autor e associá-lo a coisas como "Um Dia a Mais" (Homem-Aranha) ou "Solo" (Superman). Eu prefiro lembrar do JMS brilhante que escrevia Poder Supremo e levava meu queixo ao chão a cada edição da saudosa Marvel Max. Quando as coisas dão certo, o escritor é capaz de histórias bastante dignas.

Em Watchmen, Daniel Dreiberg, o Coruja, é uma espécie de "Batman que deu errado": um vigilante noturno inseguro quanto ao seu próprio potencial e quanto à validade do seu trabalho. Daniel, você deve lembrar, também é inseguro no amor. As opções de Straczynski, ao investigar esse passado e apontar as causas da postura de Daniel/Coruja, não fogem do convencional (portanto, não vou poupar ninguém do spoiler: pai violento, paixão por prostituta, etc.). O autor investiga, ainda, as origens da amizade de Dreiberg com o Coruja original e com Rorschach, além do fanatismo religioso deste último. Novamente, pesa contra Straczynski a opção pelo clichê ao escolher seu nêmesis (um pastor picareta). 

Antes de Watchmen - Coruja é ruim, então? Por mais estranho que pareça, depois de tudo que escrevi antes, não. Está longe de ser uma obra-prima, obviamente, mas é uma leitura que flui agradável, porque Straczynski é um bom contador de histórias e conta com o auxílio de duas gerações da família Kubert, o eficiente filho Andy nos traços e o velho mestre Joe na arte-final (seu último trabalho antes de falecer).

Completando o encadernado, a primeira parte de "A Maldição do Corsário Carmesim", de Len Wein e John Higgins, também é mais do mesmo, ao fazer as vezes de "livro dentro do livro" que tinham os "Contos do Cargueiro Negro" na Watchmen de Alan Moore. Não faz falta e só piora saber que o último capítulo dela não vai ser publicado - não por má vontade da Panini, mas porque a DC Comics simplesmente cancelou o investimento na série, diante da baixa receptividade dos leitores ao projeto como um todo.

É esquisito achar satisfatória uma obra em que tanta coisa dá errado... mas é o caso. Me julguem.

09/06/2013

Sweet Tooth, Vol. 1


A segunda das novas séries Vertigo iniciadas pela Panini no fim de 2012 (junto a O Inescrito, resenhada logo abaixo), Sweet Tooth - Depois do Apocalipse conta a história de Gus, um menino híbrido de humano e cervo. Sua condição especial o torna um alvo, num mundo em que a população foi reduzida a um mínimo, depois que uma praga (ainda não revelada) dizimou quase toda a vida humana. Seu pai, com quem vive isolado numa cabana na floresta, é portador da doença e não demora a falecer. Gus, entretanto, é naturalmente imune à praga... e agora se vê sozinho.

Um dia, Gus encontra caçadores e quase é abatido a tiros. Sua pele é salva pela chegada de Jepperd, um homem de poucas palavras e mira precisa, que promete levar Gus a um lugar chamado A Reserva, uma espécie de paraíso para crianças híbridas. Muita gente duvida que o lugar sequer exista, mas, diante da falta de opções, Gus acompanha Jepperd. Serão seus primeiros passos fora da mata, mas o mundo que o aguarda parece tudo, menos convidativo.

Jeff Lemire (Homem-Animal) escreve e desenha uma história agradável de ler (apesar do seu traço pouco refinado). O problema é que você não consegue evitar a sensação de déjà-vu: pelo menos neste primeiro volume, "Saindo da Mata", Sweet Tooth está longe de ser uma obra inovadora. A condição biológica de Gus não é novidade para quem lê X-Men. Só alguém que viveu em Netuno nos últimos 50 anos não está familiarizado com a ideia de um mundo devastado e repleto de perigos - basta ter visto um filme com zumbis. O personagem durão, de poucas palavras e que não erra um tiro já foi visto em inúmeras outras obras. Imaginar que Gus vá amolecer seu coração de pedra também não chega a ser uma quimera.

