18/12/2014

RIP Rock Brasil


Hoje, a divulgação de um ranking que mostrava o pior resultado do rock nacional entre as 100 músicas mais ouvidas do ano, aparecendo apenas a partir da posição 81, enquanto o sertanejo abocanha 60% da lista, deve ter gerado muito bate-boca e muito mimimi. Na verdade, eu não sei se gerou. Ler comentários de notícias na internet é algo que deixei de fazer em prol de minha sanidade mental.

Este ranking não tem qualquer efeito sobre minhas preferências particulares, como se eu fosse magicamente perceber que estive por fora do que é legal na música jovem de hoje. A jovem música sertaneja, na minha opinião, pode ser definida com diversos adjetivos, mas "legal" certamente não é um deles. Argumentar que é bem tocada e bem produzida, que os cantores são bons performers e que é o que o povão quer ouvir não muda minha opinião sobre ela. Não gosto. Fim.

São tantas (e, basicamente, as mesmas) as causas da ascensão da música sertaneja (e de outros gêneros populares) e da decadência do rock nacional, que eu provavelmente cansarei meu leitor antes de ter chegado à metade da lista. É possível, porém, diagnosticar algumas.

Em algum momento, o sucateamento da nossa educação teria um preço e essa conta está agora sendo cobrada. Pode escolher o efeito nefasto de sua preferência: a grave imperícia da mão-de-obra; gente que vai pra TV orgulhar-se de nunca ter lido um livro (e ganhar fãs com isso); a incapacidade de argumentar sem ofender, como vemos na internet todo santo dia; ou, finalmente chegando onde nos interessa, a falta de paciência para qualquer tema além de amor, sexo e bebedeira.

Nada de errado em falar de amor, sexo e bebedeira, claro. Esses são os temas de grandes canções de rock brasileiras e gringas. Aconteceu, entretanto, uma reviravolta no protagonismo social. Até a década de 90, a classe média brasileira era, digamos, "pura", uma classe média que sempre foi classe média, cheia de regras e dogmas, educada em escola particular, coisa e tal. Após o grande salto de mobilidade social da década passada, as rédeas do consumo cultural no país foram tomadas por uma "nova classe média" anárquica, bruta, sem polimento. Essas pessoas não se identificam com o rock nacional, simplesmente porque o rock nacional não dialogava com elas. Elas agora formam a espécie dominante e estão "shitting and walking" pro rock.

O fã de rock, especialmente o brasileiro, sempre arvorou-se suposta superioridade intelectual e não hesita em chamar quem curte gêneros populares, como sertanejo e pagode, de burro, alienado e termos de baixo calão. E o que acontece quando uma turma pequena esculhamba uma turma maior? A maior bota a menor pra correr, claro. Na posição de um investidor, sem qualquer pretensão de criar "Grande Arte", apenas de ganhar o máximo de dinheiro possível, você preferiria agradar à turma pequena ou à grande? Pergunta fácil, esta.

Some-se a isso tudo o desgaste provocado pela nefasta "fórmula Rick Bonadio de sucesso" ao longo de uma década, que gerava uma manada de bandas indistintas de sub-sub-sub-hardcore para skatistas imberbes, quase todas elas muito burras, muito ruins e despontando para o anonimato em pouquíssimo tempo.

Apesar de encolhido e enxotado das rádios a vassouradas, o rock brasileiro ainda existe. Muitos grandes nomes de décadas passadas continuam ativos e produzindo bons discos, até. Os novatos surgem diariamente, coalhando a internet de nomes e canções à espera de tornar-se "a próxima grande coisa".

Bem, eu detesto ter que fazer isso, mas é hora de derrubar seu pão com a manteiga virada pra baixo: não vai rolar, queridos.

Não vai rolar porque o rock brasileiro parece ter alergia ao sucesso - e não é que as bandas não queiram, mas parece que, desde o "advento" Los Hermanos, fazer pop nesta terra virou crime. "Anna Júlia" estourou e o que foi que eles fizeram? Renegaram a "Anna Júlia". Se é verdade que essa decisão de autossabotar-se deu maior autonomia criativa à banda, também os transformou em uns chatos de galocha, dando início a essa escola maldita de bandas barbudas e maltrapilhas, fazendo músicas em baixos tons, pretensiosas e sem qualquer pendor radiofônico. Quem navega pelos YouTube da vida e descobre um artista assim quer, com razão, cobri-lo de volta imediatamente.

(Antes que você, fã de Los Hermanos, venha jogar cocô na minha porta ou xingar minha santa mãezinha, saiba que eu gosto de muitas canções da banda e admito que algumas conservam um certo tino comercial, mesmo depois da "morte" de "Anna Júlia"... mas essas são bem poucas. Além do mais, o discurso deles, toda aquela "fracassomania", é o suprassumo da "paumolescência", apelando a termo célebre cunhado por Lobão exatamente para Los Hermanos - e não tem nada mais embaraçoso, hoje em dia, do que ter que dar razão a Lobão).

Haverá quem alegue que o rock não é um ritmo brasileiro e que o brasileiro "genuíno" não se sente tocado por ele. Não é verdade. Novos Baianos eram rock, populares e brasileiros até a medula. Secos & Molhados eram rock, mas falavam de sacis e pirilampos, musicavam Vinicius de Moraes e foram a coisa mais próxima que houve de uma beatlemania brasileira. Os Paralamas e o Skank sempre jogaram um molho brasileiro no rock e isso dava muito certo antes, não dava? Só que os Paralamas são uma banda com mais de 30 anos de carreira e o Skank já passou dos 20. O nível de sucesso deles está cristalizado. O público com quem eles falam não é a juventude de hoje.

Sendo muito franco, eu não alimento ilusões: o rock brasileiro já era. Não volta pro topo. Em parte porque o público mudou, ficando mais imediatista, menos reflexivo e, sejamos francos, mais burrinho. Em parte por incompetência própria. Escolha qualquer lista de melhores canções de rock nacionais de 2014 e tente tirar delas apenas cinco, das quais seja possível dizer, "olha, que legal, essa música é tão gostosinha e assobiável, podia estar tocando direto no rádio!" Não tem. Você põe as faixas pra rolar e, com pouquíssimas exceções, é um festival de vocais sem personalidade, letras metidas que tentam explicar o sentido do nada e da porra-nenhuma, além de zero de sotaque pop.

(E não, eu não acho que só seja possível fazer muito sucesso sendo muito pop, mas é bem mais fácil assim. The Beatles fizeram discos complexos e superpopulares, é verdade... mas quantos The Beatles você conhece?)

É muito triste tudo isso, sabe? Parece que eu tô aqui, descendo o sarrafo no rock nacional e pouco me lixando pro estado das coisas, mas a verdade é que toda essa abundância e predominância de música ruim, sendo ouvida e compartilhada inclusive por gente que não tem a desculpa da falta de uma boa educação escolar, me faz sofrer terrivelmente. Eu amo música e me revolta e me entristece que as pessoas, hoje em dia, possuam parâmetros musicais tão pobres - ou que, simplesmente, não possuam parâmetro algum, gerando aberrações como "Camaro Amarelo" sendo eleita a melhor música de 2012, ou Anitta sendo eleita a melhor cantora de 2014. E vai piorar: não é Pablo a febre que assola o país, via Whatsapp, neste fim de ano?

Boa sorte pros fracos de estômago.

08/12/2014

O Oceano no Fim do Caminho


Há quem trate os quadrinhos como uma arte "menor". Não é de hoje, porém, que eu sei que eles podem proporcionar leitura tão gratificante e transformadora quanto qualquer livro em prosa. Isto é, eu e toda a manada nerd sabemos... Não chega a ser nenhum segredo do universo. Deveria ser óbvio, já que escrever (bons) quadrinhos nada mais é do que esmerar-se em tramas que ficariam bem mesmo quando desacompanhados das imagens. Infelizmente, ainda há quem ache que quadrinhos são "coisa de criança" e só delas.

Quem já leu obras clássicas como Watchmen (Alan Moore) e até coisas mais convencionais como Crise de Identidade (Brad Meltzer) sabe que aquilo é, enfim, literatura com imagens. Nisso, o selo Vertigo, da DC Comics, sempre foi especialmente prodigioso e Neil Gaiman, o autor da obra que melhor define sua "sustança" artística: a saga do Sandman. Com a reputação nas HQs solidificada, Gaiman vem ganhando respeito crescente, também, como romancista.

O Oceano no Fim do Caminho é o primeiro romance de Gaiman que leio e, da mesma forma que aconteceu com o suspense À Queima-Roupa, do também roteirista de HQs Greg Rucka, ler um romance de um habitual autor de quadrinhos revela-se uma experiência extremamente prazerosa.

No livro, o protagonista (cujo nome jamais é mencionado) está saindo de um funeral em Sussex, Inglaterra, e sente-se compelido a dirigir até uma propriedade na zona rural, vizinha àquela em que viveu. Ali moravam três gerações de mulheres de sobrenome Hempstock, das quais a mais jovem, Lizzie, tinha 11 anos quando ele tinha sete e ficaram amigos. Ao fundo daquela fazenda, no fim de uma pequena estrada, existe um lago que Lizzie chamava de oceano. Às suas margens, ele vai se lembrar de acontecimentos singelos e terríveis, que selaram a profunda amizade entre os dois e testaram os limites entre o mundo real e aquilo que alguns chamariam de mundo dos sonhos... ou pesadelos.

O estilo econômico de Gaiman nos priva de descrições muito longas e detalhadas (e possivelmente chatas) de cenários ou rituais. Não há desperdício verbal aqui, virtude que se estende aos personagens, quando alguma pergunta não possui - ou não se mostra digna de - uma resposta direta. A agilidade da prosa nos transporta de imediato aos cenários imaginados por Gaiman, enquanto cresce o clima de mistério e terror. Para variar, como em diversas criações do autor, gatos estão presentes e são importantes.

