24/08/2013

Círculo de Fogo


Todo mundo que cresceu nos últimos 40 anos lembra de alguma série japonesa, animada ou live action, com monstros e/ou robôs gigantes. No meu caso, além da autodescritiva Robô Gigante, cresci assistindo coisas como Ultraman, Ultra-Seven e Spectreman. Era muito legal ver aqueles heróis, com seus poses e golpes exagerados, enfrentando monstros toscos de borracha sobre cidades ainda mais toscas de papelão. Toda aquela tosqueira era o máximo, aos olhos de qualquer criança.

Refinamentos digitais à parte, o componente trash sempre foi importante neste tipo de programa, mesmo em suas versões mais recentes. Quando alcancei a adolescência, porém, Jaspion, Changemen e semelhantes já não me seduziam. Fui me afastando cada vez mais da cultura pop nipônica, atraído pelo detalhismo anatômico dos comics norte-americanos, com suas tramas elaboradas (ou simplesmente metidas a besta).

Não deixa de ser curioso, então, que o filme mais declarada e apaixonadamente nipônico feito em Hollywood este ano seja o filme que mais me cativou, até o momento. Círculo de Fogo é uma bonita, divertida e barulhenta homenagem a uma extensa linhagem de personagens empenhados em destruir a cidade para salvar a cidade há várias décadas.

No filme, a invasão da Terra por forças alienígenas já está consumada e não aconteceu com naves descendo do céu, como manda o senso comum. Os gigantescos kaiju saíram do oceano, através de uma fenda dimensional no leito do Pacífico. Para combatê-los, as nações terrestres criaram os jaegers, robôs igualmente gigantescos que precisam ser operados por dois ou mais soldados totalmente sintonizados em um profundo nível mental, já que mover tamanho maquinário é esforço demais para apenas uma pessoa. Eles precisam literalmente conhecer a mente um do outro como se fosse a sua própria.


O filme avança rapidamente até o ponto em que os ataques de kaijus começam a se tornar mais frequentes do que os humanos são capazes de construir ou reformar jaegers. O alto custo do projeto desanima as autoridades mundiais, que já cogitam soluções desesperadas - ou simplesmente estúpidas (um gigantesco muro de aço e concreto que os bichões atravessam como se fosse de papel). Apesar de tudo, os jaegers ainda se mostram efetivos e o comandante Stacker Pentecost (Idris Elba, um dos poucos nomes reconhecíveis do elenco) espera contar com a ajuda de Raleigh Becket (Charlie Hunman), um ex-piloto que deixou a função após uma tragédia pessoal.

Tecnicamente, Círculo de Fogo é irrepreensível. O gigantismo dos monstros e robôs é simplesmente espantoso e o diretor Guillermo Del Toro faz questão de dar-nos a exata noção de nossa insignificância perto deles, através de tomadas que enfatizam as alturas e distâncias em que se estendem (auxiliado pelo justificado uso do 3D, a primeira vez em que o efeito fez diferença para meus olhos). Se o design de alguns monstros deixa a desejar, o mesmo não se pode dizer dos robôs, sensacionais em suas particularidades (repare, por exemplo, como o russo Cherno Alpha faz lembrar uma velha usina atômica, enquanto os descolados japoneses têm o único robô de quatro braços). Cada aparição deles é seguida de diversos "uau!", mentalizados ou falados antes que a gente consiga se controlar. Sequência entrando sem escalas para a História do Cinema: um jaeger usando um navio como porrete.

Como não são autônomos, os jaegers exigem muito de seus pilotos e é visível o esforço imposto aos atores no manuseio do maquinário (o interior da cabeça dos robôs foi construído em estúdio e todas as engrenagens funcionam, exceto pelos retoques digitais, como é visto no filme). Ao contrário da exagerada agilidade dos Transformers, os movimentos dos jaegers são rápidos para seu tamanho, mas levam em conta que os humanos em seu interior precisam fazer uma força tremenda para executá-los.


O lado humano da história não se limita ao alívio cômico de personagens trapalhões (que, ainda assim, mostram-se inteligentes e úteis), nem ao clima entre Raleigh e a piloto japonesa Mako Mori (a graciosa Rinko Kikuchi). Esta última está no centro dos conflitos mais interessantes do filme: a história de como chegou ao Projeto Jaeger (tente não se emocionar com o choro de sua versão infantil, correndo por uma Kobo devastada), sua relação conflituosa com o comandante Pentecost e a recusa deste em deixá-la pilotar o jaeger americano Gipsy Danger ao lado de Raleigh. Mais convencionais, pai e filho, pilotos do australiano Eureka Striker, também têm bons momentos.

Filmes de destruição apocalíptica já viraram carne-de-vaca, mas Círculo de Fogo tem a seu favor uma saudável mudança de cenário (nada de Los Angeles ou Nova York) e pequenas surpresas que respeitam a inteligência do espectador. A falta de um grande nome no elenco, porém, parece ter contribuído para que o filme, apesar das críticas positivas, não tenha feito o sucesso esperado - em curioso contraste com o recente fracasso de produções com grandes astros à frente de idéias repetidas ou simplesmente ruins, como O Cavaleiro Solitário (com Johnny Depp) e Depois da Terra (com Will Smith).

Tudo bem. Como vemos ano após ano, sucesso nem sempre é sinônimo de qualidade. Círculo de Fogo é um dos filmes mais legais dos últimos tempos. Se você não ainda foi ver, corra até a sala mais próxima e desfrute de suas 2.500 toneladas de diversão.