17/12/2013

Existe "frieza digital"?

Profetas do apocalipse digital adoram postar fotos de um monte de gente reunida, mas sem interagir diretamente, preferindo as telas de seus celulares e tablets ao olho-no-olho e ao bate-papo sem mediação eletrônica. Oh, que tempos tão tristes, estes de Facebook e WhatsApp, não é mesmo?

Bom, eu lamento ter que molhar o pavio da sua postagem-bomba, mas a foto abaixo prova que não é bem a tecnologia que estraga as pessoas.


Este assunto veio à tona, no último fim de semana, numa conversa entre amigos. A autoria de uma frase que previa esses tempos de frieza interpessoal, em detrimento de uma empolgação artificial e danosa com apetrechos eletrônicos, é atribuída a Albert Einstein. (Dizem que) dizia ele:

"Eu temo o dia em que a tecnologia ultrapasse nossa interação humana, e o mundo terá uma geração de idiotas."

Ora, Einstein não viveu para ver um terço das maravilhas tecnológicas que hoje achamos tão naturais quanto água nas torneiras. Era óbvio que ele não estava falando de internet ou celulares. A bem da verdade, eu, aqui, com meus botões, sou capaz de apostar que, se vivo fosse, Einstein seria um entusiasta e usuário compulsivo de Facebook e Twitter.

Se ele não fosse, sim, é que eu acharia estranho. Porque, apesar das críticas e das constantes evidências de má utilização, as mídias sociais são instrumentos preciosos de interação humana. Ainda me espanta que as pessoas ainda percam seu tempo com uma questão que (bitch, please!) é tão 2001: é menos real só porque é virtual?

Durante uma aula, por exemplo, fui surpreendido pela revelação de alguns alunos que diziam conversar via WhatsApp mesmo quando se achavam a centímetros um do outro. Passado o choque inicial, a explicação: há coisas que não se diz em voz alta. Então, enquanto o papo rola solto no ambiente "real", espertas e divertidas (ou, quem sabe, maldosas) observações estão sendo feitas sobre aquele assunto, ou sobre outro qualquer, no chat do "Face" ou no "Whats". Adolescência, teu novo sobrenome é "Multitarefa".

Outro exemplo prático da utilidade das redes sociais é a possibilidade de restabelecer contato com gente "perdida" para outros meios de comunicação. Aconteceu comigo: no fim de novembro, encontrei no Facebook um colega dos meus tempos de segundo grau, em Goiânia. Naquele distante 1990, ele era um de meus melhores amigos e, após minha volta à Bahia, no ano seguinte, nos escrevíamos cartas com certa regularidade. Até que, conforme anunciado em uma delas, ele e sua irmã se mudaram de Goiânia para Gurupi (TO) e sumiram do mapa. Vieram ICQ, MSN, Orkut... e eu não os achava. Até recentemente, o Facebook, também, não tinha ajudado muito. Tive a curiosidade de procurá-lo mais uma vez e, para minha felicidade, lá estava ele: cabelos brancos, filho adolescente, mas, sim, o amigo com quem dividi minha breve experiência de vida na capital goiana.




Veja bem: foram cerca de 20 anos sem qualquer notícia! Não sou ingênuo de achar impossível que o tempo o tenha transformado - ora, pois se a mim transformou, como não a ele? Era um dos melhores amigos que eu tinha e a "magia" talvez não se repita agora, mas é legal que ele esteja ali, ao alcance de uma mensagem via inbox, para me contar como vai, o que anda fazendo e o que mais mudou pare ele, nessas duas décadas em que não nos falamos.

De forma semelhante, tenho amigos de várias partes do país e do mundo, conquistados com o uso da internet - alguns destes, presentes na minha vida há dez anos ou mais - que ainda não tive o prazer de encontrar pessoalmente. Pode ser que, num encontro real, a cerveja em nossos copos até esquente, esperando que o papo engate, ao contrário da torrente confessional que uma amizade virtual costuma ser. Pode ser que não haja assunto. Pode ser que aquela pessoa não seja, afinal, tão legal assim... mas você não pode me censurar por esperar pelo melhor. Eu amo essas pessoas - de uma maneira nada virtual! - e quero muito encontrá-las, um dia.

Minha fé nas coisas simbolizadas pelo Natal é, hoje em dia, praticamente nenhuma. Deixei de acreditar em salvadores, em entidades superiores ou inferiores (e, por favor, respeite meu desejo de não iniciar uma discussão sobre este assunto agora), mas eu acredito em boas pessoas, em bons sentimentos, e sei que, por qualquer que seja o motivo, eles costumam estar mais aflorados nesta época - e, nas pessoas que admiro, isso não tem absolutamente nada de hipócrita ou contraditório, se comparado ao que elas fazem nos outros 11 meses do ano. Eu procuro me cercar de gente boa (preferencialmente, melhor que eu) pra aprender com elas a ser melhor.

Sim, isso inclui você! :)

Quando receber ou enviar seus desejos de Feliz Natal e/ou Ano Novo, portanto, aperte essas teclas com o coração na ponta dos dedos. O amor transcende barreiras, inclusive as digitais. É claro que o maroto do Einstein sabia disso, tolinho(a)!