Se há algo a criticar, que seja a rapidez do desfecho que decreta o fim da ameaça ao protagonista, mas é um detalhe que não chega a comprometer a qualidade destas 208 páginas, avidamente devoradas em apenas uma tarde/noite de sábado. Acredito haver escolhido uma bela porta de entrada ao mundo dos romances de Neil Gaiman - este, o primeiro para adultos que ele escreve em quase dez anos. Despretensioso como é, duvido que vá destronar Sandman ou romances mais famosos, como Deuses Americanos ou Filhos de Anansi, no coração dos fãs, mas é leitura altamente satisfatória. Curioso como esperar menos que isso de Gaiman chega a ser ultrajante.

09/11/2014

U2 - Songs of Innocence


Não vai ser fácil escrever estas palavras, porque, não faz muito tempo, eu dei uma baixa daquelas no U2, mais por causa da odiosa (ainda que revolucionária) manobra mercadológica que moveu o lançamento deste disco do que por suas qualidades - ou falta delas.

Mas, como se sabe, reconhecer um erro é uma virtude e eu admito: eu estava enganado ao afirmar que o U2 não tem mais nada a dizer; Songs of Innocence é um belo disco. Dentro da extensa discografia do grupo, talvez mereça estar no terço superior de uma lista do melhor pro pior. Não habitaria o cume de ar rarefeito do Olimpo de onde reinam obras-primas como Achtung Baby (1991) e Zooropa (1993), mas não estaria muitas posições abaixo, acredite.

Acontece com ele, agora, o que geralmente ocorre a cada novo lançamento da banda: o disco me soa estranho durante algum tempo, com apenas algumas faixa sobressaindo e agradando de primeira (caso de "Every Breaking Wave" e "Cedarwood Road", as únicas que mereceram menções elogiosas em meu texto anterior), mas, conforme as audições se acumulam, os elementos que me fazem amar o repertório do U2 vão se revelando.

A primeira metade do disco desce redondinha: de "The Miracle (of Joey Ramone)" - longe de ser a "coisinha pseudo-épica e desimportante" de que a acusei antes - até "Volcano", temos o grupo em grande forma, apoiando-se firmemente na cozinha de Adam e Larry, como há tempos não se ouvia. Não que The Edge não tenha seus momentos de brilho; eles estão lá (o riff de "Every Breaking Wave", os backing vocals sempre inspirados), mas elogiar "o cientista da banda" é chover no molhado.

Tendo escrito as letras mais pessoais da banda em muito tempo (evocando a infância e a juventude em Dublin, os ídolos e os entes queridos perdidos), Bono tem aqui momentos de grande autenticidade sentimental, extraindo o melhor do seu timbre na construção de refrões empolgados ("California (There Is No End to Love)", "This Is Where You Can Reach Me Now") e emocionados ("Iris (Hold Me Close)", "Song for Someone"), sem soar combalido pelos 53 anos, exceto pelo lamentável falsete que deixa a já preguiçosa "Sleep Like a Baby Tonight" com o indesejado troféu de canção mais fraca do disco.

Quando o disco se encerra, com a bonita "The Troubles", vem a certeza (e ao menos isso foi um acerto do meu texto anterior): valeu a pena esperar cinco anos, porque Songs of Innocence soa mais honesto, variado e inventivo do que os dois álbuns anteriores - cabe atribuir ponto ao superprodutor Danger Mouse - e que bom que ele não incluiu o débil single "Invisible", indigno do repertório remanescente.

Se é verdade que o grupo já prepara um novo lançamento para breve (supostamente chamado Songs of Experience), estou oficialmente curioso e totalmente reconciliado com esta banda que faz trilha sonora pra minha vida há quase 30 anos. Como todo mundo sabe, a gente só se ocupa de brigar com quem a gente ama. Perdão pelo piti de um mês atrás, caras. Amigos? :-)

Peninha - 50 Anos


Este é um especial merecidíssimo, comemorando as cinco décadas de um dos melhores personagens da Disney, o mais versátil, lesado e desastrado membro da Família Pato: Peninha!

O Pato Donald pode ser O astro da Disney (para mim, muito mais querido que o Mickey Mouse), mas Peninha protagonizou momentos que definiram e fortaleceram o hábito de ler quadrinhos como uma das características mais duradouras e evidentes de minha personalidade. Na década de 80, quando chegou a ter sua própria revista, foi responsável por gargalhadas de toda a minha família, com suas amalucadas aventuras produzidas no Brasil, em especial aquelas em que atua como repórter do jornal A Patada.

É desta fase a história que eu mais queria ler neste especial: "O Barão, o Porão e a Assombração", um monumento de nonsense absolutamente genial, que impregnou minha memória por mais de 30 anos... mas que, infelizmente, "não bateu" da mesma forma agora. Tá, eu sei que não tenho a mesma idade da primeira vez que eu a li, mas parece estar faltando algo ali - provavelmente, está faltando mais "ão". Achei que tinha menos que antes. Talvez tenham mexido no texto pra esse lançamento.

Não que este detalhe vá diminuir o prazer e a diversão de ler essas histórias, muito bem escolhidas. Desde a fase inicial americana, mais "ortodoxa" (isto é, ortodoxa em relação à totalmente despirocada fase brasileira, que ganha óbvio destaque), a presença de Peninha é sinônimo de imprevisibilidade, caos e risadas garantidas. O jeito tranquilão e distraído, inabalável até diante do perigo, é o elemento que enlouquece todo mundo ao seu redor e provoca as situações mais loucas.

Se outros personagens têm um alter ego (Superpato, Morcego Verde, SuperPateta), Peninha pode orgulhar-se de ter tido, pelo menos, quatro identidades secretas regulares: Pena Kid (com histórias ambientadas no Velho Oeste), Pena das Selvas (em que faz as vezes de Tarzan), Pena Submarino (alô, Namor!) e o mais maluco justiceiro de Patópolis, o Morcego Vermelho (impagável paródia do Batman).

Outro destaque de Peninha 50 Anos é a história que apresentou ao mundo seu sobrinho, o hiperativo e esquentado Biquinho. Sobre ele, vale lembrar uma curiosidade: a popularidade da revista do Peninha naqueles tempos era tamanha, que as cores definitivas das penas e roupas do Biquinho foram decididas em concurso nacional, promovido pela Editora Abril.

Ao contrário dos seus parentes mais ricos (Tio Patinhas) e famosos (Donald), Peninha não ganhou uma coleção em formato americano com letras douradas, mas, com suas 307 páginas e 31 histórias, ao custo de R$ 16, este é um especial de leitura agradável, que faz a gente sorrir bastante e, ocasionalmente, gargalhar. Para mim, parece uma homenagem adequada e um investimento aconselhável.

Mundo HQ


- Para quem pensava que "A Corte das Corujas" era fogo-de-palha e que Scott Snyder logo perderia o fôlego no comando das aventuras do principal título do Batman, o prolongado "Ano Zero" vem provando o contrário. Melhor que isso é ver que a qualidade do texto de Snyder encontrou uma contraparte perfeita na arte precisa, econômica e, por vezes, espetacular de Greg Capullo. Dá gosto comprar Batman todo mês (ainda mais agora, que a Detective Comics escrita por John Layman também tem se mostrado bastante digna). Em tempo: "A Corte das Corujas" está programada para sair em encadernado para livrarias, até o fim do ano.

- Por outro lado, A Sombra do Batman está em permanente risco de "degola" na minha lista de compras. O carro-chefe, Batman & Robin, vai muito bem (mesmo sem Robin, desde a morte de Damian Wayne em Corporação Batman 4) e vale um elogio ao roteirista Peter J. Tomasi, no comando da coisa desde antes do advento dos Novos 52. Asa Noturna era muito bom e caiu um pouco; Batwoman era bom e caiu muito; Batgirl era bem "nhé", mas deu uma melhorada; esta fase da Mulher-Gato jamais me convenceu; e Capuz Vermelho & Os Foragidos é um título cuja existência e longevidade são mistérios insolúveis para mim. Não sei até quando acharei razoável pagar R$ 15,90 por tão pouco retorno.


- Vilania Eterna, atualmente na quinta de sete partes, é uma série com algumas ideias legais ligadas ao bem-sucedido plano de dominação mundial do Sindicato do Crime (uma versão maligna da Liga da Justiça), mas, como agora parece regra em tudo que Geoff Johns escreve, as coisas andam MUITO devagar e surtos de violência gráfica parecem apenas mascarar a debilidade do roteiro. Poderia parecer melhor se tivesse um bom desenhista no comando, mas está tudo nas mãos de David Finch (e, PQP, como esse cara é RUIM!). As séries da Galeria de Vilões e do ARGUS, que completam as edições, são bem mais interessantes que o evento principal.


- A linha Graphic MSP (reinterpretações "adultas" das criações de Maurício de Sousa, por outros autores) começou sua segunda fase. Bidu: Caminhos, lançada em agosto, é uma fofura só e uma bela aventura sobre amizade, soberbamente escrita e desenhada a quatro mãos pelos mineiros Eduardo Damasceno e Luis Felipe Garrocho. O traço leve, as cores suaves, o criativo uso de onomatopeias e as sacadas do "idioma" de Bidu e seus amigos tornam este gibi obrigatório para os fãs do cachorrinho azul. A próxima Graphic MSP chega em dezembro (Astronauta 2: Singularidade).

06/10/2014

O U2 e o fim da minha inocência


Isso vai doer em mim tanto quanto em você, mas alguém precisa escrever isso: o U2 não tem mais nada a dizer. Quando isso acontece, o artista começa a apelar para não ter que descer do palco.

