25/07/2013

O Homem de Aço





AVISO: Este texto tem spoilers!

Meus sentimentos em relação a O Homem de Aço são conflitantes.

Parte de mim está feliz pelo simples fato de a Warner (dona do imenso panteão super-heroico da DC Comics) ter finalmente conseguido, depois de coisas medonhas como Mulher-Gato e Lanterna Verde, lançar um filme digno e bem-sucedido fora da trilogia do bilionário Batman de Christopher Nolan. Verdade seja dita, nem tão fora assim, já que Nolan e David S. Goyer (parceiros nos três bat-filmes) deixam sua marca no roteiro e na produção. É uma sombra tão forte que praticamente eclipsa o habitual estilismo do diretor Zack Snyder e faz a gente se sentir vendo um filme do Batman - sem o Batman.

Minha alegria vem, também, do sopro de ar fresco que o filme representa na virtualmente imutável mitologia do personagem: os momentos finais de Krypton ganham destaque e relevância inéditos no cinema e ajudam a entender melhor o antagonismo entre Superman e Zod. Existe, também, uma certa dualidade moral no ar: o Superman ainda não é aquele tipo centrado e de caráter inabalável, como ficou universalmente conhecido. Ele acabou de descobrir que seus poderes são capazes de muito mais do que ele pensava, está se divertindo muito com isso e, até que aprenda, entre outras coisas, a mensurar a força de seus golpes, não parece muito atento ao que acontece ao seu redor. Se uma das principais queixas que se faz do Superman é o fato de que ele é "bonzinho" em demasia (coisa que só sai da boca de quem passou longe das HQs do personagem nos últimos trinta anos), este filme vai agradar aos detratores do personagem, porque este Kal-El aqui senta o braço com vontade e não é amiguinho íntimo das autoridades dos Estados Unidos.

Foi bastante fácil, também, gostar do elenco. Henry Cavill foi uma escolha acertada, convencendo como um desajustado Clark Kent que não sabe o que pensar de sua origem alienígena, como o confiante Kal-El, depois que toma posse de sua herança genética e cultural, e como o já uniformizado super-herói, capaz de derrubar resistências e derreter corações com um sorriso (ora, não se engane: mesmo os marmanjos querem que o Superman seja um cara bonito - e Cavill é muito bonito - porque o personagem é todo um ideal a ser atingido, o que inclui a beleza física - e dá tremores só de pensar que aquele ícone da 'desbeleza' que é Nicolas Cage quase ganhou este papel).




Diane Lane e Kevin Costner também estão muito bem como os pais terrestres de Clark - e aqui, em meio a tantas cenas em que a emoção transborda, temos uma pequena heresia do filme: ninguém há de duvidar que Jonathan Kent (Costner) ame o filho, mas considerei sua postura bastante castradora. "Você não pode" e "Você não deve" são frases que saltam sem parar da boca do pai adotivo do maior dos heróis. Quando ele sugere que o segredo do filho está acima do valor de vidas humanas, então, eu me retorci todo na poltrona. Mesmo no momento de sua morte, quando seria perfeitamente possível para Clark salvá-lo, Jonathan parece sentir necessidade de mostrar ao filho quem manda. Fazer uma viúva e um órfão (ainda que adulto) de propósito não me parece exatamente um bom exemplo do Papai Kent.

Amy Adams também faz uma ótima Lois Lane e sua história com o herói é completamente modificada aqui: seguindo por anos os passos do misterioso "anjo" que realiza salvamentos mundo afora, ela descobre sozinha a identidade civil do Superman antes de ter qualquer relação com ele (o que, claro, acaba acontecendo, num esperado e empolgado beijo, que acalma e recoloca os fãs puristas em sua "zona de conforto").

E existe Michael Shannon - ou melhor, existe o General Zod. Nada contra Lex Luthor e seus ótimos intérpretes, mas já havia passado da hora de explorar outros nomes na galeria de vilões do Homem de Aço (que não chega a ser exemplar como a do Batman, mas da qual se colhem opções interessantes). Zod é, simplesmente, a melhor coisa do filme, um vilão muito bem caracterizado e interpretado com excelência por Shannon (e que se diga: Nolan e Goyer amam seus vilões). Do momento em que comete traição em Krypton até aquele em que finalmente domina seus novos poderes sob nosso sol, Zod só é um vilão porque está em rota de colisão com aquele que consideramos um herói. Na verdade, ele está apenas seguindo sua "programação", seu propósito de vida, aquilo para que foi criado (num inesperado diálogo filosófico que, mesmo sem a profundidade de um Matrix, me fez lembrar do Agente Smith).




"Então, você gostou de tudo, Batman?", você me pergunta, com um sorriso no rosto.

A parte de mim que não está tão feliz, porém, precisa se manifestar. Depois de uma introdução brilhante em Krypton (com um show do ótimo Jor-El de Russell Crowe), o didatismo, o simplismo e a superficialidade de boa parte dos diálogos, aliados a uma edição que parece estar correndo contra o relógio, numa ânsia descontrolada para chegar às vias-de-fato (ou seja, à pancadaria), comprometem a qualidade do filme. A não-linearidade temporal da história não chega a ser um incômodo, mas talvez se pudesse haver adotado uma estrutura mais convencional num filme que, afinal, é uma trama de origem.

