20/11/2013

Cansei de você, seu burro!


Primeiro, eu vou colocar aqui o link da notícia que motivou este post.


Leu? Beleza, mas eu não quero mais falar de Marco Feliciano, porque falar dele me cansa, me deprime, me dá ímpetos homicidas e eu não quero chegar ao fim deste post morto, doente ou preso.

Eu quero falar com e sobre você, que concorda com ele.

Você pode até achar que, em nome da leitura que ele faz do livro sagrado que diz seguir, ele tem o "direito à livre expressão" ao dizer que africanos são "descendentes amaldiçoados" de algum personagem bíblico. Pode não ser muito justo culpar ao livro, porque, afinal, tudo isso pode ser apenas resultado da interpretação do racista de merda que ele é. Gente como ele é que mantém grande parte dos negros do país na posição de coadjuvantes de seu próprio tempo e história, ao sabor dos humores do "macho adulto branco sempre no comando". Se você concorda com ele, lamento dizer, isso faz de você, igualmente, um(a) racista de merda.

Você pode achar muito normal que ele e outros "ungidos" preguem, em pleno século 21, a submissão total da mulher ao homem e que estes mesmos senhores queiram barrar propostas de serviços públicos que visam a diminuir as mortes por abortos ilegais que acontecem desde sempre. Você pode concordar com essas pessoas que o lugar das mulheres é dentro de casa, tendo tantos filhos quanto o marido aguente fazer porque "a vida é sagrada" e métodos contraceptivos são "contra a vontade divina". Pode juntar-se àqueles que acham que mulheres "oferecidas" estão pedindo para serem estupradas, bem como compartilhar vídeos que mostrem moças em ato sexual com seus namorados, uns machistas de merda que se acham os fodões do pedaço, ao exibir-se em intimidade com elas que, agora, diante da repercussão online do vazamento das imagens, começam a apelar ao suicídio para escapar ao linchamento moral e isolamento social que se seguem. Você é livre para compactuar com tudo isso, desde que assuma que essas coisas fazem de você um(a) machista de merda.

Você pode concordar quando esse pulha usa um órgão governamental para perseguir ostensivamente uma minoria já historicamente segregada, barrando direitos civis que os gays já conquistaram em lugares melhor alfabetizados que o Brasil, países onde a intimidade do outro pertence apenas ao outro e ninguém tem projetos políticos baseados no controle do uso do pau, da xereca e do cu alheios. Você pode juntar-se ao coro dos que acreditam que ser um homofóbico de merda está limitado a chegar ao extremo de agredir a gays fisicamente, mesmo que isso seja uma burrice inclassificável de tão flagrante. Você é livre para olhar dentro dos olhos dos gays a quem talvez até chame de amigos e dizer que você os adora, mas que eles não têm direito a buscar a própria felicidade entre seus iguais, porque isso contraria a SUA convicção do que é bom para a vida DELES. Você pode. Basta que você admita que é um(a) homofóbico(a) de merda.

Não estou tentando ser palmatória do mundo. Como você, eu sou fruto do meio. Meu país é uma nação vergonhosamente racista, machista e homofóbica desde sempre e a tendência não é de melhora, com esses "aiatolás cristãos" chegando a altos postos no governo. Eu luto constantemente contra meus próprios pensamentos racistas, machistas e homofóbicos, porque fomos e ainda somos ensinados que a infelicidade do outro é essencial à nossa felicidade. Mudar uma cultura centenária não é trabalho para meia dúzia de anos, mas é preciso começar de algum lugar. É preciso deixar que alguma mudança, por mais transgressora ou tímida que possa parecer, aconteça. Porque a alternativa já é o que vivemos e isso, nem de longe, parece boa coisa.

E digo tudo isso porque eu sou hetero.

Heterodoxo.