Antes, porém, vamos dar algum crédito à banda: eles já estão por aí há mais de 30 anos e não dão sinais de esgotamento criativo (entenda: apenas no que diz respeito a não cair na tentação de viver de glórias passadas). Dá pra contar nos dedos de uma mão as coletâneas oficiais do U2: os dois Best Of (1980-1990 e 1990-2000) e 18 Singles. Pode-se contar como certo um novo lançamento do grupo a cada quatro anos, em média. Há tempos não se ouve falar de qualquer escândalo envolvendo o nome do grupo e a amizade entre eles parece mais sólida a cada dia, sem disputas de ego. Um feito e tanto, num meio em que grandes bandas acabam pelas mais tolas razões.

Suas mastodônticas turnês sempre figuram entre as mais lucrativas e trazem inovações tecnológicas que deixam os queixos dos fãs em cacos no chão e a concorrência comendo poeira. Há sempre uma grande expectativa sobre como será o palco de cada nova turnê do U2, como tem sido desde a histórica Zoo TV, há mais de 20 anos.

Afagos feitos, vamos à porrada.

O U2 não tem mais relevância musical. Tanto não tem, que precisou apelar a uma torpe estratégia de marketing para o lançamento de seu novo álbum, Songs of Innocence: o disco apareceu em todos (TODOS!) os dispositivos Apple (iPods, iPads, iPhones) mundo afora, no dia 9 de setembro. Não importava se você era fã ou não, se queria ou não o álbum: ele foi enfiado na sua biblioteca e você tinha que acostumar-se com ele ali, porque ele não podia ser excluído pelas vias normais. Diante da chiadeira generalizada que tomou conta da internet, com anônimos e famosos esculhambando o grupo pela invasão, a Apple teve que montar uma página especialmente para quem quisesse apagar o "presente".

E não é que Songs of Innocence seja um disco ruim - é ligeiramente superior ao seu predecessor, No Line on the Horizon (2009), por exemplo. O problema é que mesmo esse indicativo de razoável qualidade já não esconde o fato de que o U2 está fazendo hora extra. Para cada centelha pop genuína ("Every Breaking Wave"), existe uma canção mala para testar nossos nervos ("Sleep Like a Baby Tonight"). Para cada semi-blues com um pouco mais de fibra ("Cedarwood Road"), uma coisinha pseudo-épica e desimportante ("The Miracle of Joey Ramone").

A verdade é que a mesma artimanha que garantiu a longevidade do U2 vai, agora, apressar seu declínio: a opção pelo pop de alcance mundial. Com todo o dinheiro que já ganharam, se quisessem, Bono, Edge, Larry e Adam poderiam optar por trabalhos mais experimentais e menos ambiciosos, como Zooropa (1993). Poderiam investir na pegada mais blues que sempre rendeu bons frutos ("Bullet the Blue Sky", "Silver and Gold", "Breathe"). Caramba, poderiam simplesmente admitir que a idade chegou e não ficar correndo atrás de parecerem eternamente jovens, mas, não. O U2 quer estar sempre na crista da onda e não só trazer como SER a novidade - e, convenhamos, ser a novidade, com quase quatro décadas de história no lombo, é complicado pra qualquer um.

Daí que o disco de 2009 já não vendeu tanto e este novo deve vender menos ainda. Ninguém, desde que minimamente ligado ao que acontece no mundo da música hoje em dia, parece dar muita bola para o U2. Sua importância está encolhendo a olhos vistos, o que me traz a uma constatação difícil, que relutei em aceitar: o U2 não é realeza do rock. Não é, não é, não é! Ninguém vai negar que foram importantes e que têm um legado para o futuro, mas o Achtung Baby (1991) e outros poucos lampejos de personalidade não os colocam em pé de igualdade com Beatles, Stones ou Queen, por exemplo.

"Mas, Batman, você sempre foi tão fã dos caras e agora tá nessa?"

É, meu querido, pois é. O U2 teve muita importância na formação do meu gosto musical e foi, por um tempo, a principal referência de rock que eu tinha. Só que o tempo passou, eu fui conhecendo um pouco mais, não só de rock, mas, de música como um todo, e subindo meus padrões. Sendo bastante sincero, neste exato momento, o U2 está para o rock gringo como a Legião Urbana está para o rock brasileiro: uma banda que eu já cultuei em nível quase religioso, mas que, hoje, me dá certo "bode" quando ouço e alguma vergonha de admitir que já gostei tanto.

Não que o U2 deva se importar com minha opinião, claro. Hoje, eles são muito mais senhores de negócio do que exatamente uma banda de (vá lá...) rock and roll. Ninguém tão intimamente ligado a uma corporação voraz feito a Apple pode se dizer "do bem", como o U2 gosta de se sentir. A repercussão negativa do lançamento de Songs deve ensinar lições aos irlandeses - a principal delas, a mais óbvia, é que ter um novo álbum na coleção é uma decisão tomada de forma consciente pelo fã, não empurrada goela abaixo por artistas que querem ser amados a qualquer custo.

Eu esperava mais de vocês, rapazes.

10/08/2014

Guardiões da Galáxia


Quem vem curtindo filmes de super-heróis nos últimos 15 anos deve achar que é fácil fazer grana com eles; que os fãs vão lotar os cinemas para ver qualquer porcaria e babar por ela. Nada mais distante da verdade, porém. Os fracassos de Elektra, Demolidor, Lanterna Verde e Superman - O Retorno, entre outros, alertaram os estúdios para o fato de que efeitos visuais e lutas coreografadas só dão resultado quando existe uma boa história sendo bem contada - além, claro, de equipe técnica e elenco comprometidos com algo mais do que apenas a expectativa de ganhar uma montanha de dinheiro.

E não é que os bons e os ótimos filmes de super-heróis tenham sido feitos com genuína intenção de reinventar a roda, mas o fato é que pedaços preciosos de celulóide, como Batman: O Cavaleiro das Trevas, X-Men: Primeira Classe e Capitão América: O Soldado Invernal, agregam respeitabilidade dramática a um gênero que costuma ser entendido como a síntese do escapismo. Nada contra o caráter simplista de filmes divertidíssimos, como o Homem-Aranha de 2002, Homem de Ferro e Os Vingadores. Muito pelo contrário: é sabido e reconhecido que fazer humor em meio à ação, sem soar ridículo, não é para qualquer um.

É a esta categoria, de aventuras inteligentes, grandiosas e engraçadas, que os Marvel Studios acabam de acrescentar mais um grande acerto: Guardiões da Galáxia.

"Quem?", você talvez se pergunte, e não sem razão. Embora já sejam antigos dentro da mitologia cósmica do universo Marvel nos quadrinhos, os Guardiões nunca desfrutaram do sucesso dos X-Men ou do Homem-Aranha. Apenas a encarnação mais recente (não por acaso, a utilizada no filme) fez sucesso razoável, com vendagens beirando as 40.000 cópias (os grandes sucessos da Marvel Comics encostam ou ultrapassam facilmente a barreira dos 300.000 exemplares, pra você ter uma ideia).


O fato de você (como eu) não saber nada sobre os Guardiões, porém, não serve como desculpa para não ir ao cinema, tendo em vista que você estaria deixando de ver uma aventura empolgante, inteligente e muito engraçada. Algumas das nada inocentes piadas surpreendem pela sagacidade, como aquela que brota quando o Senhor das Estrelas (Chris Pratt) tenta fazer a letal Gamora (Zoe Saldaña) dançar ao som da mixtape que carrega consigo desde criança. Vale dizer que a trilha sonora do filme é capaz de botar um sorriso no rosto de qualquer um que curta o rock/pop das décadas de 60, 70 e 80 - e se parece aleatório que um filme espacial traga essas canções a reboque, isso tem uma explicação que qualquer um, humano ou não, pode compreender.

Convém lembrar que o pé-no-chão, a discussão dos problemas mais comuns a todas as pessoas, mesmo quando através de personagens impossíveis, como Groot (voz de Vin Diesel) e Rocket Raccoon (voz de Bradley Cooper), sempre foi uma das chaves do sucesso da Marvel. Abordar os dramas dos desajustados e deserdados (só para completar a lista, vingança pela família morta é o que move o quinto guardião, Drax, papel de Dave Bautista) é uma marca da editora desde seus primórdios. Machismo, bullying e racismo são chamados à tona - sem grande profundidade, claro, mas de maneira que o recado seja entendido.

Apesar disso, não vá ao cinema pensando que o filme é choroso ou panfletário. Nada disso! Diversão é a palavra-chave aqui e isso provavelmente explica como atores de calibre, como Glenn Close, John C. Reilly, Michael Rooker, Djimon Hounsou e Benicio del Toro, se entregam a papéis coadjuvantes sem medo de serem felizes. O humor também não eclipsa a ação explosiva e grandiosa, com ótimos efeitos especiais e empolgantes lutas corporais.


Ah, sim! A história: um item encontrado pelo Senhor das Estrelas num planeta abandonado é objeto de desejo da divindade cósmica Thanos (voz de Josh Brolin, em ponta não creditada) e de outros colecionadores. Uma série de acasos aproxima e transforma os cinco bandidos em uma improvável equipe, unida para frear as ameaças de Thanos e do seu terrível agente, Ronan, o Acusador (Lee Pace).

Simples, mas longe de simplório, Guardiões da Galáxia ainda parece pouco conectado aos demais filmes da Marvel, mas o garantido retorno de Thanos em Os Vingadores 2: A Era de Ultron, ano que vem, deve aproximar os bambambans deste desconhecido e simpático quinteto de maus elementos, que também já têm sua segunda aventura garantida para 2017. Pelo embalo, ainda levará algum tempo para que deixemos de ouvir um diagnóstico que já está quase virando senso comum: "a Marvel acertou de novo".

20/07/2014

Diário das terras sem Facebook


30 de Junho - 23:38. Muito sono. Não quero esperar até meia-noite. Perfil deletado, aplicativo apagado. Até breve, Facebook!