A pancadaria, por sinal, tem parte da culpa pelo que está errado com o filme. Entenda: é ótimo ver o Superman arrebentando com gosto a fuça de Zod, Faora e Jax-Ur. O problema começa quando, depois que os kryptonianos renegados destroem a casa de Martha Kent jogando nela um carro, é o Superman quem dá início à destruição da propriedade alheia, fazendo Zod atravessar uma refinaria e outros imóveis, ainda em Smallville. No rastro da briga entre os dois, cidades inteiras vão virando pó e, em Metrópolis, a coisa atinge um nível Transformers de hecatombe. Por mais que algo assim seja de se esperar, dados o nível de poder envolvido e a constância com que essas coisas acontecem nas HQs, pareceu que, em alguns momentos, tantas explosões e prédios inteiros caindo eram cortina-de-fumaça para o fato de que poderiam ter caprichado mais na história.

E existe o tal final "polêmico" da briga com Zod, que, em tese, faria ruir um dos pilares morais sobre o qual o mito do Superman é erguido. Venho tentando entender a situação extrema como aquela que viveu a Mulher-Maravilha contra Maxwell Lord em Projeto OMAC (2005): era a única saída possível. Mesmo assim, repito, em um filme que pretende resgatar espectadores para uma franquia combalida, talvez fosse prudente ser um pouco mais, digamos, ortodoxo.

Mesmo com um senão aqui e acolá, o filme se sustenta pela habilidade de Zack Snyder em filmar cenas de luta (aspecto em que dá 10 x 0 em Christopher Nolan), pela coleção de cenas icônicas (que atire a primeira pedra de kryptonita aquele que não ficou maravilhado a cada voo do Superman) e pela possibilidade de que o uso irresponsável de sua força neste filme traga ao Superman (agora, sim) problemas na figura de um certo cidadão metropolitano que o enxerga não como exemplo, mas como uma ameaça à vida e às ambições humanas. Seria sensacional ver Lex Luthor sendo eleito presidente (como foi nas HQs), tendo como uma de suas bases eleitorais a rejeição ao Superman.

Entretanto, me parece que algo ainda mais sensacional se aproxima: o segundo filme do Homem de Aço já está marcado para 2015 e a campanha inicial de divulgação faz crer que a presença do Batman resultará na recriação de um momento clássico, que mostra claramente quem é o maior de todos (hehe!).

O Homem de Aço é, enfim, um bom filme, que apenas ficou um pouco aquém das expectativas geradas pelos seus magníficos trailers. Apesar disso, seu sucesso parece ser um indicativo de que encontrou-se um bom novo caminho para o personagem no cinema. Numa visão simplista, pero no mucho: não é o Superman, mas é. Gosto disso.

06/07/2013

Turma da Mônica: Laços


Um flashback do momento em que Cebolinha ganha seu cachorro de estimação, Floquinho, é a sequência de abertura de Turma da Mônica: Laços. Em termos de ternura, é digna de comparação com, por exemplo, o bebê Dumbo se balançando na tromba da mãe, no desenho de 1941 da Disney. O lindo traço de Lu Cafaggi (que co-escreve a história e desenha a turma ainda bebê) e o tratamento de cores dado por Priscilla Tramontano e Vitor Cafaggi (irmão de Lu, co-autor e desenhista da turminha aos sete anos) capturam com tamanha perfeição a nostalgia e as emoções em cena (o sono e o aconchego de Cebolinha no colo da mãe, a curiosidade em seus olhos ao abrir a caixa em que vê Floquinho pela primeira vez) que fica impossível não se derreter desde o primeiro momento. Dá até pra "escutar" a música incidental.

O corte para o "presente" se dá em meio a cenas tradicionais do bairro do Limoeiro: Cebolinha e Cascão fugindo (e apanhando) da Mônica, Magali comendo sem parar, Titi xavecando Aninha... Até que, na volta pra casa, Cebolinha fica sabendo que Floquinho está desaparecido. Diante do fracasso das buscas dos adultos, o garoto se recolhe em seu quarto, abatido. Mônica, Cascão e Magali, porém, não querem deixar que o amigo se desanime e se oferecem para ajudá-lo a achar o cachorro. Cebolinha, então, traça um dos seus "planos infalíveis" e os quatro se embrenham no parque da cidade em busca do perdido Floquinho.


Em sua jornada (que em muito lembra antigos filmes sobre amizade e ritos de passagem na infância, como Goonies e Conta Comigo), a turma vai enfrentar perigos (claro, apenas tão perigosos quanto espertos garotos de sete anos podem enfrentar), além de dar e receber solidariedade de improváveis aliados. Nem só de correria e suspense, porém, vive a história: algumas falas de Cebolinha e a participação de Magali no plano para libertar Floquinho são preciosos achados cômicos.

Passam-se décadas, seus leitores crescem, mas a Turma da Mônica continua falando à criança interior de todo mundo que os acompanhou na infância e é bom ver que eles continuam ajudando a formar gerações de leitores. As aventuras da turminha sempre foram e continuam sendo combustível para diversas fantasias infantis. Que atire a primeira pedra aquele que nunca brincou com a própria sombra, como faz Cascão enquanto seus cansados e machucados colegas dormem, num momento absolutamente genial da história.

Se Astronauta: Magnetar padecia um pouco pela conclusão apressada, este problema não se repete aqui: a trama dos irmãos Cafaggi é absolutamente fluida e cativante até o último quadro. Ao seu final, o primeiro encontro dos quatro amigos é revisto com grande beleza e inocência. Um desfecho totalmente adequado para uma história que, mesmo hospedada em uma coleção que se diz "adulta", trata, afinal, da amizade entre crianças como uma força inesgotável, que atravessa os anos resistindo a coelhadas e planos infalíveis arruinados. Uma HQ para entrar para a História e para guardar no coração.