Considerada a falta de inovação, os méritos de Sweet Tooth estão, portanto, em seu ritmo ágil e no carisma do menino-cervo. Ele não sabe se tem um sobrenome e nem a idade que tem ao certo, mas é decidido o suficiente para pedir a Jepperd que não o trate como idiota. Não espere, porém, que Gus seja um tipo de pequeno prodígio: ele é só um menino assustado, que nunca tinha visto ninguém além do pai durante anos. Lemire não perde o fato de perspectiva e evita que Gus pareça mais esperto ou destemido do que deveria.

Sweet Tooth - Depois do Apocalipse, Vol. 1: Saindo da Mata é, enfim, um encadernado que compensa pelos R$ 15,90 cobrados. Não está mal para um primeiro arco. A Panini acaba de lançar o terceiro, "Exército Animal", mas para que eu continue fiel à leitura, é melhor que a série seja um pouco mais surpreendente já no segundo, "Cativeiro". Em tempos de quadrinhos caros, nem sempre dá pra seguir investindo às escuras por pura fé em que algo vá acontecer e me arrebatar.

02/06/2013

O Inescrito, Vol. 1


Com várias das séries que fizeram a fama da Vertigo encerradas aqui no Brasil (caso de Preacher, 100 Balas e Y – O Último Homem), muitos leitores podem ter ficado preocupados com o material que chegaria para substituir essas clássicas HQs. Eu fiquei. 

Daí que, no final do ano passado, quando a Panini encartou em duas edições da Vertigo mensal previews das séries escolhidas para dar continuidade ao legado do “braço” adulto da DC Comics junto aos leitores brasileiros, com os primeiros capítulos de Sweet Tooth e O Inescrito, eu não fiquei muito impressionado. As duas eram simpáticas, mas não me provocaram aquele “uau!” que sucede, por exemplo, o fim da leitura do primeiro capítulo de 100 Balas.

Ambas já tiveram seus segundos volumes lançados, mas eu me vi tentado a aproveitar a chance de ler os volumes iniciais com seu recente retorno às bancas. Relutei ainda por duas ou três semanas, é verdade, mas pensei, “ah, vamos ver qual é”.

O Inescrito, Vol. 1 – Tommy Taylor e a Identidade Falsa é um encadernado das cinco primeiras edições de The Unwritten, nome original da série do roteirista Mike Carey e do desenhista Peter Gross, que já haviam trabalhado juntos em Lúcifer, do universo de Sandman.

A história gira em torno de Tom Taylor, filho de um famoso escritor de livros de fantasia e base para o personagem principal destes, Tommy Taylor. Com 13 volumes, a série Tommy Taylor é um sucesso mundial na escala de Harry Potter (com os quais guarda assumidas semelhanças), sucesso este que sustenta, porém, igualmente incomoda a Tom, que não chegou a conhecer a mãe e foi abandonado ainda jovem pelo pai, Wilson Taylor. Ninguém sabe com certeza se o pai de Tom está vivo ou morto.

Tom é um chato, um resmungão aparentemente sem talentos, que vive de aparições em convenções e feiras literárias, faturando com o fato de “ser” Tommy Taylor. Cansado de responder às mesmas perguntas de sempre, ele se vê questionado em sua identidade por uma desconhecida. Admitindo que desconhece detalhes importantes de sua própria história, ele inicia uma busca pelos segredos de seu pai, esperando que isso o ajude a entender melhor quem é.

O problema é que a busca de Tom desperta o interesse de uma sociedade secreta cuja história se mistura à de grandes escritores, como vemos no quinto episódio, protagonizado por Rudyard Kipling, escritor britânico de O Livro da Selva. Resumo em poucas palavras o desafio à frente de Tom Taylor: seus inimigos não estão acostumados a serem contrariados.

Com prefácio de Bill Willingham (Fábulas), este primeiro volume de O Inescrito, com sua interessante proposta de metalinguagem (é um livro sobre o personagem de um livro que é o personagem de um livro) e suas brincadeiras com a fronteira entre realidade e ficção, aliadas ao componente de mistério que sustenta as boas histórias de suspense, revela-se uma grata surpresa. O primeiro capítulo, como dito antes, pode não impressionar, mas, logo em seguida, fica difícil resistir às próximas páginas. Os preocupados fãs da Vertigo podem respirar aliviados: O Inescrito é digna da casa que habita.