1º de Julho - Acordar e não ter na tela do celular as notificações de costume faz parecer que está faltando alguma coisa no dia. Hoje, li o quarto volume de Planetary e o último capítulo do último volume de Sandman - Edição Definitiva.

2 de Julho - Saco... Tudo que vejo de interessante na internet me faz pensar, "Vou postar isso no Facebook"... mas, aí, eu lembro que não tenho Facebook. =\ Acabei de ler Fábulas 17.

3 de Julho - Já pensei bem menos em Facebook, embora tenha sentido um comichão incontrolável de partilhar o vazamento do novo disco de Morrissey, ocorrido no fim da noite de ontem. Hoje foi dia de visitar a agência da Caixa e reafirmar a certeza de que lá é uma sucursal do inferno. Pelo menos, o que realmente importava deu certo: chaves do meu apartamento na mão! :)

4 de Julho - Assisti a Brasil 2 x 1 Colômbia na casa de um ex-aluno que faz mestrado em Física, em Edimburgo, capital da Escócia. Conosco, estava um amigo dele, também físico. De repente, eles engataram um papo sobre pontos quânticos, física de materiais e outros bichos cabeludos. Nunca pensei que me veria em meio a uma cena de The Big Bang Theory!

8 de Julho - Alemanha 7 x 1 Brasil, um dos espetáculos mais deprimentes já vistos no esporte, praticamente uma vitória por W.O.

10 de Julho - Dez dias fora do Facebook. A maior diferença percebida, até o momento, é que não estou usando Facebook. 

13 de Julho - Acordei cedo de minha primeira noite dormida no novo apartamento. O corpo ainda está cansado das muitas escadas subidas e descidas para realizar a mudança. No começo da noite, a Alemanha sagra-se campeã da Copa do Mundo, com todos os méritos e mais alguns. Estou segurando numa boa a vontade de usar Facebook, mas parece que tenho um problema mais sério: as limitações da internet na área do condomínio onde vim morar. Hoje, reli apropriadamente Os Supremos 2.

15 de Julho - Assembleia do condomínio. Um monte de gente metida a consciente e entendida, aproveitando 15 minutos de fama e disputando quem fala mais alto. Fome, sono, tédio e um incontrolável desejo de ter meu raio da morte à mão me consomem.

18 de Julho - De onde vem tanta água que cai sobre esta cidade? São Pedro, você é um exibido! Reli We3 e os quatro volumes de Corporação Batman. Grant Morrison ruleia demais.

19 de Julho - Ói, quer saber? Eu já não tenho internet em casa (Velox não atende o bairro e escolher um provedor local depende de outra p*rra de assembleia), os sinais de TV e de celular também são umas drogas... Além disso, minha vida não mudou para melhor ou pior sem o Facebook. Não houve epifania alguma. Não fiquei mais inteligente, mais ativo fisicamente e nenhuma nova amizade foi conquistada na base do "tirei o olho da tela e vi que tinha gente ao meu redor". Como já suspeitava, sou um usuário moderado de Facebook, longe de precisar de rehab. Além disso, sinto falta das dicas, das notícias, do humor e da interação com o pessoal que vive longe. Prometi passar todo o mês fora, mas, como diz o mestre Lulu Santos, "quem fica parado é poste". Mudei de ideia, simples assim, e, nas palavras do mesmo mestre, "eu tô voltando pra casa". Logo!

07/07/2014

Planetary

 

Talvez Planetary fosse a HQ da Vertigo/Wildstorm que eu mais queria ver republicada pela Panini. Não que ela seja superior a títulos como Y - O Último Homem, 100 Balas ou Ex Machina. Acontece que, destas três últimas, eu era um virgem total, sabendo apenas por alto do que tratavam. Tive um gostinho de Planetary, porém, em algumas edições da extinta Pixel Magazine, durante a malfadada tentativa da Pixel/Ediouro de publicar o material dos selos adultos da DC Comics, lá pelos idos de 2007.

A Pixel Magazine começou a publicar Planetary a partir da edição original nº 13. As edições 1 a 12 haviam sido publicadas anteriormente pela Devir, em dois encadernados já raros (porque as tiragens eram sempre pequenas, mesmo) e bem caros (porque a Devir não só metia a faca: também dava uma torcidinha). Ou seja, usando uma metáfora adequada a estes tempos de Copa do Mundo, eu cheguei ao jogo apenas no segundo tempo.

Após oito meses, eu interrompi minha coleção de Pixel Magazine, tendo lido até a edição 20 de Planetary. Por mais que Hellblazer (que a Pixel chamava de Constantine) fosse cativante e que a Promethea de Alan Moore fosse de alto nível, era pelo desenrolar de Planetary que eu mais aguardava, mês após mês. A criação de Warren Ellis e John Cassaday era responsável por uma sequência quase ininterrupta de "uaus" em minha mente, frequentemente acompanhados de uns "p*rra, que f*da!" que se viam verbalizados.


Planetary é o nome de uma organização ultrassecreta que existe desde os primórdios do século XX, dedicada a proteger conhecimento histórico e científico não-catalogado oficialmente. Sabe aquelas coisas que a gente sempre acreditou serem mera ficção, como alienígenas, meta-humanos, gigantes radioativos e viagens espaço-temporais? Pois bem, elas estavam acontecendo de verdade, bem debaixo do nosso nariz. É este o tesouro que a Planetary tenta proteger, ao passo em que seus obstinados inimigos, conhecidos apenas como Os Quatro, tentam, a todo custo, afastá-lo da humanidade.

Warren Ellis escreveu histórias que são apaixonadas declarações de amor aos livros, ao cinema e aos quadrinhos. As referências a personagens e fatos, sejam históricos ou ficcionais, são tantas que uma leitura desatenta pode resultar na perda de muita informação interessante. Planetary é melhor curtida se você tem uma boa cultura geral, mas iniciantes têm nela uma desculpa perfeita para se aventurar pelas mídias e obras aqui homenageadas. O coquetel de ciência, história, mitologia e cultura pop seduz e converte leitores à exploração do real e do fantástico.

Guiando a expedição, estão os carismáticos personagens centrais: O Baterista, um jovem com capacidade de "enxergar" e interagir com informação sobre virtualmente qualquer coisa; Jakita Wagner, uma espécie de Mulher-Maravilha moderna e esquentada; e Elijah Snow, líder do trio, um homem capaz de manipular baixas temperaturas e com graves lacunas na memória. Enquanto catalogam as proezas que fazem deste um mundo maravilhosamente estranho, as peças do quebra-cabeças da mente de Snow vão se encaixando - e ele parece ter contas a acertar com muita gente.

O eficiente texto de Ellis, porém, não teria o mesmo impacto sem o auxílio do lápis genial de John Cassaday. Captando com precisão e beleza a escala grandiosa e ação frenética das missões da Planetary, a arte de Cassaday nos deixa atônitos com suas criaturas e cenários de cair o queixo. Como o texto, a arte, também, "esconde" sutilezas ao alcance de leigos e iniciados. Ler esta série provoca intenso prazer visual e aquela sensação maravilhosa de que estamos aprendendo enquanto nos divertimos (muito!).


A Panini Comics deu início à publicação de Planetary em outubro de 2013 e concluiu-a apenas seis meses depois, em abril de 2014. Foram quatro belos e baratos encadernados com a saga completa, cuja última parte, até aqui inédita no Brasil, foi publicada espantosos 10 anos após a primeira, devido a suspensões temporárias (algumas bastante longas) por problemas pessoais e outros compromissos dos autores. A chance de ler, do começo ao fim, em tão pouco tempo, uma HQ tão rica em sentimentos e propósitos, uma ode ao conhecimento e à imaginação, é uma dádiva do porte de um passeio pela Sangria, com escalas em dimensões oníricas e cemitérios de deuses. Não permita que isso seja tirado de você.

16/06/2014

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido


Este texto está recheado de SPOILERS.

É por apenas um nariz que X-Men: Primeira Classe (2011) perde para X-Men 2 (2003) o páreo de melhor filme dos mutantes da Marvel. O filme de Matthew Vaughan alcançou um raríssimo equilíbrio entre qualidade de roteiro e ação eletrizante, com ótimo conflitos, intérpretes e pano de fundo histórico. Apesar disso, ele possuía sérias incoerências em relação aos quadrinhos e aos três filmes anteriores, dos quais não se assumia como reboot.

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido chegou ao cinema com a ambição de amarrar essas pontas soltas, trazendo de volta o diretor que deu respeitabilidade ao gênero de super-heróis com X-Men (2000) e X-Men 2, Bryan Singer, que se ausentou de X-Men: O Confronto Final (2006) para cuidar do malfadado Superman: O Retorno, voltando como autor e produtor no filme de 2011.

Coincidência ou não, a presença de Singer nos créditos ajuda a manter um bom nível e o filme cumpre suas pretensões de maneira bastante satisfatória, servindo com um adeus digno à primeira geração de atores (Patrick Stewart, Ian McKellen, Halle Berry) e ampliando as possibilidades para a nova geração (James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence), com o virtual zeramento de algumas "cagadas" cometidas ao longo dos filmes anteriores (pelo próprio Bryan Singer, inclusive).

Há erros que já estão além de qualquer conserto, como a criação da equipe sem seus membros clássicos (exceto pelo Fera) ou a inclusão de dois vilões notórios (Magneto e Mística) em suas fileiras. É de se lamentar, também, o desperdício de figuras como Banshee e Emma Frost, citados como mortos neste novo filme.

Certas mancadas, porém, ainda podem e devem ser corrigidas, a maior delas sendo o Ciclope banana dos dois primeiros filmes, em contraste com o líder nato das HQs. O desejo da produção é encontrar novos intérpretes para os papéis de Ciclope, Jean Grey, Tempestade (sinto cheiro de Lupita N'yongo) e Noturno. Existe ainda a possibilidade de que a morte de Azazel (mais uma citada no filme) não modifique a origem de Noturno como sendo seu filho com Mística, uma vez que Raven passou os dez anos entre o filme anterior e este sumida das vistas de Magneto e Xavier.

Ao filme em questão, sem mais delongas.

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido começa alguns anos no futuro, em que os Sentinelas do magnata bélico Bolivar Trask (o excelente Peter Dinklage) massacraram não só aos mutantes, mas à humanidade como um todo, com pouquíssimos focos de resistência. (Falha grave de roteiro #1: ninguém explica se alguém ainda controla os Sentinelas ou se ficaram autoconscientes). As versões sênior do Professor X (Patrick Stewart) e de Magneto (Ian McKellen) comandam a pequena força rebelde completada pelos já conhecidos Colossus (Daniel Cudmore), Homem de Gelo (Shawn Ashmore), Kitty Pryde (Ellen Page) e Wolverine (Hugh Jackman), além das caras novas Blink (Bingbing Fan), Bishop (Omar Sy), Mancha Solar (Adam Canto) e Apache (Booboo Stewart).

Na desolação do futuro, o recurso dos X-Men contra a inevitável derrota diante dos aprimorados e terríveis Sentinelas é que um deles tenha a mente transferida para seu corpo alguns dias no passado, para avisar aos amigos do iminente ataque. Estranhamente, não é Xavier o responsável pela manobra, como seria de se esperar, mas Kitty Pryde. (Falha grave de roteiro #2: o poder de Kitty é unicamente o de atravessar objetos sólidos e o filme não explica como ela consegue tal proeza sozinha ou se tem ajuda de Xavier). Na HQ em que o filme se inspira, quem manda Kitty pro seu corpo mais jovem é Rachel Summers, filha telepata de Scott e Jean.

Diante do fracasso e extinção certos, a última esperança dos mutantes é evitar a criação dos Sentinelas, enviando a mente de Wolverine ao passado para impedir o evento catalisador da ativação dos Sentinelas: o assassinato de Bolivar Trask por Mística (Jennifer Lawrence), no distante 1973. Para ter sucesso, Logan precisará reunir os jovens Xavier (James McAvoy) e Magneto (Michael Fassbender), num tempo em que as feridas deixadas pelos eventos de Primeira Classe ainda não cicatrizaram. Como Magneto se encontra preso muito abaixo no subsolo do Pentágono, eles precisarão de uma ajuda discreta e veloz, que atende pelo nome de Peter Maximoff (ei, por que não Pietro, hein?), vulgo Mercúrio (Evan Peters).

A invasão do Pentágono gera uma cena em aprimorado bullet-time, visualmente tão impactante quanto o ataque de Noturno à Casa Branca, em X-Men 2. A diferença é que o que aquela tinha de tensa, esta tem de cômica. Ao som de "Time in a Bottle", de Jim Croce, Mercúrio protagoniza gags dignas de um desenho do Pernalonga, evitando o banho de sangue para o qual Magneto já se armava. Uma sequência pra História do Cinema.

O cenário histórico, desta vez, é a derrota americana no Vietnam. Com o fracasso na guerra, não é difícil para Trask convencer o presidente Richard Nixon de que conter a proliferação de mutantes (mal-vistos desde o incidente em Cuba no filme anterior e a morte de John Kennedy, atribuída a Magneto) seria benéfico à sua imagem política. O Programa Sentinela é sancionado, mas, para variar, Magneto tem seus próprios - e terríveis - planos. Para quem achava que o Magneto dos filmes não se decidia entre vilão declarado ou anti-herói, qualquer dúvida desaparece aqui.

A recente onda de premiações a Jennifer Lawrence favorece o protagonismo de Mística. Além de ser o pivô da trama central, suas cenas de combate são sempre de cair o queixo (a quem devo parabenizar por tamanha elasticidade, à própria atriz ou sua dublê?). A única reclamação a fazer é quanto à sua maquiagem, cada vez menos detalhada, agora que Jennifer é um rosto a reconhecer. As escamas em sua pele foram drasticamente diminuídas em relação ao caprichadíssimo trabalho feito com Rebecca Romjin-Stamos, nos três primeiros filmes.

Sobre os novos mutantes apresentados, não há muito o que dizer, porque eles praticamente entram mudos e saem calados. Mesmo assim, é difícil não se empolgar com suas demonstrações de poder e com as perfeitas interações, principalmente as que envolvem Blink e seus portais. Chega a ser doloroso vê-los sofrer mortes as mortes mais violentas já vistas na franquia (o tom geral do filme é bem mais sombrio que nos anteriores).

Com o futuro devidamente consertado (coisa que nem chega a ser um spoiler), abre-se a possibilidade de que sejam corrigidas as mancadas que mencionei e mais algumas. De certo modo, por mais arbitrário que pareça simplesmente dizer "esqueçam tudo que foi feito até aqui", isso está em plena concordância com o que é visto nos quadrinhos, com certa regularidade. Os X-Men sempre foram os mais ativos protagonistas de sagas acaba-mundo-muda-tudo. Imagine só que bênção é ignorar a existência daquela bomba chamada X-Men Origens: Wolverine!

Mesmo sem o capricho dramático apresentado em Primeira Classe (com falas-clichês pipocando), este X-Men: Dias de um Futuro Esquecido se coloca entre os melhores da franquia e sua cena pós-crédito faz menção ao vilão da próxima aventura, nada menos que o primeiro mutante da história. X-Men: Apocalipse chega em 2016 e, pelo jeito, nem tão cedo a Fox abrirá mão dos direitos dos mutantes. Aos Marvel Studios, impedidos de fazer um filme mutante (teoricamente) como se deve, continuará sobrando apenas fazer beicinho. 

08/05/2014

Nação Zumbi (2014)


A Nação Zumbi é uma banda acostumada a vencer desafios gigantescos. 

Em 2000, eles mostraram que estavam prontos para seguir em frente sem seu vocalista (Chico Science, morto em 1997), sem perder a identidade ou a dignidade (alguém ousa dizer que "Quando a Maré Encher" não está à altura do legado de Chico?). O som da Nação estava ligeiramente modificado, mantendo o peso das guitarras e tambores, mas com um andamento mais contemplativo. O vocalista Jorge Du Peixe firmou-se como um substituto digno e o prestígio dos mangueboys no Brasil e no mundo só aumentava.

Na primeira década do século 21, os bons discos da Nação se acumulavam rapidamente, em total contraste com a mediocridade do mainstream do rock brasileiro, que se via refém da praga emocore. Depois de Fome de Tudo (2007), porém, a banda anunciou uma pausa indefinida. Os projetos paralelos (Maquinado, Los Sebosos Postizos) e discos de regravações (o Ao Vivo no Recife, de 2012, e o Mundo Livre S/A vs. Nação Zumbi, de 2013) ajudaram a diminuir a saudade dos fãs. O que todos mais queriam, porém, era um disco novo.

Nação Zumbi chega quebrando o prolongado silêncio, trazendo o duplo desafio de atualizar o som da banda, evitando que ela caia na autocaricatura, e de atrair um novo público, sem perder o respeito dos fãs de longa data.

Para nossa sorte, mais uma vez, a Nação Zumbi sai vitoriosa da contenda.

O single "Cicatriz" entrega o jogo: a nítida influência da música brega mostra que a Nação quer ampliar suas opções e sabe como fazer isso sem descaracterizar-se. A letra é de um romantismo aberto e direto, sem paralelos na história da banda até aqui (o que deve significar que Du Peixe andou sofrendo um bocado por amor). É uma canção pop das boas, coisa de quem talvez esteja cansado de tanto experimentalismo e papo-cabeça, querendo não se levar mais tão a sério (sabedoria que chega, com a idade, para todo grande artista).

Isso quer dizer que a Nação Zumbi perdeu seu peso e deixou de lado a crítica social? Claro que não, e "Bala Perdida" e "Pegando Fogo" estão ali pra quem se liga no discurso de protesto da banda. Não dá pra negar, porém, que é o amor que guia o repertório. Mesmo em faixas nas quais pesam tambores de maracatu e guitarras, o romantismo dos versos faz a cama onde se espraiam as ótimas intervenções do guitarrista Lúcio Maia. Canções absurdamente groovadas como "Defeito Perfeito" e "Foi de Amor" trazem de volta um pique que parecia perdido lá no começo da banda, há 20 anos, ainda com Chico Science à frente.

Além de "Cicatriz", duas outras faixas devem tomar de assalto os corações e levar fãs às lágrimas nos shows: "A Melhor Hora da Praia", em que Marisa Monte gentilmente retribui a passagem de Dengue, Lúcio e Pupilo por sua banda, em sua última turnê; e "Um Sonho", talvez a canção romântica brasileira mais bonita de 2014, em que chama atenção a versatilidade vocal de Du Peixe.

Seria uma indesculpável má-vontade, mas é possível que alguém não se dê por satisfeito com esta "nova" Nação Zumbi e prefira agarrar-se ao papo sci-fi e maconheiro de outros tempos, mas, por favor, entenda: os caras estão 20 anos mais velhos. Eu acharia bem pior se eles não mudassem, evoluíssem ou amadurecessem. Os mangueboys entendem que se existe uma coisa pior do que falta de assunto, é a falta de outros assuntos. Nação Zumbi merece ouvidos e corações abertos ao amor e à novidade.

05/04/2014

Paula Tesser - Valha


Um paradoxo permeia o mercado brasileiro de cantoras: ao mesmo tempo em que existe uma fartura de nomes e vozes, nota-se uma certa escassez de verdadeira novidade. Reina ainda por aqui um certo academicismo por parte das moças, uma insistência em bossa e samba que pode até seduzir, mas que revela um certo medo de ousar. Quando não é isso, é um cabecismo umbigocêntrico que deixa o ouvinte do lado de fora ou uma suavidade modorrenta que trata insônia melhor que ansiolíticos.

Não entendo como ainda tão poucas garotas se permitem soar modernas, espertas e pop. Da última vez que vi isso acontecer, me vi arrastado pelas orelhas com a força irresistível do trabalho de Tulipa Ruiz. Hoje, é o lindo Valha, da franco-cearense Paula Tesser, que realiza a mágica.

Lendo seu site de divulgação, causa-me simpatia imediata a informação de Paula ter usado Chico Science e o Mangue-Beat como base do seu doutorado em Sociologia. Ela não é exatamente uma novata, tendo gravado participações em coletâneas e discos de outros artistas desde 2001 e seu próprio disco ao vivo, Retrato do Vento, em 2004.

Valha tem produção e arranjos caprichadíssimos de Dustan Gallas, da Cidadão Instigado. Abre muito bem, com os jogos de palavras e o sotaque jazzy de "Cobra", seguindo com a ressentida (e ótima) "Bolero Negro". "Quase Pronto" e "Você Tem Medo de Gostar de Mim" fazem uso de um quarteto de cordas, mas, enquanto a primeira tem uma atmosfera de balada indie, a segunda faz lembrar as melhores coisas de Roberto Carlos nos anos 70.

Apesar da presença de um pequeno clássico brega ("Pode Me Torturar", da forrozeira Eliane), Valha aponta para um refinamento popular que faltou, por exemplo, ao último disco de Marisa Monte, principalmente no quesito letras. Enquanto Marisa simplificou as coisas a ponto de subestimar o ouvinte, Paula busca soluções poéticas menos óbvias sem soar pedante, e não é difícil imaginar que mesmo a francófona "Demons et Marveilles" poderia emplacar uma trilha de novela.

O encerramento, com "Tudo Blue", traz de volta um artigo raríssimo na produção musical brasileira de hoje: um solo de guitarra (e dos bons!). A letra derrama romantismo sobre lindas camadas de cordas e fecha um disco que dá vontade de manter no repeat por horas. Valha pode ser ouvido e comprado nesta página. Fico na torcida para que Paula Tesser siga lançando discos igualmente bonitos e que, caso deseje voltar à França, seja apenas por desejo de viajar - jamais por falta de reconhecimento em seu país.

23/03/2014

Exu - A Boca do Universo


É sintomático e extremamente oportuno que, no exato momento histórico em que parcelas mais exaltadas da população branca, cristã e direitista brasileira, acostumadas a ter o mundo aos seus pés, esbravejam contra a irrefreável roda da História, ao perceber que, gradualmente, o controle lhes escapa das mãos, uma peça chamada Exu - A Boca do Universo tenha seu imenso cartaz orgulhosamente desfraldado na frente do Teatro Castro Alves.

Nosso país parece estar sempre caminhando para trás, mas de uma coisa é possível orgulhar-se: sempre vai haver quem não fique quieto; quem não fique resignado ao papel de vítima; quem grite mais alto ainda ao ouvir um grito, ao invés de baixar a cabeça.


Daniel Arcades e Antônio Marcelo (foto: Andrea Magnoni)


Daí ser tão legal que, ao mesmo tempo em que forças obscuras (felizmente, menos representativas do que seus latidos e chiliques fazem supor) tentam padronizar o comportamento, a espiritualidade e até a cor da pele tidos como "normais", um espetáculo sobre uma divindade (e não entidade) africana, tão desconhecida quanto demonizada pelas forças supracitadas, inicie uma temporada gratuita no teatro mais renomado da capital mais negra do país, como que dizendo: "Venha! Venha conhecer Exu e, assim, quem sabe, você se conheça um pouco melhor!"

Este é a primeira peça do NATA (Núcleo Afrobrasileiro de Teatro de Alagoinhas) que presencio, fato que me deixa duplamente orgulhoso. Primeiro, por tratar-se de uma companhia teatral da cidade que é meu lar há quase 10 anos, encenando no principal teatro do Estado e colhendo elogios a cada novo espetáculo. Segundo, porque pude, finalmente, pagar uma antiga dívida com dois amigos que integram o grupo e há tempos me cobravam presença: Daniel Arcades (também autor de Exu) e Antônio Marcelo. A eles, juntam-se o também figurinista Thiago Romero, Fernando Santana e Fabíola Júlia.


Uma espectadora interage com Thiago Romero (foto: Andrea Magnoni)


Exu - A Boca do Universo começa solene e ritualística, enquanto o elenco adentra o vão livre do TCA, ladeado pelo público que se espalha da maneira mais informal possível (de pé ou sentados em esteiras e nas próprias estruturas do teatro, exceto pelo público idoso, que foi carinhosamente contemplado com uma espécie de "camarote", com cadeiras). Não tema, porém, estar assistindo a uma representação purista ou reverente em excesso (coisa que costuma redundar em chatice e espantar o público que, afinal, quer se divertir): não demora nada e o bom humor esperto e desbocado do texto (co-escrito por Daniel e pela diretora Fernanda Júlia) se revela, em interações com o público e afiadas observações sobre os autoproclamados inimigos das religiões africanas e a ignorância sobre Exu que ajudam a fomentar.

A trilha sonora é um show à parte. Além dos esperados cantos de domínio público, as canções escritas pelo diretor musical Jarbas Bittencourt (com ajuda de Daniel Arcades em algumas) passeiam por gêneros populares, com letras (algumas bem chulas) que desmistificam o Dono das Ruas para a gente que ainda o desconhece, enquanto o elenco se esmera em danças ora cômicas e atrevidas, ora de uma beleza plástica de encher os olhos (sensação ampliada pelo rústico e vistoso figurino criado por Thiago Romero).


Fabíola Júlia e Fernando Santana (foto: Andrea Magnoni)


E se é verdade que todo o elenco tem sua chance de brilhar e surpreender, fazendo a gente rir, refletir ou corar, tento não estragar nenhuma surpresa ao falar do belíssimo último ato de Fabíola Júlia, em que um fato frequentemente ignorado da história do orixá vem à tona, numa sequência simplesmente emocionante.

A opção pelo espaço aberto traz certo desconforto e algumas dificuldades (o vento, por exemplo, igualmente ajuda e atrapalha) e a sessão que assisti teve problemas de som que, felizmente, não comprometeram o ritmo, mas esses são detalhes pequenos demais para se reclamar, diante de um espetáculo tão bonito em forma, tão rico em conteúdo e tão nobre em intenções. Definitivamente, eu preciso ver mais do teatro do NATA.

16/02/2014

Batman: Xamã


Não há reboot que esconda o óbvio: até o momento, nada nos Novos 52 da DC Comics se equipara ao cânone sobre o qual está montada a mitologia de suas personagens, em especial o Batman e, particularmente, logo depois de Crise nas Infinitas Terras (1985). Foi nesse período que o então inspiradíssimo Frank Miller escreveu as duas histórias que norteariam praticamente tudo que foi feito com a personagem desde então: O Cavaleiro das Trevas e Batman: Ano Um.

A primeira, por passar-se no final da carreira do Batman, é meio que "imexível" (e o fiasco que foi a sequência escrita por Miller em 2001 apenas prova isso), mas foi a responsável por transformar o Batman em um sargentão neurótico e recluso, em boa parte da produção do fim dos anos 80 e começo dos anos 90. A segunda tornou-se a história de origem definitiva para a personagem e, após quase 30 anos, não dá sinais de que perderá a importância ou relevância (sobretudo, após ter sido utilizada como base para Batman Begins, de 2005, primeiro episódio da bilionária bat-franquia no cinema).

Muita gente escreveu histórias que acrescentavam dados à origem mostrada em Ano Um, mas poucos foram tão bem sucedidos e coerentes quanto Dennis O'Neil nesta Xamã, série em cinco partes que inaugurou o título Legends of the Dark Knight, em 1989. No Brasil, foi publicada pela primeira vez como minissérie semanal em cinco partes e com o título em inglês, Shaman, pela Editora Abril, em 1991.

Este encadernado da Panini Comics chega com bom preço (R$ 14,90), bom trabalho gráfico e editorial (com prefácio de Kevin Dooley) e, para mim, faz o resgate de uma obra que muito ajudou a fortalecer a paixão que tenho pelo Batman, mas que havia sido perdida em um desses meus lapsos de desapego, que me fazem doar ou vender coleções inteiras de HQs. Não me lembro da última vez que havia lido Xamã, mas já devia fazer uns 20 anos ou mais.

Na história escrita por O'Neil, desenhada com extrema competência por Ed Hannigan (também responsável pelas famosas capas) e colorizada por John Beatty, vemos um aprofundamento de parte do treinamento de Bruce Wayne, quando se preparava para atuar como Batman pela primeira vez. Enquanto exercita técnicas de rastreamento com o caçador de recompensas William Dogget, no Alasca, Bruce Wayne é emboscado pelo perigoso Tom Woodley e fica à beira da morte por congelamento. Resgatado por membros de uma tribo indígena, tem contato com um ritual de cura que conta a história de como o morcego criou asas para ajudar a um amigo doente (numa sequência inesquecível de iconografia indígena). Cético que é, Bruce não acredita que foi salvo por uma velha lenda, mas assassinatos ocorridos em Gotham o fazem ponderar se existe mais de sobrenatural do que ele gostaria de admitir.

Escritor de fase clássica do Batman, O'Neil capricha na faceta detetivesca da personagem, mas permite que ele tenha lapsos de incerteza (afinal, era o início da sua carreira) quanto às suas crenças e suas próprias capacidades de realizar a missão a que se propôs. Embora sem grandes pretensões neste aspecto, também funciona como denúncia da degradação cultural das tribos. O traço de Hannigan homenageia, em certos momentos, o de David Mazzucchelli - inclusive repetindo momentos icônicos de Ano Um, praticamente uma regra não escrita dessas retcons - mas tem personalidade e fluidez. A colorização econômica de John Beatty ajuda a manter o clima noir, herdado da obra de Miller.

Xamã passou à história, para mim, como o melhor "Um Conto de Batman" (nome da série sob a qual a Abril publicava as histórias de Legends of the Dark Knight), seguida de perto por Acossado (de Doug Moench) e, um pouco mais de longe, por Veneno (também de Dennis O'Neil), outras por cuja republicação torço. Era uma história que eu ansiava por reler, por suas muitas qualidades e pelo alto impacto que teve no meu hábito de ler HQs do Batman. Um retorno muito aguardado e muito bem-vindo.

15/02/2014

Gravidade


Gravidade já está chegando ao mercado de DVD e blu-ray, mas, para minha sorte, as 10 indicações ao Oscar que ele recebeu garantiram seu retorno ao cinema, há algumas semanas. À época do seu lançamento, eu havia tentado vê-lo duas vezes, mas, em ambas, fui traído pela programação anunciada na internet, diferente daquela que realmente havia em salas de Feira de Santana e Salvador.

Era absolutamente necessário ver este filme no cinema. Embora o 3D dele seja pouco eficiente (penso que foi pensado mais para IMAX do que para 3D), o impacto visual do espantoso trabalho de direção de Alfonso Cuarón (Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban) faz da tela grande o habitat natural de Gravidade. Só assim é possível ter a melhor noção possível da escala de nossa pequenez diante da vastidão do infinito e do isolamento por que passa a dra. Ryan Stone (personagem de Sandra Bullock, em atuação merecidamente indicada ao Oscar).

É incrível o que um diretor competente é capaz de fazer com um fiapo de história, basicamente, resumível em "astronauta fica à deriva na órbita terrestre e precisa enfrentar seus medos para poder voltar pra casa", e um elenco de apenas dois atores. No começo do filme, vemos a ansiosa dra. Stone, acompanhada do sempre otimista comandante Matt Kowalski (George Clooney) e de um terceiro cosmonauta (voz de Phaldut Sharma), em reparos ao telescópio Hubble. O descuidado abatimento de um velho satélite chinês, porém, inicia uma sequência de destruição de outros equipamentos espaciais, colocando os três astronautas na rota de uma "onda" de destroços, viajando a dezenas de milhares de quilômetros por hora. Alguns segundos de atraso na desacoplagem do ônibus espacial e o caos se instala.


Mesmo que os trailers já dessem conta de algumas das melhores cenas, há outras tão ou mais espetaculares que aquelas. A tensão e a sensação de impotência, a cada desastre anunciado em gravidade zero, chegam a ser angustiantes. Cuarón nos brinda com planos-sequências de tirar o fôlego, enquanto a voz de Sandra Bullock canaliza nossas próprias reações ao perigo. Em meio às consecutivas ameaças de morte, a dra. Stone ainda achará tempo para aprender algumas importantes lições sobre si mesma.

Exceto pelas categorias técnicas, é exagero contar com vitórias importantes de Gravidade no Oscar, em 2 de março. Alfonso Cuarón é o mais provável premiado e não é para menos: o que ele realiza aqui é um feito cinematográfico digno de nota. Se você não assistiu ao filme no cinema, eu só posso lamentar e recomendar que o veja em blu-ray, na maior e melhor TV que tiver por perto. Gravidade é um desses casos em que um produto de Arte se transforma em uma autêntica experiência sensorial. É preciso dar a filmes assim a oportunidade de nos afetar e de nos deixar com sucessivos "uau!" na boca e na mente.

27/01/2014

Teste dos 20 Anos - Especial 1994


1994 foi realmente um ano marcante: fomos tetracampeões mundiais de futebol, mas perdemos Ayrton Senna; alcançamos a estabilidade econômica; Kurt Cobain suicidou-se; Steven Spielberg ganhou seu primeiro Oscar como diretor. Na música feita lá fora, foi o ano do histórico MTV Unplugged do Nirvana; do então subestimado Grace, de Jeff Buckley; da estreia do Oasis, em Definitely Maybe. Não à toa, o período foi escolhido recentemente como o mais relevante para a música nos últimos tempos.

Aqui no Brasil, também, 1994 foi um ano de efervescência musical. Pela primeira vez, viu-se nascer uma geração de bandas capaz de suceder àquela formada 10 anos antes, no fim da ditadura militar, em número suficiente para estabelecer uma cena sólida, prolífica e relevante. Além disso, gente surgida tempos antes, também, soltava trabalhos bastante inspirados.

A tarefa de lembrar discos importantes de 1994 ficou, então, árdua demais para este pobre blogueiro. Pelo menos dois grandes lançamentos daquele ano (as estreias de Planet Hemp e O Rappa) passaram por baixo do meu radar e, portanto, não tenho opinião formada sobre eles. Convoquei, então, o luxuoso auxílio de duas figuraças do recôncavo baiano, dois grandes amigos: Léo Araújo (homem de história, de boas causas, de boa música e de ouvido absoluto) e Fábio Fernandes (parceirão de brejas e combos de riso; futuramente, um dos grandes artistas gráficos deste país, com a bênção de Jah).

Divirta-se e não deixe de comentar!


Chico Science & Nação Zumbi - Da Lama ao Caos


Foi amor à primeira vista?
"Monólogo ao Pé do Ouvido" já dava a deixa: feito um neo-profeta do caos, Chico Science chegava metendo os dois pés na porta do conformismo. No ano anterior, Recife havia sido eleita a quarta pior cidade do mundo para se viver e o rock aliou-se ao maracatu para a criação de uma sonoridade ímpar, o peso de um contrapondo-se e complementando ao outro, fazendo a cama onde Chico e a Nação deitavam a crítica social mais contundente daqueles tempos ("A Cidade", "Banditismo por Uma Questão de Classe"), temperada com bom humor ("A Praieira") e até romantismo ("Risoflora"). Chico Science & Nação Zumbi eram, sem dúvida, a novidade mais extraordinária da música brasileira em muito, muito tempo.

Ainda rola gostoso?
Nada mudou tanto assim e as sagazes letras de Chico Science continuam encontrando eco na nossa realidade atual. A qualidade de vida em Recife e em outras metrópoles brasileiras continua em queda livre e, hoje, temos um terço das 50 cidades mais violentas do mundo. A Nação Zumbi resistiu à morte de Chico em 1997 e virou um dínamo musical reconhecido mundo afora, mas a força do discurso e do som da sua estreia permanecem intactos. Um grande disco até hoje, que diverte e leva à reflexão.


Cidade Negra - Sobre Todas as Forças


Foi amor à primeira vista?
Não sei se foi a declarada intenção da banda ou uma genial estratégia de produtor, mas o fato é que trocar Ras Bernardo por Toni Garrido deu ao Cidade Negra uma cara mais pop e o som refletiu a mudança. Apesar de a crítica social (ora ingênua, ora afiada) estar presente, o aspecto roots foi praticamente sepultado pelo esmero pop das composições e pela produção cristalina, com concessões à disco music ("A Sombra da Maldade") e ao lovers rock ("Onde Você Mora?"). Um disco que rolava redondinho do começo ao fim e animou muitas noites de minha recém-conquistada maioridade.

Ainda rola gostoso?
Sim, este disco ainda é capaz de divertir, apesar de a debilidade das letras já não passar despercebida. Não é exagero dizer que, a seu modo, tornou-se um clássico. As canções são muito boas, mas, quando eu ouço Toni Garrido hoje, sempre me lembro do cara que protagonizou um dos piores filmes deste e de outros universos: Orfeu (1999). Fato é que o Cidade Negra sumiu de vez da minha playlist e quase nada de seu repertório, após este disco, me animou a resgatá-los.


Gilberto Gil - MTV Unplugged


Foi amor à primeira vista?
O MTV Unplugged de Gilberto Gil não foi o primeiro programa brasileiro da série (estreia que coube a João Bosco), mas foi o primeiro a ganhar registro em disco. Para mim, foi, também, a primeira chance de escutar músicas sempre comentadas e nunca escutadas, como "Refazenda" e "Expresso 2222", além de reencontrar velhas conhecidas em nova roupagem. Com quase três décadas de carreira, Gil reservou o melhor de si para este disco: é preciso ter um bloco de granito no lugar do coração para não se emocionar com as versões celestiais de coisas como "Tenho Sede", "Esotérico" e "Drão".

Ainda rola gostoso?
Qualquer lista decente de melhores acústicos de todos os tempos tem que incluir este. O nível é alto demais e tudo nele que me empolgava e emocionava há 20 anos, continua fazendo-o hoje. Este disco é prova cabal do inigualável esmero lírico, melódico e rítmico de Gilberto Gil. Como os melhores vinhos, ele vai apenas ficando melhor, conforme passam os anos.


Jorge Cabeleira e O Dia em que Seremos Todos Inúteis



Foi amor à primeira vista?
A primeira vez que vi Jorge Cabeleira foi no velho Programa Livre, de Serginho Groissman. Liguei a TV no exato instante em que eles começavam a tocar sua furiosa versão de "Carolina", de Luiz Gonzaga. "Que negócio bom é esse?", pensei. O restante do disco não negava fogo: canções incendiárias como "Jabatá e o Diabo", "Silepse" e "O Dia em que Conceição Subiu a Serra" misturam de forma impecável rock e baião. O ponto alto, porém, era uma versão arrasadora de "Os Segredos de Sumé", de Zé Ramalho, com sua participação.

Ainda rola gostoso?
Sim, ainda soa muito bem. A produção de Frejat colocou guitarras em primeiro plano e este disco está cheio de riffs muito bons. As letras recheadas da realidade e do imaginário nordestinos ainda funcionam. Depois do segundo e psicodélico disco, "Alugam-se Asas Para o Carnaval", a banda passou 15 anos inativa. Voltaram em 2013 e lançaram um DVD ao vivo, comemorando as duas décadas de seu primeiro lançamento. Grandes pernambucanos!


Little Quail & The Mad Birds - Lírou Quêiol en de Méd Bârds


Foi amor à primeira vista?
A geração BRock se levava cada vez mais a sério, aos poucos transformando-se em tudo aquilo que combatiam na geração anterior. Nada mais necessariamente demolidor, então, do que um disquinho curto, aceleradíssimo e com letras totalmente descerebradas, que provavelmente provocariam uma careta de desprezo nos fãs mais roxos de Renato Russo. Perfeito! Era ISSO que eu queria! Dei muitas risadas e fiz farras homéricas com este disco estúpido e maravilhoso.

Ainda rola gostoso?
Várias canções deste disco viravam duradouros memes entre meus amigos, num tempo em que sequer existiam memes! Frases como "Oh Carla, Carla!" e "O olho doeeeeeu!" eram recursos a que apelávamos constantemente (e que deixavam as pessoas ao redor boiando). Obviamente, hoje em dia, nem tudo tem mais a mesma graça, mas ainda sinto uma certa ponta de inveja, por não ter sido eu a escrever "O Sol Eu Não Sei".


Marisa Monte - Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão


Foi amor à primeira vista?
Marisa Monte era aquele ser diáfano que surgiu como "cantora eclética" (uma praga da época) debaixo do pistolão de Nelson Mota, num irregular disco de intérprete, em 1989. As parcerias iniciadas no segundo disco, MM (1991), com Nando Reis, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, deram belos frutos neste terceiro esforço. Um disco caprichadíssimo, em que Marisa passeia confortavelmente por samba, baião e rock, dando liga a uma massa sonora que, talvez, não alcançasse tamanho sucesso na voz de outra cantora. Rico, incomum e prazeroso, era o álbum certo, na hora certa, na voz certa.

Ainda rola gostoso?
Este disco tem participação de Gilberto Gil e Laurie Anderson, além de obras de Lou Reed, Jorge Ben, Paulinho da Viola e algumas das melhores coisas já escritas por Brown, Nando e Arnaldo. É sério que você ainda precisa perguntar se ele funciona? Ele é praticamente um medicamento para os ouvidos e a alma. Deveria ser obrigatório na casa de todo brasileiro.


Raimundos


Foi amor à primeira vista?
Um disco todo montado em cima de dois tabus: sexo e maconha. Pretensões líricas, sutileza e bom senso devidamente mandados à puta-que-pariu, a estreia dos Raimundos era uma pequena obra-prima de inconsequência e humor chulo, especialmente engraçado nas intervenções do sanfoneiro Zenilton. O peso do hardcore era temperado com toques de sonoridade nordestina (embora a banda fosse brasiliense) e, naquele tempo, isso agregava interesse.

Ainda rola gostoso?
Com ideias bem mais liberais sobre os assuntos centrais do que então, o discurso dos Raimundos já não me incomoda em sua franqueza, embora eu ache que o machismo que exala de suas letras não resistiria aos patrulheiros do politicamente correto no Facebook, se fosse lançado hoje. O som resiste bem e ainda diverte, porque o rock, afinal, sempre foi bastante generoso, neste aspecto.


Renato Russo - The Stonewall Celebration Concert


Foi amor à primeira vista?
Renato Russo escancarou a militância gay e gravou um disco quase panfletário, com diversas de suas canções favoritas, em arranjos econômicos, essencialmente de teclados e violão. Com delicadeza ímpar, revisitou Eagles, Billy Joel, Madonna, Bob Dylan e standards de jazz norte-americanos, colocando o coração na garganta. Não apenas por conta da óbvia força do repertório, mas, também, pela interpretação de Renato, um disco tocante, perfeito para embalar aquele recolhimento que precede o sono.

Ainda rola gostoso?
Há tempos Renato Russo deixou de ser uma unanimidade para mim. Ouvir seus discos hoje é, para mim, um exercício de muitos altos e baixos. Quando Renato era chato, putz, como ele era CHATO! Por outro lado, quando ele acertava, era difícil não se render. Algumas destas faixas ainda me encantam muito seriamente, principalmente "Send In The Clowns", "Cherish", "If Tomorrow Never Comes" e "If I Loved You".


Skank - Calango


Foi amor à primeira vista?
O Skank passou rapidamente de curiosa novidade vinda de Minas Gerais a prioridade na Sony Music, que providenciou produção de primeira linha. Obviamente, não adiantaria nada se o grupo não tivesse cunhado uma porção de joias pop de autoria própria e uma versão matadora de "É Proibido Fumar", de Roberto Carlos. Um sacolão de hits que tocou até a exaustão, associando o Skank ao chacundum do dancehall e raggamuffin. O sucesso era tanto que todo mundo cantava, feliz da vida, uma tolice sem sentido algum como "Jackie Tequila".

Ainda rola gostoso?
Não mais. Não tão bem, pelo menos. O dancehall é uma coisa morta, ponto final. O Skank percebeu isso e, hoje, é praticamente outra banda. Sendo tão representativo da produção com toques eletrônicos da época, Calango envelheceu, mas ainda é possível curtir o romantismo de "O Beijo e a Reza" ou o humor da briga de compadres em "A Cerca".


Timbalada - Cada Cabeça É um Mundo


Foi amor à primeira vista?
O primeiro disco da Timbalada havia legado "Beija-Flor" e "Toque de Timbaleiro" ao repertório de todo mundo que gostava de música baiana. Este segundo disco contou com uma produção mais caprichada e tinha composições melhores. O começo era arrasador: "Toneladas de Desejo", "Se Você Se For", "Namoro a Dois". Ouvido no meu Discman, o CD primava pelo som cristalino, as saraivadas percussivas e os metais arrepiando todos os meus pelos. A segunda metade do disco é irregular, mas tem "Sambaê" - e aí, quem resistia?

Ainda rola gostoso?
Hoje em dia, as vozes de Ninha e Patrícia me incomodam muito. Mesmo Xexéu, de quem sempre gostei mais, me parece hoje bastante limitado. Eu sempre detestei essa mania de artista baiano conversar "com o público" em estúdio e a Timbalada abusa dessa interatividade. As boas canções soam um pouco menos boas e as ruins (como a pretensiosa "Prosoema Pra Ocê Ará") continuam ruins. Cada cabeça é um mundo e cada coisa em seu tempo. 


BÔNUS:


O Rappa (por Fábio Fernandes)


Foi amor à primeira vista?
Apesar da ampla concorrência, O Rappa soube pegar seu espaço no cenário nacional. Aquela foi, na minha opinião, uma das melhores épocas da música de qualidade, com grandes bandas surgindo: Nação Zumbi, Planet Hemp, Remanescentes do Paraguaçu, Raimundos, dentre outros. Já estava me cansando de Legião Urbana e semelhantes. Aí, veio O Rappa. Faixas como "Todo Camburão Tem um Pouco de Navio Negreiro", "Não Vão Me Matar" e "Catequeses do Medo", me tomaram de assalto logo de primeira. Jovem, cheio de sonhos e descobrindo que nem tudo são flores, fiquei hipnotizado com a pegada de raggamuffin', reggae, hip-hop e rock que O Rappa me apresentou. Com Yuka à frente de quase todas as composições extremamente politizadas, O Rappa se tornou uma das bandas principais do novo despertar musical brasileiro.

Ainda rola gostoso?
O Rappa sempre rolará gostoso. Quando Yuka deixou o grupo devido a seus problemas pós-atentado, sua saída conturbada deixou uma forte preocupação nos fãs sobre como seguiriam as composições do grupo, já que a maioria destas eram total ou parcialmente suas. Entretanto, a banda se mostrou, como sempre, um camaleão musical e conseguiu emplacar ótimos álbuns em sequência. Não deixando de apegar-se as questão sociais brasileiras, O Rappa amadurece a cada disco com sua, até hoje, não classificada sonoridade. Sua estreia tem, portanto, grande valor por ter dado as bases de tudo que viria depois.


Planet Hemp - Usuário (por Léo Araújo)


Foi amor à primeira vista?
Escrevo estas linhas segundo a impressão que tive do Usuário aos meus 11 anos de idade. Digo isto porque, naquela época, eu ainda não tinha muito dessa noção musical, essa percepção de arranjos que arrepia não só o corpo, mas a alma. Com essa nostalgia em foco, "Não compre, plante", a primeira faixa, já dava ideia do que estava por vir – e que se confirmava nas canções que seguiam, como "Porcos Fardados, "Legalize Já!", "Desdasseis", etc. Com um grave não tão acentuado, o contrabaixista Formigão dava as primeiras notas de uma canção que carregava em si muito 'enganjamento', tanto quanto à problematização do uso da erva – recorrente em toda a carreira do Planet – como também sobre os problemas sociais pelos quais a sociedade brasileira vivia e vive. Funk rasgado e misturado com hardcore sempre foram os ingredientes dos caras da marijuana. Os riffs cortantes de Rafael, com efeitos que lembravam thrash metal; a levada suingada de Bacalhau; as sempre bem colocadas frases de B Negão e Gustavo Black Alien... Enfim, são inúmeros os elementos que compõem a obra músico-social do Planet, que fez e ainda faz parte da realidade de muitos amantes da música raprockandrollpsicodeliahardcoragga

Ainda rola gostoso?
N’alguns momentos, sim, principalmente quando este que vos escreve tem vontade de sentir mais uma vez aquela pegada crua, de garagem mesmo, adentrando em cada canto do corpo. É um álbum que serve como baliza musical, conceitual e cultural. Divisor de águas no rock nacional, uma vez que a forma como foi feito difere em muito das bandas nacionais que conhecemos. Sintoniza aí, relaxa e passa, por favor!